Ao longo de sessenta dias aprenderam a desmontar, limpar, encontrar falhas e a montar armas e equipamentos, aprenderam a utilizá-los e do que eram feitos, viram como funciona os capacetes, o que vinha nas bolsas de remédios, como cuidar de feridas e as diversas formas de se utilizar as meias como material de sobrevivência e armazenamento, a forma correta de se utilizar os coletes à prova de balas, para o que servia uma bolsa de água, um poncho, a usar o kit para limpar armas, como poderiam usar as luzes químicas para além de iluminar algum lugar e as maneiras de se utilizar um toldo, além de se proteger do sol, da chuva e do vento. Também aprenderam mecânica básica, matemática, química, engenharia reversa, português e geografia, matérias importantes para a-gentes de campo, na reserva e até para quem vai trabalhar por conta própria, porém, sempre se mantendo conectado com os guardiões, ajudando de maneira discreta com informações, proteção, abrigo e comércio, já que receberiam tudo de volta, era uma troca importante para manter as operações.

    – Demorou, mas nós finalmente chegamos nas melhores aulas da apostila – comentou Kelly, animada –, onde finalmente começaremos a falar sobre os fragmentos. Alguém sabe qual o primeiro suposto deus conhecido pela humanidade?

    – Seria algum da mitologia grega, que é a mais antiga que conhecemos? – disse uma aluna, no fundo da sala.

    – Está certa quanto a isso! – afirmou Kelly. – Esse deus se chama Caos, e apesar dele, assim como todas as mitologias que temos registrado, e o folclore, que entra nessa soma também, terem nascido através de um outra cultura, e, muito provavelmente, é assim desde que nós seres humanos aprendemos a nos comunicar, Caos se tornou uma base sobre como devemos lidar e controlar os fragmentos e os limites que nós temos que impor. O poder que ele tinha era imenso, de dar inveja, mas, ainda assim, ele não se tornou o mais poderoso, e o motivo disso foi a falta de controle sobre seu fragmento. Ele era capaz de fazer coisas grandiosas, mas não durava muito tempo, já que o seu corpo não era resistente o suficiente para suportar toda a sua energia. Porém, apesar de tudo, ainda é impressionante ele ter sido capaz de aguentar tanto poder, eu mesma, provavelmente, teria sido desintegrada só de pôr a mão em seu fragmento. A compatibilidade vai depender do corpo de cada um, e a resistência é o fator mais importante para se manter sob o controle do fragmento que cada um de nós somos capazes de resistir. É por isso que manter o físico em dia e se levar ao limite, farão total diferença. Alguma pergunta?

    – Então todos os deuses são iguais…? – perguntou Noah, curioso. – Adquiriram em algum momento da vida um fragmento?

    – A grande maioria sim, já outros são apenas o mesmo deus com outro nome, mas tem alguns que nunca sequer existiram, só que não tem como sabermos qual que é o caso de cada um deles. Às vezes era só alguém fingindo ser o todo poderoso, ou até alguém que escreveu uma história onde os seus personagens viraram reais para algumas pessoas. É por isso que eu disse “suposto deus” quando me referi ao Caos como o primeiro deus, porque ele pode nunca ter sido real, mas, mesmo assim, ele continua sendo um exemplo válido, já que quanto mais antigo são os registros, mais difícil se torna para adquirirmos alguma informação – explicou.

    – Entendi.

    – Bem, Caos não é o único exemplo que temos, já que há várias mitologias para nós explorarmos e até adquirirmos algum conhecimento básico que possa fazer toda a diferença, já que apesar dos fragmentos serem únicos, há muitos que são parecidos com outros, que possibilitam fazer algo parecido ou igual a outro – contou.

    – Eu tenho uma pergunta… – disse Sophia, agitada, erguendo bem alto a mão. – Então o saci-pererê era real?

