Índice de Capítulo

    — Não deixa ela falar contigo.

    Lucas cuspiu as palavras entre os dentes, a voz rouca e baixa.

    — Só… fica quieto.

    Kael se abaixou e segurou Lucas pelo braço, erguendo-o com cuidado. O peso do homem caiu sobre o ombro dele assim que ficou de pé.

    Lucas gemeu.

    Um som curto, involuntário.

    Logo depois veio a tosse.

    Sangue escuro respingou na terra.

    Kael olhou para o lado do corpo dele.

    A lateral direita do peito estava afundada, as costelas formando um arco estranho sob a pele ensanguentada.

    — Ela quebrou suas costelas? — perguntou, analisando o ferimento.

    Lucas balançou a cabeça devagar, respirando com dificuldade.

    — Não… — ele engoliu ar entre os dentes. — Tem outra besta com ela.

    Kael franziu a testa.

    — Outra?

    — Grande… — Lucas murmurou. — Muitas bocas… parece… uma cauda. Ela protegeu a cobra quando fomos atacar.

    Kael parou.

    Fomos?

    Ele virou levemente o rosto.

    — Você foi atrás dela com quem?

    Mas a pergunta morreu antes de terminar.

    O ambiente mudou.

    Não foi um som.

    Não foi movimento.

    Foi a mana.

    Uma ondulação suave atravessou o ar, como calor subindo de uma pedra aquecida pelo sol.

    Kael parou imediatamente, segurando Lucas com mais firmeza.

    — O-o que foi? — Lucas sussurrou.

    — Quieto…

    Kael não se virou de imediato.

    Primeiro observou.

    Entre os troncos da mata havia algo errado com a luz.

    Um trecho onde as folhas pareciam desalinhadas, como se fossem vistas através de vidro irregular.

    Lucas percebeu no mesmo instante.

    A respiração dele falhou.

    — …é ela.

    Kael girou o corpo lentamente, ainda sustentando Lucas.

    Entre as árvores, a silhueta translúcida se moveu.

    Não caminhava.

    Deslizava.

    A distorção avançou alguns centímetros.

    E então parou.

    Observando.

    Kael abaixou Lucas devagar até o chão.

    A lança já estava na mão quando ele se levantou novamente.

    Os olhos não saíram da figura.

    Então a voz veio.

    — Kael…

    A voz era de Lucas.

    Perfeita.

    Lucas agarrou o braço de Kael com força.

    — Não responde…

    A distorção vibrou no ar.

    E então se desfez.

    A criatura se revelou entre as árvores.

    Da cintura para cima, uma mulher.

    Pele oliva iluminada pela luz morrendo do entardecer.

    Cabelos negros escorrendo lisos até a cintura.

    Olhos amarelos, brilhando com curiosidade.

    Da cintura para baixo, o corpo de uma serpente de escamas verde-escuras se enrolava preguiçosamente entre raízes e folhas secas.

    Adornos tribais de couro e pequenos ossos balançavam nos ombros e braços.

    Nada pesado.

    Nada que impedisse movimento.

    Ela observava Kael.

    E sorria.

    Não era um sorriso de fome.

    Era interesse.

    Como alguém diante de algo raro.

    Então a voz mudou.

    Frágil.

    Trêmula.

    — …mãe…

    Kael ficou imóvel.

    — …Kael…

    A respiração que acompanhava a voz era irregular.

    Ofegante.

    — …tá doendo…

    Lucas rosnou baixo.

    — Desgraçada…

    — Calma — Kael murmurou, a mana já circulando pelo corpo.

    Lucas engoliu em seco.

    — Mas… é a voz da Mira.

    — Eu sei.

    A voz continuou.

    Perfeita demais.

    O choro contido.

    A respiração quebrada.

    — …pai…

    Kael não reagiu.

    A Lâmia observava cada detalhe do rosto dele.

    Então falou novamente, agora com a própria voz.

    Suave.

    Quase gentil.

    — Você é diferente.

    Ela inclinou a cabeça, analisando-o.

    — Os outros quebraram mais rápido.

    Kael ajustou a postura.

    A ponta da lança baixou alguns centímetros.

    Não por relaxamento.

    Por cálculo.

    A serpente sorriu.

    — Vai me atacar?

    Ela inclinou o rosto, curiosa.

    — Então tente.

    Kael respirou fundo.

    A mana percorreu o braço.

    A ponta da lança começou a brilhar em vermelho.

    O ar ao redor dela tremulou com o calor crescente.

    — Você que atacou eles? — perguntou.

    A Lâmia pareceu pensar por um instante.

    Como se realmente estivesse tentando lembrar.

    — Eu?… Talvez.

    Lucas prendeu a respiração.

    Kael deu meio passo à frente.

    — É bom se lembrar. Pelo menos precisa saber por que vou te matar.

    Nesse instante Lucas agarrou o braço dele.

    Forte.

    — Kael… não.

    A voz saiu quase sem ar.

    — Tem outro.

    O mundo pareceu ficar quieto por um segundo.

