Índice de Capítulo

    A poeira da estrada levantava em nuvens densas e avermelhadas com cada passo dos cavalos, grudando na pele suada de Daniel e cobrindo tudo na carroça com uma fina camada de terra. O cheiro era familiar — terra seca, esterco de animal distante e o perfume ácido do suor dos cavalos. Ele estava a três horas de viagem de Areia Branca, seguindo a estrada irregular que serpenteava entre morros baixos cobertos por uma vegetação rala e teimosa.

    “Finalmente”, pensou Daniel, seus dedos nervosos traçando as letras gravadas na capa de seu caderno. “Vou poder ver como minha mãe está. Mas não é só uma visita familiar…”

    Ele olhou para a mochila a seus pés, onde além de roupas e alguns presentes — uma faca nova, um novelo de linha forte, um pacote de açúcar refinado raro — estava seu material de trabalho: cadernos, canetas-tinteiro, carvão para esboços, e a carta de credenciamento do Jornal da Jabuticaba.

    Os outros pedreiros da sua equipe haviam dado de ombros quando anunciou que deixaria a construção da estrada para a Cidade Sagrada.

    — Perda de tempo, Daniel! — dissera o velho Bento, calejado por décadas de trabalho pesado. — Ficar aprendendo a ler e escrever… pra quê? A estrada tá pagando bem, o trabalho é honesto, e a guerra tá longe daqui.

    Mas Daniel queria mais. Sempre quisera. Lembrava-se das noites no quilombo, antes de Carlos, quando sua mãe contava histórias que ela mesma mal conhecia — fragmentos de África, pedaços de línguas esquecidas, memórias que se desfaziam como teia de aranha na chuva. Ele queria fixar histórias, não perdê-las.

    “E graças a ter aprendido a ler…”, seu pensamento continuou enquanto a carroça balançava sobre uma pedra, fazendo-o se segurar na lateral. “Pude entrar para o jornal. E agora tenho uma visita paga para ver minha mãe. Quem diria?”

    Ele suspirou, um som que se perdeu no rangido das rodas e no canto dos pássaros nos arbustos. O ar quente do final da tarde trazia consigo o cheiro distante de lenha queimando — alguém preparando o almoço em alguma casa invisível além das colinas.

    “Tomara que ela esteja bem”, pensou, seus dedos apertando involuntariamente o coldre de couro preso em sua cintura. “Mas mesmo que esteja, vou trazer ela de volta para o mocambo. Eu ganho bem agora, a guerra continua mas a vida só melhora para quem está dentro da República.”

    Sua mente viajou para o futuro. “Talvez um dia Carlos tome Areia Branca, e todo mundo do quilombo volte a fazer parte da mesma nação. Sem muros separando famílias…”

    Foi então que os viu.

    Na próxima encruzilhada, onde uma estrada secundária mais estreita se encontrava com a principal, três homens estavam agachados à sombra de uma árvore retorcida. Não eram trabalhadores — suas roupas eram uma mistura de couro surrado e tecidos roubados de qualidade desigual. E nas mãos, ou apoiadas contra a árvore, estavam armas com gemas embutidas: um bastão com pedras azuis de água, um chicote com uma gema verde-clara da grama, e um arco com uma gema alaranjada de fogo.

    Capitães do mato.

    Daniel sentiu seu estômago se contrair. Sua mão direita moveu-se quase por instinto para o coldre em sua cintura, seus dedos encontrando o metal frio do revólver que Sombra lhe dera.

    — Um preto viajando sozinho fora dos territórios da República é sempre um alvo — Sombra dissera, seus olhos sérios fixos nos dele enquanto entregava a arma. — Mesmo com documentos. Especialmente com documentos. Aprenda a usá-la, e não hesite se sua vida estiver em perigo.

    A carroça seguiu seu caminho, passando a não mais de dez metros dos homens. O rangido das rodas pareceu absurdamente alto no silêncio súbito que caiu sobre a encruzilhada. Daniel manteve os olhos à frente, mas pela visão periférica viu os três observando-o. Avaliando.

    Um deles — o arqueiro — tinha uma cicatriz profunda acima da sobrancelha direita, uma linha branca e irregular que contrastava com sua pele queimada pelo sol. Quando os olhos de Daniel por um instante encontraram os dele, algo passou entre eles: um reconhecimento mútuo de perigo, uma avaliação silenciosa. Depois, ambos desviaram o olhar, seguindo o protocolo não dito dessas estradas — não procurar problemas a menos que necessário.

