Índice de Capítulo

    A varanda dava para o lado leste do castelo.

    Lysvallis havia escolhido por isso.

    Dali dava para ver o mercado, o rio cortando a cidade ao meio, as bandeiras de Altheria e Cervalhion nas hospedarias do distrito central.

    Elenys estava apoiada no corrimão ao lado dela com a xícara nas mãos, o olhar no horizonte com a expressão de alguém que ainda estava processando algo que havia começado muito antes da conversa atual.

    — Elandor não vai conseguir segurar — disse Lys.

    — Não com duas fortalezas destruídas.

    — Três, se Naira e Thamir continuarem no ritmo que estão.

    Elenys girou levemente a xícara entre os dedos.

    — Alto Lírio é diferente das outras.

    — É a capital.

    — É onde está a Árvore-Mãe.

    Lys ficou em silêncio por um segundo.

    — Se cair e a verdade for exposta, Elandor perde o argumento central da narrativa que sustenta a extração.

    — E perde a renda.

    — E perde a renda — ela confirmou.

    O vento passou entre as duas sem pressa.

    Elenys virou levemente o rosto na direção dela.

    — Altheria vai ter que se posicionar antes que isso aconteça.

    — Altheria já está se posicionando.

    — Publicamente?

    — Ainda não.

    Elenys assentiu em reconhecimento.

    Seis semanas de caravana haviam ensinado isso à Matriarca da Casa Seryn de formas que nenhum conselho formal conseguiria.

    — Veynar vai usar a instabilidade de Elandor como argumento para pressionar o Conselho — disse Elenys depois de um momento.

    — Eu sei.

    — Antes que você volte.

    — Eu sei… Ydrine também não vai perder a chance.

    — Isso não te preocupa?

    Lys olhou para o rio lá embaixo.

    — Thalien está lá.

    Elenys ficou quieta por um segundo.

    — Isso é resposta?

    — É a única que preciso dar.

    O canto da boca de Elenys se moveu.

    Não era sorriso exatamente.

    Era o tipo de expressão que aparece quando alguém reconhece uma lógica.

    Lys havia aprendido a ler esse movimento específico durante a caravana.

    Levara mais tempo do que deveria.

    Elenys escondia bem.

    O barulho do som de botas chegou antes que ela localizasse a origem.

    Não alto.

    Só diferente.

    O tipo de movimento que não pertencia ao ritmo normal de troca de turno ou patrulha de rotina.

    Lys ficou imóvel.

    Seus olhos varreram o pátio abaixo sem que a postura mudasse.

    Soldados.

    Direção específica.

    Velocidade específica.

    — Elenys.

    — Já vi.

    As duas ficaram em silêncio por um momento, observando.

    Dez.

    Vinte.

    Mais além do ângulo da varanda.

    — Não é troca de turno — disse Elenys baixinho.

    — Não.

    — E não avisaram ninguém.

    — Não.

    Lys afastou a xícara do corrimão com movimento calmo.

    Pousou sobre a pequena mesa ao lado.

    Um dos soldados próximos à entrada da varanda virou o olhar na direção delas.

    Depois de volta para frente.

    Mas o movimento havia durado um segundo a mais do que deveria.

    Lys notou.

    Elenys também.

    As duas não precisaram se olhar para saber que a conclusão era a mesma.

    Foi Elenys que falou primeiro, a voz no mesmo tom de conversa casual que havia usado durante toda a tarde.

    — Porta ou varanda?

    — Varanda — disse Lys.

    O soldado ao lado da entrada se moveu um passo na direção delas.

    Lys já havia aberto a mão.

    Não precisou pensar.

    A mana saiu dos dedos como uma exalação fria, densa, silenciosa. Espalhando pelo chão da varanda antes que o soldado completasse o segundo passo.

    Primeiro o chão desapareceu.

    Depois o corrimão.

    Depois a mesa com as xícaras ainda quentes.

    A névoa não era rápida.

    Era imparavel.

    O tipo que não avança em linha reta mas preenche cada espaço disponível como água encontrando nível.

    Entre as colunas, contra as paredes, ao redor dos pés do soldado que havia parado no meio do movimento com a mão estendida para nada.

    O frio chegou junto.

    Não agressivo.

    Só presente.

    Um frio que lembrava a quem estava dentro dele que não era o ambiente natural daquele lugar.

    O soldado desapareceu dentro da névoa antes de decidir o que fazer.

    Elenys já havia se movido.

    Lys acompanhou pela névoa que só ela conseguia ler completamente.

    A escada lateral surgiu onde ela sabia que estaria.

    Desceram sem barulho.

    O corredor interno estava livre.

    Por enquanto.

    — Para onde? — disse Elenys, a voz baixa mas sem urgência.

    Lys estava calculando.

    A movimentação dos soldados tinha direção.

    Ela havia rastreado antes de sair da varanda.

    Distrito da torre.

    Setor leste do castelo.

    — Siga.


    Aedin saiu pelo portão principal com Eldrik dois passos atrás.

    Lys os viu do ângulo do corredor antes que eles virassem.

