192. Por Trás do Renascimento II
Antes que Tassi pudesse reagir, as duas assinaturas de vida dos adeptos da visão acima dela se contorceram de repente em ondas de dor aguda. Um bang! surdo veio de cima, seguido de perto por outro. Sombra. Ele havia percebido a ameaça e interveio com a velocidade fantasmagórica que só ele tinha.
Uma voz áspera e familiar ecoou através da terra.
— Presta atenção, Tassi! — era a voz de Sombra, carregada de urgência, mas sem rancor.
Ela sentiu um calor de vergonha no rosto.
— Sinto muito — pensou em resposta, projetando para a gema. — Estava admirando essas tornozeleiras… Mas… acho que está na sua hora. A Papisa está apontando para alguém lá em cima.
A resposta foi um único pensamento, curtíssimo e carregado:
— Merda!
E então a presença de Sombra desapareceu do seu radar sísmico, dissipando-se nas sombras.
Na superfície, Sombra se movia como um pesadelo. De sombra em sombra, de vigia em viga, de estátua em estátua. Cada salto era uma breve queda no vácuo frio, seguida de uma reemergência em um ponto de observação diferente. Ele viu a Papisa apontando para o monge aterrorizado. Viu os soldados hesitando.
“Ela tinha mesmo que inventar um plano tão mirabolante desses?”, pensou, exasperado, enquanto se preparava para o próximo salto. Um plano que dependia da sincronia de uma atriz, um atirador de sombras, uma geomante e meia dúzia de atiradores de elite da Visão posicionados nos telhados ao redor, cuidando para isolar a área.
Ele emergiu da sombra de um confessionário, já atrás do Irmão Anselmo. O monge estava paralisado de medo, olhando para o dedo acusador de Paula. Sombra não precisou de arma. Apenas apareceu na sombra do homem assustado e o puxou. Os dois desapareceram dentro da própria sombra do monge, que se dissolveu na penumbra do altar, levando o prisioneiro para uma cela pré-preparada nos porões.
Enquanto isso, a rede se apertava. Mais guardas corriam, mas encontravam balas misteriosas que acertavam seus pés ou pernas, vindas de janelas altas ou telhados. A cidade, aos olhos despreparados, parecia em paz. Mas estava cheio de atiradores, adeptos da Gema da Visão.
Tassi, abaixo de tudo, sentia cada novo tropel, cada novo agrupamento de soldados. Sua cabeça começava a latejar, uma dor surda atrás dos olhos. Manter a percepção sísmica tão ampla era um esgotamento lento e constante.
“Mesmo que essas tornozeleiras sejam boas… ainda assim é cansativo navegar pela terra…”, pensou, ofegante. O ar na câmara parecia mais rarefeito.
Então, ela ouviu. Não com os ouvidos, mas através do solo, a vibração das palavras da Papisa, amplificadas pela acústica da catedral e transmitidas através das fundações de pedra.
“…julgamento divino!”
A deixa.
Ela parou de respirar. Fechou os olhos, bloqueando o mundo exterior. Sua percepção da superfície era como um mapa de pontos de calor e pressão, sem forma, sem identidade. Ela não sabia quem era quem. Mas a Papisa saberia.
O pé da papisa apontava para os alvos.
Com mãos trêmulas pela fadiga, ela pegou uma munição especial do seu cinto. Feita com a Gema da Terra. Ela a inseriu no tambor do revólver.
Ergueu a arma. Sentiu o peso da terra acima, as camadas de pedra, de entulho, de história. Tentou visualizar o agrupamento de pontos de pressão que o pé da papisa apontava. Tentou distinguir as botas pesadas dos soldados das sandálias dos monges. Era quase impossível.
Ela puxou o gatilho.
O revólver deu um coice brutal em sua mão. A bala partiu acumulando pedra e terra no caminho. Até sair pelo piso, atingindo a pedra de um guarda e cortando ao meio um monge.
Nisso a dor de cabeça explodiu em uma pontada nauseante. A mana estava esvaindo, deixando um vazio frio e trêmulo em seu corpo.
Paula, lá em cima, parecia levar uma eternidade para consolidar o controle. Mas finalmente, Tassi sentiu as vibrações dela se afastando, saindo da catedral, subindo para a praça. O alívio foi quase físico.
O último trabalho. O mais simples, mas também o mais visível.
Ela colocou as duas mãos no chão da sua câmara, ignorando a náusea. As tornozeleiras queimaram contra sua pele. Concentrou-se. Na entrada da catedral, o solo sob os pés de Paula e Carlos começou a trever, a se agitar. Então, suavemente, uma plataforma natural de terra e granito ergueu-se, elevando-os acima da multidão como um palco divino.
