O dragão alçou voo, levando Hiroshi entre seus dentes.

      Sem poder mágico suficiente para manter as Asas da Pira Celestial, Hiroshi estava vulnerável. Quando a criatura abriu a boca, uma baforada negra explodiu ao redor do guerreiro, queimando sua pele e consumindo o ar ao seu redor. A dor era agonizante, um calor corrosivo que devorava sua carne e esmagava seus pulmões.

    E então, o dragão simplesmente o soltou.

    O guerreiro negro, que observava lá de baixo, começou a rir.

    — Hahaha! Você caiu, velho maldito! — ele gargalhou, vendo o corpo de Hiroshi em chamas despencar dos céus. — Acabou!

    Hiroshi se chocou contra o chão com força brutal.

      A terra tremeu. Uma onda de poeira e cinzas se ergueu no ar, e por um instante, tudo ficou em silêncio.

    O guerreiro cruzou os braços, satisfeito.

    — Herói das Chamas? Hah! Você não passa de uma piada no fim das contas.

    Mas Hiroshi ainda estava vivo.

    Seus olhos âmbar, antes apagados, brilharam em meio à escuridão.

    Seus pensamentos o levaram para um momento distante, anos atrás…

    O sol se punha sobre a capital.

      Hiroshi estava parado diante de uma grande janela na torre do palácio. A vista dali era magnífica: a cidade dourada se estendia até o horizonte, as luzes das casas começavam a se acender como estrelas na terra.

      Ao seu lado, um garotinho de cabelos vermelhos e olhos âmbar brilhantes observava a paisagem com curiosidade. Edward, ainda criança, tinha a expressão carregada de admiração.

    — Vovô… como é ser um herói?

    Hiroshi sorriu, mas não respondeu de imediato. Os olhos dele carregavam memórias pesadas.

    — Eu não sou um herói, Ed.

    O menino o olhou, confuso.

    — Mas todo mundo te chama de Herói das Chamas!

    — Isso não significa que eu seja um. — Hiroshi apoiou a mão sobre a cabeça de Edward, bagunçando seus cabelos. — Ser um herói não é sobre receber títulos ou ter grandes feitos. Já fiz muitas coisas erradas no passado… coisas das quais não me orgulho.

    Edward baixou a cabeça.

    — Então… o que você é?

    Hiroshi olhou para a cidade mais uma vez e respirou fundo.

    — Sou um protetor. Um homem que coloca o reino acima de tudo… mesmo acima de si próprio.

    Edward  franziu a testa.

    — Mas e se um dia… você não puder mais proteger o reino?

    Hiroshi sorriu.

    — Então outra pessoa assumirá esse dever.

    Edward arregalou os olhos.

    — Mas quem?

    Hiroshi olhou para o neto, seu sorriso se alargando.

    — Você, meu neto.

    Edward ficou boquiaberto.

    — Eu?!

    — Você tem o sangue dos Ignivor em suas veias. — Hiroshi pousou a mão sobre o peito do garoto. — E minhas chamas em suas mãos. Um dia, quando eu não estiver mais aqui, será sua vez de proteger esse reino.

    Edward engoliu em seco.

    — Mas… e até lá?

    Hiroshi riu.

    — Até lá, eu cuido disso por você… meu pequeno chorão.

    O garoto fechou os punhos, os olhos brilhando de determinação.

    — Eu não sou chorão!

    Os olhos de Hiroshi se abriram de repente.

    O brilho âmbar brilhava como nunca antes.

    Ele tentou se levantar, sentindo o corpo queimado e exausto, mas algo estava errado.

    Seu braço esquerdo não existia mais.

      A armadura que antes protegia seu corpo estava reduzida a cinzas, restando apenas sua cota de malha de astralite, o único motivo pelo qual os dentes do dragão não o haviam partido ao meio.

    O guerreiro negro estremeceu.

    — Você ainda está vivo?!

    Hiroshi cuspiu sangue e limpou a boca.

    — Eu tenho certeza… que mandei essa lagartixa gigante pro inferno… Como ela ainda está viva?

    O guerreiro gargalhou, abrindo os braços como um ator prestes a receber aplausos.

    — Hahaha! Isso tudo fazia parte do plano, velhote. Como você vai matar algo que já está morto?

    Hiroshi estreitou os olhos.

    — O que diabos isso significa?

    O guerreiro abriu um sorriso doentio.

    — Eu sou a própria morte.

    Hiroshi bufou.

    — Papo furado.

    — Não acredita? Então me diga… como você acha que o dragão voltou à vida?

