Capítulo 169 - Jantar com Quixotina
A suavidade da respiração de Dulcinéia, já mergulhada no sono profundo das crianças, ecoava no quarto silencioso. Carlos a acomodou com cuidado entre os lençóis limpos, cheirando a sol e sabão caseiro. Ajustou o cobertor leve sobre seus ombros e ficou um instante observando. No crepúsculo que entrava pela janela, o cabelo loiro-dourado da menina parecia uma auréola sobre a almofada. Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. “Ela está segura. Está feliz. Isso é o que importa.”
Ao retornar à sala, foi surpreendido por uma sinfonia de aromas que tomava conta do apartamento. O cheiro doce e terroso da cebola refogando na manteiga, o perfume intenso do alho, e algo mais… defumado, como pimenta-do-reino recém-moída. Seguindo os sons suaves de uma faca tocando a tábua de madeira e o borbulhar sussurrante de um caldo, ele chegou à porta da cozinha.
E lá estava Quixotina. Não a Ministra da Educação, nem a cavaleira de armadura. Era uma visão doméstica, inesperada. Ela usava um avental simples sobre seu vestido, e seus cabelos loiros, antes presos em tranças elaboradas, agora escapavam em mechas soltas que caíam sobre seu rosto concentrado. A luz quente do lampião a óleo na parede dourava sua pele e fazia os fios de cabelo brilharem como fios de mel. Nas mãos, ela manuseava uma cenoura e uma faca com uma destreza que falava de prática, não de nobreza ociosa.
Carlos parou na soleira, os sentidos um tanto atordoados pela cena.
— Eu… não sabia que você sabia cozinhar — disse, a voz saindo mais suave do que pretendia, carregada de genuína surpresa.
Quixotina ergueu os olhos do que fazia, e um riso leve, quase íntimo, escapou de seus lábios. O som era quente e descontraído.
— Eu ainda sou mãe, sabe? — respondeu, os olhos de rubi piscando com divertida reprovação. — Cuidei da Dulcinéia sozinha por anos, naquele casebre. Não dava para viver só de frutas da mata e boa vontade. Tive que me forçar a aprender. E a Aqua… — ela fez uma pausa, um toque de profunda gratidão suavizando seu tom. — A Aqua foi minha salvação. Me ensinou os fundamentos, truques para fazer pouco render muito, como temperar com o que se tem. Devo muito a ela. Por isso… — ela ergueu o queixo, num gesto desafiador familiar, — não a faça trabalhar tanto assim. A coitada estava com olheiras fundas na última reunião. Parecia uma coruja assombrada.
Carlos se aproximou, sentindo o calor radiante do fogão a lenha. Sem pedir permissão, pegou uma faca afiada da bancada e uma cebola que ela havia separado.
— Eu não a forço a nada, Quixotina — ele retrucou, começando a picar a cebola com cuidado, sentindo a textura firme sob a lâmina. — Já falei umas dez vezes que ela pode se aposentar, descansar, cuidar do jardim que tanto ama. Mas ela se recusa. Diz que o trabalho, ver os números da República crescerem de forma justa, é o que a mantém viva. E tem medo, um medo que entendo, de se tornar um “peso” para o quilombo, como ela diz.
Quixotina observou suas mãos por um segundo, avaliando seu trabalho com a cebola, e então, num gesto automático de quem está acostumada a dividir tarefas, deslizou para ele uma tábua com beterrabas e batatas.
— É… bem a cara dela mesmo — murmurou, um sorriso triste nos lábios. — Teimosa e cheia de orgulho. Uma combinação perigosa.
Seu olhar vagueou pela cozinha, enxergando-a com novos olhos. Não era grande, mas era funcional. Panelas de ferro e cobre penduradas, potes de cerâmica com farinha e sal, um ramo de alecrim seco pendurado perto da janela. E então, no topo de uma estante desengonçada, entre copos de vidro simples, ele viu. Um livro.
— Olha só! — exclamou, apontando com a ponta da faca. — Um livro de receitas!
Quixotina segurou uma colher de pau e virou uma folha do livro aberto sobre um pequeno suporte de madeira. A página estava manchada de gordura e farinha, um sinal de uso constante.
