Capítulo 20 — 1 Amiga Imaginária (2/4)
— Uhm… — reclamou Kramustek, após tentar, sem sucesso, ver os seus arredores. Sua visão estava nebulosa, afinal. Ele levou uma mão à cabeça, sentindo uma leve tontura e um latejar nas têmporas, que sumiu logo em seguida.
— Finalmente acordou, dorminhoco. — A voz do Morstek ressoou em sua mente e só então ele conseguiu abrir os olhos e ver os grandes caninos do irmão exibidos num largo sorriso de empolgação.
— Onde estamos? — Se apoiou a mão peluda do irmão e se levantou, mas ainda não tinha prestado muita atenção ao cenário que o cercava.
— Me diz você. Não era você que vivia estudando a Intercessão? — Quando viu os olhos do irmão abandonando-o e focando-se nos arredores, Kramustek fez o mesmo.
— His… feo guigec…?(Mas… que diabos…?) — Ele não pôde conter o espanto diante daquele cenário, que parecia uma cúpula de espelho.
Os irmãos pareciam estar dentro de uma esfera com cerca de dez metros de raio, toda ela feita de infinitos e minúsculos fragmentos de espelhos, cada espelho refletindo alguma coisa que eles não conseguiam ver mesmo forçando a sua habilidade ocular ao máximo.
Bem, eles não sabiam naquele momento, mas cada fragmento minúsculo daquela cúpula de espelhos estava refletindo imagens em vídeo de infinitas linhas de tempo alternativas da vida dos gêmeos. Não um multiverso, apenas um “E se…?”.
— Aquilo lá é o que me deixa mais curioso — murmurou Morstek, apontando com a cabeça para a pequena cabana em frente deles, com paredes de caniço, teto de palha e uma porta feita de galhos amarrados por cipós. — Será que é o que penso que é?
— Ce gocfegsusohec mohge.(Só descobriremos vendo.) — Kramustek logo tomou a dianteira e, depois de alguns passos, as suas mãos direitas tocaram e deslizaram pela superfície rija e ondulada da porta.
Ele se virou para o lado e olhou uma vez para o irmão, que já estava ali com ele, então Morstek também levantou as suas mãos direitas e empurrou com o irmão aquela porta.
A porta rangeu ao ser aberta e, quando estava escancarada, um breu insondável escapou dela e engoliu os dois irmãos e todo aquele lugar. Contudo, a escuridão não durou muito tempo e se dissipou depois de alguns segundos, revelando aos dois irmãos uma nova paisagem.
— Então, esta é…
— A Intercessão. — Morstek concluiu a fala do irmão, seus olhos passeando por todo aquele lugar, que parecia fantasioso demais.
Os dois irmãos estavam parados no que parecia ser uma rua xadrez em preto e branco… uma estrada flutuante.
Atrás deles não tinha nenhuma porta, apenas a continuação daquela estrada xadrez, que ondulava por aquele lugar. Tudo o que os cercava era o vasto espaço cósmico, com estrelas flutuando em todas as direções que se podia olhar, mas não eram só as estrelas e outros meteoros que flutuavam lá, também havia vários edifícios espalhados por aquele lugar, todos conectados por estradas ondulantes que se espalhavam por todo aquele lugar até onde não mais se podiam ver.
Os edifícios pareciam cenários de um teatro, todos contorcidos e tortos, possuindo uma beleza estranha. Lá embaixo, apenas a escuridão se via. Parecia que cair dali não era uma boa ideia.
— Como a gente faz pra voltar? — Kramustek indagou, olhando mais uma vez para trás, sem encontrar nenhum rastro da porta que abriram.
— E isso importa agora? Nós estamos na Intercessão, a ponte entre as sete Dimensões de Heternidade. — Morstek comentou animado, dando os seus primeiros passos para frente. — A saída a gente procura depois. Apenas garanta que está com a lista e vamos dar uma voltinha.
— Haaa! Certo. Você está certo, afinal, se existe uma entrada, deve existir uma saída. — Kramustek vasculhou os seus bolsos, encontrou lá um pedaço de papel, um papel especial que não se molhava, desdobrou-o e leu o que lá estava escrito. — Asas de borboletas-de-cristal-vermelho, Seiva de uma árvore do Inferno e sangue de dragão de fogo.
Enquanto isso, Morstek já estava alguns passos na frente, diante de uma alavanca que estava, aparentemente, aleatoriamente ali. Sem pensar muito naquilo, olhou para os arredores, para as infinitas estradas ondulantes que se espalhavam por aquele lugar, para as estrelas brilhantes e os diversos meteoros e para os edifícios estranhos que estavam lá, então segurou a alavanca e a puxou.
