[Continente Sudoeste: Damis]

    — Você continua surpreendente, como sempre, Celyn — Zaztek comentou, fascinado com aquela visão. Ele estava diante do assento preparado para ele, a mão robusta e peluda deslizando pelo gramado fofo que acolchoava as cadeiras e embelezava a mesa. — A natureza parece te amar ainda mais do que antes. Você nem precisou fazer nenhum sinal.

    Em sua mente, Zaztek se recordava com alegria dos tempos passados, quando era mais jovem, talvez uns trezentos anos atrás, quando viu, pela primeira vez, Celyn usar a sua magia. Naquele tempo, ela ainda precisava fazer alguns sinais com o corpo, mas parecia que aquela restrição tinha sumido por completo.

    — Deve ser isso — em contraste com o fascínio e empolgação do monarca dos Hyems, Celyn respondeu com indiferença, tomando o seu assento.

    — Com certeza é isso — Zaztek acrescentou. — Nunca houve na história uma rainha tão amada pela natureza como você. Viu só como os animais e toda a flora ficaram agitados só de você chegar? — Olhou para o alto; grupos de pássaros voavam às voltas sobre as suas cabeças e os menos tímidos já tinham até arranjado um lugar para se sentar no relvado próximo. — Quanto tempo faz desde a última vez que vim? Cinquenta anos? Hahahaha! Tudo mudou bastante. Você tem feito um ótimo trabalho por aqui.

    — Tenho recebido bons conselhos — Celyn voltou a responder de forma seca. Socializar não era o seu forte e, mesmo conhecendo a personalidade do Zaztek, sinceramente, ela preferia que aquilo acabasse logo.

    — Nossa… você devia me emprestar esses conselheiros. O que acha? Hahahahaha!

    — Por que não cortamos a conversa afiada e vamos direto ao que interessa? — Quem falou foi o velho de túnica branca à esquerda de Zaztek, o Sábio da Esquerda, que penteava a longa barba com os dedos, seus olhos semicerrados. Sentia que, se dependesse do seu rei, o assunto oficial daquela reunião nunca seria abordado. — Não temos tempo para perder com coisas tão pequenas.

    — Uma pequena conversa descontraída sempre se faz necessária para acalmar os ânimos e criar uma aproximação — declarou o Sábio da Direita, seus olhos fechados, como sempre estiveram, assim como os do outro Sábio. —, Mas é certo que estamos sem muito tempo. Puderam ouvir o choro da Banshee, certo?

    — Esse é um dos assuntos que pretendíamos abordar nesta reunião — Arzel Uyvet, o conselheiro negro da rainha Lihyf, disse logo após receber um sutil olhar de Celyn. — Alguns dias atrás, uma de nossas guerreiras acabou se cruzando com Elas.

    Um minuto de silêncio se seguiu, quando o soberano Hyem e seus Sábios arregalaram os olhos, espantados. Confuso, o comandante daquele povo só conseguia ler que a situação era anormal por conta da repentina mudança no ar, mas não tinha conhecimento suficiente para entender do que se tratava.

    Era de conhecimento comum que os Lihyfs viviam bem mais tempo que qualquer outra raça, podendo até, em alguns casos, passar dos dez mil anos. Logo atrás dessa raça, os Hyems conseguiam chegar até aos mil anos, no máximo, passando disso apenas em casos especiais, assim como era com os dois Sábios ao lado do rei, que estavam naquele mundo há, pelo menos, dez gerações reais.

    Ninguém sabia ao certo a sua idade, apenas que eles eram, possivelmente, as criaturas mais antigas vivas naquele mundo.

    Naquela mesa, o comandante era o mais novo, com apenas trezentos e vinte e sete anos, e não era alguém que buscava saber sobre o passado, ainda mais quando o assunto não envolvia o seu povo.

    — O lamento da Banshee já era uma prova incontestável, mas diante de tal evidência, não tem como nenhuma dúvida persistir — o Sábio da Direita disse, depois do longo silêncio, suas mãos entrelaçadas sobre o relvado brilhante cobrindo a mesa.

    — Uma de suas guerreiras se deparou com uma Hermês? — Com o cenho franzido, o Sábio da Esquerda estava com a face virada para Arzel. Seus braços estavam cruzados sobre o peito. — Como tem tanta certeza que era uma d’Elas?

    Rotek arregalou os olhos depois daquela fala, finalmente entendendo a seriedade do assunto que era tratado ali. Ele lembrava de alguns contos e lendas que escutara por aí, algo sobre uma suposta tribo de mulheres monstruosamente poderosas, criaturas ditas capazes de, em termos de força, rivalizar até contra os deuses.

    Alguns até ousavam dizer que, em combate meramente físico, ninguém poderia vencer daquelas mulheres, nem mesmo os deuses. Elas eram o ápice da força em Heternidade.

    — Uma de nossas Capitães em Lantus confirmou, depois de verificar as memórias da jovem — o outro conselheiro da rainha — um de pele azulada, com chifres médios que se dobravam num ângulo reto para trás — disse, sua pupila losangular azul mirando o Sábio na sua diagonal.

