Epílogo
A nave cortou o céu cinzento de Selenópolis em silêncio, o domo da colônia de pesca pequeno diminuiu até desaparecer na neblina abaixo.
Goliah afundou na cadeira de comando, acendeu o cigarro eletrônico e soltou uma baforada longa. David ocupava o assento ao lado com o olhar fixo no painel.
— Por isso todos dizem que você é um velho sem coração — murmurou o gigante, a voz fina e inexpressiva. — Deixar o garoto daquele jeito…
Goliah bufou, o bigode tremeu.
— David, entenda uma coisa. Negócios são negócios. Os interesses da família vêm primeiro. O contrato foi cumprido. Ponto final.
. O silêncio se estendeu por segundos longos. O zumbido dos motores preenchia a cabine.
Goliah mexeu-se na cadeira, incomodado.
— Que foi? Vai ficar mudo agora? — resmungou o anão, coçando o crânio metálico exposto. — Além de tudo, eu não deixei ele de qualquer jeito.
David inclinou a cabeça e piscou em confusão.
— Não entendi.
Goliah deu um sorriso torto e seu olho cibernético brilhou.
— Lembra do chip da Silco Co.?
Tempos Depois
Mapas holográficos giravam sobre a mesa oval, mostrando os poços de mineração em chamas vermelhas. Quatro oficiais de alto escalão — uniformes impecáveis, implantes dourados piscando nas têmporas — discutiam em voz alta.
— Como diabos os revolucionários conseguiram isso? — rosnou o comandante Zion, batendo o punho na mesa. — Um vazamento de dados expôs todas as bases do projeto Sangria. Quem vendeu nossa merda praqueles ratos do Revolu?
Os outros na mesa se agitaram.
— Será que foi o maldito do Luno antes de morrer?
— Não pode ser. A gente teve a certeza de acobertar tudo em Selenópolis.
O general ao lado dele, Lucio, de rosto marcado por cicatrizes antigas, balançou a cabeça.
— Alguém de dentro. Tem que ser. Os operários nunca teriam acesso aos arquivos criptografados. Alguém entregou tudo.
Um alerta vermelho começou a piscar nas paredes. Sirenes graves ecoaram pelo corredor blindado. Os oficiais se levantaram num salto, mãos voando para as armas.
— Barricadas rompidas! — gritou uma voz no comunicador. — Os operários se uniram aos Revos! Eles estão—
As portas duplas se abriram com um estrondo. Um sargento irrompeu, ofegante.
— Comandante! Eles entraram! Os poços—
Um tiro único estourou a cabeça do sargento. O corpo caiu para o lado e o sangue espirrou no chão polido.
As portas se abriram de novo, devagar.
Cabelo selvagem, cortado curto no estilo militar que ele nunca abandonara de verdade. Duas lentes vermelhas e arredondadas emolduravam as cicatrizes frescas e destacavam a barba por fazer.
Jaqueta preta rasgada, braçadeira vermelha com o símbolo da Lua partida. Nas mãos, uma arma pesada de assalto, cano ainda fumegante.
Os generais recuaram um passo em conjunto.
Zion congelou. O homem que vigiara Jonatan por meses, o mesmo que o ameaçara em nome do exército, o mesmo que ordenara a coleta do óleo mutagênico, agora encarava o fantasma de suas ordens.
— Vincent… — murmurou o comandante com a voz falha. — Seu traidor. Seu irmão morreu como um cão e você—
A arma pesada cuspiu fogo. Os quatro oficiais dançaram como bonecos, corpos crivados de buracos. Caíram sobre a mesa e o chão em poças vermelhas.
Em silêncio, a sala piscava em tons de vermelho.
Vincent baixou a arma devagar. Olhou para os cadáveres, depois para o holograma ainda girando com os poços em chamas.

— Os velhos serão apagados — disse ele, a voz rouca, mas firme. — Os novos brilharão. Jonatan manda lembranças.
Ele deu as costas e saiu. As portas se fecharam atrás dele com um clique final.
Na nave, Goliah soltou outra baforada e riu baixo.
— Família, David. Sempre a família.
A nave seguiu em frente, rumo ao próximo contrato.
FIM

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