Índice de Capítulo

    O cheiro era o pior. Poeira de pedra queimada, sangue fresco e velho, e por baixo de tudo, o odor doce e nauseante de carne queimada. Garcia atravessou o salão principal como um fantasma prateado, sua armadura agora amassada e enegrecida, mas as gemas em suas manoplas ainda intactas — apenas dormindo, esperando sua vontade.

    Pelo caminho, ele via os destroços de seu poder. Adeptos do fogo que deveriam estar nas muralhas lançando destruição agora jaziam em posições grotescas — alguns mortos, outros gemendo em agonia, suas mãos queimadas ainda contraídas como garras. Um jovem, não devia ter mais de dezesseis anos, tentava se arrastar, deixando um rastro escuro no chão de pedra. Seus olhos encontraram os de Garcia, suplicando.

    “Será que Peixoto sobreviveu?” A pergunta passou pela mente de Garcia como um relâmpago. 

    Ele alcançou o que restava da muralha leste. Onde antes havia pedra sólida de dois metros de espessura, agora havia um buraco irregular, como a boca escancarada de um gigante morto. Através dela, ele podia ver o campo além, e as formas verdes se movendo metodicamente.

    Então eles apareceram. Primeiro um, depois outro. Soldados republicanos, jovens como o adepto morrendo atrás dele, mas com olhos diferentes — não de terror, mas de foco. Eles observaram rapidamente a cena: os adeptos da terra atordoados tentando se reagrupar, os feridos, a desorganização.

    Um deles fez um gesto com a mão — rápido, eficiente. Um sinal militar. O outro retirou algo de seu cinto: uma das “laranjas” de metal.

    Garcia viu o movimento, viu o objeto arredondado girando no ar em câmera lenta. Algo dentro dele estalou.

    — COVARDES! — o rugido saiu de sua garganta arranhada, ecoando nas pedras quebradas. — Lutem como homens! Cara a cara!

    Seu pé direito esmagou o chão de terra batida. As gemas em suas manoplas acenderam-se com um brilho âmbar — não o brilho solar de antes, mas uma luz cansada, como brasas no final da noite. Mesmo assim, responderam. O solo à frente inchou como um animal acordando, erguendo-se em uma parede de terra compactada que interceptou a granada no ar.

    Mas ela não voltou — explodiu a meio metro do solo.

    O estampido foi seguido por um chuveiro de metal quente. Estilhaços encontraram carne com um som úmido e perfurante. Os gritos que seguiram foram breves, cortados pela morte instantânea.

    Através da fumaça, mais figuras azuis apareceram. Não aos poucos — uma dúzia de uma vez, movendo-se em formação, suas armas estranhas e longas levantadas em uníssono.

    Garcia viu um adepto da terra mais jovem, o filho de seu mestre-de-obras, levantar as mãos para conjurar uma barreira. Os estampidos secos cortaram o ar. Um, dois, três — pequenos buracos apareceram no peito do jovem antes que ele sequer percebesse. Ele caiu de joelhos, depois de frente, seus olhos ainda abertos em surpresa.

    “É aqui”, pensou Garcia, o cansaço se transformando em uma aceitação fria. “É aqui que vou morrer. Mas não como um rato escondido em sua toca.”

    As gemas em sua armadura acenderam-se novamente — cada uma respondendo ao seu comando, fieis até o fim. A luz era fraca agora, tremulando como a chama de uma vela ao vento. A energia vinha dele, e ele estava quase vazio.

    E ele correu.

    Não era a corrida de um guerreiro nobre, mas a carga de um animal encurralado. Seus passos pesados ecoaram no chão de pedra enquanto ele fechava os vinte metros que o separavam do primeiro soldado.

    O homem — menino, realmente, com seu rosto liso e olhos arregalados — mal teve tempo de erguer seu rifle. A espada de Garcia, uma lâmina simples de aço, cortou-o da clavícula até o quadril com um único movimento. O som foi horrível — não apenas de metal cortando carne, mas de ossos partidos, de entranhas encontrando o ar.

