06 Pequeno Gigante | Reunião de Negócios
O letreiro luminoso exibia o slogan da empresa: “Silco Co. há um ano em suas vidas, mas sempre em seu coração!”.

A imagem do diretor executivo Luno flutuava ao lado do texto. Uma placa de metal liso cobria metade do rosto do empresário. Um olho sintético brilhava, avermelhado por conta das lentes do policial, no centro da peça cibernética enquanto ele exibia um sorriso largo e artificial na publicidade.
O inspetor checou o horário no painel de seu pulso e constatou que estava naquela antessala há três horas. Tinha certeza de que seriam apenas alguns minutos caso o comandante Zion aprovasse o mandado de busca e apreensão.
Vincent optou por visitar a corporação mesmo sem o documento oficial. Precisava de acesso aos registros técnicos.
O Açougueiro arrancava os implantes de todas as vítimas durante os ataques. Vincent precisava descobrir o valor de mercado daqueles equipamentos ou confirmar um interesse diferente do assassino pela extração.
A porta de vidro fosco deslizou para o lado. O segurança acenou com a cabeça. Vincent cruzou o batente e entrou no escritório de teto baixo.
Sínodo sentava atrás de uma mesa de madeira, vestido com um terno cinza de corte reto. O inspetor foi pego de surpresa pelo nariz metálico.
O secretário mostrou um sorriso curto e político.
— Sinto muito pela demora, e pelo fato de ser eu a atendê-lo. O diretor Luno está ocupado no momento com negócios corporativos.
Cruzou as mãos sobre a superfície de vidro da mesa.
— Em que a Silco Co. pode ajudar a polícia de Selenópolis hoje? — perguntou Sínodo.
— Eu preciso dos arquivos médicos e das especificações dos implantes de cinco clientes recentes.
Sínodo recostou na cadeira e balançou a cabeça de forma negativa.
— Sinto muito em ter que recusar esse pedido. A nossa política interna prioriza a manutenção da segurança e da privacidade absoluta dos nossos clientes.
O inspetor estreitou o olhar.
— São informações necessárias ao andamento de uma investigação.
— Eu adoraria contribuir. Garanto. Mas não posso ir contra o nosso regulamento dessa forma.
Vincent inclinou o tronco para a frente.
— Vamos fazer assim: Eu analiso essas informações aqui mesmo, neste terminal. Sem levar nenhum arquivo físico ou cópia digital comigo.

— Infelizmente, eu não posso ceder nesse assunto — Sínodo sequer pestanejou. — A exposição de dados confidenciais criaria uma insegurança jurídica enorme para a empresa. Caso traga um mandado oficial, nós ajudaremos da melhor forma possível.
Vincent suspirou de forma pesada. O inspetor retirou os óculos de lentes vermelhas e massageou a ponte do nariz com o polegar e o indicador. Ele recolocou a armação no rosto e ajeitou a postura.
— Obrigado pelo seu tempo.
Vincent virou as costas e caminhou até a porta. O segurança armado avançou dois passos na direção do policial para iniciar a escolta obrigatória.
— Eu conheço a saída do prédio
Passou pelo guarda de forma ágil, cruzou o corredor sob o letreiro luminoso e caminhou sozinho em direção aos elevadores.
David ajustou a gola do terno executivo. A roupa de tecido escuro esticava ao limite sobre os ombros imensos enquanto ele segurava uma maleta e olhava para as portas duplas de vidro fosco no final do corredor.
— Ainda estou surpreso com a facilidade que entramos.
Goliah arrumou o chapéu na cabeça e sorriu.
— A minha aparência nobre e cavalheiresca torna qualquer credencial um pedaço de plástico inútil. As pessoas reconhecem a autoridade natural.
David torceu o nariz e curvou o canto da boca para baixo em um movimento rápido e discreto.
O anão arregalou os olhos.
— Tá dizendo que eu tô mentindo, seu troglodita?
David arregalou os olhos e balançou a cabeça negativamente.
— Hum. Além disso, um conhecido me devia um favor e…
A porta de vidro deslizou para o lado com um chiado suave. O secretário Sínodo surgiu na abertura. Ele ignorou o grito do mafioso e fez um gesto curto com a mão.
— O diretor Luno os aguarda.
Goliah e David cruzaram o batente e entraram no escritório espaçoso. Janelas panorâmicas exibiam os letreiros de neon da cidade sob a chuva constante.
Luno, com um terno bege, estava de pé atrás de uma mesa de vidro com um sorriso curto a dobrar suas feições magras e encovadas. Uma placa cibernética lisa cobria o pescoço dele por completo.
Ele contornou a mesa.
— Senhores. Sejam bem-vindos à Silco Co. — O diretor apontou para duas cadeiras de couro. — Eu confesso a minha surpresa e enorme felicidade ao descobrir o interesse de uma companhia intergaláctica como a Vest Corp em nossa pequena distribuidora.
Goliah sentou-se na beirada da cadeira. David permaneceu de pé perto da porta com a maleta pesada.
— A Vest Corp valoriza a inovação social aliada ao lucro — iniciou com um tom de voz polido e profissional. — Nós acompanhamos o trabalho filantrópico da sua entidade com as doações de implantes recondicionados para os operários locais. A matriz considera a iniciativa uma ideia muito interessante. Nós viemos realizar um estudo de viabilidade técnica.
Luno juntou as mãos na altura do peito. O olho sintético avermelhado do diretor brilhou com a luz do ambiente.
— Um estudo para qual finalidade específica?
— A expansão desta prática para outras colônias da Confederação — explicou o anão. — Se os números baterem com as nossas projeções e tudo correr bem, a Silco Co. poderá se tornar uma afiliada direta da Vest. Vocês comandarão este processo sob o teto e a guarda da nossa corporação.
O olho de Luno piscou em vermelho e seu sorriso se abriu um pouco mais. Caminhou até a janela panorâmica e cruzou as mãos nas costas.
— O nosso modelo de negócios beneficia todas as partes envolvidas. Recebemos implantes recondicionados de diversas corporações da colônia. Essas empresas descartariam essas peças com o tempo. A Silco Co. recolhe esse material e o repassa para a população necessitada de forma gratuita.
Luno virou o rosto para Goliah.
— O boca a boca atrai mais clientes. A população ganha implantes úteis para o dia a dia. E a Silco Co. lucra com os reparos e as manutenções pagas dessas mesmas peças após a instalação. Um ciclo comercial perfeito.
Goliah acenou com a cabeça e ativou um bloco de notas virtual no comunicador de pulso.
— A ideia funciona na teoria. A Vest Corp precisa avaliar a qualidade material desse ciclo. Nós precisamos de uma lista completa dos seus parceiros comerciais e fornecedores para uma auditoria técnica.
— Eu lamento, mas devo recusar este pedido. Cláusulas contratuais rígidas protegem a identidade dos nossos parceiros corporativos.
Goliah suspirou e desativou o holograma do comunicador.
— Eu garanto a qualidade absoluta dos nossos produtos e da entrega técnica, mas a empresa não revela os nomes dos fornecedores. — completou Luno.
— Eu compreendo. Os negócios possuem suas regras de sigilo. Nós podemos avaliar a viabilidade econômica por outro ângulo. Pode nos fornecer relatórios detalhados dos procedimentos de manutenção e o balanço financeiro geral da empresa dos últimos seis meses?
Luno pensou por um momento e voltou para trás da mesa de vidro.
— Posso liberar esses dados sob uma condição. A Vest Corp assinará um termo de privacidade e confidencialidade. A sua matriz arcará com multas pesadas e penalidades severas em caso de vazamento destas informações sensíveis e dos dados de nossos clientes.
— A Vest Corp aceita as condições. — respondeu Goliah.

