Os degraus de pedra eram gastos pelo tempo, e o cheiro de fuligem se intensificava à medida que Hiroshi e Lothar desciam para a forja subterrânea da Forja do Dragão.  O calor era quase sufocante, vindo de um grande forno de pedra que crepitava ao fundo, alimentado por carvões que ardiam em um tom avermelhado.

    Correntes de ferro pendiam das vigas do teto, segurando lâminas inacabadas que ainda precisavam de lapidação. Ao redor, prateleiras de madeira escura estavam abarrotadas de ferramentas, barras de metal bruto e peças de armaduras desmontadas.

    O chão era coberto por poeira metálica e marcas de queimaduras, cicatrizes do trabalho árduo de um ferreiro. 

     Lothar puxou um banco e sentou-se com um suspiro pesado.

    — Então, meu velho amigo… o que o traz aqui?  Hiroshi, que até então se mantinha em silêncio, respirou fundo.

    — Meu único neto vai se casar.  Lothar arqueou uma sobrancelha.

    — Finalmente, hein? Bem, suponho que o garoto tenha herdado sua teimosia, então imagino que a noiva seja uma garota forte.  

    Hiroshi deu um meio sorriso.— Você não faz ideia. Mas o ponto é outro. Edward e sua noiva não querem viver como diplomatas. Eles querem se tornar aventureiros.  

    Lothar cruzou os braços.— A juventude… sempre querendo correr para o perigo.— Pois é.

    — Hiroshi soltou um suspiro. — Quero dar a eles um presente. Algo inesquecível. 

     Com um movimento cuidadoso, ele puxou o pano grosso que estava enrolado sob seu braço e o colocou sobre a mesa de trabalho.

    Lothar observou com curiosidade quando Hiroshi desdobrou lentamente o tecido, revelando uma pedra azul-clara, de brilho sutil, que parecia pulsar levemente sob a luz das chamas.

      O ferreiro franziu o cenho.— E o que diabos é isso? 

     Hiroshi permaneceu em silêncio, apenas esperando.  

    Lothar retirou completamente o pano e inclinou-se sobre a mesa. Por alguns segundos, ele apenas encarou a pedra, seus olhos se estreitando conforme analisava o material.

    Então, de repente, arregalou os olhos e olhou para Hiroshi. Depois para a pedra.

    E então de volta para Hiroshi.  

    Finalmente, exclamou:— Seu filho da mãe… Você tinha isso o tempo todo?! 

     Hiroshi deu de ombros.— Onde? Quando você conseguiu isso?!  

    O duque passou a mão pelos cabelos avermelhado e grisalhos e recostou-se contra a bancada.

    — Foi na guerra. Depois que tomamos Kaer Azar, o exército iniciou a invasão de Aethernia. Como você sabe, aquele país é subterrâneo, e a fortaleza guardava um dos portões para a entrada principal. Assim que passamos pelos portões, encontramos uma cidade. O lugar era governado pela família do comandante de Kaer Azar. Houve uma batalha, mas a resistência deles não durou muito. Quando a cidade caiu, eu… bem, eu fiz algo que não me orgulho. 

     Lothar cruzou os braços, esperando.— Saqueou a cidade? — ele perguntou, sem rodeios.  

    Hiroshi soltou uma risada seca.— Claro que sim. Fui até a maior casa da cidade, a mansão do comandante, que, aliás, eu mesmo matei em batalha. Ouvi dizer que sua família fugiu assim que souberam que ele morreu, então a casa estava vazia. 

    Ele fez uma pausa, como se revisse mentalmente aquela cena.— Vasculhei o lugar de cima a baixo. Havia ouro, joias, todo o tipo de riqueza. Mas o que realmente me chamou a atenção foi essa pedra. Ela estava no meio do porão, brilhando sozinha. Eu sabia que, se estava ali, era valiosa.  Lothar assentiu lentamente.— E você manteve essa pedra em segredo… esse tempo todo?  

    Hiroshi não respondeu, apenas encarou o ferreiro com seriedade.  Lothar passou a mão pelo rosto, exasperado.— Você tem noção do que isso é, não tem?

    – Claro que tenho. — Hiroshi deu um leve sorriso. — Minha cota de malha, aquela que ganhei do meu general, brilha exatamente da mesma forma. São feitas do mesmo material.  

