Índice de Capítulo

    Mudança dos dias de postagem

    Nós últimos meses eu estava postando um capítulo por dia mas manter isso está ficando insustentável, por isso vou postar 3 capítulos por semana na segunda, quarta e sexta.

    Vou ter que fazer isso para continuar mantendo a qualidade da história, assim como meu amor por ela.

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    Dito isso, aproveitem o capítulo.

    O guarda obedeceu, mas com uma cautela que mostrou que, mesmo desdenhando a arma, não era estúpido. Em vez de avançar diretamente, ele tirou uma pequena caixa de madeira do bolso. Dentro, protegida por feltro macio, havia uma gema verde-clara da grama — do tamanho de uma unha — e várias sementes pretas e brilhantes.

    Ele pegou uma semente, murmurou algo para a gema que brilhou em resposta, e a jogou aos pés de Daniel.

    A terra do chão do barracão inchou como carne infeccionada. Um broto verde escuro surgiu, crescendo com velocidade sobrenatural, seus galhos se retorcendo como serpentes verdes em direção às pernas de Daniel, buscando enraizar-se, prender, imobilizar.

    Daniel não pensou. Apenas reagiu.

    O estampido do revólver encheu o espaço fechado, tão alto que fez todos se encolherem, até os capitães do mato endurecidos. A bala — um pequeno pedaço de chomo movido por pólvora, não por magia — acertou o guarda no centro da testa, perfurando os óculos de uma vez, criando um pequeno buraco limpo de entrada e uma saída muito maior atrás. O homem caiu para trás, seu corpo batendo no chão com um baque úmido antes que a planta alcançasse os tornozelos de Daniel.

    O segundo guarda, surpreso pela velocidade e letalidade da arma — pela falta de preparação, de concentração, de qualquer ritual mágico —, hesitou por uma fração de segundo. Foi o suficiente. Daniel girou, mirou (não com os olhos, mas com o corpo, como Sombra ensinara), atirou. O segundo homem caiu, seu óculos estilhaçado voando pelo ar como cacos de vidro brilhante.

    Silêncio. A fumaça da pólvora flutuava no ar em espirais lentas, misturando-se ao cheiro de terra, sangue e morte. A planta, agora sem a energia do adepto que a controlava, murchou e parou de crescer, seus galhos ficando marrons e quebradiços em segundos.

    Ouvindo os tiros, mais capitães do mato surgiram na entrada do barracão — não correndo, mas movendo-se com a eficiência de predadores. Daniel contou rapidamente — agora eram onze no total, mais o coronel. Doze contra um.

    Dois tentaram avançar simultaneamente, suas armas com gemas brilhando — uma lança com ponta de cristal azul, um bastão com pedras de fogo nas extremidades. Dois estampidos secos responderam. Dois corpos caíram.

    Os demais pararam, seus olhos saltando entre as armas mágicas que carregavam e a pequena arma de metal na mão de Daniel — uma arma que matava sem magia, sem brilho, sem cerimônia, apenas com um som seco e morte instantânea. Pela primeira vez, Daniel viu algo além de desdém ou ódio profissional em seus olhos: confusão. E medo. O medo do desconhecido, do inexplicável.

    “Merda”, pensou Daniel, sua mão suada no cabo do revólver, sentindo o peso do tambor, calculando mentalmente. “Três tiros disparados. Três câmaras vazias. Quantas balas restam? Três? Quatro? Não vou poder salvar todo mundo. Há mais homens do que balas. A não ser que…”

    Uma ideia se formou em sua mente. Uma ideia terrível, que o faria sentir-se sujo pelo resto da vida, que mancharia sua honra, que o perseguiria em seus sonhos. Mas era uma ideia que talvez — apenas talvez — salvasse sua mãe. E talvez poupasse o resto da vila da carnificina que sentia pairar no ar como a promessa de uma tempestade.

    — Tem razão! — sua voz explodiu no silêncio, surpreendendo até a ele mesmo. — Sou um espião da República!

    Ele sentiu o corpo de Maria tremer atrás dele. Um pequeno gemido escapou de seus lábios — não de medo por si mesma, mas pelo filho, pelo fardo que ele estava assumindo.

