Track 21. Present

Hikaru furtivamente pegou a cerveja e a segurou de maneira que ficasse próxima ao seu corpo, para não chamar atenção. Antes de fechar a geladeira, se certificou de que não havia ninguém à sua volta e saiu de fininho em direção à sala, onde seus colegas o esperavam.
Uma mão suave e feminina se aproximou por trás de Hikaru e veio ao encontro de seu ombro. O adolescente levou um susto, estremeceu e vagarosamente desviou seu olhar para trás.
— Hikaru, querido! Foi pegar cerveja pra mim, né!? — disse Megumi, a dona da mão, com uma voz doce.
Apesar da fofura, Hikaru achou Megumi extremamente assustadora. Afinal, nada mais intimidador do que uma mulher doce lhe passando um sermão. Ele esticou a mão, que segurava a bebida, em direção à Megumi.
— Sim… Isso! Vim ver se você queria! — respondeu Hikaru, trêmulo, mentindo.
— Muito obrigada! — agradeceu Megumi com seu sorriso simpático habitual.
Após tomar a garrafa de cerveja em suas mãos, o semblante amigável e sorridente de Megumi deu lugar a uma face mais séria. Seu tom de voz amigável ainda mostrava sua simpatia, mas agora trazia à tona a responsabilidade necessária para passar o recado para Hikaru de maneira clara:
— Hikaru, logo vou estar viajando a trabalho, não incomode Sayuri e Guang. Já está difícil para eles com tanta gente morando aqui.
Dito isso, Megumi colocou as mãos na cintura e deu um sorriso, como se dissesse “entendido!?”.
— Sim, Senhora Megumi! — respondeu Hikaru, que voltou para seus amigos de mãos vazias.
Os amigos, vendo que ele voltava sem o artefato, logo perceberam que a investida havia dado errado. “XIIIII, deu ruim”, pensaram. Enquanto a festa acontecia, a campainha tocou.
— Eu vou atender! — avisou Guang, indo em direção à porta enquanto pensava “Ainda tem mais gente pra chegar!??”
A casa estava lotada, mas Guang era paciente e entendia que eram adolescentes. Por conta disso, ele seguiu até o portão, onde viu um jovem esperando com um pacote na mão. Guang colocou a chave na fechadura, girou e abriu para o jovem, cumprimentando:
— Ah, amigo do Hikaru, né? Por favor, entre!
— Oi! Miyu tá? — perguntou Adonis, com um presente na mão.
“Quê??? Miyu???? Atrás da Miyu???”, pensou Guang, tentando segurar sua reação. Seu rosto mostrava espanto. Estava boquiaberto. Um frio estranho atravessava sua espinha. Nunca havia passado por sua cabeça que apareceria um pretendente tão cedo, ainda mais com um presente para uma das meninas. No fim, não sabia como deveria reagir.
— Tá… Tá… Ela tá mais na dela, não gosta de festa…— gaguejou Guang, enquanto guiava o jovem pela casa.
— Ah, sim, entendo ela.
Os dois passaram pela sala, e os colegas de Adonis o cumprimentavam animados, o rapaz apenas respondia um oi rápido, como era costumeiro.
— Minami, olha lá o Adonis! — disse Aino.
— Que Adonis, Aino? Já tô em outro! — respondeu Minami, com sua atenção voltada para o lado oposto.
— Em outro?
— Ai, miga, o Seki é mó gato.
Adonis chegou à porta de vidro que separa a sala do quintal. Miyu estava sentada no deck, olhando para as estrelas. O ruivo se aproximou passo a passo e sentou ao lado dela. Miyu foi pega de surpresa com a presença dele e levou um susto.
— Ó, pequena, pra você! — Adonis cumprimentou Miyu, entregando o pacote de presente para a jovem.
— Você tem algum problema? Hoje é aniversário do Hikaru, não o meu. — indagou Miyu, franzindo suas sobrancelhas.
— Para de reclamar e pega.
— Tá bom, tá bom!
Miyu abriu a caixa, envolta em uma fita verde com um laço. Retirou a tampa e se deparou com uma pulseira dourada com vários berloques em formato de peças de xadrez.
— Uma pulseira! Que linda, você tem bom gosto!
— Essa é por você ter ganhado de mim no xadrez. O sorvete de certeza que eu ganho — disse Adonis, apoiando o braço no joelho e o rosto na mão, observando as expressões faciais que ela fazia.