    O ferreiro respirou fundo, tentando conter um xingamento.— Astralite pura… Isso é uma fortuna, Hiroshi.— Eu sei. Mas não me interessa dinheiro. Quero usá-la para criar armas para Edward e Lianna.  

    Lothar ficou em silêncio por um momento, observando a pedra com um olhar experiente. Depois, resmungou.— Vai ser difícil, mas não impossível.

    — Difícil quanto?

    — A Astralite é extremamente resistente. Mas há uma técnica… Um martelo especial que enfraquece temporariamente suas propriedades. Se usarmos isso, o trabalho será bem mais fácil.

      Hiroshi assentiu.— Ótimo. Quanto tempo precisa?

    — Se eu começar agora, estará pronto pela manhã.

    — Enviarei um soldado para buscar as armas.

      Lothar pegou um pedaço de carvão e um pergaminho, preparando-se para esboçar os designs.

    — Que tipo de lutadores eles são?

    — Edward  é um espadachim. Lianna é uma maga que usa magia de ilusão. 

     O ferreiro murmurou algo para si mesmo, anotando os detalhes.— Certo… Vou fazer algo digno de dois aventureiros de verdade.  

    Ele ergueu o olhar e deu um sorriso matreiro.— Mas, só para deixar claro, isso vai custar caro.  Hiroshi riu.— Sem problemas.  

    Eles se despediram, e Hiroshi deixou a forja, sentindo o ar frio da superfície contrastar com o calor sufocante do subsolo.

    Seu próximo destino era a Guilda de Aventureiros de Fiâmoria

    A Guilda de Aventureiros de Fiâmoria era um prédio robusto, construído em pedra e madeira de carvalho, com um telhado inclinado coberto por telhas avermelhadas. Um grande brasão adornava a entrada: duas espadas cruzadas sobre um escudo, simbolizando a coragem e a força dos aventureiros que passavam por ali.  

    Hiroshi subiu os degraus e empurrou as portas de madeira maciça. O interior era espaçoso, com grandes vigas sustentando o teto e um amplo salão repleto de mesas onde aventureiros conversavam, bebiam ou examinavam contratos pregados no quadro de missões. O ar carregava o cheiro de couro, metal e hidromel. 

     Assim que entrou, foi imediatamente notado por dois jovens que já haviam falado com ele mais cedo. Eles se levantaram rapidamente e se aproximaram.  

    O primeiro, um rapaz de cabelos castanhos curtos e olhos verdes, sorriu nervoso. Ele vestia um gibão de couro escurecido, com uma espada curta presa à cintura. Seu nome era Cedric, e sua expressão ansiosa mostrava que ele ainda não estava acostumado a estar tão perto de uma lenda viva. 

     O segundo, mais alto e esguio, tinha cabelos negros e longos presos em um rabo de cavalo. Seus olhos eram de um azul profundo, e seu semblante era bem mais sério. Seu nome era Goas, e ele usava um peitoral de metal simples sobre uma túnica azul-escura, carregando uma lança nas costas.

    — Lorde Ignivor, é uma honra vê-lo novamente! — Cedric falou, inclinando levemente a cabeça.  

    Goas manteve uma postura mais firme, cruzando os braços.— Não devíamos incomodar o Duque Ignivor, Cedric.  Hiroshi olhou para os dois e perguntou:

    — Qual a idade de vocês?  Cedric piscou, parecendo surpreso pela pergunta.

    — Nós dois temos 18 anos, senhor.—

    E o ranking de vocês?

    — Ranking D, respondeu Goas.

    — Estamos na guilda há um ano. 

     Hiroshi assentiu, observando os dois com um olhar avaliador.— Então ainda estão no começo.

    Cedric ficou um pouco sem graça.— Sim, senhor. Mas estamos treinando muito para subir de ranking logo!  

    Hiroshi sorriu de canto.— É bom ouvir isso. Agora, levem-me ao líder da guilda.  

    Os jovens assentiram prontamente e o guiaram até uma escada de madeira polida que levava ao segundo andar. Subiram em silêncio até um corredor mais reservado, com menos movimentação. No final dele, havia uma grande porta dupla de carvalho, adornada com entalhes de dragões entrelaçados. Goas bateu duas vezes antes de empurrar a porta e anunciar:

    — Senhor, o Duque Hiroshi Ignivor está aqui.  Uma voz firme respondeu do outro lado:

    — Entrem.  Hiroshi entrou na sala, observando o homem que estava atrás de uma mesa de madeira robusta, cheia de pergaminhos, mapas e um jarro de vinho.  

