O trem de pouso da nave bateu contra a plataforma de metal da colônia de pesca. O motor desligou com um zumbido grave. O rosto do prefeito Lesbos brilhava na projeção holográfica do painel de controle do veículo.

    — O governo municipal deveria melhorar os sistemas de localização desta lua. Perdemos o sinal de navegação três vezes durante o trajeto até aqui.

    Lesbos não pareceu ouvir a reclamação do anão. A projeção holográfica do seu rosto flutuava sobre o painel de controle do veículo, repleta de ansiedade.

    — Eu finalmente vou ver aquele maldito morto… — murmurou pela transmissão.

    David suspirou, entediado, e revirou os olhos.

    Goliah soltou o cinto de segurança e levantou da cadeira de comando com olhos fixos no domo vítreo à frente.

    “Bem que eu podia tirar umas férias num lugar como esse…”

    O anão desconectou o projetor portátil do painel e segurou o aparelho na mão. A rampa da nave desceu. Goliah e David caminharam para o interior da colônia.

    Era um lugar para aposentados, sem segurança própria. Eles se passaram por visitantes na recepção e entraram sem ser incomodados.

    O enorme domo de vidro protegia uma reserva natural artificial. Árvores frondosas cercavam lagos de água doce. O ambiente estava silencioso e vazio. Alguns idosos dormiam em espreguiçadeiras nas varandas das cabanas de madeira.

    Seguiram pela margem do lago principal em silêncio.

    Goliah interrompeu alguns dos residentes para pedir informações. Aqueles que reconheciam Jonatan pelas fotos, guiavam o grupo em direção aos fundos da reserva.

    Um dos cuidadores afirmou ser incomum que ele recebesse visitas. Agradeceu e disse que eles deveriam voltar mais vezes.

    Passaram por uma trilha de terra deserta, por onde caminharam durante uns 5 minutos. Ao fim, chegaram a uma clareira e o viram.

    Jonatan estava de pé no final de uma estrutura de metal sobre a água, organizava redes de captura com um sorriso. Quando ouviu os passos duros no piso metálico, virou o rosto. Seu rosto enrijesceu.

    Encararam-se em silêncio por um tempo. Pássaros cantavam no alto das árvores e alguns peixes se agitavam na margem da plataforma.

    Jon soltou as cordas e seus ombros caíram.

    Goliah ergueu o projetor portátil.

    — Aí está o seu Açougueiro.

    O holograma de Lesbos iluminou a plataforma. O prefeito apontou o dedo trêmulo na direção do pescador.

    — Seu filho da puta! — A voz de Lesbos explodiu pelo alto-falante do projetor, distorcida pela raiva. — Seu assassino de merda! Você matou a minha filha! Silvia! A minha menina! Como você teve coragem, seu verme? Como?

    Os ombros largos caíram um pouco mais, mas os olhos permaneceram firmes, cansados. Jon encarou a água.

    — Eu sei quem eu sou — sussurrou. — E eu sei o que fiz. Minhas palavras não podem apagar nada, nem desfazer, mas eu quero que saiba que eu sin-

    Lesbos cuspiu um riso amargo, lágrimas escorriam pelo rosto flácido.

    — Sente? SEN-TE? Você a pendurou de cabeça pra baixo como um animal! Por quê? Por que a minha filha, seu desgraçado? Ela nunca fez mal a ninguém! Ela era só uma garota!

    Jonatan baixou o olhar para o piso metálico molhado. A água do lago batia suavemente contra os pilares abaixo.

    — Eu não escolhi ninguém. Sua filha fez inimigos perigosos e eles me fizeram matá-la. E eu aceitei porque… porque precisava proteger alguém importante para mim. — Ele ergueu os olhos novamente, direto para o holograma. — Você não faria o mesmo?

    Lesbos engasgou com um soluço. As lágrimas caíam grossas agora, o rosto contorcido em uma mistura de fúria e desespero.