    Armaduras.

    Não cerimonial.

    Uso pratico.

    Ela parou.

    Elenys parou junto.

    — Majestade.

    A voz de Lys saiu no tom correto, firme, sem urgência, sem pergunta embutida que pudesse ser ignorada facilmente.

    Aedin virou o rosto.

    Apenas o rosto.

    O corpo já apontava para fora.

    — Lysvallis.

    — O que está acontecendo?

    Um segundo de silêncio.

    — Assunto interno. Nada com que vocês precisem se preocupar.

    Os olhos dele encontraram os dela por exatamente o tempo necessário para comunicar que a conversa havia terminado antes de começar.

    Depois ele continuou andando.

    Dois soldados pararam em frente a elas.

    Eldrik vinha dois passos atrás de Aedin.

    Lys ficou onde estava.

    Esperou.

    Eldrik sempre olhava.

    Não era algo que ela havia notado de forma consciente até aquele momento, era um padrão previsível, era o tipo de comportamento que ela havia classificado e arquivado sem dar peso específico.

    Mas estava lá toda vez.

    No salão do trono quando Lys havia chegado.

    No jardim durante o duelo com Danurem.

    No baile quando ela havia dançado com ele e os olhos dele haviam procurado o que não estava procurando ela.

    Sempre havia o olhar.

    Eldrik passou.

    Os olhos dele foram para frente, para o portão, para o caminho que Aedin havia tomado.

    Em nenhum momento para ela.

    Lys ficou de pé no corredor por um segundo depois que os dois desapareceram.

    Elenys estava ao lado dela.

    Não disse nada imediatamente.

    Depois:

    — Eldrik não te olhou.

    — Eu sei.

    — Ele sempre te olha.

    — Eu sei.

    O que aquilo significava ela não sabia ainda.

    Mas significava alguma coisa.

    Lys virou na direção da torre.

    Os soldados tentaram bloquear duas vezes.

    A primeira vez, a névoa resolveu antes que precisassem mudar de rota.

    A segunda, Elenys usou terra, discreta, só o suficiente para travar uma porta que estava sendo fechada à frente delas antes que fechasse completamente.

    Nenhuma das duas falou sobre isso.

    O beco apareceu quando dobraram a última esquina antes da torre.

    Os soldados estavam lá.

    Em Formação.

    Não patrulha.

    Um Cerco.

    Lys parou na sombra do arco de pedra que separava o corredor externo do beco, Elenys um passo atrás.

    A torre da arquimaga estava visível além dos soldados.

    Janelas iluminadas no terceiro andar.

    Lys ficou imóvel.

    Contou os uniformes.

    Os símbolos de contenção nas armaduras.

    Os cristais nos punhos.

    — Caçadores — disse Elenys, a voz sem volume.

    Lys não respondeu.

    Estava calculando.

    Por que a torre de Maelis.

    Por que agora.

    Onde está Ian?

    O estrondo veio do terceiro andar antes que ela terminasse.

    Madeira e ferro.

    Não vindo de fora para dentro.

    De dentro para fora.

    Os soldados no beco reagiram imediatamente, posturas de combate, cristais nos punhos acendendo, o cerco se fechando levemente em direção à base da torre.

    Lys ergueu o olhar para a janela iluminada do terceiro andar.

    O vidro havia ido junto com a moldura.

    Fragmentos ainda caíam quando a figura apareceu na beirada.

    Por menos de um segundo.

    Lys reconheceu a postura antes de reconhecer o rosto.

    A forma como o peso estava distribuído.

    A largura dos ombros.

    A ausência completa de hesitação mesmo no momento errado.

    Ian.

    O vento puxou o casaco de Ian para trás, abriu os cabelos de Maelis no ar e fez os fragmentos de vidro girarem ao redor dos dois como estrelas frias.O mundo inteiro pareceu reduzir.

    Depois veio a queda.

    Os braços dele seguravam alguém firmemente e o vento abriu os cabelos negros como leque antes que a gravidade resolvesse a direção.

    Três andares.

    Lys contou sem querer.

    O impacto foi seco.

    Os dois pés primeiro, depois o joelho direito, a mana ao redor dele pulsando de forma irregular no momento do contato com o chão, não o azul constante e estável que ela havia aprendido a reconhecer como linha de base dele, mas algo mais fraco, pulsando fora de ritmo, como chama em vento que não consegue decidir se apaga ou não.

    A mulher nos braços dele se soltou.

    Se endireitou.

    Os cabelos negros caíram no lugar.

    Maelis.

    Lys ficou olhando.

    Para Ian ainda com um joelho no chão.

    Para Maelis de pé ao lado dele.

    Os soldados começando a fechar o cerco.

    O brilho azul irregular nos olhos dele que ela conseguia ver mesmo da distância onde estava.

    — HA HA HA, finalmente vamos lutar sem cortesia Ian. — A voz de Danurem ressoou pelo ambiente.

    Acima deles, Danurem ficou em pé no que sobrou da janela

    Abriu os braços

    E saltou.

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