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    Dentro da sala de reuniões da Prefeitura de Liberdade, o ar estava gelado — um luxo calculado que a jovem República já podia bancar. Alguns Adeptos do Gelo, contratados por turnos, mantinham uma brisa fresca e constante circulando pelo ambiente, afastando o mormaço opressivo do “inverno” nordestino que reinava do lado de fora.

    A sala, um símbolo da nova era, era construída em concreto armado, com linhas sóbrias e funcionais. Em uma das paredes largas, um grande mapa da região, impresso em pergaminho encerado e protegido por uma fina lâmina de vidro, dominava o espaço, um farol para as decisões tomadas ali. Naquele momento, a sala estava repleta, as cadeiras de madeira escura ocupadas, o som abafado das conversas preliminares ecoando contra as superfícies duras.

    A reunião havia terminado. O burburinho de cadeiras sendo arrastadas, cumprimentos e a promessa de trabalho preencheram o ar frio por alguns minutos, até que, um a um, os ministros saíram, mergulhando de volta na umidade quente do corredor. Carlos ficou para trás, recolhendo suas anotações dispersas sobre a mesa de madeira maciça, o som dos passos se dissipando ao longe.

    Foi quando notou. Além do zumbido sutil do frio artificial, havia outro som: o leve ruído de uma página sendo virada. Ele ergueu o olhar.

    No outro lado da mesa longa, sentada com uma postura impecável e ainda vestindo seu traje simples de ministra, estava Paula. Ela não parecia ter pressa. Seus dedos longos tamborilavam levemente na capa de couro de uma pasta, seus olhos, por trás dos óculos de aros finos, fixos nele com uma curiosidade intensa e silenciosa.

    Carlos terminou de empilhar seus papéis, sentindo o peso daquele olhar.

    — Precisa de alguma coisa, Paula? — perguntou, mantendo o tom profissional, mas já suspeitando do que vinha por aí.

    A Papisa sorriu, um sorriso que não era o de estadista ou de santa, mas o de uma criança diante de uma loja de doces.

    — Muitas coisas! — respondeu ela, e a energia em sua voz era contagiante.

    Carlos não pôde evitar um sorriso pequeno.

    — E que coisas seriam essas, Vossa Santidade? — brincou, usando o título formal com uma ponta de ironia.

    — Ah, por favor, dispense os formalismos aqui — ela fez um gesto de desprezo, como se afastasse um inseto. — Apenas me chame de Paula mesmo. E vou direto ao ponto. Agora somos aliados. Aliados de verdade, não apenas por conveniência política passageira. Acho que não precisamos mais esconder coisas um do outro, não é mesmo? Estamos no mesmo time.

    Ela se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na mesa, o brilho em seus olhos se intensificando.

    — Portanto… gostaria de mais informações. Informações reais. Sobre o seu mundo. O mundo da ciência que você menciona, mas que parece ser um universo inteiro por si só.

    Carlos relaxou um pouco na cadeira, cruzando os braços. O frio do ar agora era agradável.

    — Certo… não vejo problema nisso. É um alívio, na verdade. Por onde gostaria de começar?

    A resposta veio rápida e cheia de uma fome genuína.

    — Tudo!

    Carlos arregalou os olhos, depois soltou uma risada abafada.

    “Tudo? Mas que coisa vaga! Bem, ela pediu ‘tudo’. Vamos tentar dar um panorama geral então”, pensou, organizando rapidamente as ideias na cabeça. “Mas preciso avisá-la.”

    — Bom — começou ele, escolhendo as palavras com cuidado. — Posso tentar falar de uma breve… história de tudo. A história contada pela ciência, entenda. Mas preciso avisar: muito do que ela diz vai diretamente contra os dogmas fundamentais de praticamente qualquer fé que eu conheça.

    Paula não pareceu abalada. Ergueu o queixo em um gesto desafiador, seus óculos refletindo a luz fria da sala.

    — Cabe a mim decidir o que é sacrilégio e o que é revelação, Carlos. Fale.

    — Pois bem — ele assentiu, começando a caminhar lentamente pelo lado da mesa. — Vamos começar pelo… começo. O problema é que não sabemos, exatamente, como foi o começo do universo. Mas as evidências que temos… apontam para uma ideia um pouco difícil de imaginar. Tudo o que existe — toda a matéria, a energia, o espaço em si — parece ter estado, um dia, comprimido em um único ponto. Infinitamente denso, infinitamente quente.

    A reação foi imediata. O rosto de Paula se fechou, seus lábios se apertaram em uma linha fina de desaprovação profunda. Era a expressão de uma teóloga ouvindo heresia de primeira grandeza.

    — Isso — ela declarou, a voz cortante — é sacrilégio. Se tudo estava num único ponto, quem criou o ponto? E o que havia antes dele? O vazio? O nada? Isso não faz sentido lógico algum!

    Carlos ergueu as mãos em um gesto pacificador.