— Pra você, é tudo competição?
Atrás de Adonis e Miyu havia uma porta de vidro. Sem eles perceberem, a festa inteira espiava os dois em silêncio.
“Humm, pelo visto, não era tão boato assim…”, pensaram.
Em paralelo a toda essa cena, Guang foi ao encontro de Sayuri, um pouco ansioso, um pouco sem jeito.
— Amor, a… a… a Miyu… — gaguejava Guang, apoiando suas mãos em Sayuri.
— Sério? Oh, e é bonitinho? — perguntou Sayuri, entendendo toda a situação e dando uma risadinha discreta.
— MAS QUE PERGUNTA É ESSA, SAYURI? — perguntou Guang, que agia como um pai preocupado.
Após a festa, Hikaru liderou a equipe de limpeza e organização. Seu carisma e boa comunicação foram capazes de convencer os amigos a arrumarem tudo. Uns varreram, outros cuidaram da louça, tiraram os lixos e assim a casa ficou em ordem, para o alívio de Sayuri e Guang.
A noite foi chegando e o barulho das conversas foi gradualmente diminuindo. Os pais foram aparecendo aos poucos para buscar seus filhos, pois o dia posterior ainda seria de aula.
Com a casa finalmente em silêncio, todos foram para as suas camas, exaustos, dormiram sem dificuldade.
09 de abril, Centro da cidade, 9h da manhã.
A movimentação na cidade começava por etapas. Os pais levavam seus filhos às 7 horas da manhã para a escola, depois, os escritórios começavam a abrir, por volta das 8 horas, e, por fim, o comércio abria ao público às 9 horas da manhã.
Já era hora das lojas abrirem e o centro, aos poucos, ia começar a movimentar-se, cheio de transeuntes. A praça central era o ponto mais importante, onde ficava o calçadão da cidade. Naquele lugar se ouvia os ‘clacks’ dos saltos altos caminhando apressados.
O chafariz estava ligado como de costume, com as gotas de água refletindo a luz do sol, que, apesar do outono, estava escaldante como num dia de verão.
Neste dia, o chafariz não só refletia o sol, como também uma luz diferente. Um flash rápido, turquesa, a princípio disforme, iluminou a praça. Ao se apagar, revelou a imagem de um homem.
Alto, de cabelos compridos na cor roxa, presos com uma presilha elegante para não caírem em seu rosto, e com um amarrador na ponta. Algo nele parecia incomodado com a situação.
“Que absurdo! Por que vim pela água?”, pensava enquanto olhava para sua vestimenta, uma camisa de linho, aberta no peito, de mangas longas com punhos estreitos, fazendo um leve balonê. Sua calça era de alfaiataria e parecia ter um ótimo acabamento.
As roupas, que claramente eram de altíssima qualidade, estavam encharcadas por conta de sua chegada pelo chafariz.
“Esse sol escaldante deve secar”, pensou, e se pôs a caminhar, mostrando que tinha alguma noção de seu destino e confirmando o caminho com os pedestres que encontrava pelas ruas.
Com sua presença marcante, era alvo de diversos olhares alheios. As mulheres na rua ficaram encantadas com a beleza dele, que, mesmo encharcado, não escapava dos suspiros.
Caminhou durante um bom tempo abaixo do sol. Como era sua primeira vez no planeta, não podia apressar demais o passo para não se perder. Isso fez com que suas vestes e seus cabelos já tivessem secado quase por completo. E foi assim que ele acabou por chegar ao seu destino: uma videolocadora. Logo, o homem de cabelos roxos adentrou o lugar e se pronunciou:
— Cidadão!
Dylan, que se encontrava no posto de atendimento, estremeceu com a voz grave e a presença daquele ser.
— Ah… Ah… Boa… tarde…
— Itzel se encontra neste estabelecimento? — perguntou, olhando para o atendente de cima para baixo.
— Ah, é, eu, é, vou procurar, verificar. — respondeu Dylan, assustado, sua voz trêmula deixava transparecer seu desconforto.
Dylan saiu para chamar Itzel, mas não conseguia deixar de espiar aquele homem diferenciado. Seu corpo ia em direção ao depósito, mas seu rosto se mantinha encarando aquela figura.
— Itzel — sussurrou Dylan.