    Hiroshi cerrou os dentes.

    O guerreiro sorriu ainda mais.

    — Enquanto o corpo do dragão estiver inteiro, ele sempre voltará. Eu sou o Deus da Morte, Hiroshi Ignivor. E você não pode matar a morte.

    Hiroshi olhou para o dragão, notando o buraco em seu peito ainda aberto.

    — Não pode se regenerar…?

    O guerreiro deu de ombros.

    — Não sou perfeito. Mas parabéns, viu? Você me deu um baita trabalho. Meu pai me avisou para nunca te subestimar, ou eu estaria morto.

    Os olhos de Hiroshi se estreitaram.

    — Então você não é só um bandidinho qualquer.

    O guerreiro imediatamente fechou a cara.

    — “Bandidinho”?

    Sua aura negra pulsou violentamente.

    — Você deveria escolher melhor as palavras quando fala com a realeza.

    Hiroshi ergueu uma sobrancelha.

    — Realeza?

    O guerreiro levantou o queixo, cheio de arrogância.

    — Você está diante do príncipe herdeiro de Drakmor.

    Hiroshi franziu o cenho.

    — Príncipe herdeiro? Mas até onde eu sei, o imperador de Drakmor não tem filhos.

    O guerreiro riu baixo.

    — Meu velho gosta de segredos. E pelo fato de eu ter a magia da ressurreição, ele decidiu me manter escondido a vida toda.

    Hiroshi ficou em silêncio.

    O príncipe ergueu os braços, teatralmente.

    — Tenho 25 anos e nunca dormi com uma garota! Meu pai me trancafiou como um maldito segredo! O que um homem pode fazer diante disso, hein?

    Hiroshi revirou os olhos.

    — Acredite, eu não me importo com sua vida amorosa.

    O príncipe sorriu.

    — Ah, mas você deveria. Afinal, você foi enviado para escoltar meu pai até a capital, não foi?

    Hiroshi não gostou do tom dele.

    — Sim. Foi ordem do rei.

    O príncipe riu alto.

    — Exato! O rei mandou você. Mas… será que ele realmente queria que você viesse?

    Hiroshi estreitou os olhos.

    — O que você quer dizer com isso?

    O príncipe abriu os braços, teatral.

    — A grande questão é: quem deu a ideia de tirar você de perto do rei e te atrair para cá? Quem será? Quem será?

    Hiroshi sentiu o estômago afundar.

    Havia alguém nos bastidores. Alguém que planejou sua ausência.

    Alguém que poderia estar traindo a coroa.

    Mas quem?

      Hiroshi ainda tentava processar o que acontecia ao seu redor. O príncipe gargalhava de maneira teatral, seu tom carregado de desdém e arrogância.

      O príncipe abriu os braços, e seus ferimentos se fechando como se o tempo estivesse sendo revertido. Em poucos segundos, estava completamente ileso, embora sua armadura e roupas continuassem rasgadas e queimadas.

    — Você parece confuso, herói caído. Não esperava que eu me curasse tão rápido? — 

      Hiroshi cerrava os dentes, sentindo o gosto ferroso do próprio sangue. Magia da escuridão nunca tivera propriedades curativas. Aquilo era algo novo, algo que ele jamais ouvira falar.

    O príncipe sorriu ao ver a expressão perplexa no rosto do guerreiro.

    — O que foi? Está assustado? Nunca viu um verdadeiro monarca em ação?

      Hiroshi nada respondeu. Seus olhos âmbar avaliavam a situação. Seu corpo estava destruído. Seu braço esquerdo perdido. Seus órgãos feridos. Seu sangue formava poças sob seus pés.

      O príncipe, ainda se deliciando com sua própria grandiosidade, ergueu as mãos e concentrou seu poder mágico. Uma onda de energia negra se espalhou pelo chão, formando um círculo sombrio de quase cem metros de diâmetro. Hiroshi sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem. Algo estava prestes a emergir dali.

      Do grande portal negro, sombras começaram a se arrastar para fora. Hiroshi esperava mais dos besouros gigantes que o príncipe havia invocado antes, mas o que surgiu foi muito pior.

      Eram milhares. Um verdadeiro exército de mortos-vivos. Cavaleiros esqueléticos, soldados sem rosto, espectros encapuzados segurando lâminas negras. Eles avançavam, seus passos sincronizados, olhos vazios refletindo apenas servidão ao príncipe da escuridão.

    Hiroshi fechou o punho.

