Índice de Capítulo

    A criatura deu o primeiro passo.

    Lou-reen e Halikah ergueram as espadas ao mesmo tempo.

    Os pés rasparam a neve rala. A criatura avançou numa linha reta, rápido demais para um corpo que acabara de ser atravessado. O braço subiu no meio do avanço, mirando a garganta da garota.

    Halikah firmou a guarda.

    Lou-reen chegou antes.

    A espada da general bateu de lado no braço erguido da criatura e arrancou o golpe da trajetória. O impacto desviou a mão que vinha para a garganta da garota e jogou o corpo deformado meio passo para fora da linha.

    Halikah entrou no espaço aberto.

    A lâmina dela cortou a lateral da criatura, abrindo carne logo abaixo das costelas. O golpe não afundou como os de Lou-reen, mas entrou. Sangue escuro riscou a neve.

    A criatura virou o rosto na hora.

    Por baixo do cabelo loiro sujo, a boca abriu num som rouco. O corpo girou para Halikah com velocidade errada, esquecendo a general por um instante.

    Ela ergueu a espada com as duas mãos.

    O ataque veio pesado.

    A criatura bateu contra o aço e empurrou a garota para trás. As botas rasparam no chão gelado, a postura afundou, o joelho quase tocou a neve, mas a guarda segurou. O metal gemeu entre as mãos dela.

    Lou-reen já estava do outro lado.

    A general entrou pela lateral aberta e cortou as costas da criatura de cima a baixo. A lâmina rasgou pele, músculo e empurrou o corpo para a frente, arrancando outro som quebrado da garganta deformada.

    A criatura girou para Lou-reen.

    Halikah entrou antes que o movimento fechasse.

    A ponta da espada riscou o braço deformado, perto do cotovelo. O corte abriu pouco, mas bastou para quebrar o giro. A criatura travou meio passo, voltou o rosto para ela e recebeu a lâmina de Lou-reen na lateral do ombro.

    O impacto jogou o corpo para o outro lado.

    A criatura não caiu. Os pés rasparam a neve, a base corrigiu, e ela veio de novo.

    Dessa vez, contra a general.

    Lou-reen aparou o primeiro golpe sem recuar, desviou o segundo para baixo e pisou para dentro, tomando espaço. A criatura tentou fechar o braço no pescoço dela.

    Halikah acertou a guarda da espada contra as costelas da criatura.

    O corpo deformado perdeu a linha por um instante, e Lou-reen usou esse instante. A espada da general subiu por baixo e abriu um corte diagonal no peito, do flanco até a clavícula.

    A criatura respondeu com um golpe de cotovelo.

    Lou-reen já tinha saído do alcance.

    Halikah entrou de novo, menor, mais rápida no espaço que sobrava. A lâmina dela cortou a coxa da criatura, e a garota recuou antes do contra-ataque.

    A criatura virou para ela com um som preso na garganta.

    Lou-reen cortou do outro lado.

    O ritmo se encaixou sem palavra. A criatura procurava uma, a outra entrava. Quando o corpo deformado caçava Halikah, a espada da general chegava pesada. Quando tentava esmagar Lou-reen, Halikah aparecia na lateral, com golpe menor, guarda firme ou lâmina raspando onde havia abertura.

    Lou-reen ocupava a linha entre a criatura e a casa.

    Halikah ficava na lateral, perto o bastante para entrar, longe o bastante para não virar alvo fácil.

    A criatura avançou de repente, forçando para cima da garota.

    Halikah cruzou a espada diante do corpo.

    A pancada bateu na espada e atravessou os braços dela. As mãos tremeram no cabo, mas os pés cederam meio passo em vez de travar. Ela girou a base, deixou o peso passar por cima da guarda e empurrou com o ombro junto da lâmina.

    A criatura escorregou na neve.

    O corpo saiu da linha da porta, raspou a lateral da cerca baixa e abriu distância da entrada da casa.

    Lou-reen acompanhou o deslocamento com os olhos.

    — Continua na minha esquerda.

    Halikah já estava se movendo. Entrou no lugar indicado, espada nas duas mãos, respiração presa no frio e olhar fixo na criatura.

    Lou-reen avançou meio passo à frente dela.

    A criatura abriu os braços.

    Os cortes menores começaram a sumir primeiro.

