Aqueles segundos de beijo não pareceram tão rápidos para os dois jovens, que sentiram naquele momento que o tempo havia parado. Adonis se afastou vagarosamente e olhou com carinho e firmeza para os olhos de Miyu.

    — Eu tô gostando de você pra valer… pequena!

    Miyu, que o olhava curiosa, sentiu seu rosto aquecer e suas bochechas ficarem coradas ao ouvir a declaração do jovem. 

    — Adonis… — ela baixou o rosto e levou sua mão até seus lábios, o volume baixo de sua voz e a maneira como havia dito o nome dele mostravam que ela estava tímida.

    Enquanto se afastava e olhava para Miyu, Adonis acabou se dando conta de algo. Logo os ventos daquela tarde tocaram seu rosto, e ele percebeu que sua personalidade impulsiva havia feito com que desse seu primeiro beijo. O olhar sério deu lugar a uma expressão sem jeito, incomodado com sua própria atitude.

    Agitado, o ruivo se levantou da cadeira da praça. Miyu se assustou com o movimento repentino. Por um momento os dois ficaram se encarando, mas nenhum conseguiu dizer uma palavra sequer.

    — Bom… A… acho… que… a gente… tem… que… ir… — comentou o ruivo com voz trêmula, estendendo sua mão até o pescoço, tentando disfarçar o nervosismo.

    — É… sim… tá ficando tarde — disse Miyu, desviando o olhar.

    Os dois se despediram, um indo em direção contrária à do outro. Assim seguiram para suas casas, em completo silêncio.

    Casa de Sayuri, mais tarde

    Em casa, já em seu quarto e sentada em sua cama, Miyu apoiava a cabeça nos joelhos, reflexiva, pensando naquela tarde, como se continuasse sentindo o toque dos lábios de Adonis nos seus.

    — MIYUUUUU!

    O momento reflexivo da jovem não durou muito, pois Akiko abriu a porta e entrou animada, cumprimentando-a.

    — Miga, cê tá quietona! Mais que o normal… — disse Akiko se aproximando da cama da amiga. — Já sei, tá pensando no que levar pra excursão!

    — Hm? — murmurou Miyu. — Ah… sim, é, a excursão sim.

    O assunto não se estendeu, o resto da semana passou normalmente, até o tão esperado dia da excursão.

    Sábado, 24 de abril, 4 horas da madrugada

    Havia uma grande concentração de estudantes e alguns pais esperando a hora da partida para a atividade favorita dos estudantes de qualquer idade: A excursão escolar. Os professores já estavam ali há um bom tempo, para garantir que todos seriam bem recebidos e que entrariam no transporte.

    O ônibus grande, de dois andares, fretado especialmente para os estudantes do primeiro ano, se encontrava estacionado na porta da escola, com faróis acesos esperando os alunos se organizarem para entrar.

    E ali já estavam Minami e Aino, olhando para o nada, levemente cansadas, e Yukino, dormindo encostada no poste da placa. Havia muitos sussurros e burburinhos animados, mas nada muito alto, parecia que os adolescentes tinham bom senso em relação ao horário. Ou pelo menos a maioria tinha, já que Akiko se aproximava bastante enérgica e decidiu cumprimentar suas colegas:

    — AINO!!! YUKINO!!! MINAMI!!!

    — Akiko, são quatro horas da manhã! — cochichava Miyu, indignada.

    — Eu vou sentar com você, tá! — Aino ofereceu a ideia para Miyu, temendo parar ao lado de Akiko.

    — Tá! — assentiu Miyu, percebendo a intenção.

    Enquanto isso, Minami encontrou outra amiga, e já combinaram de ficar ao lado uma da outra.

    — Yuki! Nós vamos juntas! — afirmou Akiko, a abraçando fortemente.

    — Quem é Yuki? — perguntou Yukino, que estava com tanto sono que não percebeu que havia ganhado um apelido.

    A hora de saída chegou e todos se colocaram em seus lugares para começar a viagem para a serra. O local era um ponto turístico da região e também um lugar bastante visado por arqueólogos, botânicos e outras áreas científicas.

    Durante a subida, o ônibus correu na velocidade máxima permitida, e era possível ver o sol nascendo, iluminando a paisagem de mata nativa.

    — Yuki! Pena que você tá dormindo! Tá bem lindo aqui, tem bla, bla, bla… — comentava Akiko sobre todas as paisagens que via para sua companheira, que dormia com a cabeça apoiada em seu ombro.

    No geral os estudantes conversavam sobre amenidades, o dia a dia escolar, algum problema em casa ou na escola, o que não estava diferente nas poltronas ocupadas por Aino e Miyu.

    — E aí, depois nunca mais se falaram. Vê se pode, tudo por causa do namorado da outra. — fofocava Aino com indignação. — Ele nem era tão bonito, sabe? Nem chega aos pés do Adonis e…

    Até aquele momento Miyu escutava passivamente toda a história, mas ouvir aquele nome em específico ativou seu estado de alerta e logo ela começou a tecer comentários:

    — Qual é o problema de vocês? Só ficam babando no Adonis, nem sabem se ele já gosta de alguém…

    — Miyu?

    “Depois dessa, vou até ficar quieta.”, pensou Aino, desviando seu olhar para a janela e continuando em silêncio absoluto até chegar na pousada.

    Serra do Rio do Rastro 

    O dia estava lindo, o céu limpo fazia com que a serra ficasse bem visível e fosse possível apreciar as belezas naturais.

    Pararam em uma pousada com vários chalés, onde os estudantes ficariam acomodados durante o final de semana. As construções contornavam os morros, com intervenção mínima no cenário natural.