— Você precisa visitar o ponto de comércio com mais frequência, presidente — disse, com um tom ligeiramente professoral. — Os mercadores que chegam com os comboios da cidade sagrada e de outros lugares trazem todo tipo de tralha interessante. Eu estava comprando mais livros para o acervo da biblioteca municipal — ela deu de ombros, — e esse apareceu. São receitas… da minha terra.
Ela suspirou, um som que misturava saudade e cansaço.
— Sabe, entre me aventurar na mata com os irmãos Silvana e Silvestre — seus olhos brilharam por um instante ao mencionar as crianças—, dar aulas para aquelas crianças barulhentas e maravilhosas, cumprir minhas obrigações como Ministra da Educação, tentar ler tudo o que chega… e ainda jogar futebol aos domingos, porque alguém precisa mostrar aos homens como se faz… — ela olhou diretamente para ele, um brilho de desafio nos olhos, — mal me sobra tempo para respirar. E aí você aparece e me presenteia com um teatro inteiro sobre mim.
Carlos não pôde conter uma risada. Era um som bom, que ecoava na cozinha aconchegante e afastava um pouco da tensão que sempre carregava nos ombros.
— Desculpa — disse, ainda rindo, o cheiro doce da cebola começando a tomar o ar. — Desculpa por te dar mais coisas para fazer, ao mesmo tempo que encho sua vida com os livros que você tanto amava, mais responsabilidades, e tentativas desajeitadas de te deixar… mais feliz. Sou um anfitrião terrível.
Quixotina riu também, um som mais livre agora.
— Você está sendo espertinho, tentando se desculpar com lisonjas — ela disse, mexendo o conteúdo da panela com energia. — Mas… tem razão. Antes, minha vida era muito simples. Brincar com a Dulcinéia, explorar a mata, sobreviver. Agora… — ela parou de mexer, seu olhar perdendo-se no vapor que subia da panela. — Agora mal brinco com ela. Ela finalmente tem amigas, uma vida. Depois da escola, vai jogar bola, fazer travessuras. Mas… — seu rosto se iluminou, — todo fim de semana, sem falta, ela ainda se enfia no meu colo para eu ler uma história para ela. É nosso ritual. Isso não mudou.
A conversa fluiu daí, fácil e natural. Falaram sobre os desafios da nova escola, sobre a teimosia de Aqua, sobre a performance incrível da trupe. Carlos contou um pouco sobre as “séries” de seu mundo, tentando descrever a magia das histórias seriadas na televisão, e Quixotina ouvia, fascinada, fazendo perguntas pontuais entre uma mexida e outra na panela. A cozinha se encheu de um calor que ia além do fogão: o calor da companhia, do trabalho compartilhado em silêncio, do som suave de duas pessoas se reconectando além dos títulos e das crises.
Finalmente, o jantar estava pronto. Não era um banquete real, mas era colorido e cheirava divinamente. Um frango dourado, coberto com um molho amarelo-vivo de açafrão que tingia os pedaços de batata e cenoura. Ao lado, pequenas tortinhas individuais de massa folhada, recheadas com uma mistura de carne moída temperada e azeitonas. Uma salada de folhas verdes escuras, colhidas provavelmente da horta comunal, completava o prato. Na mesa, uma garrafa de vinho tinto, não da melhor qualidade, mas honesto, e dois cálices de estanho.
Sentaram-se. O primeiro garfo de frango que Carlos levou à boca foi uma revelação. A carne estava macia, o açafrão dava um sabor terroso e levemente amargo que era equilibrado pela doçura dos legumes. A massa das tortinhas era delliciosa, e o recheio, robusto e satisfatório.
— Está incrível, Quixotina — ele disse, e não havia um pingo de falsa cortesia em sua voz.
Ela, porém, mastigava seu próprio pedaço com uma expressão crítica, os olhos meio cerrados.
— Ainda não está… — ela começou, depois suspirou. — Não está tão bom quanto o que eu comia. O açafrão aqui é diferente, mais fraco. A manteiga tem outro sabor. E a massa folhada… bem, é um milagre tê-la feito sequer sair comestível. É uma pena. Às vezes sinto que nem sei mais fazer as receitas da minha própria terra.
Carlos estendeu a mão através da mesa, tocou levemente seu pulso.
— Para mim — disse, sua voz firme e suave, — está absolutamente delicioso. É o melhor frango com açafrão que já comi. E olha que já comi em… em vários lugares.