    — Importante pra você? Você matou a minha filha pra salvar um dos seus? Seu covarde! Seu monstro! Eu vou te ver morrer gritando, seu…

    A voz do prefeito falhou. Ele cobriu o rosto com as mãos, os ombros tremiam. Então, ele se descontrolou e seu choro ecoou na clareira.

    — Por quê… — murmurou entre os soluços. — Por que ela? Por que a minha Silvia?

    Jon assentiu em silêncio.

    — Eu sei. Não tem justificativa que chegue. Eu vivi o inferno pra proteger o que restava da minha família. E agora… eu pago.

    Goliah observava a cena em silêncio, os braços cruzados sobre o peito. David permanecia imóvel ao lado na mesma pose.

    — Então… — chamou o anão com o olhar para o holograma. — Autorização para executar a sentença?

    Lesbos ergueu o rosto molhado de lágrimas e murmurou, rouco mas com firmeza:

    — Mate-o. Agora.

    Jonatan se ajoelhou devagar no piso de metal frio e repousou as mãos abertas sobre as coxas.

    — Só um favor — pediu ele, olhando para Goliah. — Faça em silêncio. O velho Sebastião deve estar dormindo nas cabanas. Não precisa acordar ele com isso.

    Goliah assentiu uma vez. O braço direito do anão se abriu com um clique mecânico suave. As placas de metal deslizaram e revelaram o cano interno. Linhas de energia azul subiram pela estrutura cibernética como veias. Dentro, o tambor girou com um zumbido.

    O executor deu um passo à frente. O chapéu de aba curva sombreava metade do rosto, mas o bigode farto se curvou num sorriso frio e cerimonioso.

    — Jonatan Atrium, vulgo Açougueiro, ex-fuzileiro lunar e executor do projeto Sangria — começou com a voz grave e polida, como sempre fazia antes do ato final. — Pelos crimes contra a população de Selenópolis, pela perseguição e tortura deliberada de inocentes, pela morte de Silvia Lesbos e pela traição ao sangue que jurou defender… eu, Goliah, executor da Nebula Nostra, determino a sentença máxima. Sua pena é a morte.

    Jonatan fechou os olhos. Um leve sorriso surgiu nos lábios dele.

    — Obrigado — murmurou.

    Um estampido seco contaminou a quietude da clareira. Pássaros voaram das copas das árvores. Os olhos de todos se arregalaram em surpresa.

    O projétil acertou Goliah em cheio na cabeça. O corpo pequeno tombou para trás num solavanco e ergueu uma cortina de poeira, o chapéu de aba curva voou longe.

    Jon, David e Lesbos encararam a entrada da clareira. Vincent estava parado com a arma em mão, arfava como se tivesse corrido o caminho inteiro desde a delegacia. As lentes vermelhas dos óculos refletiam o brilho fraco do lago.

    — Jon!

    Jonatan girou o corpo, os olhos esbugalhados.

    — Vincent?! Não! Corre, seu idiota! FUJA DAQUI!

    O holograma de Lesbos piscou, o rosto do prefeito contorcido em fúria.

    — O que houve?! O anão morreu? Vocês falharam! Seus incompetentes!

    O gigante David coçou o topo da cabeça com um olhar despreocupado.

    Vincent correu até o irmão, agarrou-o pelo braço e tentou arrastá-lo para trás.

    — Vem comigo! Agora! Eu cuido disso, eu—

    — Você não entende! — Jonatan resistiu. — Aquele cara é um cibor-

    Um estralo metálico fez com que os dois congelassem.

    Devagar, quase preguiçosamente, o anão se ergueu do chão. A pele falsa do rosto havia sido arrancada pelo tiro, e agora revelava um crânio metálico reforçado, polido e sem um arranhão. No centro, um domo transparente protegia o cérebro orgânico, pulsando levemente.

    Goliah cuspiu um pedaço de pele sintética e ajeitou o que restava da gola do sobretudo.

