O líquido prateado escorreu pelo gargalo do frasco de vidro direto para a garganta de Goliah. O anão engoliu o mercúrio denso em três goles pesados e limpou o canto da boca com as costas da luva.

    David desviou o olhar para a parede de tijolos.

    — Eu nunca vou me acostumar com essa cena.

    Goliah guardou o frasco vazio no bolso do sobretudo.

    — Os jovens têm o hábito de falar as palavras ‘nunca’ e ‘sempre’ de forma muito leviana.

    O gigante torceu os lábios e apertou a maleta de titânio contra o próprio estômago.

    Subiram a escadaria de incêndio do prédio vizinho até alcançar a altura do quinto andar da sede da Silco Co. Estavam a dois andares de distância do escritório do diretor executivo.

    David fez uma ponte com o próprio corpo para o colega que subiu em seus ombros.

    Goliah esticou o braço direito na direção da janela do prédio alvo. As placas da palma de sua mão deslizaram para os lados. Os componentes internos assumiram a forma de uma furadeira mecânica.

    A broca girou, perfurou o vidro e destruiu o miolo da tranca. Goliah empurrou a janela e os dois invadiram.

    Lá dentro, o baixinho se alongou e espreguiçou antes de sorrir.

    — Que comecem os jogos.

    O andar estava quase que completamente vazio. Eles caminhavam em silêncio, até que finalmente deram de frente com algo. Goliah estendeu o dedo para trás e David imediatamente se ‘escondeu’ atrás de um pilar.

    Um segurança fardado surgiu no cruzamento à frente. Goliah acenou.

    David avançou dois passos num instante, segurou a cabeça do guarda e cobriu seu nariz e boca. Em alguns segundos, o corpo amoleceu e escorregou para o chão acarpetado.

    Seguiram em frente agachados.

    Um guarda surgiu na interseção perto dos elevadores. Goliah ergueu sua mão que se abriu em um cilindro e brilhou fracamente antes de disparar.

    O segurança levou a mão à nuca antes de cair repentinamente.

    David o arrastou para um cômodo vizinho e largou o corpo sobre um sofá.

    Seguiram. Já estavam próximos do fim do andar, na porta para o saguão.

    Passaram pela porta para o saguão que dava acesso às escadarias do segundo andar. Lá, um vigia checava um painel digital.

    Goliah aproximou-se pelas costas do homem. Com um salto, o anão ergueu o braço e desferiu uma pancada forte na nuca do vigia com a base metálica da própria mão.

    O funcionário desmaiou de imediato e caiu de bruços.

    De repente, outro vigia surgiu pela porta das escadarias. Ele se chocou contra o peito de David e ergueu o rosto.

    A visão dos invasores fez seus olhos se arregalarem. David agarrou o pescoço do funcionário e apertou as artérias até que ele parasse de se mover.

    David afrouxou o braço para deitar o corpo no chão. O movimento brusco afrouxou os dedos de sua mão esquerda. A maleta de titânio escapou e caiu. O impacto da caixa de metal contra o piso gerou um barulho ensurdecedor no corredor vazio.

    O gigante fez uma careta com os dentes rangidos e levou a mão à cabeça.

    Goliah o encarou com olhos fulminantes.

    — F-foi mal chefe…

    Um terceiro guarda apareceu na ponta oposta do corredor. Arregalou os olhos ao ver a dupla e os seguranças caídos. 

    — M… Malditos!

    O homem correu até a parede do visor digital, oposta aos dois. Goliah ergueu o punho e disparou

    — Gah!

    Mas o guarda conseguiu bater a mão no botão de emergência antes de cair morto.

    As sirenes de alerta dispararam. Luzes vermelhas começaram a piscar no teto.

    O anão olhou para cima e rangeu os dentes.

    Goliah e David correram até as escadas e subiram para o sexto andar. 

    Empurraram a porta de acesso e entraram no saguão principal. Dez homens armados formavam uma barreira tática no meio do ambiente. 

    Todos apontavam fuzis para a entrada. Sínodo estava no centro do grupo, aguardando a dupla com a arma destravada nas mãos.

    David puxou o colega pela gola do terno e escondeu-se com ele atrás de um pilar de concreto maciço.

    Os fuzis dispararam de forma simultânea. As balas atingiram as paredes e estilhaçaram os vidros do saguão.

