Track 26. キミにKISS

N.T. Kimi ni KISS (Em seu beijo)
A tensão da batalha que havia sido assustadora, agora passava como um detalhe para Kaoru e Hitomi, que trabalhavam e se encrencavam através de olhares raivosos. Megumi permanecia no meio de campo, escutando as reclamações de sua mentora, e tentando apaziguar os ânimos.
O modelo masculino do ensaio estava finalmente pronto e com o roteiro de fotos alinhado, sendo assim, pôde prestar atenção ao seu entorno. Ele finalmente percebeu a novata e foi em sua direção:
— Você é a nova modelo que todos estão comentando? — cumprimentou, erguendo sua mão. — Me chamo Will, iremos trabalhar juntos! Tenho certeza de que nos daremos bem.
Will era charmoso com sua voz grave e macia, seus olhos azuis encontraram os de Megumi com suavidade. A maneira como ele se portava havia mexido com ela, que se apresentou e automaticamente repousou sua mão sobre a dele.
— Muito prazer, senhorita Megumi! — disse ele, segurando a ponta dos dedos dela com delicadeza, enquanto se curvava como um cavalheiro.
As bochechas da jovem modelo estavam coradas, e por um momento seu coração bateu mais forte por aquele homem de cabelos escuros.
Olhando a cena estava Kaoru, com seus braços cruzados, até que decidiu se retirar, levando junto a sua expressão de desgosto. “Perda de tempo”, murmurou para si.
— PREPARADOS? VAMOS COMEÇAR! — convocou a responsável pela seção.
As luzes, refletores e flashes estavam a postos. O cenário era frio, numa casa de paredes de cimento queimado e tons de cinza, onde o sofá de couro marrom e algumas poucas plantas traziam aconchego. Os três modelos iriam contracenar nesse set com roupas para Primavera/Verão, aproveitando as apresentações das peças nos desfiles.
A produção do catálogo conceitual era cara e o local era luxuoso. Hitomi era a modelo mais valiosa do mercado, com várias campanhas em evidência. Além das fotos em trio e individuais, algumas em dupla interagindo também foram feitas.
— Humm… Você cheira bem… — sussurrou Will no ouvido de Megumi durante o ensaio.
Não podendo demonstrar nada diante das câmeras, ela segurou seu desconforto dentro de si. Sentiu sua espinha gelar e um gosto amargo subir à sua garganta.
— PAUSA! PRIMEIRA PARTE PRONTA! — informou a responsável.
Essa foi a deixa da modelo novata, que aproveitou para se retirar. Mas o modelo não desistiu.
— Ei, Megumi! — chamou Will, indo em direção a ela.
— Oi Will, em que posso ajudar? — Megumi se virou para ele.
— Que tal um jantar hoje?
Kaoru e a Stylist estavam por perto. Conversavam e pareciam bastante incomodados. Ele segurava um jornal em suas mãos, as manchetes falavam do incidente no shopping. As matérias eram sensacionalistas, se aproveitando da tragédia, teorizando sobre quem seriam os culpados. Além disso, os mais dramáticos insinuavam algum tipo de castigo divino para com as empresas do vestuário.
Mesmo com todas essas questões, Kaoru não pôde ignorar as investidas do modelo e se meteu na conversa dos dois:
— Algum problema com a novata, Will?
— Nada não, Kaoru. Estamos apenas conversando — a postura galante do homem logo se desfez e ele respondeu sem graça ao Sr. Vacchiano.
— Seu trabalho aqui já terminou, o dela não. Arranje outro momento para conversar. Agora está atrapalhando.
O rosto de Will se fechou, e uma aura obscura e desafiadora tomou conta de seus olhos, que encaravam Kaoru com frieza. Era como se ele tivesse se transformado em outra pessoa.
— Esse jornal é sobre o incidente de ontem no desfile? O prejuízo deve ter sido enorme para você estar com tanta pressa. — respondeu Will, com um sorriso provocador no rosto.
Neste momento, Kaoru Vacchiano sentiu-se incomodado. Ele não estava errado, os prejuízos haviam sido enormes e isso não era algo que Kaoru gostava. Para evitar falar o assunto, ele deu as costas a Will, se dirigindo aos demais no estúdio:
— Todos de volta para o set. Vamos continuar a trabalhar conforme o prazo.