    — Segunda vez consecutiva que alguém interrompe o meu monólogo de execução — rosnou com a voz distorcida pelo sintetizador exposto. — Eu realmente odeio quando isso acontece.

    Sem perder tempo, Vincent ergueu a arma e disparou mais duas vezes contra o anão. As balas ricochetearam no crânio de aço com faíscas azuis.

    agarrou Jonatan pela jaqueta e o puxou para trás das estruturas de metal da plataforma de pesca em meio a caixas de equipamento, redes enroladas e pilares enferrujados.

    Os dois se jogaram atrás da cobertura no exato momento em que o gigante avançava com o punho metálico cerrado.

    O tiroteio começou.

    Goliah e David saíram de lado, o gigante erguia os punhos metálicos como escudo improvisado. O anão disparou com o braço cibernético, as esferas de mercúrio cortavam o ar.

    Os disparos perfuravam os pilares na plataforma mas não atravessavam.

    Vincent devolveu os disparos com um único. Passou a um fio do gigante e explodiu contra uma árvore atrás. Uma porção central do tronco desapareceu instantaneamente, como se tivesse sido engolida.

    Goliah arregalou os olhos e saltou para atrás de uma das árvores.

    — David! Recua!

    O gigante obedeceu e procurou cobertura.

    De trás da árvore, Goliah gritou.

    — Ei, Inspetor! Como se sente sendo irmão de um carniceiro de inocentes?

    Jonatan tremia atrás da cobertura, o suor escorria pelo rosto. Vincent recarregava a arma com as mãos trêmulas de adrenalina e os olhos cerrados em tensão.

    — E-ele tá certo, Vincent. Larga essa arma e me entrega logo!

    — Fica abaixado! — ordenou o inspetor para o irmão.

    — Você não entende? Eu matei todas aquelas pessoas!

    Vincent disparou mais uma vez o projétil de carga e destruiu a árvore em que Goliah há pouco se abrigava. Estalou a língua.

    — Vincent! — Jon chamou mais uma vez.

    — Eu sei!

    O inspetor encarou o irmão mais uma vez, e seu o olhar o paralisou. Lágrimas caíam por trás das lentes vermelhas sem parar.

    — Eu sei disso…

    Uma rajada de tiros acabou com a conversa. Goliah havia ceifado metade do pilar da plataforma de pesca com um tiro combinado das duas mãos.

    O policial arfava, tenso, e tentava mais uma vez recarregar a arma com os dedos tremendo.

    — Vin, por favor…

    — Chega! — Vincent gritou e fechou os olhos. Ele se virou para o irmão. — Jon, pela primeira vez na vida…

    A voz embargou.

    — Deixa eu te salvar uma única vez… Por favor…

    O ex-fuzileiro sentiu um aperto no peito. Antes que percebesse, começou a chorar também. Avançou e o envolveu num abraço. Vincent travou.

    Seus braços completavam uma volta completa no rapaz.

    “Tão pequeno…” As lembranças preencheram a mente de Jon.

    O sorriso infantil de seu irmão. O choro de quando seus pais se foram. A dança ridícula de quando ele foi aprovado na polícia e disse que seria igual ao irmão.

    — Obrigado.

    Ele arrancou a pistola das mãos do irmão, Vincent sobressaltou-se mas não foi capaz ed impedí-lo de jogá-la longe para o centro da clareira.

    Jonatan se desvencilhou do aperto e saiu da cobertura com as mãos erguidas sobre a cabeça.

    — Parem! — berrou ele. — Parem de atirar!

    Goliah baixou o braço, mas manteve o gatilho interno sob pressão mínima. David levantou da pilastra ao lado da que eles estavam.

    Ele estava se aproximando furtivamente. Mais alguns passos, teria alcançado os dois.

    Jonatan respirava pesado, o peito subindo e descendo.