    Com aquelas palavras ditas, nem mesmo o Sábio da Esquerda ousou mais questionar, sabendo que cada uma das Capitães das guerreiras Lihyf tinham sobrevivido ao que era chamado de “A Era de Ouro dos Guerreiros”, o tempo em que as Hermês realmente fizeram história… o tempo em que caçar aquelas mulheres em busca de bloquear um único golpe delas era o maior desafio para qualquer guerreiro que se preze.

    Muitos morreram tentando cumprir aquele desafio, já que até mesmo um mero peteleco Delas podia destroçar até o corpo do mais bem treinado guerreiro, mas é inegável que também fora naquele tempo que nasceram os combatentes mais poderosos. Alguém que sobreviveu àquela era não podia ser qualquer um, de jeito nenhum.

    — Quem imaginaria que Elas dariam um veredito agora, depois de tanto tempo — Zaztek comentou, pensativo. Ele não viveu a Era de Ouro, tendo apenas setecentos e poucos anos, mas os registros reais extremamente precisos em sua posse foram o suficiente para fazê-lo ter grande conhecimento daquele tempo.

    — Quem imaginaria? Sério isso? — O Sábio da Esquerda voltou a falar, seu rosto contorcido em desgosto. — Apenas qualquer um com um mínimo de cérebro e conhecimento sobre as Hermês.

    Não levando em consideração o tom do Sábio, todos sabiam que ele estava certo. Na verdade, o estranho mesmo era que as Hermês não agiram mais cedo.

    Já há setecentos anos que a humanidade adotou a escravidão contra os seus semelhantes, que eles vinham cometendo atrocidades imperdoáveis. Para falar a verdade, por muitas vezes a maioria daqueles naquela mesa se viram escutando o mesmo lamento que ecoou pelo mundo no dia anterior, mas era tudo apenas fruto da sua imaginação.

    — Me pergunto que tipo de mudança elas trarão desta vez — o conselheiro azul, Veriel Rastid, divagou, lembrando que, da última vez, o megacontinente que era a Dimensão Amarela tinha virado três.

    Depois daquelas palavras, o grupo ficou em silêncio por mais alguns segundos, como se para digerir toda aquela situação.

    — Certo. Acho que podemos ir ao assunto principal — o Sábio da Direita disse, tirando alguns pergaminhos castanho-amarelados da túnica. — Como prevíamos, a profecia tinha sido fragmentada e baralhada; com trechos desconexos chegando a cada uma das duas raças.

    — Exatamente — Arzel respondeu do outro lado, também tirando alguns pergaminhos das vestes cinzentas. — O ponto positivo disso tudo é que foi até que fácil conectar os quatro fragmentos depois de reunir todos.

    Zaztek também tirou um pergaminho da túnica preta e olhou para Celyn no seu lado oposto, que não falara desde cedo. A Lihyf estava, assim como ele, com apenas um pergaminho; ela parecia extremamente imersa na leitura do que lá estava escrito.

    [A terra já foi preparada, trazendo a promessa de uma destruição que há muito vem sendo evitada.]

    [Em ordem decrescente o tempo está contando, aguardando apenas a semente e os frutos destinados a abalar esta terra desesperada.]

    Depois de reunir os quatro trechos da profecia, as duas raças tinham concordado com aquela organização.

    — Com isso, acho que todos devemos concordar com uma coisa…

    — Duas profecias — Celyn finalmente falou, interrompendo o Sábio da direita. Seus olhos ainda não tinham abandonado o seu pergaminho.

    — São dois trechos tirados de duas profecias diferentes, conectados para formar uma só — Arzel disse em seguida, olhando para todos.

    — Exatamente — não se sabia como os dois sábios liam com os olhos fechados, mas ambos também estavam focados nos seus pergaminhos com várias anotações sobre a profecia. — Isso meio que facilita o nosso trabalho para decifrar, já que só precisamos…

    Mas o Sábio da Direita foi novamente interrompido, desta vez pelo comandante Rotek, que estava com os olhos arregalados, em choque e pavor, sobre o seu pergaminho.

    — “… Uma destruição que há muito vem sendo evitada” — murmurou, lembrando de algo que qualquer um aprendia desde cedo.

    — Parece que você não está nesta posição à toa — o Sábio da Esquerda resmungou, penteando a longa barba com os dedos, a face virada para o comandante ao seu lado. — Este é realmente um trecho que merece destaque.

    — Apenas uma vez o nosso mundo evitou a destruição derradeira — Veriel disse em seguida, passando seus olhos apreensivos pelos demais.

    — Guerra dos mil anos — todos disseram, em uníssono, como se fosse algo combinado. Então olharam uns para os outros.

    Provavelmente, não havia ninguém no mundo que não conhecesse aquela história, que não soubesse sobre a única vez em que a Dimensão Amarela quase foi apagada da existência. Até mesmo mendigos tinham aquele conhecimento.