    Kael olhou novamente para o ferimento de Lucas.

    Profundo.

    Rasgado.

    Não era marca de serpente.

    A Lâmia voltou a sorrir.

    Agora mais largo.

    Divertido.

    — Viu?

    Ela olhou diretamente para Kael.

    — Eu disse que você era diferente.

    O sorriso começou a desaparecer enquanto o corpo dela se dissolvia outra vez na distorção de mana.

    — Vou gostar dessa caçada.

    O corpo serpentino deslizou para trás entre as árvores.

    Sem pressa.

    Sem medo.

    A ondulação no ar voltou a engolir sua forma.

    E poucos segundos depois restava apenas a floresta.

    Silenciosa.

    Como se ela nunca tivesse estado ali.

    Kael esperou alguns segundos sem se mover, os olhos varrendo lentamente as árvores. O sol já estava baixo o suficiente para que a mata começasse a se encher de sombras longas, e entre os troncos a luz do entardecer parecia mais fraca, mais espessa.

    Nada se mexia.

    Nenhum som.

    Nem mesmo o canto dos pássaros retornando para os ninhos comuns da região.

    Só o vento passando pelas folhas.

    Ele finalmente se abaixou e segurou Lucas novamente.

    Quando o ergueu, o homem soltou um gemido abafado.

    — Devagar… — Lucas murmurou entre os dentes.

    Kael passou o braço dele por cima do próprio ombro e começou a caminhar pela estrada de terra, de volta para a vila.

    Os passos eram lentos.

    Controlados.

    A lança continuava firme na mão direita.

    Ele não olhava apenas para frente.

    O olhar se movia o tempo todo.

    Troncos.

    Arbustos.

    Copas.

    Sombras.

    Cada espaço onde algo poderia estar escondido.

    Lucas respirava com dificuldade.

    — Desculpa… — ele murmurou.

    Kael não respondeu de imediato.

    — Eu falhei em proteger os outros.

    — Fica quieto. Não foi sua culpa.

    Lucas apertou os olhos, respirando com dificuldade.

    — Você deixou eles sob minha proteção e…

    Kael virou o rosto para ele por um instante.

    — Garoto.

    A voz saiu firme.

    — Eu também não estava aqui para proteger vocês. Então para de se culpar e me ajuda a entender como tanta gente sumiu… e quase não há sinal de luta.

    Um estalo seco de galho quebrando interrompeu os dois.

    Kael parou.

    Os olhos se moveram imediatamente para a linha da floresta.

    Lucas prendeu a respiração.

    O silêncio voltou.

    Pesado.

    — Ela… ainda tá aí… — Lucas murmurou.

    — Eu sei.

    Kael retomou a caminhada.

    Mas não acelerou.

    Predadores perseguem presas que correm.

    Ele não iria correr.

    O caminho parecia mais longo agora.

    A estrada serpenteava entre árvores antigas cujas raízes levantavam o chão em ondulações irregulares. A luz dourada do entardecer começava a desaparecer, tornando-se lentamente azulada à medida que o sol desaparecia atrás da floresta.

    Lucas tossiu novamente.

    Desta vez o sangue veio mais escuro.

    — Aquela coisa… — Kael sussurrou. — A outra Besta… você a viu certo? Como ela era?

    — Não muito bem.

    Kael manteve os olhos na estrada.

    — Ela veio de baixo da terra — Lucas continuou, a voz fraca. — Tinha… o que pareciam quatro cabeças… mas ela me acertou com a cauda.

    Ele respirou fundo antes de continuar.

    — Lembro de ver o Roger cortando uma das cabeças… mas ela pareceu não ligar.

    Kael parou.

    Por apenas um segundo.

    O olhar desceu até o chão da estrada.

    Terra batida.

    Pedras.

    Folhas secas.

    — Não conheço nenhuma besta assim.

    A sensação voltou.

    A mesma que ele sentira antes.

    Uma curta oscilação.

    Como se algo os observasse de algum ponto da mata.

    Kael virou o rosto lentamente para a direita.

    Depois para a esquerda.

    Nada.

    — Kael… — Lucas murmurou.

    — Continua andando.

    Os dois seguiram.

    A vila já começava a aparecer entre as árvores. Algumas casas de madeira surgiam na distância, suas janelas escuras como olhos vazios.

    Mas a sensação não foi embora.

    Ela ficou.

    Colada na nuca de Kael como uma respiração fria.

    Ele parou novamente.

    Desta vez de forma mais brusca.

    Lucas percebeu.

    — O que foi?

    Kael não respondeu de imediato.

    Os olhos estavam fixos na linha da floresta atrás deles.

    Alguma coisa tinha se movido.

    Ou talvez fosse apenas o vento.

    Mas o instinto dele não aceitava aquela resposta.

    A mão apertou a lança.

    A mana começou a circular lentamente pelo braço.

    Silêncio.

    Depois de alguns segundos, Kael voltou a andar.

    Mas agora mais rápido.

    Eles já estavam na vila.

    E ainda assim…

    O desconforto continuava.

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