    — Calma. Deixa eu desenvolver. E já adianto a resposta para suas perguntas: não sabemos. A ciência, honestamente, não tem uma resposta para o ‘antes’ ou para a ‘causa primeira’. Ela tenta entender o como, a partir do momento em que esse ponto… deixou de ser um ponto.

    Ele voltou para sua cadeira, puxando-a para sentar de frente para ela, como em uma aula.

    — O que sabemos, porque podemos medir, é que o universo está se expandindo. As galáxias estão se afastando umas das outras. E aqui vem algo fascinante: a luz tem uma velocidade. Ela é incrivelmente rápida, mas não infinita. A luz do Sol, por exemplo, leva oito minutos para chegar até nós. Quando você olha para o Sol, está vendo como ele era oito minutos atrás.

    Paula franziu a testa, processando. — Então… se o Sol apagasse agora, só saberíamos depois de oito minutos?

    — Exatamente. E escala. A luz da estrela mais próxima de nós, além do Sol, leva mais de quatro anos para chegar aqui. A luz das galáxias mais distantes que podemos ver… leva bilhões de anos. Estamos vendo o passado do universo. E estudando a luz dessas galáxias antigas, podemos dizer do que elas são feitas.

    — Como? — a interrupção de Paula era ávida, não hostil. — Como se pode ver a composição de algo apenas pela luz?

    — Através de algo chamado espectro — Carlos explicou, animando-se. — Quando você decompõe a luz com um prisma, ela vira um arco-íris. Mas se essa luz vem de um gás quente, como o hidrogênio ou o hélio, esse arco-íris tem linhas escuras, ou brilhantes, em lugares específicos. São como impressões digitais. Cada elemento deixa sua marca única. E nessas galáxias mais antigas… vemos quase que apenas as marcas do hidrogênio e do hélio, os elementos mais leves e simples. Os elementos pesados — o ferro do seu broche, o silício do vidro, o carbono da nossa pele — ainda não existiam. Eles foram forjados mais tarde, no coração de estrelas que viveram e morreram.

    Paula ficou em silêncio por um longo momento, seus olhos perdidos em um ponto distante da parede de concreto. Carlos podia quase ouvir o ruído das engrenagens em sua mente trabalhando a toda velocidade, tentando acomodar uma cosmologia que não tinha lugar para um ato criativo único e pessoal.

    — E essas estrelas… como nascem? — ela perguntou, finalmente, sua voz mais suave, contemplativa.

    E assim começou uma dança intelectual que duraria horas. Carlos falava, traçando ideias no ar, usando a caneta-tinteiro para desenhar esboços rudimentares em uma folha em branco — órbitas planetárias, a estrutura de um átomo, a dupla hélice que ele mal conseguia lembrar. Paula era uma esponja, mas uma esponja crítica. Cada afirmação era recebida com uma enxurrada de perguntas.

    “Mas se a Terra gira tão rápido, por que não somos arremessados para o espaço?”

    “Como uma célula ‘sabe’ o que fazer? Existe uma centelha vital, ou é tudo química?”

    “Você disse ‘eletromagnetismo’. Seria uma força semelhante a magia das gemas?”

    Carlos respondia, às vezes precisando parar, fechar os olhos e vasculhar os confins da memória de um engenheiro civil para lembrar de detalhes de física do ensino médio ou de documentários assistidos uma vida atrás. Era exaustivo, mas também… eletrizante. Ver a mente brilhante e inquisitiva de Paula, treinada em teologia e magia, colidir e tentar assimilar os princípios da ciência moderna era um espetáculo único. A frustração inicial dela deu lugar a uma curiosidade pura, quase infantil em sua intensidade.

    Por sua vez, Carlos se descobria revigorado. Ensinar, explicar, conectar conceitos… era um prazer que ele quase esquecera. “Ela é a primeira pessoa aqui que realmente entende a magnitude do que estou falando”, pensou, enquanto tentava explicar a relatividade do tempo de forma não matemática.

    As horas voaram, imperceptíveis. O retângulo de luz amarela que o sol projetava pela janela alta foi se alongando, escurecendo, até se tornar um losango alaranjado e, depois, desaparecer. A luz fria das gemas de iluminação embutidas no teto tornou-se a única fonte, lançando sombras profundas na sala agora silenciosa, exceto por suas duas vozes.

    — Nossa, veja as horas! — exclamou Paula, finalmente olhando para a janela escura, surpresa. — Tenho que voltar para a Cidade Sagrada! Minha guarda deve estar em polvorosa.

    Ela começou a recolher seus próprios papéis, mas parou, como se se lembrasse de algo. Com um movimento preciso, tirou de dentro de sua pasta um volume encadernado em couro desgastado, com páginas amareladas e bordas irregulares.

    — Ah, quase esqueci. O Francisco conseguiu isso com uns contatos na sua tribo originária. Era este livro que você queria, não era? — ela estendeu o livro para Carlos.

    Ele pegou-o com cuidado. Era um livro de seu mundo moderno. Folheou algumas páginas, seus olhos percorrendo fórmulas e descrições de experimentos com metais e ácidos.

    — Sim, exatamente! Obrigado, isto é… inestimável.