    O risco na coxa fechou num tremor grosso por baixo da pele. A marca perto do cotovelo se puxou para dentro e virou só uma linha escura. O rasgo no ombro demorou mais, mas as bordas da carne já se mexiam, apertando músculo, engolindo sangue, grudando uma na outra.

    O corte maior nas costas ainda vazava.

    Mesmo assim, o sangue diminuiu.

    A criatura baixou o queixo e o próximo passo veio mais forte.

    A neve afundou sob o pé dela. O corpo avançou com outra pressão, ombro fechado, braço vindo de cima para baixo. Halikah ergueu a espada para aparar, mas o choque jogou a guarda dela contra o próprio peito e a fez recuar.

    Lou-reen entrou no intervalo e cortou o antebraço da criatura.

    A criatura continuou.

    O outro braço veio em sequência, direto para Halikah, e a garota precisou jogar o corpo para trás para não receber o golpe no rosto. A mão deformada passou rente ao nariz dela e bateu na madeira da cerca, arrancando uma tábua.

    Halikah sentiu o peso antes de pensar em qualquer coisa.

    A criatura estava batendo mais forte.

    Lou-reen girou a espada uma vez.

    A chama subiu pelo fio, branca no centro, alaranjada nas bordas. A luz espalhou reflexo na neve, na pedra da rua e no rosto deformado da criatura. O cabelo loiro sujo brilhou por um instante antes de cair de novo sobre os olhos.

    — Vou finalizar.

    Halikah ajustou a guarda. Os dedos apertaram o cabo.

    Ela saiu meio passo para a esquerda, mantendo a criatura entre ela e a linha da general, espada pronta para desviar o próximo avanço e abrir o ângulo de Lou-reen.

    A criatura avançou de novo.

    Halikah tirou o corpo da linha e bateu a espada contra o braço deformado só o bastante para desviar a mão que vinha no peito dela.

    A abertura apareceu.

    Lou-reen entrou no ponto morto da criatura.

    A espada em chamas já vinha na altura do pescoço, firme, limpa, sem sobra de movimento. O corte ia atravessar de um lado ao outro.

    A criatura girou no mesmo instante e o cabelo loiro sujo saiu do rosto.

    A luz da casa bateu nos traços deformados. A chama da espada completou o resto.

    Um olho verde.

    Um olho castanho escuro.

    O corpo de Halikah parou.

    — General, para!

    Lou-reen já estava no golpe.

    A lâmina seguia para o pescoço.

    — É a Reinna!

    O corte mudou no último instante.

    A espada saiu da linha da cabeça e desceu num arco violento. A lâmina pegou atrás do joelho da criatura, rompeu carne, tendão e base.

    A criatura caiu torta.

    O corpo bateu na pedra coberta de neve e arranhou o chão com as mãos, tentando se levantar de novo. A perna cortada tremeu, já puxando sangue para dentro, já tentando fechar.

    Lou-reen pisou firme.

    A mão livre desceu para a terra congelada do jardim.

    — Manipulação de raízes: contenção.

    A neve rachou.

    A terra dura estourou em placas junto da cerca baixa. Raízes finas e escuras saíram do jardim, trazendo barro congelado, lascas de madeira seca e pedras pequenas presas entre os nós.

    A primeira laçou o tornozelo da criatura.

    A segunda prendeu a cintura.

    Outras duas subiram pelos braços, apertando cotovelos e pulsos contra o chão. A criatura deu um tranco e uma raiz partiu. Lou-reen fechou mais a mão contra o solo.

    Mais raízes rasgaram a borda da cerca, quebraram madeira no caminho e se fecharam por cima do peito da criatura. O corpo deformado arqueou, forçando contra tudo ao mesmo tempo. As travas rangeram.

    A criatura ainda tentava ir para Halikah.

    Mesmo presa, arrastava os dedos pela pedra, cabeça erguida, boca aberta naquele som quebrado.

    Lou-reen manteve a mão baixa, essência correndo pelo braço até o chão. A espada continuava acesa na outra mão, pronta.

    As raízes tremiam.

    Halikah baixou a espada.

    Os joelhos bateram na neve.

    Ela ficou olhando para o rosto deformado entre as raízes. O cabelo loiro caiu de lado outra vez, deixando os olhos diferentes à mostra.

    Lou-reen ficou entre as duas, espada erguida, corpo fechando a passagem.

    Halikah não conseguiu desviar do rosto preso diante dela.

    — É a Reinna.

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