    O segundo soldado reagiu mais rápido. Seu rifle cuspiu fogo. Garcia sentiu os impactos em seu abdômen — não como cortes, mas como marteladas quentes, profundas. O ar saiu de seus pulmões, mas seus pés continuaram se movendo.

    A lâmina encontrou o peito do homem, perfurando o uniforme verde, encontrando o coração por baixo.

    O terceiro, o quarto — todos atiravam agora. Uma bala acertou seu ombro, girando-o. Outra varreu sua perna. Ele sentiu o osso rachar.

    Ainda assim, ele alcançou um quinto soldado, agarrou-o pelo pescoço com a mão esquerda — a mão cujas gemas ainda brilhavam fracamente — e esmagou sua garganta.

    Então algo acertou sua cabeça. Não uma bala — uma coronhada de rifle, desferida por um soldado que ele não vira se aproximar. O mundo girou, escureceu nas bordas. As gemas em seu capacete piscaram uma última vez, amortecendo o golpe o suficiente para mantê-lo consciente.

    Garcia caiu de joelhos. A espada escorregou de seus dedos sem força, batendo no chão de pedra com um tilintar final. Ele olhou para cima, viu os canos dos rifles apontados para seu rosto, viu os olhos por trás deles — não triunfantes, não odiosos, apenas… profissionais.

    Com um último esforço, ele ordenou às gemas em seu peito que se acendessem. Elas obedeceram — um brilho fraco, mas constante. As pedras marrons pareciam sussurrar para ele, lembrando-o de séculos de conexão com a terra, que veio tentar protegê-lo em vão.

    A última coisa que pensou não foi de Inês, nem do castelo, nem mesmo na criança morta. Foi da primeira gema que seu avô lhe dera quando criança — uma pequena pedra âmbar, ainda quente da terra. “Esta gema”, o velho dissera, “responderá somente a você. Nunca deixe que caiam em mãos erradas.”

    A salva de tiros foi quase musical em sua sincronia. As gemas em sua armadura piscaram uma última vez quando as balas as atingiram, como se protestassem contra a violência feita ao seu mestre, antes de se apagarem — não mortas, apenas órfãs.

    Do lado de fora, Nzambi observou os últimos estampidos ecoarem do buraco na muralha. Suas mãos, calosas de anos de trabalho forçado antes da libertação, apertaram o fuzil de repetição até que os nós dos dedos ficaram brancos.

    — Verme maldito — ele sussurrou, os olhos fixos no corpo do soldado mais novo de seu pelotão, Diego, que jazia em dois pedaços separados por um metro de sangue. — Mal tinha dezoito anos. Entrou na minha equipe há um mês. Queria servir sob um ‘herói da república’…

    Ele cuspiu no chão, o gosto amargo da bile em sua boca.

    — Mas eu não sou herói. Só um sobrevivente que sabe quando atacar e quando recuar.

    Seus olhos se voltaram para Tiago, o próximo mais próximo. O homem estava sentado contra uma pedra caída, respirando com dificuldade. Um corte feio cruzava seu peito, rasgando o uniforme e a carne por baixo. Sangue escuro escorria entre seus dedos, que pressionavam o ferimento sem muito efeito.

    — Marcos! — Nzambi chamou, sem tirar os olhos do buraco na muralha. — Primeiros socorros no Tiago, agora!

    — Sim, cabo! — O jovem Marcos correu, seu kit médico já aberto. Suas mãos tremiam ligeiramente enquanto aplicava um curativo de pressão.

    Nzambi observou por um segundo, avaliando. “Ferimento profundo, mas não atingiu os pulmãos se ele ainda está respirando assim. A equipe médica com as gemas de cura pode salvá-lo. Ainda bem que os adeptos do vento, o time de resgate, já deve aparecer aqui a qualquer momento, só temos que eliminar as ameaças de toda a área.”

    Ele se levantou, seus joelhos estalando. Aos trinta e cinco anos, ele sentia cada um dos vinte anos que passou minerando e sendo cobaia.

    — O resto, comigo! — sua voz soou mais confiante do que ele se sentia. — Vamos limpar o castelo. Lembrem do treinamento: equipes de dois, cobrindo ângulos, sem heroísmos estúpidos.