    O Líder da Guilda de Fiâmoria, Ragnar Dain, era um homem na casa dos quarenta, de cabelos castanhos claros levemente grisalhos e uma cicatriz longa descendo pelo lado esquerdo do rosto. Seus olhos eram de um verde intenso, e ele usava uma túnica azul-escura reforçada com couro. Um machado pesado repousava encostado na parede atrás dele. 

     Assim que Hiroshi entrou, Ragnar se levantou com um sorriso largo.

    — Hiroshi, seu velho desgraçado! Ainda está vivo?  

    Hiroshi cruzou os braços e sorriu de canto.— Mais vivo do que nunca, Ragnar.

    Ragnar deu a volta na mesa e segurou o antebraço de Hiroshi em um cumprimento firme.

    — Sente-se. 

      Hiroshi obedeceu, acomodando-se em uma cadeira de couro diante da mesa. Ragnar serviu duas taças de vinho e empurrou uma delas na direção do duque.

    — Faz tempo que não nos vemos, Ragnar. O que anda aprontando na minha cidade?  

    Hiroshi pegou a taça, mas não bebeu.

    — Se me chamou aqui, imagino que tenha algo a dizer.  

    Ragnar riu, tomando um gole do vinho.

    — Sempre direto ao ponto. Sim, eu queria falar com você. Mas antes, me diga… você se lembra de quando nos conhecemos? Ou está velho demais para se lembrar.  

    Hiroshi ergueu uma sobrancelha.— Claro que lembro. Você era um garoto quando nos conhecemos.  

    Ragnar sorriu, recostando-se na cadeira.— Sim. Eu era só um moleque quando meu vilarejo foi atacado por mercenários. Meus pais foram mortos, e eu teria morrido também se você não tivesse passado por lá. 

     Hiroshi assentiu lentamente, lembrando-se da cena.

    — Eu estava caçando um grupo de desertores quando encontrei aquele vilarejo. Você foi o único sobrevivente.

    — E você me deu uma escolha, lembra? Disse que eu podia ir para um orfanato ou trabalhar para você no castelo Ignivor. Eu escolhi servir no seu castelo e aprender a lutar.  

    Hiroshi soltou um pequeno suspiro.— Eu me lembro. E vejo que seguiu seu caminho.Ragnar riu.

    — E como! Entrei na guilda como qualquer outro novato e subi até aqui. Agora sou eu quem treina os jovens aventureiros de Fiâmoria. E faço questão de ensiná-los com a mesma dureza que você me ensinou.

    Hiroshi sorriu de canto.— Então está me culpando?

    — Ah, de jeito nenhum. Mas você sempre foi um velho ranzinza, mesmo quando era mais jovem.

      Os dois riram. Ragnar bebeu mais um gole de vinho antes de continuar.— Mas, falando sério, eu queria agradecer. Não sei se já disse isso, mas você mudou minha vida, Hiroshi. Eu poderia ter morrido naquela vila, ou crescido como um criminoso. Mas você me deu um propósito. Então… obrigado. 

     Hiroshi fez um gesto de desdém com a mão.— Não precisa me agradecer. Você é quem trilhou seu próprio caminho. Eu só te dei um empurrão.

    Ragnar assentiu.— Mesmo assim, queria que soubesse.  O silêncio se instalou por um momento. Então, Ragnar apoiou os cotovelos sobre a mesa.

    — Mas me diga, por que está realmente aqui? 

     Hiroshi colocou a taça sobre a mesa e se inclinou levemente para a frente.— Porque meu neto está prestes a se tornar um aventureiro. E quero saber como está o mundo para aqueles que vivem nele.  

    Ragnar ergueu uma sobrancelha.— Seu neto… Edward, certo?  

    Hiroshi assentiu.

      Ragnar soltou um assobio.— Bem, então você veio ao lugar certo. O mundo dos aventureiros não é fácil, Hiroshi. Mas se seu neto tem um décimo da sua determinação… ele vai se sair bem.  

    Hiroshi esboçou um sorriso leve.— Espero que sim.  

    O líder da guilda levantou sua taça.— Então, um brinde ao futuro dos aventureiros.

      Hiroshi pegou sua taça novamente e ergueu  levemente.— Ao futuro.  

    E os dois beberam.

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