Graaaaank!
O som pareceu o mesmo de engrenagens enferrujadas há muito tempo por falta de uso. Junto com o som que ecoou por aquele lugar, algo começou a se separar da borda direita da estrada.
— O-o que você fez? — Kramustek indagou, com preocupação, depois de se aproximar correndo do irmão.
— Parece que… — Morstek observou o que se separava, lentamente, da estrada, com atenção. O que quer que fosse, parecia que não era usado há um bom tempo. — Oh! Hahaha! Parece que consegui uma boleia pra gente.
O que se separou da estrada era uma linha férrea com traços de ferrugem. Por fim, um pequeno vagão, similar àqueles usados em minas, veio de algum lugar e parou diante dos irmãos.
— Então, maninho, por onde começamos? — Morstek já estava se preparando para entrar no vagão.
[Terras Centrais: Leste]
Quando a manhã chegou, ela marcou o sexto dia desde o ocorrido na floresta mágica.
— Hahaha! Você tinha que ver, mãe, o Alin perdeu pela centésima décima quinta vez, mas ainda voltou a me desafiar. — Vaiola narrou à mãe, alegremente, carregando no ombro direito uma enxada e dois ancinhos no ombro esquerdo. — Eu até dei a ele alguma vantagem, mas o orgulhoso não aceitou e… bem, deu no que deu.
— Pelo menos, o garoto é determinado — murmurou Lavina, com alguma indiferença.
— Pois é. Hehehe! — Os olhos da pequena se fecharam e o sorriso dela ficou bem maior quando a mãe afagou o topo da sua cabeça. Vaiola sabia e já estava acostumada com as altas expectativas que a mãe depositava sobre ela, portanto, estava ciente de que não receberia um elogio, já que a mãe, certamente, não considerava vencer de um garoto qualquer como uma vitória no nível de uma Hermis. Apesar de tudo, a nanica estava mais que feliz pela mãe ter a escutado.
Ambas estavam vestindo macacões azuis que deixavam as costas desnudas, com chapéus de palha escondendo os seus cabelos. Na verdade, apenas a mais velha estava com o chapéu de palha devidamente posto sobre a cabeça, enquanto a mais nova deixava o chapéu de palha balançar sobre as costas, pendurado ao seu pescoço por um fino tecido vermelho.
Mesmo sabendo que poucas coisas despertariam o interesse da sua mãe, Vaiola continuou narrando as aventuras que teve pela Favela Leste, sobre as frutas que ganhara em desafios de força e velocidade com os meninos, onde alguns eram cerca de quatro à cinco anos mais velhos que ela; sobre como venceu contra dez meninos, sozinha, num cabo de guerra.
Se tinha uma coisa que a pequena Vaiola sabia, era que a sua mãe, mesmo mantendo uma faceta de indiferença, sempre escutava as suas histórias. Lavina nunca deixava de escutar as narrações da Vaiola, afinal, era a vida da sua amada filha.
Por fim, Vaiola narrou sobre o empate que teve num cabo de guerra duplo, onde ela ficava no centro, num combate contra dois grupos, um que puxava para a esquerda e outro para a direita, sendo que dez meninos puxavam para a direita e dez meninas puxavam para a esquerda.
Quando ela terminou de narrar tudo e sorriu, para mostrar que escutou tudo, Lavina voltou a levar a mão ao topo da cabeça da menor e deu a ela carinho. Ela não conseguiu evitar lançar um olhar de canto de olho para a pequena, pensando que era impossível que a Vaiola empatasse num desafio de força contra dez crianças quaisquer, ou seja, a única explicação era…
“Nem sempre vencer é satisfatório.”
A dupla continuou sua caminhada sob os céus azuis, durante aquela manhã que já começava quente, mesmo quando o sol só tinha nascido há não mais de uma hora, pelo Sudeste.
Lavina e sua filha caminhavam sob aquela manhã em direção aos campos de cultivo e, vez ou outra, a mais velha olhava de canto do olho para a menor, só para verificar se os materiais de cultivo não estavam sendo desconfortáveis para os ombos da pequena, que era a única com carga entre as duas.
Depois de cerca de meia-hora de caminhada, Lavina e sua filha avistaram outras mulheres e crianvas com equipamentos de cultivo, indo em direção ao campo de cultivo que estava mais adiante.
Logo, o verde, o amarelo e o castanho, provenientes das inúmeras folhas que inundaram a visão da Vaiola, assim como outras várias cores vindas de várias plantas, frutos, cereais, legumes e outros.
Elas tinham, finalmente, alcançado o seu destino.

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