Ainda que também estivesse exausta, Kelly, ao contrário dos seus inimigos, tinha energia o suficiente para continuar por mais tempo, ela havia se segurado ao máximo para não se cansar tanto, esperando por uma brecha, a qual, com a perda do ritmo de seus adversários ainda mais cansados do que ela, finalmente apareceu quando os dois, parcialmente, saíram de sincronia.

    Nisso, não perdendo tempo para aproveitar a maior chance que lhe apareceu, ela, enquanto lidava com lâminas extremamente afiadas de água de um lado e mantinha o seu escudo de sangue o mais resistente possível contra as chamas do outro, ligeiramente sacou uma arma, uma compacta pistola, ao mesmo tempo em que invertia o lado com a maior quantidade de sangue o mais rápido que conseguia, com a intenção de acabar logo com a luta.

    Com isso, ela foi capaz de afastar o inimigo que controla a água, mas, antes que conseguisse disparar, o outro percebeu qual era sua intenção, e então, ainda que estivesse cansado, ele gerou uma quantidade massiva e muito quente de fogo em um único instante, aumentando ainda mais a temperatura em volta, chegando a afetar o seu próprio parceiro que se viu obrigado a se afastar…

    Tudo o que ela podia tentar fazer naquele instante era focar todo o seu sangue para se proteger e desviar as chamas para que passassem direto por ela, porém, nisso, ela se viu mais uma vez cercada pelo fogo que passava por cima e pelos lados, não podendo fazer nada além de se focar em manter o escudo à sua frente enquanto esperava pelo inimigo se cansar.

    Era uma quantidade tão ridiculamente grande de fogo que, logo, tudo saiu do controle, o caos estava a se propagar ainda mais com aquilo. E para o desespero de Noah, as chamas rispidamente avançaram em sua direção e de sua mãe, se expandindo conforme consumia tudo em volta.

    Foi então que seu corpo, pálido de medo, se encheu de adrenalina, tanto que lhe parecia que o mundo, inclusive ele, havia ficado em câmera lenta, ele não era capaz de se mover, não com sua mãe logo atrás dele, embora ficar ali parado não impedisse que as chamas a atingissem.

    Mas ao se ver a alguns míseros passos de distância da morte, Noah, no auge de seu desespero, soltou, totalmente inconsciente de suas ações, uma quantidade imensurável de energia elétrica, descontrolada de uma forma que nem se comparava a todo aquele fogo bem diante de seus olhos, até que, por fim, implodiu, perdendo a consciência…

    Com isso, quarteirões ficaram sem energia, aparelhos elétricos completamente destruídos e pessoas inconscientes, exceto pela Kelly, que estava, da cabeça aos pés, protegida pelo próprio sangue.

    Ela, enquanto a energia do hospital voltava logo em seguida por causa de um gerador, não conseguia acreditar no que havia acabado de presenciar, no que Noah acabara de fazer.

    De qualquer forma, ela foi até ele e o pegou nos seus braços, finalizou os inimigos caídos no chão conforme o carregava para fora do hospital e foi embora com o Noah deitado no banco de trás do veículo e com o colar dele guardado no porta-luvas, junto dos anéis que tirou dos policiais.

    VRUM—VRUM…”

    Ao finalmente recobrar a consciência, Noah não conseguia ver nada, pois estava com um saco na cabeça, e mal conseguia se mexer, pois estava com os braços e pernas presos por algo que lhe parecia com um enforca-gatos.

    Ele não sabia para onde estava indo, mas mesmo sem conseguir ver nada, sabia que era a Kelly quem estava a dirigir o carro, já que esse lhe era o único motivo plausível para os enforca-gatos estarem tão frouxos.

    — Isso daqui é mesmo necessário? — perguntou, se sentindo eufórico em tal situação.

    — Acredite em mim, é mais seguro assim, além de me dar menos dor de cabeça para lidar depois — avisou enquanto concentrada na estrada à sua frente.

    — Que exagero, já vou logo dizendo que isso é desnecessário.

    — Fala isso para meu chefe quando chegarmos no esconderijo, ele vai te dar milhares de motivos para eu ter que fazer isso.

    — Que saco… — suspirou enquanto tentava se ajeitar no assento. — Quanto tempo falta até chegarmos a esse tal “esconderijo”? Eu tô precisando ir ao banheiro antes que a minha calça fique encharcada.

    — Relaxa, nós já chegamos! — avisou logo em que estacionou o carro.

    Quando finalmente pode esticar as pernas, sem nada a prendendo, apesar de não poder ver nada à sua volta, de alguma forma, logo em que saiu do elevador, era capaz de sentir os olhares das pessoas lhe encarando à sua volta ao longo de todo o percurso.

    Parecia ter muita gente em volta, ainda assim, uma única sensação foi a que se destacou dentre todas as outras que aqueles olhares o causavam, era arrepiante, mas não conseguia distinguir o que era aquilo, nem de onde vinha, só que se tratava de um olhar que penetrava a alma.

    — Quem é esse? — perguntou a agitada voz feminina, curiosa. — Me surpreende vê-la trazendo alguém de fora.

    — Sempre tem a primeira vez — brincou Kelly.

    — Boa sorte pra você — desejou, dando um toquinho nas costas dele.

    — Quem era aquela? — cochichou Noah, perto do ouvido de Kelly.

    — Uma aluna em treinamento para virar recruta.

    — Achei que recruta fosse o nível baixo de um exército.

    — Antes educamos e testamos cada candidato a recruta, e somente se o candidato for aprovado na avaliação geral que se tornarão um recruta, é assim que funciona aqui. Você passará pelo mesmo se for aceito — explicou.

    — Entendi. E você, por acaso, não teria algumas dicas para me dar?

    — Não tenho muito o que dizer, essas pessoas são bem complicadas, então, só tente agradá-los. Aqui você verá o Diretor do estado e seu vice, ou seja, dentro de nossa região são as pessoas de maior influência, já os que vieram de outros estados não têm tanta influência nas decisões aqui, ainda assim, é bom agradá-los também, você vai encontrar o Carioca, a Capixaba e o Mineiro…

    — Por que você não os chama pelo nome, ao invés da região?

    — Porque nos referimos aos líderes que controlam a organização de cada estado pelo gentílico de cada um, no nosso caso, o líder é o Paulista, ou só Diretor.

    — Diferente.

    — É para confundir o inimigo!

    — Até que faz sentido, eu acho.

    — Nós chegamos! — avisou.

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