    Seu pelotão — o que restava dele — se agrupou. Felipe e Tatiane, com seus rifles. E Marcos, agora terminando os primeiros socorros.

    Eles entraram pelo buraco na muralha, pisando em escombros ainda quentes. O interior cheirava pior que o exterior — morte fresca, mas também o cheiro antigo de pedra úmida e opressão.

    “Bem que poderíamos ter um adepto da visão”, pensou Nzambi, seus olhos escaneando cada sombra. “Ou a Sussurro para nos guiar pelas sombras. Ou a Tainá com suas barreiras de terra…”

    Eles avançaram por um corredor lateral, longe da carnificina principal. A luz entrava por janelas quebradas, criando padrões de claro e escuro que pareciam se mover. Eles andaram pelos corredores, sendo iluminados pelo fogo. Foi quando Nzambi viu.

    No final do corredor, diante de uma porta de madeira pesada, estava uma figura que ele conhecia muito bem.

    O sacerdote do fogo.

    Não era uma alucinação — ele estava lá, tão real quanto a parede atrás dele. Vestia as vestes cerimoniais astecas que Nzambi tentara esquecer, os padrões vermelhos e dourados parecendo sangrar na penumbra. Em sua mão, a adaga com a lâmina de gema roxa escura — a mesma que deixara a maioria das cicatrizes em Nzambi.

    — Nzambi! — a voz do sacerdote era um sussurro que preenchia o corredor. Doce. Paternal. Horrível. — Finalmente te achei. Achou mesmo que poderia escapar para sempre?

    Nzambi sentiu suas pernas enfraquecerem. O cheiro do corredor mudou — agora havia o odor de incenso queimado e carne queimada, o cheiro do templo de sacrifício.

    — Fiquei tão triste quando você fugiu — o sacerdote continuou, dando um passo à frente. Suas sandálias de couro não fizeram som algum. — Mas sabe, sem você, tive que fazer ajustes. A Maria… lembra da Maria? Seus olhos verdes? Tive que sacrificá-la. O Eduardo, que cantava tão bem. Até a pequena Melissa, que mal tinha seis anos…

    Cada nome era uma facada. Nzambi sentiu o suor frio escorrendo por suas costas. Suas mãos no rifle tremiam tanto que a mira balançava.

    “Eu sou livre”, ele pensou, tentando firmar a respiração. “Estou livre. Isso não é real. Ele não está aqui. Só que ele não mentiu… eu abandonei mesmo a Maria, o Eduardo, a Melissa…”

    A figura estava. Sorrindo. A adaga roxa brilhando com uma luz interna que só um adepto do sacrifício poderia fazer pulsar.

    Nzambi começou a apertar o gatilho.

    O tiro que soou não veio de seu rifle.

    Veio de trás dele, passando por sua perna como uma ferroada de vespa quente. Nzambi girou, a dor um choque que o arrancou do transe.

    Felipe estava encostado na parede, seu rosto uma máscara de terror puro.

    — AHHHHHH! — o grito rasgou o corredor. — Sai de perto de mim, monstro!

    Não era Nzambi que Felipe via. Seus olhos estavam fixos em algo à direita de Nzambi, algo que fazia o atirador veterano tremer como uma criança.

    — Felipe! — Nzambi gritou, sua voz áspera. — Felipe, se acalme! Sou eu!

    Mas o homem não ouvia. Seus dedos procuraram o carregador em seu cinto, movimentos automáticos de treinamento tomando conta mesmo em meio ao pânico.

    “Merda”, pensou Nzambi. “Ele vai recarregar e atirar em alguém. Em mim, em Tatiane, em si mesmo.”

    Sem pensar, Nzambi soltou o rifle — que caiu com um baque metálico — e puxou a adaga de sua bainha na coxa. Não uma arma republicana, mas uma lâmina curta feita com a gema do sacrifício— a adaga que ele roubou do sacerdote do fogo.

    Ele cortou a própria palma da mão esquerda. O sangue jorrou, quente e escuro. E enquanto o fazia, ele fixou os olhos no rifle de Felipe, concentrando-se na arma.

