Capítulo 114 — Vou finalizar.
A criatura deu o primeiro passo.
Lou-reen e Halikah ergueram as espadas ao mesmo tempo.
Os pés rasparam a neve rala. A criatura avançou numa linha reta, rápido demais para um corpo que acabara de ser atravessado. O braço subiu no meio do avanço, mirando a garganta da garota.
Halikah firmou a guarda.
Lou-reen chegou antes.
A espada da general bateu de lado no braço erguido da criatura e arrancou o golpe da trajetória. O impacto desviou a mão que vinha para a garganta da garota e jogou o corpo deformado meio passo para fora da linha.
Halikah entrou no espaço aberto.
A lâmina dela cortou a lateral da criatura, abrindo carne logo abaixo das costelas. O golpe não afundou como os de Lou-reen, mas entrou. Sangue escuro riscou a neve.
A criatura virou o rosto na hora.
Por baixo do cabelo loiro sujo, a boca abriu num som rouco. O corpo girou para Halikah com velocidade errada, esquecendo a general por um instante.
Ela ergueu a espada com as duas mãos.
O ataque veio pesado.
A criatura bateu contra o aço e empurrou a garota para trás. As botas rasparam no chão gelado, a postura afundou, o joelho quase tocou a neve, mas a guarda segurou. O metal gemeu entre as mãos dela.
Lou-reen já estava do outro lado.
A general entrou pela lateral aberta e cortou as costas da criatura de cima a baixo. A lâmina rasgou pele, músculo e empurrou o corpo para a frente, arrancando outro som quebrado da garganta deformada.
A criatura girou para Lou-reen.
Halikah entrou antes que o movimento fechasse.
A ponta da espada riscou o braço deformado, perto do cotovelo. O corte abriu pouco, mas bastou para quebrar o giro. A criatura travou meio passo, voltou o rosto para ela e recebeu a lâmina de Lou-reen na lateral do ombro.
O impacto jogou o corpo para o outro lado.
A criatura não caiu. Os pés rasparam a neve, a base corrigiu, e ela veio de novo.
Dessa vez, contra a general.
Lou-reen aparou o primeiro golpe sem recuar, desviou o segundo para baixo e pisou para dentro, tomando espaço. A criatura tentou fechar o braço no pescoço dela.
Halikah acertou a guarda da espada contra as costelas da criatura.
O corpo deformado perdeu a linha por um instante, e Lou-reen usou esse instante. A espada da general subiu por baixo e abriu um corte diagonal no peito, do flanco até a clavícula.
A criatura respondeu com um golpe de cotovelo.
Lou-reen já tinha saído do alcance.
Halikah entrou de novo, menor, mais rápida no espaço que sobrava. A lâmina dela cortou a coxa da criatura, e a garota recuou antes do contra-ataque.
A criatura virou para ela com um som preso na garganta.
Lou-reen cortou do outro lado.
O ritmo se encaixou sem palavra. A criatura procurava uma, a outra entrava. Quando o corpo deformado caçava Halikah, a espada da general chegava pesada. Quando tentava esmagar Lou-reen, Halikah aparecia na lateral, com golpe menor, guarda firme ou lâmina raspando onde havia abertura.
Lou-reen ocupava a linha entre a criatura e a casa.
Halikah ficava na lateral, perto o bastante para entrar, longe o bastante para não virar alvo fácil.
A criatura avançou de repente, forçando para cima da garota.
Halikah cruzou a espada diante do corpo.
A pancada bateu na espada e atravessou os braços dela. As mãos tremeram no cabo, mas os pés cederam meio passo em vez de travar. Ela girou a base, deixou o peso passar por cima da guarda e empurrou com o ombro junto da lâmina.
A criatura escorregou na neve.
O corpo saiu da linha da porta, raspou a lateral da cerca baixa e abriu distância da entrada da casa.
Lou-reen acompanhou o deslocamento com os olhos.
— Continua na minha esquerda.
Halikah já estava se movendo. Entrou no lugar indicado, espada nas duas mãos, respiração presa no frio e olhar fixo na criatura.
Lou-reen avançou meio passo à frente dela.
A criatura abriu os braços.
Os cortes menores começaram a sumir primeiro.