    — E minha mãe me auxiliou no assassinato! — Daniel continuou, suas palavras saindo rápidas, duras, como golpes de facão. — Ela sabia de tudo! Me ajudou a entrar, me escondeu, me deu informações sobre Zala!

    Maria tentou protestar, mas Daniel apertou sua mão com força por trás das costas, um gesto silencioso que dizia: “Confie em mim. Por favor, confie em mim.”

    — Mas só fomos nós dois! — ele gritou, seus olhos fixos no coronel, tentando transmitir uma convicção que não sentia. — Ninguém mais aqui sabia de nada! Tau, Kaion, Fernando — ele apontou para os líderes com o cano do revólver —, são inocentes! Leais ao acordo! E o resto da vila também! São apenas pessoas querendo viver em paz! Mas não vou ser capturado  por vocês! Agora me deixem passar, com ela, vamos voltar a República! Mas deixem os outros em paz!

    Ele fez uma pausa, respirando fundo, sentindo o suor escorrer por suas costas.

    — Ou então mais de vocês vão morrer hoje — ele concluiu, sua voz mais baixa agora, mas mais perigosa. — E eu prometo: se atirarem nela, se tocarem nela, não sairei daqui sem levar todos de vocês comigo.

    “Eles não devem saber que essa arma tem um limite de tiros, vou usar isso a meu favor”, pensou Daniel.

    O coronel observou-o por um longo momento. Seus olhos claros avaliaram a situação com uma frieza que era quase admirável: quatro de seus homens mortos em segundos, uma arma desconhecida que parecia não precisar de recarga mágica, um homem desesperado com nada a perder — e, o mais importante, uma vila inteira ainda para ser “processada”.

    Finalmente, ele sorriu novamente — o mesmo sorriso estreito e sem calor, mas agora com um brilho nos olhos que Daniel não gostou. O brilho de um jogador que vê uma jogada inesperada, mas ainda assim vantajosa.

    — Tudo bem — concordou o coronel, fazendo um gesto teatral para seus homens. — Façam como ele manda. Abram caminho. Deixem o… patriota e sua mãe passarem.

    Ele enfatizou a última palavra com um sarcasmo que pingava veneno.

    Os capitães do mato e guardas restantes recuaram, formando um corredor estreito entre eles — não por medo, Daniel percebeu, mas por disciplina. Eles obedeciam a uma ordem, não a uma ameaça. E em seus olhos, ele viu não derrota, mas paciência. A paciência dos predadores que sabem que a presa ainda será sua, apenas em outro momento.

    Daniel manteve o revólver erguido, sua mão tremendo ligeiramente agora — não de medo, mas de exaustão, da tensão dos últimos minutos, do peso da mentira que acabara de contar.

    — Vamos, mãe — ele sussurrou, sem se virar, seus olhos ainda fixos no coronel. — Fique atrás de mim. Não olhe para os lados. Não olhe para trás.

    Ele começou a andar para trás, afastando-se do barracão, passando pelo corredor de homens armados cujos olhos o seguiam — alguns com ódio puro, outros com curiosidade profissional, outros com uma centelha de medo genuíno da arma desconhecida, da morte sem magia.

    “Espero que isso funcione”, pensou Daniel enquanto alcançavam a porta, a luz do final da tarde os atingindo em cheio após a penumbra do barracão. “Espero que, ao me culpar, ao dizer que fomos apenas nós dois, eles poupem o resto. Tau, Kaion, Fernando… Joana… todas as pessoas da vila…”

    Mas logo seus pensamentos foram interrompidos.

    Assim que ele e Maria saíram da vila os gritos começaram.

    Não vieram de dentro do barracão. Vieram das casas ao redor. Primeiro um — feminino, agudo, de terror puro. Depois outro. E outro. Não eram gritos de dor física (ainda), mas de pânico, de surpresa, de traição. E então, o cheiro chegou até eles, trazido pelo vento que soprava da direção do portão principal: fumaça.

    Maria parou, seus olhos arregalando-se. Ela olhou para trás, não para o barracão, mas para o portão da vila que agora fechava-se atrás deles com um baque final. E para as casas além — de onde agora saíam não apenas gritos, mas ordens gritadas em português, o choro agudo de crianças, os latidos frenéticos dos cães de guarda, o som de portas sendo arrombadas.

