Capítulo 29 – O Eco de um Herói
Academia Real de Imperion
O pátio da Academia Real, normalmente repleto de risadas e conversas animadas, estava tomado pelo silêncio. O tremor que abalara a capital dias antes ainda estava fresco na mente dos alunos. Edward, Yuuto e Dick sentaram-se à sombra de uma árvore, suas expressões carregadas de preocupação.
— Aquilo no outro dia não foi um terremoto comum — disse Yuuto, observando o céu como se buscasse respostas.
— A terra tremeu de um jeito estranho — murmurou Dick. — Como se… algo gigantesco tivesse sido destruído.
Edward nada disse. Ele sentia. Sentia um vazio que não sabia explicar. Era como se algo dentro dele tivesse sido arrancado à força. Desde que o tremor ocorreu, uma inquietação insuportável o consumia.
Então, os sinos tocaram.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Era um chamado de urgência.
A academia inteira pareceu congelar. Professores, alunos e funcionários pararam o que faziam e voltaram seus olhares para o alto da torre principal, onde um arauto da corte apareceu, segurando um pergaminho selado com cera vermelha.
O homem respirou fundo antes de proclamar, sua voz ecoando por toda a academia:
— A capital lamenta a perda de um de seus maiores heróis. O Duque Hiroshi Ignivor, Protetor do Reino, caiu em batalha.
Silêncio absoluto.
Por um instante, parecia que o próprio mundo havia parado.
Então, o impacto das palavras atingiu como uma tempestade.
Gritos de surpresa e murmúrios assustados se espalharam entre os alunos. Yuuto e Dick olharam para Edward ao mesmo tempo, mas ele não se moveu.
Seu corpo parecia paralisado. Seu coração batia forte contra o peito, mas sua mente recusava-se a aceitar o que ouvira.
— Não… Isso não pode ser verdade.
O arauto continuou:
— Hiroshi Ignivor sacrificou-se para conter uma ameaça de proporções inimagináveis. Sua coragem e lealdade ao reino jamais serão esquecidas. Seu nome será lembrado para sempre como o Herói das Chamas!
As palavras pareciam vir de um mundo distante. Edward sentiu suas pernas cederem, caindo de joelhos na grama fria.
Seu avô estava morto.
—
Mansão Ignivor — Capital
O grande salão da mansão Ignivor estava mergulhado em um silêncio sepulcral. A notícia da morte de Hiroshi já tinha sido trazida pelo próprio capital Vance que depois de deixar o Imperador Magnus em Fiâmoria retornou ao local da batalha e só encontrou destruição e o corpo de Hiroshi não foi encontrado, apenas seu braço esquerdo.
As cortinas da mansão haviam sido fechadas, e a luz das velas lançava sombras trêmulas pelas paredes de pedra.
Eiko estava sentada em uma cadeira de madeira entalhada, seu olhar fixo no chão. Sua postura era rígida, mas suas mãos tremiam levemente sobre o colo.
Ao lado dela, Haruki permanecia de pé, os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Isso… não pode ser verdade. — A voz de Haruki soou rouca.
Capitão Vance que trouxera a notícia manteve a cabeça baixa, sem ousar encarar a duquesa viúva ou seu filho.
— Eu mesmo junto de cem homens procuramos em toda área ao redor do campo onde fomos emboscados — disse ele, com pesar. — O corpo de Lorde Ignivor não pôde ser recuperado… Mas a devastação causada pela explosão prova que o Duque Hiroshi Ignivor tombou como um verdadeiro herói.
As palavras soaram vazias.
Haruki virou-se de costas, escondendo a expressão de dor.
Akari, sua esposa, estava parada ao lado da porta, com as mãos apertando a borda de seu vestido. Seus olhos estavam marejados, mas ela se recusava a derramar uma lágrima.
— O que vamos fazer agora? — Sua voz saiu baixa, hesitante.
Eiko levantou o rosto.
Seus olhos estavam secos, mas havia algo neles. Uma firmeza inabalável.
— Vamos honrá-lo.
O silêncio dominou o cômodo.
— Hiroshi morreu para nos proteger. Para proteger este reino. Para proteger nossa família. E não deixarei que seu sacrifício tenha sido em vão.
A duquesa viúva se ergueu, com a dignidade de uma alta‐nobre.
— Faremos um funeral à altura de um herói. Que todo o reino saiba que Hiroshi Ignivor tombou, mas seu legado jamais será apagado.
Haruki fechou os olhos, respirando fundo.
— Eu cuidarei disso, mãe.
E três dias se passaram na Praça Central da Capital — Pyronia
O coração de Imperion batia em luto.
A antiga Praça dos Fundadores, agora rebatizada como Praça da Chama Eterna, transbordava de silêncio, como se o próprio tempo tivesse parado para honrar o último adeus de um herói. No centro, onde outrora uma fonte jorrava em alegria, erguia-se uma nova escultura de pedra negra: Hiroshi Ignivor, com a capa esvoaçando atrás de si, a espada flamejante apontada ao céu, como se ainda desafiasse a morte.