Itzel estava com um estilete, abrindo a caixa de novos títulos de filmes que haviam chegado à loja. Os sussurros de seu colega de trabalho fizeram com que ele parasse sua atividade, ficando curioso com a atitude não comum de seu amigo.
— Tem um agiota te procurando. Tu quer que eu invente uma desculpa, mande ele embora?
Itzel espiou para ver quem era a pessoa na locadora e avistou a figura alta de cabelos roxos:
— Ah, Iker!
— Itzel, que desgraça é essa? — perguntou Iker, segurando um DVD que havia encontrado na ala reservada, fechada com cortina.
— Iker, guarda isso onde você achou.
Itzel puxou Dylan para perto e o apresentou para seu amigo:
— Deixa eu apresentar, esse é o Dylan, meu colega de trabalho e também mora comigo.
— Você mora com seus serviçais? — perguntou Iker, com expressão de desgosto.
— Serviçais? — sussurrou Dylan, incomodado.
— Dylan, hoje saio mais cedo, vou mostrar a casa pro Iker!
— Ah… Tá…
Itzel se ajeitou e pegou suas coisas, cumprimentou Dylan e seguiu com Iker até o apartamento.
Apartamento de Itzel
Iker entrou no apartamento e observou a cozinha, que era integrada com a sala de jantar. Analisou o lugar, sem se ater aos detalhes, fez uma expressão de desgosto e comentou:
— Você mora numa caixa?
— Haha, sim! E você e Maureen vão morar na caixa da frente. — respondeu Itzel, rindo com sarcasmo.
O homem, com sua postura ereta e imponente, ficou incomodado com o que ouviu. Colocou uma mão na cintura, levantou a outra e gesticulou enquanto reclamava:
— Itzel! Você perdeu o juízo? Morar com Maureen? Ela vai ficar trazendo os namorados enquanto eu estiver ali?
Itzel ligou a televisão para assistirem algo. Então foi preparar algo para os dois beberem. Enquanto se dirigia à cozinha, explicou para Iker um pouco sobre o funcionamento das moradias na Terra:
— Existe uma boa variedade de empregos neste planeta. Vai poder morar sozinho se conseguir pagar.
— Que absurdo eu ter que pagar para morar…
Era hora dos comerciais de televisão. E passou uma propaganda sobre o grande evento de moda que iria acontecer numa das principais cidades do país. Era a grandiosa Fashion Week SPRING/SUMMER que traria todas as grandes tendências e novidades para a primavera e verão do final deste ano, e início do próximo.
A FWSS era sempre bastante movimentada, com toda a mídia nacional e internacional especializada fazendo a cobertura. Seria uma semana inteira de evento, com moda masculina e feminina, casual, social, festa, além da apresentação de desfile de moda dos melhores alunos das grandes universidades. O ponto alto era a moda praia, que era referência mundial e esperada por todos.
O evento chamou a atenção de Iker, que não desgrudava os olhos da televisão de tubo em cima do rack da sala de jantar. Ele voltou a si apenas quando Itzel chegou com uma xícara e uma garrafa térmica e colocou na mesa.
— Experimenta! Isso se chama café! — ofereceu Itzel, entregando uma xícara cheia.
— Tá, serve aí. — respondeu Iker, sem perceber que já estava servido. — Itzel, o que é aquilo na tela da caixa?
Itzel olhou para a TV e logo se deu conta do que se tratava e explicou para seu colega:
— Ahhhh, os terráqueos gostam de fazer mostras das vestimentas quando mudam as estações. São eventos grandiosos, com música e até teatro.
— Hmmmm… A cultura daqui parece bem interessante.
— Não vai colocar açúcar?
— Bom isso! — comentou, apreciando o sabor do café. — Ótimo, já tenho missão.
— Já tem?
— Bom, é isso, leve-me aos meus aposentos.
— Sim, é por aqui.
Itzel o guiou até o apartamento de Maureen, logo à frente do dele.
Os dois bateram à porta e foram atendidos por Maureen, que logo se animou e cumprimentou:
— IKER! BEM-VINDO!
— Maureen, serei obrigado a dividir a moradia com a sua pessoa, está proibida de trazer gente aqui. — ordenou, sem nem cumprimentá-la de volta.
— Que!?? Mas eu ia receber gente hoje! — reclamou Maureen, fazendo manha.
— Desmarque.

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