Capítulo 149 - Sem Margem I
Danurem caiu gargalhando.
Ian já havia se movido. A linhagem respondeu antes da decisão consciente, a mana se reorganizando, os traços mudando de forma gradual, os cabelos ficando brancos nas pontas enquanto os olhos ganhavam o brilho azul estrutural.
A postura se alongou dois centímetros. A respiração saiu mais funda por um segundo involuntário, o custo de ativar com o que havia sobrado depois da disputa com Vaelion.
Os espinhos de gelo subiram do chão em linha reta na trajetória da queda de Danurem.
Cada um com espessura de lança, emergindo da pedra do beco em sequência rápida, calculados para o ângulo de queda, para o peso, para a velocidade. Danurem posicionou o martelo na frente do corpo. O primeiro espinho explodiu contra o cabo. O segundo. O terceiro. O martelo não cedeu. O chão cedeu.
Danurem caiu entre a torre e os dois como um meteoro.
O impacto explodiu o corredor de pedra em uma onda de rachaduras que correu pelas paredes dos dois lados, arrancando blocos inteiros das estruturas e lançando poeira, madeira e estilhaços de cristal no ar.
Uma janela no segundo andar da casa à esquerda estilhaçou para dentro.
Do interior veio um grito curto.
Depois silêncio.
A poeira ainda estava no ar quando Danurem ficou de pé.
O martelo no ombro.
O sorriso no lugar.
— Boa tentativa.
Ian não respondeu.
Ele olhava ao redor buscando aberturas.
A torre agora estava atrás de Dan. Caçadores nos flancos do beco, quatro à esquerda, três à direita, as armaduras com os símbolos de contenção pulsando em frequência que ele conseguia sentir como pressão lateral na mana, cada pulso comprimindo levemente o que havia sobrado depois da guerra psíquica.
E não havia sobrado muito.
Maelis não perdeu tempo.
A posição dela havia ficado melhor, próxima da torre, com o corredor estreito funcionando como gargalo perfeito. Ela abriu as duas mãos. As chamas nasceram violentas nas laterais do beco, ricocheteando nas paredes de pedra, subindo pelas janelas das casas coladas ao corredor.
Do segundo andar de uma delas veio outro grito.
Diferente do primeiro.
Mais longo.
Maelis não olhou para cima. Não havia tempo para olhar para cima. Os Caçadores dos flancos recuaram um passo antes de reorganizar a linha, e o calor ficou preso no espaço estreito sem para onde dispersar, exatamente como ela havia calculado.
O primeiro usuário de Ordo foi obrigado a avançar para proteger os que estavam atrás.
Ela girou o punho.
A explosão comprimida atingiu o escudo de Ordo e espirrou fogo líquido pelas bordas. O Caçador atrás do escudo levou o respingo no rosto e no pescoço. O Caçador queimado levou a mão ao rosto, os dedos afundando na carne chamuscada antes que ele desabasse de lado, derrubando outro membro da linha junto.
Os outros dois recuaram mais um passo.
A formação havia perdido a linha.
Danurem avançou
Mas ao contrario do que Maelis esperava ele não olhou para ela uma vez sequer.
Ian mal teve tempo de ajustar o peso quando Dan se aproximou. O martelo desceu em diagonal com velocidade que não combinava com o tamanho do homem, Ian desviou dando um passo para o lado, ele sentiu o deslocamento de ar raspar a têmpora, e o martelo acertou a parede ao lado com força que arrancou meio metro de pedra da estrutura.
A casa gemeu.
Algo desabou lá dentro.
Danurem não esperou o eco.
O segundo golpe veio horizontal, rasteiro, usando o cabo do martelo como alavanca, Ian tentou bloquear com uma placa de gelo no antebraço e a placa explodiu sob o impacto, os fragmentos cortando o lado esquerdo do rosto e o pescoço antes de se dispersarem.
O sangue chegou quente.
Ian sentiu antes de ver — o calor na bochecha, no maxilar, o gosto metálico chegando rápido na comissura da boca.
A onda de choque do impacto o atingiu em cheio e o corpo foi lançado para trás.