    A gema em sua adaga brilhou com uma luz roxa fraca — não a luz vívida da adaga do sacerdote, mas um eco, um fragmento de poder que ele mal controlava.

    E o rifle de Felipe desapareceu.

    Não explodiu, não se desfez — simplesmente deixou de estar ali, como se nunca tivesse existido.

    Felipe olhou para suas mãos vazias, depois para Nzambi, sua confusão superando temporariamente o pânico.

    — Se afaste de mim, monstro! — ele ainda gritou, mas agora havia uma dúvida na voz.

    — Sou eu, Felipe! Nzambi!

    O homem encarou-o, seus olhos ainda selvagens, mas focando. — Cabo?

    — Sim! Algo aqui está mexendo com nossas mentes! — Nzambi já estava se virando, sua mão cortada pressionada contra o uniforme para estancar o sangue. — Tatiane, Marcos, fiquem alerta para…

    Ele parou.

    Tatiane estava alguns passos atrás, seu rosto pálido como giz. Em suas mãos, sua arma estava erguida, o cano tremendo enquanto apontava diretamente para a testa de Nzambi.

    Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

    — Capitão… — ela sussurrou, a voz quebrada. — Eu não estou conseguindo me controlar… tem fios, em meus membros e uma voz me diz para atirar… diz que você matou meu irmão…

    Nzambi não hesitou desta vez. A adaga cortou novamente — desta vez o braço, mais profundo. A dor foi uma linha de fogo, ele focou na arma da Tatiane.

    A gema brilhou. A arma desapareceu.

    Ele cruzou a distância em dois passos e deu um tapa em Tatiane — não um golpe violento, mas firme, decisivo. O estalo ecoou no corredor.

    Os olhos dela piscaram, focaram. — Nzambi? O que…?

    — Não há tempo! — ele interrompeu, agarrando-a pelo braço. — Felipe, você consegue andar?

    O atirador balançou a cabeça, ainda tremendo, mas funcional.

    — Recuamos! Agora! — Nzambi ordenou. — Formação defensiva, voltamos pelo caminho que viemos!

    Mas quando se viraram, o corredor não era mais o mesmo.

    As janelas estavam em lugares diferentes. As portas que haviam passado agora eram paredes sólidas. E o caminho de volta estava bloqueado por uma queda parcial do teto que eles teriam certamente notado antes.

    — Por onde… — Tatiane começou, seu rosto ainda pálido.

    — Nos perdemos — Nzambi concluiu, o sangue escorrendo entre seus dedos agora. “Durante o transe. Andamos sem perceber.”

    Eles seguiram adiante — não por escolha, mas porque era a única direção possível. O castelo parecia respirar ao redor deles, as paredes se aproximando e recuando na penumbra.

    Até que encontraram a outra equipe.

    Ou o que restava dela.

    Quatro soldados republicanos, todos da companhia B, jaziam em uma pequena sala que fora talvez uma despensa. Não havia sinais de luta com inimigos — suas armas estavam ao lado deles, algumas ainda fumegando. A carnificina era íntima, horrível. Dois tinham os crânios estourados a queima-roupa. Outro tinha sua própria baioneta cravada no peito. O quarto estava sentado contra a parede, como se tivesse se sentado para descansar, exceto pelo fato de que sua garganta estava cortada de orelha a orelha.

    — Meu Deus… — Marcos sussurrou atrás deles, o som quase um choro. — Eles se mataram…

    Nzambi engoliu seco, o cheiro de sangue fresco e pólvora queimada enchendo suas narinas. “Não se mataram”, ele pensou, seus olhos escaneando as sombras nos cantos. “Foram levados a isso. Alguém ou algo aqui brinca com nossas mentes como crianças brincam com formigas.”

    — Voltem — ele ordenou, sua voz mais baixa agora. — Voltem pelos corredores, tentem encontrar qualquer marca, qualquer coisa que tenha deixado…

    Mas eles já estavam se movendo, seus passos apressados ecoando na pedra. Não sabiam que estavam seguros agora. Que a fonte de suas alucinações, a arquiteta dos pesadeios que os haviam cercado, já se afastava.

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