Quixotina olhou para sua mão sobre o pulso dela, e um rubor subiu em suas faces, visível mesmo na luz suave dos lampiões. Ela retirou o braço com um movimento brusco, mas seu olhar não era de raiva.
— Hah! — ela exclamou, erguendo-se da cadeira com determinação teatral. — Eu que te chamo para jantar, e sou eu quem acaba sendo consolada? Isso não está certo. Não vai ficar assim!
Ela desapareceu por um momento no quarto ao lado. Carlos ouviu o som de uma gaveta sendo aberta, algo sendo movido. Quando ela voltou, trazia nas mãos uma pequena caixa de madeira clara, simples, sem adornos, mas lixada até ficar suave ao toque.
Colocou-a na mesa, diante dele, com um tap suave.
— Você falou sobre como era difícil pensar em um presente para mim — ela disse, sua voz um pouco mais baixa, menos segura. — Pois saiba que é cem vezes mais difícil pensar em algo para te dar. Afinal, o que se dá ao homem que veio de outro mundo? Que tem conhecimentos que parecem magia para nós? Que construiu tudo isso? — Ela fez um gesto vago com a mão, abarcando a cidade além das paredes. — Só sei as coisinhas do seu mundo que você mesmo me conta. Não é muito.
Carlos ficou imóvel, seu garfo esquecido no prato. A surpresa era um nó no peito. Lentamente, como se temesse que a caixa fosse desmoronar, ele a puxou para mais perto e levantou a tampa. O interior era forrado com um pedaço de veludo azul escuro, surrado nas bordas. E sobre ele…
Era um broche. Uma pequena rosa, meticulosamente trabalhada em algum metal prateado e pintada de um vermelho intenso, quase sanguíneo. No centro, no lugar dos estames, uma pequena gema vermelha incrustada, que capturava a luz das gemas da luz e a devolvia em um brilho profundo, quente. Era ao mesmo tempo delicado e resistente. Belo, mas com um ar de durabilidade.
— Quixotina… — a voz de Carlos saiu rouca. Ele limpou a garganta, sentindo uma pressão estranha atrás dos olhos. “A última vez que ganhei um presente…”, o pensamento passou, rápido e dolorido, traçando uma linha até uma vida que já parecia um sonho desbotado. “A última vez foi antes de vir para cá. E mesmo lá, no final, eram só obrigações.” — Você não… não precisava.
Mas as palavras soaram vazias, e ele sabia. Ela também sabia.
— Como não precisava? — ela retrucou, pegando o broche da caixa com uma delicadeza que contrastava com suas mãos calejadas. Seus dedos eram quentes quando tocaram a gola de sua camisa, enquanto ela prendia o broche no tecido. O metal ficou frio por um instante contra seu peito, antes de absorver o calor do corpo. — Você fez tanto. Por mim, pela Dulcinéia, por todos aqui. E eu… soube pela Tassi, que é uma péssima guarda de segredos, por sinal, que você chegou a este mundo no ano passado. Em Junho. Então é um presente de boas vindas a esse mundo.
Ela recuou, seus olhos rubis fixos nos dele, desafiadores e ao mesmo tempo vulneráveis.
— Eu queria te dar isso no seu aniversário. Mas há um pequeno problema: ninguém sabe quando é seu aniversário. Então, chega de mistérios. Me diga. Agora.
Carlos respirou fundo, recompondo-se. O peso do broche no peito era reconfortante, um ponto firme e real.
— Vinte e quatro de novembro — ele disse. E então, um sorriso pequeno surgiu em seus lábios. — E o seu? Eu também não sei nada sobre você, Quixotina. Apenas fragmentos.
Ela pareceu surpresa por um momento, como se nunca tivesse considerado que sua própria história pudesse ser uma incógnita para ele.
— Você tem razão — admitiu, sua voz mais suave. — Ainda tenho muito para te contar. Meu aniversário… não é muito longe do seu. É no dia quatro de dezembro. — Ela fez uma pausa, olhando para o broche em seu peito. — E fiz isso também para compensar por… bem, por ter te chutado naquela manhã. Aparentemente, segundo fofocas que chegaram aos meus ouvidos, “sujei sua imagem presidencial”.
Carlos riu, um som verdadeiro e despreocupado.