    – Sim, ele era real, mas diferente das histórias, ele não nasceu de um bambu e nem virou um cogumelo quando morreu, acreditamos que esses mitos tenham sido mais umas de suas palhaçadas – respondeu, despreocupadamente. – Mais alguém?

    – Como é a tumba de um deus? – perguntou Kevin.

    – A única referência de tumba que temos é a que está na apostila, já que das poucas que nós encontramos, a maioria já haviam sido exploradas, ou sua estrutura acabou em ruínas com o passar dos anos. Mas todas as tumbas têm o mesmo objetivo de preservar e selar os deuses e seus bens, igual ao que as pirâmides do Egito fazem, a diferença é que elas foram construídas para não serem encontradas por qualquer um. Apenas alguém próximo, com conhecimento e capacidade para chegar ao final podia entrar, mas com a extinção desses povos, as tumbas acabaram abandonadas com todos os seus bens, principalmente os fragmentos dos seus deuses, que é a coisa mais valiosa que têm dentre tudo o que se pode encontrar lá dentro – explicou, entusiasmada.

    – Os Imperiais controlam as tumbas? – perguntou Noah, ao ver que ela terminou de falar.

    – Sim! – afirmou Kelly, secamente. – Por isso não tem como sabermos de muita coisa.

    – Quantas tumbas foram encontradas até agora? – perguntou um aluno, curioso.

    – Contando com a que temos domínio, nove, estando duas dessas em ruínas, sendo impossível de explorá-las, só que ainda podemos encontrar qualquer fragmento que emita uma energia razoavelmente alta – explicou. – Por isso, ainda não desistimos de procurar, mesmo não podendo entrar na tumba.

    – Como vocês fazem isso? – voltou a perguntar Noah, novamente curioso.

    – A energia dos fragmentos é como um ímã, quanto mais forte a energia de um deles for, mais vibrações o fragmento mais fraco irá produzir, ainda mais se eles tiverem uma energia compatível. Mas se ambos os fragmentos tiverem uma energia intensa, a vibração deles seria parecida e difícil de identificar. Ou seja, eles se atraem.

    – Isso significa que seria possível fundir dois fragmentos? – perguntou Kevin, criando um ligeiro sorriso no rosto, interessado pela possibilidade.

    – É muito complexo para explicar, extremamente difícil de se fazer, além de ser muito arriscado, mas se você conseguir ser aprovado na seleção vai poder ir atrás disso, seja como um soldado, agente de campo ou um cientista, mas talvez não seja capaz de usar o fragmento se fizer isso, já que as suas energias seriam somadas, por isso é preferível mantê-los do jeito que estão, já é muito difícil conseguir achar um mísero fragmento de baixa energia e mesmo assim não são todos que conseguem usá-los, a maioria dos soldados atuam sem um fragmento e muitos até desistem e começam a atuar em outras áreas, servindo apenas em caso de extrema necessidade, enquanto nos ajudam a manter nossa estrutura.

    – Que pena – disse perdendo o sorriso que se formava.

    – Agora que já estão mais familiarizados com a matéria da semana, quero que vocês peguem o livro que está embaixo da mesa de cada um e escolham um deus com os poderes mais próximos do poder que vocês gostariam de receber, e então quero que me façam um pequeno texto sobre tudo o que conseguirem encontrar, isso vai servir para vocês terem uma ideia do que podem fazer com o fragmento que escolherem, além de ajudá-los a visualizar a forma de controlar a energia dos fragmentos.

    Aquele era um livro enorme, focado em trazer o máximo de informações possíveis sobre os deuses, desde o mais famoso até aquele que ninguém nunca imaginou que existisse. E era apenas um dos vários livros secretos que tinham abordando esse assunto com tantos detalhes, além desse, ainda continham um livro focado em demônios e outro nas criaturas, e vários outros focados inteiramente em uma única mitologia, como um contando tudo sobre a mitologia grega, um que contava tudo sobre a mitologia nórdica e assim por diante.

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