    Era imperioso que todos soubessem como nasceram o que todos acostumaram-se a chamar de “Demônios”, sendo que o seu nome oficial era “Senthys”.

    Demônios de verdade eram aqueles aprisionados no Abismo e, daqueles, nenhum mundo sobreviveria.

    — Quando nasceu o mal que nos atormenta até hoje — Zaztek acrescentou com solenidade.

    Se um recém-chegado naquele mundo perguntasse: “mas o que seria a Guerra dos mil anos?”, provavelmente muita coisa não seria contada, já que, para que muitos entendessem o peso daquele evento, costumava-se dar ênfase a apenas um dos acontecimentos que marcaram aquela época: quando os doze Deuses guerrearam contra aqueles chamados “Primordiais” pelos Senthys.

    Foi uma guerra de doze contra sete, mas cinco Deuses caíram naquele tempo e, mesmo após mil anos de guerra, nenhum dos Primordiais foi derrotado. A única solução que os deuses acharam foi selar aqueles sete… Os sete Irmãos Vendel.

    Mas os Senthys, agora comumente chamados demônios, ainda vagavam por aí. E os cinco Deuses caídos não morreram… o conceito de morte não existia para Eles… eles foram corrompidos.

    — Isso se conecta diretamente com a profecia de cinco anos atrás — o Sábio da Esquerda disse, depois de alguns segundos de silêncio. — O Rei Demônio está entre nós.

    — Se é assim, o que seria a “Terra preparada”? — Rotek indagou, já mais calmo.

    — Uma plantação… — Celyn murmurou, seus olhos mais uma vez fixos no pergaminho, como se estivesse em transe. — Um coração.

    — Oh! — O Sábio da Direita exclamou de repente, iluminado pelas palavras da monarca. — É claro. É isso… sempre foi isso. Um coração… uma pessoa.

    — Bem, cinco anos atrás, a profecia disse que o Rei Demônio “nasceu”, não que “retornou” — o Sábio da Esquerda murmurou em seguida, acariciando a longa barba. Pensativo. — Ou seja…

    — Uma criança — Zaztek disse, conectando todos os pontos da suposição.

    — Exatamente — Veriel concordou, apreciando outros trechos da profecia e anotações em seus pergaminhos. — Mas o Rei Demônio nasceu há cinco anos e essa profecia chegou há apenas um mês. Por que todo esse tempo de espera?

    — Outra plantação? — Celyn indagou, voltando a encarar os outros.

    — Estava pensando no mesmo — revelou o Sábio da Direita. — Um mês atrás deve ter nascido alguém com tamanha conexão com o Rei Demônio, que os espíritos se viram na obrigação de nos alertar.

    Todos soltaram um suspiro carregado de pesar e voltaram a encarar seus pergaminhos.

    — Se essas são as “Terras Preparadas” — Rotek raciocinou, depois de uma breve leitura. — Isso significa que as “sementes” e “frutos”…

    — As sementes são as vivências, o que se aprende, o que se sente, o que se… sofre — o Sábio da Esquerda colocou e suspirou. — Haaa. São as sementes que formam o caráter, o “fruto” de todas as vivências.

    — Esperança — Celyn voltou a murmurar.

    — Penso o mesmo, Hosikati — disse Arzel, suspirando. — Depois de reunirmos todos esses pontos, me parece que o que nasceu há cinco anos não foi o Rei Demônio em si, mas uma criança que hospeda o poder dele. Deve ser o mesmo para a outra criança do mês passado. — Olhou para as suas anotações e voltou a encarar os outros. — Se é assim, ainda existe um jeito de moldar tais crianças, de lançar sementes corretas e saudáveis nessas “Terras Preparadas”. Não é porque o mal habita em nós que precisamos ser maus. É isso que os espíritos querem: nos dar esperança.

    — “Frutos destinados a abalar esta terra desesperada”, se formos olhar para este trecho, ele diz “abalar” — o Sábio da Direita ponderou. — Os abalos podem, muito bem, ser positivos ou negativos. É um meio a meio.

    — Resumindo, os espíritos nos mostraram o caminho e, agora, estão praticamente dizendo: “se virem, o destino do mundo está nas vossas mãos”. Estou certo? — Zaztek perguntou.

    — Precisamente — Veriel concordou e outro longo silêncio se seguiu.

    — Parece que já temos as missões para os missionários deste mês — Rotek comentou depois de algum tempo, com um pequeno sorriso.

    — É. Temos que achar essas duas crianças a todo custo — o Sábio da Direita disse em seguida.

    — Humanos — Celyn guardou o pergaminho e murmurou.

    — É claro que são humanos. Apenas eles conseguem pegar uma alma pura e quebrá-la — o Sábio da Esquerda resmungou, seu rosto contorcido em irritação. — O que eles não fariam com uma alma já não tão pura!?

    — Precisamos consertar isso o mais rápido possível — Arzel finalizou.

    Assim, decididos a mudar o futuro trágico que os aguardava, os dois monarcas e seus acompanhantes finalizaram a reunião.

    Mal sabiam eles que já estavam praticamente sem tempo.

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