Voou pelo corredor estreito, atravessando a linha dos Caçadores de Magos como uma flecha azul descontrolada.
Os Magos jogaram para os lados por reflexo, um deles não conseguiu desviar completamente e Ian passou pelo ombro dele, o contato arremessando o caçador contra a parede com força suficiente para quebrar algo.
O homem escorregou pelo tijolo e não levantou.
Ian atravessou o espaço do beco em linha reta.
A parede do fundo chegava rápida.
A lama chegou antes.
Elenys.
Densa, absorvendo o impacto em camadas que cederam progressivamente, não suave, nem gentil, mas suficiente para que Ian não se machucasse mais ali. Ele afundou dois palmos na lama, sentiu o joelho direito reclamar com o tipo de dor que não vai embora rápido, e ficou imóvel por um segundo com a respiração completamente fora de ritmo.
O braço esquerdo não estava respondendo direito.
O formigamento do Ordo que havia penetrado pela fratura da placa de gelo ainda estava lá, dissolvendo a camada protetora da articulação em pulsos irregulares.
Do outro lado do beco, Danurem girou o martelo no ombro.
— HA! Agora sim!
A névoa fechou o corredor antes que ele terminasse a frase.
Não gradual.
De uma vez.
Lys fechou a mão e o beco desapareceu dentro do branco denso e frio que desceu do teto até o chão em menos de dois segundos.
Ian ouviu os Caçadores perdendo formação, passos desencontrados, ordens em voz baixa tentando reestabelecer linha sem referência visual, o som dos cristais nos punhos acendendo mais forte enquanto tentavam usar os artefatos para compensar a visão que não tinham mais.
Ouviu também Maelis parar.
As chamas dela haviam sumido.
Não porque ela havia cedido, mas porque a névoa era densa demais para manter fogo sem arriscar queimar o que não deveria ser queimado. Ela estava cega como os Caçadores, só com a diferença de que sabia o motivo.
Ian se levantou da lama devagar.
O joelho protestou em cada centímetro.
O braço esquerdo respondia com meio segundo de atraso, a dor latejando do cotovelo até o ombro em ondas que chegavam junto com cada batida do coração.
Passou a manga no rosto.
O tecido saiu escuro.
Ele ficou olhando para o braço por um segundo.
Sem hesitar, desfez a linhagem. Os traços élficos sumiram.
O refinamento da Varel já não estava respondendo como deveria.
O confronto mental com Vaelion havia cobrado um preço alto demais.
Depois olhou para a névoa ao redor.
Dentro dela, sem referência visual, sem a precisão da linhagem, ele era um ponto cego no próprio ambiente.
Não era opção ficar parado.
A mana mudou.
O ar do corredor caiu vários graus em um único segundo, não de forma controlada.
O gelo que emergiu ao redor do corpo não tinha a elegância da forma Varel. Era pesado. Fragmentado. Placas sobrepostas que cobriam o torso, os ombros, o antebraço direito em camadas irregulares que pareciam prontas para quebrar mas que absorviam impacto de forma diferente precisamente por isso, cada fragmento cedendo de forma independente, dissipando força em vez de concentrá-la.
A espada nasceu na mão direita.
Longa.
Sem ornamento.
Danurem surgiu da névoa como se a névoa não existisse.
O Ordo ao redor do corpo dele dissolvia o branco a cada passo, só pela densidade do que ele carregava, abrindo um corredor de visibilidade que avançava pelo beco em linha reta em direção ao fundo.
Em direção a Ian.
Maelis ficou na frente.
Sem chamas, a névoa ainda era densa demais. Só ela, de pé, bloqueando o corredor com o corpo.
Dan olhou para ela.
Por um segundo inteiro.
Os olhos pesaram nela com o tipo de avaliação que não precisava de tempo longo para concluir.
Depois continuou andando.
Passou por ela.
O ombro dele cortou o espaço a centímetros do rosto de Maelis e ela sentiu o calor do Ordo concentrado como estática na pele.
Maelis ficou parada no centro do beco por um momento.