    Paula observou-o, um sorriso irônico nos lábios.

    — Eu dei uma olhada, antes de trazer. E só te digo uma coisa: se este livro tivesse caído nas mãos da Inquisição em Santa Maria, eu mesma, como Papisa, teria provavelmente ordenado que fosse queimado. É complexo, parece não fazer sentido… fala de ‘partículas’ e ‘reações’ como se fossem espíritos invisíveis brigando.

    Ela fez uma pausa, seu olhar ficando mais sério.

    — Mas depois de ouvir você falar esta tarde… mesmo que seja só a ponta do iceberg… algumas coisas no livro começaram a fazer um sentido terrível. Um sentido que poderia mudar tudo.

    — E vai mudar tudo. Aliás, você mencionou que o Francisco conseguiu o livro através de sua tribo. Ele, por acaso, viu o tal altar deles? Aquele que poder ter alguma ligação com o altar que Quixotina descobriu? Fetio da mesma gema que possa ter alguma relação com a minha… chegada? Havia alguma inscrição, algum símbolo diferente?

    Paula abanou a cabeça, e um lampejo de frustração profissional passou por seus olhos.

    — Infelizmente, não. Pelo que Francisco conseguiu descrever, o artefato que eles reverenciam não é um altar complexo. É apenas uma Gema da Invocação, sim, mas de um tamanho incomum. Do tamanho de uma mesa de centro pequena, bruta, embutida em uma base de pedra simples na caverna sagrada deles. Nenhum glifo, nenhum padrão de ativação visível além do intrínseco à pedra.

    Carlos deixou escapar um suspiro, misto de desapontamento e fascinação resignada. 

    — É uma pena — murmurou, sua voz mais baixa. — Quanto mais aprendo sobre esse mundo, mais percebo que só existem mistérios em volta dessa gema em particular. As outras… têm lógica, aplicações que podemos mapear, mesmo que sejam extraordinárias. Mas a Invocação… ela parece operar por regras totalmente diferentes. Parece que ela não apenas invoca e some, parece que atrai… E a única pista concreta que eu tenho de como cheguei aqui é justamente uma delas.

    Paula concordou com a cabeça, seu expressionismo científico plenamente engajado.

    — A igreja nem tem registros dessas gemas que aqui parecem serem relativamente comuns. — Ela fez uma pausa, olhando para Carlos com uma curiosidade renovada. — Você é a prova viva de que ela pode trazer mais do que livros e artefatos. Trouxe uma consciência, um conhecimento inteiro de um outro… lugar. Seja ele outro mundo, como você diz, ou um recanto distante do nosso próprio de que não temos registro. Isso é inédito.

    Carlos deixou a caneta cair sobre a mesa com um leve toc.

    — E isso me deixa com mais perguntas do que respostas. Mas… — ele forçou um sorriso, afastando a melancolia —, por hoje, acho que já extrapolamos nossa cota de mistérios cósmicos. O mistério de como fazer o jantar aparecer na minha mesa é mais premente.

    Paula riu, o som claro quebrando a atmosfera contemplativa.

    — Justo. Mas não pense que vou deixar isso de lado. Um dia, quando esta república estiver estável e pudermos respirar, eu quero examinar essa gema da tribo do Francisco. Com você por perto. Quem sabe a presença do… ‘invocado’… não provoque alguma reação?

    — Combinado — disse Carlos, levantando-se. — Mas só se prometer não me usar como isca para alguma entidade multidimensional. Vai saber o que essas gemas invocam.

    — Não prometo nada — respondeu Paula, com um brilho travesso nos olhos, enquanto também se levantava para finalmente encerrar a noite. Enquanto segurava o livro de química com firmeza, sentindo seu peso simbólico.

    — Ele vai ajudar demais. Com isso, talvez possamos começar a produzir sulfeto de mercúrio. Isso sozinho mudaria o jogo na artilharia, naval e terrestre. Ou então sintetizar cloro para desinfecção, éter para anestesia… — sua voz ficou mais sombria — especialmente agora, sem as ferramentas mágicas de cura à nossa disposição.

    Paula soltou um leve sorriso, misto de admiração e cansaço.

    — Pelo visto, você não cansa de trabalhar, mesmo depois de uma aula de cinco horas sobre a criação do universo.

    Carlos riu, um som genuíno e cansado.

    — Cansar, eu canso. Minha cabeça está latejando de tanto pensar. Mas… vale a pena. Só de ver a praça de Liberdade cheia de sorrisos, de ver pessoas chegando de Ouro Branco, de Santa Maria, de lugares distantes… pessoas livres, procurando uma vida melhor, dando uma chance ao que estamos construindo… isso recarrega as baterias.

    — Você é realmente uma pessoa incrível, Carlos — disse Paula, sua voz carregada de uma sinceridade rara, enquanto os dois finalmente se levantavam e saíam da sala gelada, entrando no corredor mais quente.

    Passavam pela porta aberta do Ministério da Agricultura, ainda iluminada, quando Carlos notou uma silhueta curvada sobre uma pilha de papéis.

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