— Não sujou nada — disse, acenando com a mão. — Se alguma coisa, solidificou minha imagem de líder que não fica só atrás de uma mesa. E eu… eu peço desculpas por ter falado mal de você, naquele dia. Foi injusto e mesquinho.
Nesse momento, a luz pareceu mudar. Ou talvez fosse apenas a forma como ele a via. A luz das gemas iluminava o perfil dela, suavizando as linhas fortes de seu rosto, fazendo os olhos vermelhos brilharem como brasas sob as cinzas. Havia uma franqueza ali, uma ausência das armaduras usuais, que ele nunca tinha visto antes. A palavra saiu antes que pudesse pensar, carregada de uma verdade simples e avassaladora.
— Você é… muito linda, sabia disso?
Enquanto as palavras ecoavam no ar quieto, sua mão, quase por vontade própria, levantou-se. Seus dedos tocaram sua face, seguindo a linha de sua mandíbula, sentindo a pele suave e quente sob as pontas dos dedos. Era um toque leve, quase reverente.
Quixotina estremeceu sob seu toque. Seu rosto se incendiou num rubor profundo que ia das maçãs do rosto até a ponta das orelhas. Seus olhos se arregalaram, e seus lábios entreabriram-se levemente, num suspiro preso. Ela pareceu parar de respirar, seu corpo inclinando-se imperceptivelmente para a frente, suas pálpebras se fechando pela metade em uma expectativa que era um convite silencioso e poderoso.
O beijo que ela esperava, que o ar parecia exigir, não veio. Carlos hesitou, preso entre o desejo que queimava em seu peito e uma avalanche de dúvidas e medos. “Isso é certo? Ela realmente quer isso? E se eu estragar tudo? E se…”
O momento de hesitação se esticou até se tornar palpável. E então, os olhos de Quixotina se abriram completamente. A expectativa deu lugar a uma centelha de fúria frustrada, e depois a uma resignação teimosa.
— Você é mesmo o homem mais covarde e indeciso que já conheci, Carlos — ela murmurou, sua voz um misto de irritação e afeto profundo.
E então, ela tomou a decisão que ele não conseguiu tomar.
Em um movimento fluido, ela se levantou, fechou a pequena distância entre eles, suas mãos encontrando seu rosto e puxando-o para perto. E beijou-o.
Não foi um beijo impulsivo ou agressivo. Foi lento. Deliberado. Seus lábios eram mais macios do que ele imaginara, e sabiam a vinho tinto e açafrão. Era um beijo que explorava, que perguntava e respondia ao mesmo tempo. Um beijo romântico, do jeito que só Quixotina, com seu coração de cavaleira romântica, saberia dar. O mundo exterior — a cidade, a República, as guerras — desfocou-se, reduzido ao calor de seus lábios, ao sabor dela, ao cheiro de alecrim e pele quente que a envolvia.
Quando finalmente se separaram, foi por apenas alguns centímetros. A respiração dela estava acelerada, seus olhos brilhando como gemas líquidas no escuro.
— Esse — ela sussurrou, a voz rouca e carregada de emoção, — foi o melhor beijo da minha vida. Apesar de que… você não tem muita competição. É apenas o segundo homem que eu beijo.
As palavras, tão honestas e desarmantes, quebraram o último vestígio de tensão. Carlos riu, um som abafado contra seus lábios, e então foi ele quem se inclinou para a frente, capturando sua boca novamente. Desta vez, não houve hesitação. Foi um beijo de resposta, de confirmação, de todos os sentimentos não ditos que haviam se acumulado entre eles por meses.
E a partir daí, tudo foi um desenrolar natural, urgente e suave. Os beijos se aprofundaram, as mãos exploraram, encontrando botões e cadarços no caminho. Eles se levantaram da mesa, ainda entrelaçados, e moveram-se em direção ao quarto num lento vaivém de corpos que se ajustavam um ao outro. Pedaços de roupa — o avental, a camisa, o colete — foram caindo pelo chão da sala, marcando um rastro de intimidade repentina e há muito adiada. A porta do quarto se fechou com um click suave, deixando para trás a mesa com os restos do jantar, as taças de vinho pela metade, e o broche de metal vermelho reluzindo solitário sobre a toalha, uma promessa silenciosa no coração da noite.

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