Assim que sentiu a plataforma estabilizar, Tassi desligou. O contato com a terra cessou bruscamente, deixando-a desorientada e fraca no escuro. Ela precisava sair dali. Com um último esforço, pisou sob o solo guiando a camera para longe de todos e próximo da superfície.
A bolha de terra que a envolvia moveu-se horizontalmente, uma toupeira mágica e exausta. Ela perdeu a noção de direção, apenas empurrando para longe. Finalmente, quando sentiu que não aguentava mais, pisou abaixo com força, fazendo com que ela fosse expelida.
A superfície se abriu em um jorro de terra e pedras num beco sujo e malcheiroso atrás de uma taverna. Tassi caiu de joelhos na lama, ofegante, cega pela luz do dia após horas no escuro absoluto. Por sorte, quase metade da cidade estava na frente da catedral, ensurdecida pelos discursos. Ninguém viu a jovem suja e trêmula emergir das profundezas como um fantasma da terra.
***
Dentro da catedral, agora um local de poder consolidado e terror recente, Dom Orsini observava tudo com a clareza fria que só o desespero total pode trazer. A farsa estava desvendada para seus olhos.
Enquanto os soldados agora leais prendiam os últimos opositores, a Papisa Paula caminhou em sua direção. O cheiro do incenso não conseguia mais mascarar o odor do sangue e da morte no ar. Ela parou diante dele, e um sorriso genuíno, quase íntimo, tocou seus lábios.
— Dom Orsini — começou ela, sua voz suave, conversacional. — Pode relaxar os ombros. Não farei nada contra você. Pode ir embora para Alba quando quiser.
Orsini ficou paralisado, desconfiando de cada sílaba.
— É o meu agradecimento por ter me avisado sobre o veneno — continuou ela, como se comentasse o tempo. — E já que sou grata, vou lhe dar uma informação de presente. Aquele método de fabricação do aço que o Carlos passou para você… é falso. Uma mistura de meias-verdades e impossibilidades químicas. Inútil.
Ela se inclinou um pouco para frente, baixando a voz.
— Vá para Alba. Conte a todo mundo sobre minha “traição”. E depois… volte. Volte com um exército. Será interessante.
Orsini engoliu seco. Era uma loucura. Um convite para a guerra. Ele suspirou, um suspiro que vinha dos seus sapatos, mas sentiu um fio de alívio por sua própria sobrevivência. Fez um movimento para se virar e sair daquele pesadelo, mas algo o deteve. A curiosidade, do homem que precisa entender o mecanismo por trás do truque.
Virou-se de volta, seus olhos encontrando os dela, desafiadores.
— Como? — a palavra saiu mais áspera do que ele pretendia. — Como você ‘renasceu’?
Paula riu. Um som claro, musical, que ecoou de forma obscena na catedral silenciosa.
— Renascer? Oh, Dom Orsini. — Ela fez um gesto gracioso com a mão em direção ao altar. — Veja bem. Olhe atrás do caixão. Use seus olhos privilegiados.
Orsini, hesitante, ajustou seus óculos. A Gema da Visão sussurrou em sua mente, ampliando, focando. Inicialmente, havia uma… interferência. Uma leve distorção no ar, como calor saindo do asfalto, que borrava a visão. Um truque simples da Luz ou da Escuridão para desviar a atenção. Ele forçou a concentração, sintonizando a gema para ver além das ilusões baratas.
E então viu. Parcialmente escondido pelo massa do caixão de ébano, jogado no chão como um boneco abandonado, estava um corpo. Vestido com as roupas cerimoniais da Papisa. O mesmo rosto. Era o corpo que ele examinara na cripta.
— Mas… como isso é possível? — ele murmurou, mais para si mesmo, sua mente lutando para aceitar o que seus olhos viam.
Paula parecia se divertir com sua perplexidade.
— O que é ‘impossível’? — perguntou, retórica. — Você não percebeu o que aconteceu perto do caixão no momento da ‘luz divina’? Vocês, Adeptos da Visão, confiam tanto em seus olhos que se esquecem do que eles não veem. A Gema do Assassino do meu amigo Sombra consegue fazer muito mais do que fazer pessoas desaparecerem. Consegue esconder movimentos, fazer a mente evitar olhar para certas coisas, como quando ele me trouxe com sua Gema da Escuridão.
Ela caminhou um pouco, seus sapatos fazendo um ruído suave no mármore.