Luno projetou o contrato holográfico sobre a mesa. Goliah assinou o documento digital com a credencial falsa da megacorporação.
O diretor transferiu os arquivos solicitados para um pequeno chip prateado e o entregou ao ‘representante’.
Os três homens apertaram as mãos. Goliah e David deixaram o escritório.
O secretário Sínodo aguardava no corredor executivo. Ele acompanhou a dupla em silêncio até os elevadores principais. Sínodo apertou o botão no painel de metal.
A luz indicou o andar mais baixo disponível na interface: o térreo.
A cabine desceu e as portas abriram no saguão de entrada. O secretário despediu-se com um aceno formal e agradeceu a visita. David respondeu com um movimento curto de cabeça.
Caminharam em direção à saída do edifício.
Perto das portas automáticas, o gigante diminuiu o passo. Os olhos de David varreram as colunas de sustentação do prédio. A disposição assimétrica das vigas de aço expostas e a espessura anormal do concreto na base das paredes atraíram a atenção dele.
“Que pilastras gigantescas…”
David franziu o cenho e seguiu o parceiro em silêncio para fora do prédio.
O vento frio e a luz pálida do dia artificial atingiram os dois homens na calçada.
David trocou a maleta pesada de mão e olhou para o fluxo de veículos na rua.
— Perdemos tempo. Saímos da sala sem os nomes dos fornecedores.
Goliah ajeitou a gola do sobretudo.
— Nós conseguimos a confirmação necessária. A Silco Co. administra operações criminosas.
O ciborgue olhou para baixo e coçou a têmpora com um dedo.
— Quê?
— Luno não vacilou por um instante sequer com a pergunta sobre os parceiros. Rejeitou uma aliança bilionária com uma megacorporação por fidelidade aos parceiros, mas cedeu as informações sensíveis de seus clientes sem muita cerimônia.
Goliah riu.
— O lucro guia as decisões corporativas legítimas. Nenhuma distribuidora comercial rejeita um contrato bilionário por lealdade a parceiros locais. Ele teme uma auditoria nas peças do estoque.
O anão colocou as mãos nos bolsos do sobretudo e começou a caminhar pela calçada.
— Pra completar, a arquitetura do saguão de entrada também denuncia os segredos da corporação. Eu notei a anomalia estrutural nas colunas. Aquela fundação massiva no piso térreo indica a existência de um subsolo profundo.
David acompanhou os passos curtos do chefe.
— Eu percebi o reforço nas vigas de aço na saída, mas nunca ia imaginar que teria um subsolo por conta disso.
Goliah tirou um cigarro eletrônico do bolso e o levou à boca para um trago pesado.
— E quando que você imagina qualquer coisa?
David deu de ombros.
— Mas chefe, não pode ser uma garagem para os funcionários?
Goliah balançou a cabeça de forma negativa.
— O painel do elevador terminava no andar térreo. Uma garagem para funcionários exige acesso fácil e rotineiro pelas áreas comuns. Isso torna claro que o acesso para esse nível se dá por vias ocultas.
David parou no meio da calçada. O ciborgue olhou de cima para o anão e processou as informações em silêncio. Um traço claro de surpresa marcou as feições rígidas do gigante.
— Você observou e conectou todos esses pontos em poucos minutos na saída.
Goliah abriu um sorriso curto e irônico.
— Eu sou um profissional. Nós voltaremos esta noite e solucionaremos o mistério.


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