    A carroça passou. Daniel não respirou até que estivessem a cinquenta metros de distância, até que a curva da estrada os escondesse.

    “São muitos capitães do mato para uma região tão pequena”, pensou ele, seu coração ainda batendo rápido. “Isso significa que o governador está preocupado com algo. Ou que há muitos fugitivos para caçar.”

    Ele sabia a razão, é claro. A Vila da Palma, seu destino, era um experimento — um quilombo “autorizado” pelo governador português, onde negros libertos podiam viver sob supervisão branca. Uma zona cinzenta onde negros podiam andar livres… desde que não tentassem ir para a República. E onde capitães do mato patrulhavam as fronteiras invisíveis, garantindo que ninguém cruzasse na direção errada.

    Uma hora depois, a vila apareceu no horizonte.

    A primeira coisa que Daniel notou foi o muro — não de pedra ou madeira, mas de terra compactada que se erguia a quase três metros de altura, circundando todo o assentamento. Era um trabalho de adeptos da terra, sem dúvida.

    “Isso é para proteção deles?”, pensou Daniel, observando as torres de vigia nos cantos. “Ou é para mantê-los presos aqui dentro?”

    A carroça parou a cinquenta metros do portão principal. Daniel pagou ao cocheiro — um homem velho e silencioso que não fizera uma única pergunta durante toda a viagem — e desceu, sentindo seus músculos doloridos protestarem após horas de imobilidade.

    — Boa sorte, rapaz — o cocheiro murmurou, sua primeira palavras em horas, antes de dar rédea solta aos cavalos e partir de volta para Areia Branca.

    Daniel ficou sozinho na frente do portão. Dois guardas brancos estavam de plantão — não soldados regulares, com seus uniformes azuis ou verdes, mas homens vestidos com roupas civis de qualidade média, armados com espadas e usando óculos. “Adeptos da visão” pensou Daniel ao ver eles.

    — Alto lá! — o mais jovem dos guardas gritou, erguendo uma mão enquanto a outra repousava no punho da espada. — Está proibida a entrada de fujões na Vila da Palma! Somente negros que já vivem dentro podem ir e vir!

    Daniel já esperava por isso. Na verdade, essa era a razão pela qual fora escolhido para esta reportagem, ele era filho da Chefe Maria, uma das antigas líderes de mocambos. E pelo acordo de “paz” que criara a vila, familiares próximos podiam ingressar.

    Ele respirou fundo, sentindo o peso do revólver oculto sob sua camisa.

    — Sou filho da Chefe Maria! — sua voz soou mais firme do que ele se sentia. — Estou fugindo da República sanguinária de Carlos! Quero voltar para minha mãe!

    Por dentro, seu coração martelava contra as costelas. “Convincente”, pensou. “Tem que soar convincente.”

    O guarda mais velho ajustou seus óculos — os tais óculos com gemas da visão que permitiam ver energias mágicas ativas. Ele olhou Daniel dos pés à cabeça, seus olhos parando no coldre e nas mãos vazias.

    — Chefe Maria? — repetiu o guarda, seu tom cético. — Até que você é parecido com aquela preta. — Ele fez uma pausa, um sorriso desdenhoso tocando seus lábios. — Ainda mais porque ela tem aquele cabelo curto que nem homem.

    Daniel manteve o rosto neutro, embora as palavras queimassem. Ele se lembrou do treinamento de Sombra: “Emoção é um luxo quando se está atrás das linhas inimigas. Guarde-a para depois.”

    — Mas mesmo se for filho dela — o guarda continuou, cruzando os braços —, vai ter que falar com o coronel sobre tudo que sabe da República. Ele adora informações… e paga bem por elas.

    Daniel suspirou, um som que parecia carregar o cansaço genuíno da viagem.

    — Eu sei disso e estou disposto — respondeu, deixando um fio de resignação em sua voz. — Mas estou cansado da longa viagem. E estou com saudades de minha mãe. Se eu puder vê-la e descansar um pouco antes…

    O guarda mais jovem deu uma risadinha baixa.

    — Vocês, preto, são tudo preguiçosos mesmo — ele disse, empurrando o portão de madeira pesada que gemeu em seus gonzos. — Tudo bem, pode entrar. O coronel foi para a cidade e só volta de tarde. Quando ele voltar, te chamamos.