    A Professora Mira, de biologia, e o Professor Nanji, de química, eram os responsáveis pelos alunos naquele passeio. Após saírem do ônibus com suas malas, os estudantes se colocaram ao redor dos dois para escutarem as instruções.

    — Pessoal, grupos de cinco pessoas. É o máximo que cabe em cada cabana. — começou Mira. — Por ora as mochilas ficam aqui. Vamos nos dividir em dois grandes grupos para fazermos as trilhas. Uma equipe vem comigo, a outra vai com o Professor Nanji!

    O Professor não falava muito, só sua presença e seu rosto firmes já eram suficientes para impor respeito. Apesar disso, nas aulas, costumava ser carinhoso e brincalhão com seus alunos, contrastando com sua aparência.

    Os grupos foram feitos, as mochilas deixadas nos respectivos quartos e assim a trilha pôde começar. O cheiro da mata nativa trazia paz à caminhada, e a brisa suave deixava o trajeto mais agradável.

    Caminhando mata adentro, os passos eram dados com cuidado para que não tivessem maiores surpresas. Mas sempre havia um que pisava em falso, e neste dia, foi Aino que atolou o pé no lodo:

    — AH QUE PORCARIA! ATOLEI MEU PÉ! AQUI É MUITO MATO, BICHO, BARRO, … — reclamava a adolescente enquanto sacudia o pé para tentar se livrar da sujeira.

    Enquanto a confusão acontecia de um lado, do outro Miyu encontrava a flor Hysterionica pinatissecta, e a admirava:

    — Que linda! Essa espécie é própria daqui da serra! — ela então se vira. — Yukino, trouxe seu caderno de desenho? A gente podia desenhar as flores pro trabalho!

    — Siim! Trouxe pra isso mesmo!

    Todos faziam seus exercícios de observação da flora do lugar, encontrando espécies que nem sabiam que existiam e registrando tudo com cuidado, alguns por admiração, outros apenas pela nota. Mas independentemente do motivo, todos estavam se divertindo e aprendendo.

    Após um bom tempo para explorarem as plantas do lugar, era hora de explorar outro lugar. E o momento mais esperado pelos alunos foi finalmente anunciado pela Professora Mira:

    — Muito bem turma! Deu o tempo! Para a cachoeira!

    Os jovens comemoraram o aviso, haviam vindo com sua roupa de banho esperando por esse momento. O cansaço da trilha e das pesquisas foi deixado de lado e seguiram animados. Apesar de já ser outono, naquela região se alterna calor extremo e dias mais amenos.

    A vista era paradisíaca. No topo da serra, as cascatas formavam um muro de água, que jorrava, parecendo um conjunto de véus. O rio que se formava à frente era calmo, e tudo era cercado de pedras cujas irregularidades eram naturais. Algumas árvores formavam uma sombra agradável para que pudessem montar o piquenique.

    O ponto turístico costumava receber visitantes, principalmente no final de semana. E aquele dia não seria diferente, ao redor daquela paisagem, havia visitantes.

    — Olha só! — exclamou uma bela mulher de estatura alta, cabelos castanhos e olhos em cor azul escuro acizentado, que observava o grupo. — Não estava nos nossos planos… Mas não existem coincidências. Elas parecem ter a idade que foi comentada.

    — O que fazemos? Você que manda. — perguntou um homem alto, cerca de 1,90m, longos cabelos negros lisos, com partes trançadas. Ele possuía diversos piercings nas orelhas e um no nariz. Utilizava uma regata de redinha, que deixava à mostra sua enorme tatuagem de dragão.

    Despreocupados, os alunos começaram a se divertir. Minami e Aino correram juntas e se jogaram na água. Akiko viu e quis se aproximar também, colocando seus pés no rio:

    — BRUUUUUUUUUUUUUH… Gente, que frio, a água da cachoeira é muito gelada — disse a jovem, tremendo.

    — Ixi… tá muito gelado? — perguntou Yukino.

    — Tá… mas até… que tá dando pra acostumar… — respondeu Akiko, ainda trêmula. — AI, UM BICHO!

    A garota se espantou e acabou espalhando água por todos os cantos. Yukino estava perto e viu a cena, sem entender nada.

    — Bicho? Girino ou alevino? — Miyu escutou o escândalo da amiga.

    No entanto, os demais estudantes começaram a correr desesperados para longe do rio, de volta pela trilha. A Professora Mira seguiu os estudantes pelo mesmo caminho. Todos pegaram o que puderam, saindo sem olhar para trás e se perguntando o que era aquilo que estavam vendo.

    Yukino, Minami, Aino, Miyu e Akiko permaneceram no local, eram elas e as criaturas misteriosas. Se havia algo fora do comum, as mais aptas a resolver seriam elas mesmas.

    — Que… coisas são essas? — comentou Aino, assustada, olhando fixamente para o rio.

    Da mesma cor da água, mas parecendo um ser vivo. Pequenas criaturas em um estranho formato que parecia misturar filhote de dragão e peixes estavam ali paradas fitando as meninas. Possuíam quatro patinhas curtas e dentinhos finos e afiados, além de uma cauda.

    — É UM COMPANHEIRISMO HEIN! NA HORA DO MEDO É CADA UM POR SI… — reclamou Aino, olhando para a direção em que os colegas correram.

    — Isso são aqueles negócios de Potentia que vocês disseram? — perguntou Minami.

    — Na verdade, isso é novidade pra gente também. — respondeu Miyu.

    — Isso são… cachorrinhos de água? — perguntou Akiko, com medo.

    — Será que são feitos de água mesmo ou só estão semitransparentes? — comentou Yukino.

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