Capítulo 22 - Respeite o calor
As emoções eram o fole de sua forja interna. Como uma fogueira, seu poder prosperava com a alimentação constante de sentimentos. Embora qualquer emoção forte pudesse atiçar as chamas, a raiva agia como o combustível mais potente.
Não era uma queima constante, mas um inferno furioso, um vórtice agitado que sugava cada lampejo de paixão e o transformava em uma dança tempestuosa.
Essa conflagração interna não era um caos aleatório, no entanto. Ela esculpiu seu próprio ser. A cada batimento cardíaco intenso, uma explosão em miniatura se propagava, moldando sutilmente a sua fisiologia para lidar melhor com a imensidão do poder que exercia.
As labaredas se arrastaram pelo chão em minha direção, famintas e mais velozes do que eu gostaria de admitir. Em questão de segundos, senti o calor escalar meus tornozelos e consumir os arredores, enquanto Lewis surgiu do brilho alaranjado, encarando-me com o olhar fixo e a perna direita já em movimento, desenhando um arco certeiro em minha direção.
Não tive tempo de raciocinar. Meus músculos já sabiam o que fazer antes mesmo de eu pensar. Levantei o antebraço prontamente. O osso vibrou ao receber o golpe, que viajou até a base da palma da mão. A dor foi imediata, intensa e incômoda, menor, no entanto, do que seria se aquele chute tivesse alcançado meu rosto.
Usei a força do bloqueio para girar o corpo, torcendo o tronco depressa o suficiente para sentir o chão escapar por debaixo das solas, ainda que por um instante, na busca por uma brecha. Lewis estava no ar, e era só isso o que eu precisava.
Minha perna direita se lançou na direção da coxa com uma curva no ar. A batida foi potente, ainda que o resultado fosse… decepcionante.
Ouvi o som do meu pé afundando na carne dele até parar, tal qual se tivesse batido em madeira dura. Nem um centímetro ele se moveu.
“O quê?!”
Dois passos atrás, observei a tensão em seus músculos enquanto testava meu equilíbrio. Os tendões da perna estavam saltados, grossos e duros quanto às cordas ao limite da tração. Nada cedia. Mesmo com o impacto inteiro do meu giro, ele não arredou pé.
Quantas horas por dia esse cara passou treinando? Quantas lutas, quantos tombos foram necessários para se tornar essa muralha ambulante?
Meu pé ainda latejava, mas eu não tirava os olhos dele. Qualquer ajuste mínimo no ombro, a mais leve contração nas mãos, era um aviso. A situação era muito séria. Seu corpo era uma arma, e Lewis não estava ali para brincar.
Notei algo estranho em seus olhos e percebi uma expansão animalesca e incontrolável por trás das pupilas, um desejo voraz por mais do que apenas a vitória. Era como encarar um corpo tomado por uma febre há muito tempo adormecida, ávida pelo calor do confronto.
“Acho que tô fodido.”
Lewis se encolheu de lado. A base do seu pé esquerdo girou, e o seu quadril deslizou, moldando o seu corpo na forma de um arco pronto para o lançamento, conduzido por uma força imponderável. A perna direita descreveu uma meia-lua que rasgou o ar com uma brutalidade elegante.
Tudo ao redor perdeu a nitidez. Os sons abafaram de tal forma que o mundo ficara submerso. O tempo se esticou e se contorceu. Antes mesmo de vê-lo por completo, senti o movimento dele se aproximando por meio de um tremor no chão causado pela mudança de pressão acompanhada do assobio do vento seco na minha pele.
Tombei a cabeça para trás em uma inclinação súbita, puxada por reflexo e desespero. Senti o rastro da perna dele passando rente, tão perto que pude sentir o calor roçar meu queixo.
Um gosto doce e amargo tomou minha língua com sua espessura e familiaridade. Levei os dedos ao rosto e os retirei sujos e vermelhos. A ponta do meu nariz pulsava; os pequenos vasos se romperam em algum momento do frenesi.