    — Acabem com eles! — gritou Sínodo. — Avancem pelos flancos!

    Goliah esticou os dois braços para a frente. As placas de metal nas palmas das suas mãos deslizaram para os lados. Os canos circulares surgiram nas aberturas. O anão contraiu a musculatura e sentiu o sistema cibernético interno pressurizar o mercúrio alojado em seu estômago.

    Então, saiu da cobertura e atirou.

    Pequenas esferas de metal denso saíram dos canos em altíssima velocidade. Os projéteis perfuraram os coletes balísticos de três guardas. 

    — Fogo concentrado no baixinho! — ordenou Sínodo.

    — Baixinho é o meu…

    O grito de Goliah foi interrompido quando as rajadas de tiros vieram. Ele saltou para trás de outro pilar e agachou. Quando pararam para recarregar, ele estendeu os braços para fora do pilar e atirou às cegas.

    Uma rajada lambeu o cômodo na diagonal e pegou um dos que tentava buscar cobertura pelas costas. Sínodo pulou para trás de um sofá e escapou por pouco da linha de tiro.

    A munição interna acabou. Goliah rangeu os dentes e enfiou a mão no bolso do sobretudo, sacou um novo frasco de vidro e bebeu o líquido prateado inteiro.

    O processo de pressurização mecânica recomeçou dentro de seu corpo.

    David aproveitou a distração dos atiradores e ergueu a maleta de titânio na altura do rosto enquanto avançava.

    — Sai de baixo! — gritou.

    Os guardas ergueram seus fuzis e atiraram em conjunto mas todas as balas pararam na superfície da maleta enquanto ele avançava feito um rinoceronte.

    Aquele que restava à frente do avanço parou de atirar repentinamente com os olhos arregalados e virou-se para correr, mas David o alcançou.

    A maleta cruzou o ar num arco horizontal e acertou o rosto do guarda. O crânio estralou, estraçalhado, antes mesmo que ele voasse e se arrebentasse contra a parede lateral.

    Os outros soldados, aterrorizados, terminavam de recarregar seus fuzis e já erguiam para recomeçar o ataque contra o gigante.

    Neste momento, Goliah saiu de trás do pilar e correu pela sala enquanto disparava com as duas mãos ao mesmo tempo. As balas de mercúrio atravessaram o peito de mais quatro seguranças que caíram sem vida.

    Restaram apenas Sínodo e dois guardas que pareciam divididos entre o gigante e o anão. Goliah efetuou dois disparos diretos. As esferas atingiram a cabeça dos dois atiradores.

    Sínodo arregalou os olhos.

    — Bandidos desgraçados!

    O fuzil do secretário emitiu um clique seco. A arma ficou sem balas. Ele tentou puxar um carregador novo do colete tático.

    David correu na direção do secretário em passadas largas que fizeram o andar tremer. O secretário gritou e ergueu a arma vazia na tentativa de proteger a cabeça. O gigante girou o tronco e desferiu um golpe vertical com a maleta de titânio.

    A caixa metálica atingiu o topo da cabeça de Sínodo e o comprimiu contra o chão. Um estralo mórbido encheu o cômodo. Os ossos quebraram de imediato.

    David recolheu a maleta e encarou o corpo retorcido do secretário amolecer e tombar no carpete. Sangue escapou pela boca, nariz, olhos e ouvidos.

    O alarme continuou a piscar em vermelho no teto do saguão. O tiroteio cessou por completo. Goliah baixou os braços e as placas mecânicas fecharam nas palmas de suas mãos.

    Os dois caminharam até o centro da sala e encararam o mar de sangue à volta.

    Os olhos de David brilharam em projeções de linhas de código num instante e ele teve um sobressalto. Goliah o fitou com desconfiança.

    — O que foi?

    O gigante levou uma das mãos a cabeça e fez uma careta de dor.

    — Precisamos ser rápidos aqui. Captei uma movimentação estranha no sistema da guarda da cidade.

    Goliah assentiu.

    — Então vamos. Desliga essa conexão. Não dá pra continuar usando se estiver te machucando assim.

    David encarou as costas do mentor enquanto ele se dirigia às escadarias.

    O brilho no olhar diminuiu até que os códigos sumissem. As linhas duras de seu rosto suavizaram no mesmo instante.

    Ele correu atrás do colega a passos curtos.


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