    Daniel abaixou a cabeça em um gesto que poderia ser interpretado como submissão ou gratidão. “Ainda bem”, pensou enquanto passava pelo portão. “Ainda bem que não sabem do revólver, essa é uma arma ainda nova que poucos conhecem fora da República, até mesmo dentro dela não é conhecido por todos, mesmo dentro do exército.”

    Ele sabia que os óculos com gemas da visão podiam detectar energias mágicas ativas — armas com gemas, adeptos usando seus poderes, até mesmo certas ilusões. Mas o revólver de Carlos não usava gemas. Usava pólvora, um mecanismo de percussão e física pura. Para as gemas da visão, era apenas um pedaço de metal inerte. Uma arma invisível.

    Dentro dos muros, o mundo mudou.

    O ar era diferente — mais pesado, mais parado, como se o próprio ar estivesse preso. Mas também havia vida. Crianças brincando na poeira, suas risadas agudas cortando a quietude. Mulheres carregando vasilhames de água na cabeça, movendo-se com uma graça que parecia desafiar a física. Homens consertando telhados de palha, seus músculos brilhando de suor sob o sol da tarde.

    Daniel pegou seu caderno e um pedaço de carvão. Suas mãos, habituadas a empilhar pedras e agora a escrever palavras, começaram a tomar notas.

    Casas de taipa ao redor, pequenas hortas comunitárias com pessoas cuidando delas. Elas parecem felizes? Crianças brincam na terra. A vida aqui parece estar no passado, mais simples — antes da primeira fábrica, antes de Carlos… mas isso não é necessariamente ruim…

    Ele caminhou lentamente, seus olhos absorvendo cada detalhe. Alguns rostos eram familiares — pessoas do velho quilombo Jabuticaba que escolheram vir para cá quando a República se formou.

    No centro do assentamento, uma mulher mais velha equilibrava um balde de água na cabeça sem usar as mãos, movendo-se com uma dignidade que transformava a tarefa mundana em algo quase cerimonial. Daniel parou por um momento, observando.

    “Isso é uma visão que não se vê mais no centro da República”, pensou, sua caneta pausando sobre o caderno. “Lá temos cisternas, encanamentos rudimentares, que Carlos projetou. Aqui… aqui ainda se carrega água na cabeça.”

    Ele se aproximou, seu sorriso hesitante.

    — Boa tarde… eu sou o filho da Maria…

    Antes que pudesse completar a pergunta, a mulher baixou o balde da cabeça com um movimento fluido que não derramou uma gota. Seus olhos — profundos, cheios de histórias não contadas — percorreram seu rosto, parando em seus olhos, depois em seu cabelo cortado curto como o da mãe.

    — Daniel? — sua voz era áspera, mas quente como terra ao sol. — O filho da Maria? A quanto tempo!

    Ela colocou o balde no chão e abraçou-o com uma força que surpreendeu Daniel — braços firmes, cheirando a fumaça de lenha e a uma erva doce que ele não reconheceu.

    — Finalmente veio morar conosco? — ela perguntou, seus olhos brilhando. — Pode vir comigo, estou levando água para sua mãe. Ela vai ficar tão feliz!

    Ela pegou o balde novamente, equilibrando-o na cabeça como se pesasse menos que uma pena, e começou a caminhar, gesticulando para que ele a seguisse.

    Daniel guardou o caderno, seu coração apertando-se de uma maneira que não esperava. “Ela me reconheceu”, pensou, seguindo a mulher pelas vielas de terra batida. “Mas eu não lembro dela, talvez seja amiga de minha mãe.”

    Mas mesmo enquanto caminhava, sua mente de repórter não descansava. Seus olhos registravam as casas — mais espaçosas que as do quilombo original, mas ainda modestas. As hortas — bem cuidadas, mas sem a variedade que os adeptos da grama da República conseguiam cultivar. As pessoas — sorrindo, mas com um olhar que sempre parecia meio alerta, meio apreensivo.

    “Parece feliz”, anotou mentalmente. “Mas é uma felicidade vigiada. Cercada por muros. Controlada por guardas com óculos mágicos.”

    A mulher — ele descobriria depois que se chamava Joana — virou em uma esquina e apontou para uma casa um pouco maior que as outras, com uma varanda onde ervas secavam penduradas e um pequeno jardim de plantas medicinais na frente.

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