— E quanto ao corpo, digamos que em meu laboratório, me dediquei a alguns estudos… digamos, heterodoxos, com a Gema da Alteração. Descobri que ela pode fazer mais do que regenerar um membro ou suavizar uma ruga. Pode, com tempo, recursos e uma pitada de heresia, criar matéria viva. Moldar carne, osso, cabelo. São corpos sem alma, é claro. Vazios. Como plantas sofisticadas. Pelo menos… por enquanto.
Orsini a olhou, e pela primeira vez, todo o seu cálculo, sua dissimulação, caiu. A verdadeira emoção transbordou.
— Você é louca — disse ele, com uma sinceridade crua e desarmante. — Sabe disso, não é?
Paula riu novamente, mas desta vez o riso tinha um toque de amargura e orgulho.
— Tem razão — concordou, acenando com a cabeça. — Mas foi a minha loucura, Dom Orsini, que me permitiu fazer ‘milagres’. Que me permitiu estar aqui, viva, enquanto meus inimigos planejam meu funeral. Há uma fina linha entre santidade e insanidade, e eu decidi dançar sobre ela.
Orsini não teve resposta. Balançou a cabeça lentamente, derrotado não por armas, mas por uma lógica que transcendia a dele. Virou-se e começou a caminhar em direção à grande porta, cada passo um alívio e uma condenação.
Ao passar pelo limiar, ainda dentro do alcance da voz, ele murmurou, tão baixo que quase foi engolido pelo vasto espaço da nave:
— É uma pena… que estejamos de lados inimigos.
Não tinha certeza se ela ouviu. E não olhou para trás para ver.
Enquanto Orsini partia, um grupo de clérigos, ainda pálidos e trêmulos, aproximou-se de Paula. Mas quem chegou primeiro, quase tropeçando em sua própria pressa, foi Francisco. Seu rosto estava manchado de lágrimas secas e suor, os olhos vermelhos e inchados. Ele parou diante dela, sua respiração era ofegante, e seu corpo tremia visivelmente — uma mistura violenta de alívio, êxtase e uma raiva profunda e confusa.
— Você… — a voz dele falhou. Ele engoliu, tentando se controlar. — Eu achei… pensei que você tinha morrido! E você… você tá viva e nem me falou nada? Nem um bilhete, um sinal, nada?
Paula perdeu o sorriso triunfante. Seu rosto assumiu uma expressão de paciência cansada, mas genuína.
— Francisco — disse ela, o tom mais suave. — Como eu poderia? Você foi visitar sua “família”. E quando você faz isso, some do mapa por semanas. As cartas não te alcançam, os mensageiros voltam. — Ela fez uma pausa, cruzando os braços. — Além do mais, se tivesse lido o jornal, saberia do plano. Tudo estava lá, em letras miúdas e profecias grandiosas.
Francisco ficou em silêncio, a acusação o atingindo em cheio. Ele corara, olhando para os pés.
— Eu cheguei hoje, não vi nenhum jornal. Mas… — a voz dele saiu pequena, quebrada. — Eu vi o corpo. Eu chorei por você.
Paula então sorriu novamente, mas era um sorriso diferente, mais brincalhão, mais próximo do jeito que ela era com ele nos raros momentos de descontração.
— Ah, disso eu sei — disse, e seu tom era desafiador, quase travesso. — Vi tudinho, de camarote. Por uma luneta da Visão, lá do alto. Derramou rios, hein? Até me emocionei, da minha posição estratégica.
Ela esperava que ele se irritasse, que revidasse com alguma piada. Era a dinâmica deles.
Mas Francisco apenas levantou o olhar, e seus olhos, ainda marejados, a encararam com uma sinceridade tão crua que parecia uma agressão.
— Claro que chorei rios de lágrimas por você — disse ele, sem uma pitada de ironia ou vergonha. A voz era rouca, simples. — Somos amigos, não somos?
O sorriso de Paula congelou e, lentamente, desapareceu de seu rosto. A máscara da comandante, da estrategista, da santa, rachou por um segundo. Ela olhou para aquele homem gordo, desarrumado, cujo coração era maior que sua ambição, e viu algo que seus planos mirabolantes não podiam criar e que seus inimigos jamais poderiam destruir.
Ela baixou a cabeça por um instante, e quando a levantou, seus olhos também brilhavam um pouco mais.
— Desculpa — murmurou, e a palavra soou estranha e verdadeira saindo dela. — E… obrigada. É bom saber. É bom saber que se eu sumir… vai ter alguém que vai sentir falta de mim. Não falta da Papisa, ou da Santa… falta de mim. Da Paula.
Francisco não disse nada. Apenas assentiu, uma vez, e um novo tipo de silêncio, carregado de um entendimento profundo e exausto, se instalou entre os dois, no meio do caos que ela mesma havia criado.

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