    — Eu confesso. Tudo. Eu matei Silvia. Matei os outros. Os fuzileiros lunares me chantagearam. Disseram que matariam Vincent se eu recusasse.

    Ele fechou os olhos e soluçou.

    — Se eu negasse, meu irmão morreria. Eu escolhi proteger ele. Escolhi o mal menor. Me perdoem… mas eu escolhi ele.

    Vincent saiu da cobertura cambaleando.

    — Jon… não…

    — Segure ele.

    David atendeu o comando do mentor imediatamente. O corpo de Vincent tombou para frente sob o peso da mão do gigante. Ele foi prensado no chão.

    O inspetor grunhiu com a dor do impacto, mas não se deixou abalar. Seus olhos arregalados por trás das lentes vermelhas encontraram os de Goliah.

    — Por favor… não faz isso. Eu imploro. — a sombrancelha se curvava para cima, uma feição de desespero. 

    Forçou-se a engolir o choro.

    — Nebula Nostra… vocês são executores, mas também são profissionais. Exponham o exército. O verdadeiro culpado é o comando lunar. Eles mataram dezenas com aquele composto. Me ajudem a acabar com isso. Poupe ele. Eu pago o que for. Eu entrego tudo que sei.

    Goliah cruzou os braços. O crânio metálico brilhava frio sob a luz do domo.

    — Bonito discurso, inspetor. Mas temos um contrato a cumprir.

    Jonatan se ajoelhou e Goliah posicionou-se diante dele. O braço cibernético se reconfigurou mais uma vez em uma arma.

    — Não… — Vincent murmurou, sem forças. — Por favor…

    David aumentou a pressão. O ar escapou dos pulmões do rapaz. Os cantos de sua visão escureceram.

    — Jonatan Atrium, vulgo Açougueiro, ex-fuzileiro lunar e executor do projeto Sangria — começou com a voz grave e polida, como sempre fazia antes do ato final. — Pelos crimes contra a população de Selenópolis, pela perseguição e tortura deliberada de inocentes, pela morte de Silvia Lesbos e pela traição ao sangue que jurou defender… eu, Goliah, executor da Nebula Nostra, determino a sentença máxima. Sua pena é a morte.

    Jonatan ergueu o olhar mais uma vez. Então, suspirou, resignado.

    O estampido foi limpo. O corpo tombou para o lado.

    O holograma de Lesbos, que assistira tudo em silêncio, finalmente falou. Seus olhos caídos e lábios curvados mostravam que sentira pouca ou nenhuma satisfação com o cumprimento da missão.

    — Serviço concluído. Transferência dos créditos adicionais confirmada.

    O anão penteava a ponta do bigode com um olhar fundo e cansado.

    — A Nebula Nostra agradece a preferência, e ressalta o prazer em fazer negócios com você, prefeito Lesbos.

    A projeção piscou e desapareceu.

    Goliah desfez a arma na mão. Ajeitou o sobretudo, pegou o chapéu do chão e o colocou na cabeça. David arrastou Vincent para o lado e deixou-o encostado em um pilar.

    Goliah encarou o rapaz com um olhar pesaroso.

    David já estava prestes a sair da clareira quando olhou para trás e viu o colega se levantando ao lado do corpo do inspetor.

    Caminharam pela plataforma de metal em direção à nave. A rampa desceu com um zumbido hidráulico. Goliah parou por um segundo na base da escada, olhou para trás uma única vez e soltou uma baforada do cigarro eletrônico.

    — Belo lugar pra morrer — murmurou.

    David assentiu e fechou a rampa atrás deles.

    A nave decolou devagar, cortando a chuva artificial que voltava a cair sobre o domo.

    Lá embaixo, na plataforma vazia, Vincent acordou aos poucos. O corpo do irmão jazia a poucos metros dele e o sangue escorria para o lago.

    O inspetor se arrastou até Jonatan, puxou-o para o colo e chorou. O óculos escapou de seu nariz enquanto chorava.


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