    — Não… — ela sussurrou, sua voz um fio de som perdido no crescente caos. — Eles… eles não vão parar. Mesmo com você assumindo a culpa…

    Através das frestas do portão de madeira que agora os separava da vila, eles podiam ver as primeiras labaredas subindo — não acidentais, mas deliberadas, começando em vários pontos ao mesmo tempo. E os gritos continuavam, agora misturados com sons que Daniel reconhecia demasiado bem: o estalar de chicotes, o baque de corpos caindo, o choro suplicante de pessoas sendo arrastadas.

    “No fim”, pensou Daniel, seu estômago embrulhando-se, uma náusea amarga subindo em sua garganta, “para eles a verdade não importava. Nunca importou. Mesmo eu dizendo que era o culpado de tudo. Mesmo eu assumindo a culpa sozinho. Mesmo eu tentando proteger o resto. Zala era apenas uma desculpa. Um pretexto para fazer o que sempre quiseram fazer: acabar com a vila, capturar seus habitantes, enviar uma mensagem clara de que não há ‘acordos’ com fugitivos, apenas submissão.”

    Maria começou a tremer, suas mãos se apertando no vestido. Ela quis gritar. Quis ordenar que Daniel voltasse, que tentasse salvar os outros, que fizesse algo, qualquer coisa. Seus olhos percorreram o portão, buscando uma brecha, uma maneira de voltar, de ajudar.

    Mas quando seus olhos encontraram os de Daniel — os olhos do filho que fizera uma escolha terrível para salvá-la, que carregava agora o peso de uma mentira e de uma culpa que não era sua —, ela viu a verdade que ambos sabiam: mesmo com uma arma poderosa, mesmo com balas mágicas que matavam sem magia, ele não poderia vencer doze homens. E mesmo se vencesse, haveria mais. Sempre haveria mais. E a vila já estava perdida desde o momento em que o coronel decidira que estava perdida.

    Seus olhos encheram-se de lágrimas que não caíram — lágrimas de raiva, de impotência, de uma dor tão profunda que não encontrava saída.

    — Vamos — ela disse finalmente, sua voz quebrada, mas firme, a voz da chefe de mocambo que sobrevivera a piores coisas, que aprendera que às vezes sobreviver é a única vitória possível. — Antes que mudem de ideia sobre nós também.

    Eles viraram as costas para a vila, para os gritos que agora se tornavam mais agudos, mais desesperados, para a fumaça que subia mais alta, manchando o céu do crepúsculo com tons de laranja sujo e cinza. Caminharam pela estrada poeirenta que levava para longe, o som dos estampidos (não de revólver, mas de armas mágicas sendo disparadas), dos gritos, dos prantos, ficando cada vez mais distante, mas nunca completamente silenciados — levados pelo vento, ecoando em suas mentes.

    E em seus corações, enquanto caminhavam na escuridão crescente, um remorso começou a crescer — profundo, amargo, persistente como uma raiz venenosa. Em Daniel, a culpa por ter sido o catalisador, por ter dado a eles a desculpa perfeita, por ter sobrevivido quando tantos morreriam por causa de sua presença. Em Maria, a culpa por ter sobrevivido quando tantos que confiaram nela, que a seguiram para a vila, que a consideravam líder, não sobreviveriam.

    “Carlos tinha razão”, pensou Daniel finalmente, seus olhos fixos na estrada à frente que levava de volta à República, de volta a um mundo onde a verdade às vezes importava, onde as leis às vezes eram justas, onde a morte tinha pelo menos a cortesia de vir com uma explicação. “Ele tinha razão quando disse que esse seria nosso fim. Que não havia como ter acordos ou diálogos com colonizadores. Que eles só entendem duas linguagens: submissão… ou guerra.”

    A última luz do dia desapareceu atrás das colinas, deixando-os na escuridão crescente, caminhando em direção a um futuro que agora carregava o peso de uma vila em chamas, de uma mentira que os perseguiria, e de uma verdade terrível: às vezes, fazer a coisa certa significa fazer a coisa errada. E às vezes, sobreviver — apenas sobreviver — é a parte mais difícil de todas.

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