O risco na coxa fechou num tremor grosso por baixo da pele. A marca perto do cotovelo se puxou para dentro e virou só uma linha escura. O rasgo no ombro demorou mais, mas as bordas da carne já se mexiam, apertando músculo, engolindo sangue, grudando uma na outra.
O corte maior nas costas ainda vazava.
Mesmo assim, o sangue diminuiu.
A criatura baixou o queixo e o próximo passo veio mais forte.
A neve afundou sob o pé dela. O corpo avançou com outra pressão, ombro fechado, braço vindo de cima para baixo. Halikah ergueu a espada para aparar, mas o choque jogou a guarda dela contra o próprio peito e a fez recuar.
Lou-reen entrou no intervalo e cortou o antebraço da criatura.
A criatura continuou.
O outro braço veio em sequência, direto para Halikah, e a garota precisou jogar o corpo para trás para não receber o golpe no rosto. A mão deformada passou rente ao nariz dela e bateu na madeira da cerca, arrancando uma tábua.
Halikah sentiu o peso antes de pensar em qualquer coisa.
A criatura estava batendo mais forte.
Lou-reen girou a espada uma vez.
A chama subiu pelo fio, branca no centro, alaranjada nas bordas. A luz espalhou reflexo na neve, na pedra da rua e no rosto deformado da criatura. O cabelo loiro sujo brilhou por um instante antes de cair de novo sobre os olhos.
— Vou finalizar.
Halikah ajustou a guarda. Os dedos apertaram o cabo.
Ela saiu meio passo para a esquerda, mantendo a criatura entre ela e a linha da general, espada pronta para desviar o próximo avanço e abrir o ângulo de Lou-reen.
A criatura avançou de novo.
Halikah tirou o corpo da linha e bateu a espada contra o braço deformado só o bastante para desviar a mão que vinha no peito dela.
A abertura apareceu.
Lou-reen entrou no ponto morto da criatura.
A espada em chamas já vinha na altura do pescoço, firme, limpa, sem sobra de movimento. O corte ia atravessar de um lado ao outro.
A criatura girou no mesmo instante e o cabelo loiro sujo saiu do rosto.
A luz da casa bateu nos traços deformados. A chama da espada completou o resto.
Um olho verde.
Um olho castanho escuro.
O corpo de Halikah parou.
— General, para!
Lou-reen já estava no golpe.
A lâmina seguia para o pescoço.
— É a Reinna!
O corte mudou no último instante.
A espada saiu da linha da cabeça e desceu num arco violento. A lâmina pegou atrás do joelho da criatura, rompeu carne, tendão e base.
A criatura caiu torta.
O corpo bateu na pedra coberta de neve e arranhou o chão com as mãos, tentando se levantar de novo. A perna cortada tremeu, já puxando sangue para dentro, já tentando fechar.
Lou-reen pisou firme.
A mão livre desceu para a terra congelada do jardim.
— Manipulação de raízes: contenção.
A neve rachou.
A terra dura estourou em placas junto da cerca baixa. Raízes finas e escuras saíram do jardim, trazendo barro congelado, lascas de madeira seca e pedras pequenas presas entre os nós.
A primeira laçou o tornozelo da criatura.
A segunda prendeu a cintura.
Outras duas subiram pelos braços, apertando cotovelos e pulsos contra o chão. A criatura deu um tranco e uma raiz partiu. Lou-reen fechou mais a mão contra o solo.
Mais raízes rasgaram a borda da cerca, quebraram madeira no caminho e se fecharam por cima do peito da criatura. O corpo deformado arqueou, forçando contra tudo ao mesmo tempo. As travas rangeram.
A criatura ainda tentava ir para Halikah.
Mesmo presa, arrastava os dedos pela pedra, cabeça erguida, boca aberta naquele som quebrado.
Lou-reen manteve a mão baixa, essência correndo pelo braço até o chão. A espada continuava acesa na outra mão, pronta.
As raízes tremiam.
Halikah baixou a espada.
Os joelhos bateram na neve.
Ela ficou olhando para o rosto deformado entre as raízes. O cabelo loiro caiu de lado outra vez, deixando os olhos diferentes à mostra.
Lou-reen ficou entre as duas, espada erguida, corpo fechando a passagem.
Halikah não conseguiu desviar do rosto preso diante dela.
— É a Reinna.

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