O ensaio durou horas, Megumi e Hitomi fotografaram a coleção inteira para o catálogo comercial. Normalmente as marcas contratavam modelos mais baratas para o catálogo dos lojistas, mas não a Vacchiano, esta trabalhava sempre com o melhor do mercado.
Ao final do ensaio, Megumi pegou suas malas e embarcou de ônibus para sua cidade, reflexiva sobre os acontecimentos da semana.
20 de abril, Colégio M, intervalo
No alvoroço da hora do recreio no colégio, dois jovens haviam procurado um lugar silencioso para fazerem revelações um ao outro. A arquibancada da quadra semicoberta era o lugar perfeito para isso e lá estavam, como que para fazer uma grande revelação.
Adonis e Miyu seguravam, próximo a seus corpos, folhas grampeadas no canto esquerdo, impedindo um ao outro de ver o conteúdo. Uma leve tensão pairava no ar, um sinal de antecipação, até que ele quebrou o gelo:
— Tá, no três a gente mostra a nota e vê quem paga o sorvete.
— Tá, vamos lá! — assentiu Miyu.
1
2
3
— TA-DAM!!!
Os dois mostraram suas notas na mesma hora, Miyu havia tirado 94 e Adonis 91, num total de 100.
— Olha! Ganhei! — comemorou Miyu.
— Que!? Não vale! Você é um ano mais nova, sua prova era mais fácil!
— Ei… Nada de desculpa, você é mais velho, então tem um ano a mais de estudo que eu!
Adonis ficou sem palavras, contra fatos, não havia argumentos.
— Tá, mas vamos resolver isso já! Hoje às 15 horas na sorveteria do calçadão, no centro.
— O que? Hoje, já!? Mas…
— Prefiro resolver rápido pra não acumular coisa.
— Tá… faz sentido, até hoje à tarde…
Casa de Sayuri, início da tarde
A tarde prometia ser ensolarada, os dias de outono não eram tão frios, nem tão quentes e escolher roupas para passeio era uma tarefa a ser bem pensada sempre.
Mas hoje não apenas o clima parecia influenciar a dúvida que Miyu estava tendo com a escolha de seu look. A cama estava com várias roupas espalhadas, que ela vestia e conferia qual ficava melhor.
Akiko estava observando da cama, deitada de bruços, balançando seus pés no ar e com o rosto apoiado nas mãos, até que decidiu perguntar:
— Bonita! Vai onde?
— Vou sair pra tomar sorvete. — respondeu Miyu enquanto arrumava seus brincos.
— Com quem?
— Vou sozinha.
— Então tá, né! — disse Akiko, percebendo que sua amiga estava evasiva.
Miyu acabou por optar por um vestido e um bolero leve, graciosos e que estavam perfeitos para meia estação.
Casa de Koa, início da tarde
No apartamento em que Koa e Adonis moravam, os preparativos para o passeio no meio da tarde não estavam tão diferentes. O jovem encarava com desdém seu armário, olhando cabide por cabide, peça por peça, mas nada lhe agradava.
Ele fechou as portas do armário, batendo-as com raiva. Numa fração de segundos, uma ideia pairou sobre sua cabeça e ele se virou, olhando para o nada, montando sua estratégia.
Se dirigindo vagarosamente até a porta do quarto, ele espiou em direção ao corredor. Percebendo que o campo estava limpo, correu para o quarto de Koa e começou a mexer no armário.
— Koa tem umas roupas legais. — murmurou.
Ele acabou por escolher uma camisa preta e uns acessórios de correntes. Já estava usando uma calça que não era tão larga como as que ele usava no colégio. Ele acabou pegando uma jaqueta de couro e colocou o tênis que tinha ganhado de aniversário.
Para sair do quarto, novamente espiou o corredor. Adonis sabia que Koa estava na sala, mas pensou que talvez ele desse sorte e seu colega de apartamento estivesse dormindo, assim não seria notado. Foi então que ele se apressou e correu em direção à porta.
— Adonis — chamou Koa.
O rapaz não teve sorte, ele estava bem acordado e sentado no sofá. No susto, virou o rosto e começou a se explicar, sua voz estava trêmula e demonstrava nervosismo:
— Ah, Koa, eu peguei a…
— Amarra esse cabelo, vai parecer menos moleque.