      A frente, o dragão negro ainda rugia, suas asas abertas como um monstro do próprio inferno. Atrás, o príncipe olhava com pura diversão.

    Encurralado. Sem força. Sem poder mágico.

    — Esse é o fim, velho tolo — zombou o príncipe, aproximando-se com passos lentos e cheios de arrogância. — Você deveria se ajoelhar e aceitar seu destino. Quantos guerreiros podem dizer que morreram pelas mãos de um verdadeiro deus?

      Hiroshi respirou fundo. Seus pulmões ardiam. Seu corpo tremia. Ele sabia. Sabia que não tinha mais saída.

    Mas então, a verdade se revelou para ele.

    Se era para morrer, que fosse de pé. Que fosse como um guerreiro.

    Que fosse como um Ignivor.

      Ele se lembrou. Lembrou-se do grimório secreto de sua família. Das páginas proibidas que falavam sobre um feitiço que nunca deveria ser usado.

    Magia de Autodestruição.

    O preço? A própria vida.

      Hiroshi fechou os olhos, trazendo à memória o motivo pelo qual lutava. Ele não lutava por glória. Não lutava pelo título de herói. Ele lutava pelas pessoas que amava.

      Uma lembrança surgiu em sua mente, nítida como se estivesse acontecendo naquele momento. Seus filhos, ainda crianças, brincavam na varanda da mansão. Haruki e Hizuke brigavam por um brinquedo enquanto Sayuri, a mais nova, gargalhava nos braços de sua mãe, Eiko.

    A felicidade era aquilo. E era por aquilo que valia a pena morrer.

      Seus olhos âmbar brilharam uma última vez. Ele ergueu a mão direita e concentrou o resto de sua energia em uma chama azul vibrante.

    Colocou a mão sobre o peito, bem sobre seu coração, e sussurrou palavras em um idioma antigo.

    Seu corpo começou a brilhar.

    Primeiro, um dourado intenso. Depois, azul. E, por fim, um branco absoluto.

    O chão tremeu.

    O príncipe, percebendo o que Hiroshi fazia, arregalou os olhos e recuou.

    — Mas que diabos você pensa que está fazendo?!

    A luz crescia, se expandindo.

    Hiroshi abriu os olhos uma última vez.

    — Eu nunca acreditei em deuses… mas, se algum de vocês realmente existir, cuide da minha família.

    A luz engoliu tudo.

      A explosão foi colossal. Uma esfera branca e ardente se expandiu, consumindo o exército de mortos, o dragão e qualquer vestígio de escuridão. O próprio solo foi arrancado da terra, deixando uma cratera colossal de cinco quilômetros.

      O príncipe, vendo o inevitável, abriu um portal às pressas. Antes de desaparecer, lançou um olhar de puro ódio para Hiroshi.

    — Maldito… — murmurou. — Isso não acaba aqui.

    E fugiu, deixando o velho herói cumprir seu destino sozinho.

    Hiroshi se foi.

    Mas ele levou consigo o exército das trevas.

    Ele levou consigo o dragão.

    Ele levou consigo o terror que ameaçava Imperion.

    O Herói das Chamas havia caído, mas seu legado jamais seria apagado.

    Pyronia — Academia Imperial

      Edward estava sentado no pátio da academia, conversando com Yuuto e Dick. O dia estava calmo, o sol brilhava forte, e as risadas dos alunos preenchiam o ar.

      Então, o chão tremeu.

      Uma vibração profunda percorreu toda a cidade, fazendo vidraças racharem e pássaros fugirem dos telhados. Edward sentiu um arrepio subir por sua espinha.

    — O que foi isso?! — exclamou Dick, se levantando de um salto.

    Yuuto franziu o cenho, olhando para o horizonte.

    — Pareceu… um terremoto?

    Mas Edward sentiu. Sentiu algo diferente. Como se algo dentro dele tivesse sido arrancado à força.

    Ele levou a mão ao peito, tentando entender o que era aquele vazio repentino.

    E, então, compreendeu.

    Algo terrível havia acontecido.

    Mansão Ignivor — Capital

      Eiko, a esposa de Hiroshi, deixou cair a taça de chá que segurava. O vidro estilhaçou no chão, mas ela não se moveu.

    Seus olhos estavam arregalados. Sua respiração presa na garganta.

    Haruki e Akari correram até ela, assustados.

    — O que houve, mãe?!

    Ela não respondeu. Apenas ficou ali, sentindo um buraco imenso crescer dentro de seu peito.

    Ela sabia que algo havia acontecido. 

    O Herói das Chamas havia partido.

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