Pétalas brancas caiam das sacadas das construções, levadas pelo vento como flocos de neve. Elas tocavam o chão suavemente, como se temessem ferir o silêncio.
A multidão reunida — nobres, plebeus, soldados, artesãos, camponeses — chorava como um só corpo. Ninguém falava. Ninguém sorria. Mesmo o sol, tímido entre nuvens cinzentas, parecia respeitar o momento.
A presença de dignitários estrangeiros tornava a cerimônia ainda mais grandiosa.
O Imperador Maguns Von August, governante absoluto de Drakmor, trajava uma túnica negra de brocado com detalhes dourados. Sua expressão severa escondia qualquer vestígio de emoção.
Diante do palanque, a família Ignivor estava reunida em luto profundo.
Eiko Ignivor, a matriarca, mantinha a postura ereta, mas seus olhos estavam inchados, vermelhos de tantas lágrimas. Os cabelos brancos, presos em um coque firme, tremiam levemente com o vento. Ela apertava contra o peito uma das medalhas de Hiroshi, como se ainda pudesse sentir o calor do marido nela.
Haruki e Hizuke, os irmãos gêmeos estavam de pé ao lado da mãe, Sayuri a filha mais nova de Hiroshi também estava ao lado dos irmãos. Seus rostos endurecidos pela dor, os punhos cerrados, os olhos marejados fixos na estátua do pai. Ao lado, Akari chorava em silêncio, segurando a mão de Haruki com força. Ela não conseguia encontrar palavras — apenas sua presença bastava.
E então, havia Edward.
O jovem permanecia imóvel entre os pais e a avó. Seus olhos âmbar estavam fixos na estátua do avô, mas seu corpo inteiro tremia. Uma dor surda o consumia por dentro. Parecia irreal. Parecia errado. Seu avô sempre fora uma força da natureza — como o mundo poderia continuar sem ele?
Quando as pernas fraquejaram, uma mão apertou a sua.
Lianna.
Ela estava ali, ao seu lado, sem dizer uma única palavra. Apenas lhe ofereceu sua presença, seu calor, seu amor. Edward apertou sua mão com força, como se ela fosse a âncora que o mantinha de pé.
—
Horas depois…
A cerimônia havia terminado. A multidão se dispersara. A praça estava vazia, exceto por alguns guardas e por Edward e Lianna, que permaneciam ali, sentados nos degraus de pedra diante da estátua.
A jovem mantinha os braços entrelaçados nos de Edward, o rosto encostado em seu ombro. Ela não chorava mais, mas seus olhos ainda estavam úmidos.
— Ele era mais do que um grande homem — sussurrou Edward, a voz embargada. — Ele era… o meu Herói Quando eu era pequeno, achava que ele era invencível. E mesmo depois de crescer, mesmo conhecendo os perigos, eu… eu nunca consegui imaginar um mundo onde ele não existisse.
Lianna não respondeu de imediato. Apenas apertou sua mão.
— Ele vive em você, Ed — disse ela, enfim, com ternura. — No jeito como você se recusa a desistir. Na sua coragem. No seu fogo. Você é o legado dele.
Edward a olhou, os olhos marejados. E, pela primeira vez desde o funeral, ele se permitiu chorar.
Lianna o abraçou com força, e ele desabou em seus braços, deixando que a dor transbordasse.
—
Mais tarde, na casa da família Ignivor…
A mansão estava mergulhada em um silêncio opressor.
Edward caminhou lentamente pelos corredores, até parar diante da biblioteca. A porta estava entreaberta. Lá dentro, Haruki estava sozinho, em pé diante da lareira apagada, com uma taça de vinho intocada na mão.
— Pai — disse Edward, hesitante.
Haruki não se virou, mas sua voz veio rouca:
— Ele sempre dizia que morreria lutando. Que um guerreiro como ele não nascia para morrer de velhice.
Edward se aproximou, parando ao lado do pai.
— Mas isso não torna mais fácil, não é?
Haruki soltou um riso fraco, mais um suspiro do que um som real.
— Não. Não torna.
Houve um silêncio, e então Haruki colocou a taça sobre a lareira e, finalmente, encarou o filho.
— Eu tentei ser como ele. Em tudo. Mas agora percebo que não posso ser igual ao meu pai. E você também não precisa ser. Você é Edward. E seu caminho… vai ser diferente meu filho.
Edward assentiu lentamente, a garganta apertada.
— Mesmo assim… eu vou honrar ele. Vou continuar lutando. Protegendo quem eu amo.
Haruki colocou uma mão no ombro do filho e o puxou para um abraço apertado.
— Eu sei, filho. Eu sei.
—
Naquela noite, Edward subiu até o telhado da mansão e ficou ali, sozinho, olhando para o céu. As estrelas brilhavam com uma força incomum, como se uma delas tivesse acabado de se juntar ao firmamento.
— Vô… — sussurrou. — Eu prometo que vou proteger esse reino, e as minhas chamas vão queimar como as suas queimaram. Até o fim.
E quando fechou os olhos, por um breve instante, jurou ter sentido uma brisa quente tocar seu rosto como um último adeus, vindo das chamas eternas de Hiroshi Ignivor.

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