Olhando para as costas de Danurem desaparecendo na névoa.
Os Caçadores fecharam o espaço atrás dele, cortando o caminho, a formação se reorganizando entre ela e o fundo do beco com a eficiência silenciosa de pessoas que haviam feito aquilo antes muitas vezes.
Ela olhou para os uniformes.
Para os cristais.
Para a mancha escura no chão onde o Caçador que havia levado o fogo no rosto ainda estava de joelhos, tentando se levantar com uma mão na parede.
Depois abriu as mãos.
A névoa atrapalhava o fogo.
Mas o fogo podia resolver a névoa.
Então vamos começar por aí.
No fundo do beco, Ian ouviu os passos de Danurem saindo da névoa.
Os dois se encontraram no espaço onde o corredor se abria para a rua principal.
O primeiro choque destruiu a parede lateral de uma casa.
Do interior veio o som de móveis caindo, de alguém correndo escada abaixo, de uma porta batendo no fundo de um corredor.
O segundo choque atravessou a oficina ao lado.
Ferramentas espalharam pelo chão. Uma bigorna tombou com som que abafou os gritos da rua por um segundo inteiro.
O terceiro rompeu o fim do beco e os dois saíram para a rua principal.
O distrito entrou em pânico.
Pessoas correram sem direção específica, umas para longe, outras parando no meio do caminho sem entender o que estava acontecendo, algumas simplesmente caindo porque o chão havia rachado sob os pés antes que percebessem que precisavam mover.
Uma criança estava parada no meio da rua.
Imóvel.
Olhando para Ian e Danurem com a expressão de quem não consegue processar a escala do que está vendo.
A mãe apareceu tarde demais.
Saiu de uma das portas laterais gritando o nome da menina, os pés descalços escorregando nas pedras rachadas da rua enquanto tentava alcançá-la.
Danurem já havia avançado.
O martelo veio em arco, com força e energia demais demais para parar a tempo numa rua cheia de casas.
Ian viu a trajetória.
Viu a criança.
E soube o que Dan o estava obrigando a escolher.
Escolheu o impacto.
Ele entrou no golpe antes do tempo certo, usando o ombro e a lateral da armadura de gelo para desviar a cabeça do martelo alguns centímetros.
Foi o suficiente.
A onda de choque passou pela rua como uma muralha invisível.
A fachada da casa atrás da mulher explodiu em pedra e madeira.
Ela conseguiu agarrar a criança pelo braço e puxá-la para o chão no último segundo, mas os estilhaços pegaram as duas.
Um corte abriu a testa da mulher.
A menina gritou quando um fragmento de madeira atravessou a lateral da perna.
O impacto entrou torto no corpo de Ian.
O ombro direito cedeu com um estalo seco.
Dor quente.
Violenta.
Subindo do braço até a clavícula como fogo por dentro do osso.
O sangue que já escorria do rosto desceu mais rápido quando ele perdeu o equilíbrio por meio passo.
Danurem viu.
E sorriu.
— Até agora protegendo gente no meio da rua?
Ian respirou fundo, o gosto de ferro ficando mais forte na boca.
Atrás dele, ouviu a mulher arrastando a filha para dentro dos escombros de uma loja semiaberta, chorando.
Ele firmou os pés outra vez.
— Alguém aqui tem que ter escrúpulos.
Ian ficou de pé.
A espada de gelo ainda na mão direita.
O sangue do rosto havia chegado no pescoço e estava começando a manchar a gola da armadura improvisada.
Danurem ficou de frente para ele na rua vazia que estava cheia de gente trinta segundos antes.
Os olhos dele varreram Ian de cima a baixo.
O sorriso não sumiu.
Mas mudou de natureza.
— Você está péssimo, para se preocupar com algo assim.
Ian ajustou a pegada na espada.
O ombro protestou com uma fisgada brutal.
Ele cuspiu sangue na pedra rachada da rua e sorriu de volta.
— Eu sei.
Uma pausa curta.
— Da próxima vez, bate na porta.
Os olhos azuis brilharam mais frio.
— Aparecer sem ser convidado continua sendo falta de educação.

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