O garoto ficou confuso com aquele pedido, afinal, estava pronto para levar uma bronca por “assaltar” o guarda roupa. Ele decidiu se virar e amarrar o cabelo, agradecendo a sugestão.
— Bom encontro — disse Koa, encarando Adonis e logo após desviando o olhar.
Neste momento o jovem ruivo sentiu seu desespero aumentar internamente. Estava em choque e incapaz de se explicar.
Sorveteria, 14h45min
No calçadão do centro, onde ficava o chafariz, havia várias lojas, de roupas, calçados e algumas lanchonetes, incluindo duas sorveterias. E em uma delas, seria o ponto de encontro marcado pelos dois estudantes para acertarem suas apostas.
E já aguardando há dez minutos estava Adonis, escorado na parede, mãos no bolso, perna dobrada, uma posição ao mesmo tempo relaxada e tensa. Era a primeira vez que ele marcava de sair com alguém, principalmente uma garota.
Quinze minutos adiantada, Miyu vinha tranquila, até que avistou o rapaz esperando e decidiu acelerar o passo. Quando estavam frente à frente, ela olhou para ele e o cumprimentou:
— Oi! Esperou muito tempo?
— Não, acabei de chegar.
Adonis não quis contar que havia chegado muito mais cedo que o combinado. Passada essa primeira interação, Miyu pôde realmente prestar atenção na maneira como ele estava se vestindo. Ela o olhou de baixo para cima, parando novamente o olhar nos olhos dele.
— Você tá diferente! Ficou bom. Devia sempre se arrumar assim.
Adonis se espantou com o elogio, não estava esperando. Seu rosto corou, ele olhou para o alto, levantou o braço, coçou a cabeça enquanto colocava a outra mão na cintura, tímido.
— Obrigado! Você tá bonita também!
— Que? — perguntou Miyu, que agora estava corada por causa do comentário.
— Bom, bora pegar um potão de sorvete! Capricha! Nada de charminho, pode comer! — o rapaz cortou o clima com sua proposta, tudo que ele queria era curtir aquele momento, já que ele ia gastar, que aproveitassem bem.
— QUE!??
Os dois foram se servir, Adonis escolheu vários sabores que o agradavam, Miyu escolheu poucos, queria sentir bem o sabor de cada um. Com seus pedidos prontos, eles foram se sentar juntos no banquinho da praça, de frente para o chafariz.
No começo o silêncio tomou conta do passeio. O outono naquela região ventava, mas os dias intercalavam entre calor e frio. Naquela tarde quente, era melhor garantir que o sorvete não derretesse.
— Ô pequena, cê gosta de ler, né? — perguntou Adonis.
— Gosto… para de me chamar de pequena…
— Mas você é pequena! Qual o problema? — perguntou, não havia tom de ironia na fala de Adonis.
— Tá… tá bom…
— Você gosta de alguém?
Parecia que Adonis apenas estava procurando o momento certo para lançar essa pergunta, que apareceu sem contexto algum. Miyu se espantou, demonstrando sua surpresa com todo seu corpo, que se enrijeceu e até mesmo seu volume de voz mais alto na hora de responder:
— QUE? NÃO! QUE PERDA DE TEMPO, A GENTE TEM QUE ESTUDAR.
— Hum… Miyu… Aqueles boatos… Naquela vez…
A fala dele havia saído automaticamente, sem muito preparo, o que o deixou tenso, a ponto de começar a ter dificuldades em formular suas frases sem fazer pausas.
— Deixa pra lá! Isso já passou… — Miyu cortou o assunto, tentando tranquilizar Adonis.
As palavras dela tiveram efeito contrário e ele acabou ficando ainda mais nervoso. Suas pernas tremiam, e ele tentava segurá-las, apoiando suas mãos. Em meio ao desconforto, ele encontrou coragem e continuou sua fala:
— É que… eu andei pensando… — falava com voz trêmula.
Ele percebeu que não conseguiria falar o que precisava, não havia palavras para o que ele queria expressar. Adonis virou seu rosto para o dela, olhando nos olhos da garota. Sua expressão era determinada.
O rosto de Adonis se aproximou do de Miyu. Ele repousou suas mãos na bochecha dela e a beijou, levemente trêmulo, mas carinhoso. Ela ficou surpresa, mas não demonstrou resistência nem se afastou, seu coração havia batido mais forte pela primeira vez.

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