“Não é possível, ele me acertou mesmo errando?”
Aquela maldita pressão tinha causado algum dano interno. O ferimento não era preocupante, mas a mensagem estava clara. Lewis tinha força, mas também era uma ameaça à beira do controle, com os pés fincados no caos.
— Já deu, né? — disse, limpando o sangue com o dorso da mão. — Não falei por ma…
Mal tive tempo de terminar. Lewis já vinha na minha direção.
Seu pé adiantou-se a uma velocidade absurda, impulsionado pelas chamas ondulantes ao redor de seu corpo. Sua perna direita se tencionou à medida que os músculos se tornaram mais rígidos. O giro do tornozelo se deu com precisão e liberou toda a força acumulada naquele movimento.
O impacto veio direto no meio do meu peito.
Tentei cruzar os braços toscamente, na esperança de me defender, mas fui esmagado antes de conseguir fazer qualquer coisa. O som da pancada latejou em meus ouvidos com a intensidade de um tambor batendo dentro da minha cabeça.
Voei pelos ares como um pedaço de papel à mercê do vento. Minhas costas bateram primeiro na borda de uma das plataformas metálicas, na altura das costelas. Senti o corpo se curvar em torno aquelas arestas duras sob um choque estático reverberante direto na base do crânio.
Depois disso, tudo foi consequência. Ricocheteei daquela estrutura e caí no chão com menos força, mas ainda assim de maneira pesada e desajeitada. Bati a lateral do rosto no piso áspero da sala, depois o quadril e, por fim, o ombro. O gosto de sangue voltou mais forte, espalhando-se pela boca, enquanto eu tentava entender onde estava doendo mais.
O chão da sala de treinamento não era liso. Sua superfície combinava concreto tratado com uma textura irregular que agarrava a pele. Percebi isso quando tentei me mover.
Com cada tentativa de apoio, pequenos fragmentos eram arrastados contra a minha mão, abrindo cortes finos, rasos, todavia insistentes. O atrito nas costas queimava onde a camisa tinha subido, meu fôlego falhava e minha respiração tornava-se curta, sendo como se algo no meu peito fosse incapaz de manter o ritmo certo.
Fiquei ali por mais tempo apoiado de lado, sem conseguir puxar ar direito. A dor era apenas uma parte.
Cuspi um pouco de sangue no chão, observei a mancha se espalhar devagar entre as irregularidades do piso e, só então, consegui levantar a cabeça o suficiente para encará-lo novamente.
“Porra… O que eu faço agora? Esse cara tá fora de si.”
Seus ataques eram uma torrente de impulso e fúria, como se ele estivesse disposto a desistir de tudo para vencer. O seu mundo se tornou um redemoinho carmesim no calor da batalha, uma cortina escarlate que obscurecia tudo, exceto sua forte vontade de triunfar. A luta atingiu níveis sem precedentes e a linha entre vontade e obsessão ficou cada vez mais nebulosa.
— Respeitar o calor é melhor, porque ele pode te derreter mais rápido que manteiga em uma frigideira.
A ficha caiu. O ego de Lewis era atingido diretamente por cada crítica e cada gesto arrogante, sendo acesa uma chama interminável de ódio. Um manto de desprezo se infiltrou profundamente em seu espírito, reabrindo uma antiga ferida, que latejava nesses momentos como uma cicatriz emocional.
Ser subestimado não era apenas um incômodo; significava acender a brasa de seu orgulho. Essa situação reabriu uma mágoa antiga guardada no fundo de sua alma. Mais do que raiva, Lewis estava desesperado para provar seu valor, queimar tão intensamente que não ousariam desviar o olhar.
A necessidade de extinguir a imagem dele como uma piada tornou-se um inferno dentro de si. Tal necessidade o alimentou, levando-o a feitos cada vez maiores, numa dança distorcida entre a validação e a autodestruição.
— É sério, deixa eu…
Uma nova explosão erupcionou do solo a seus pés, cuspindo uma coluna de plasma incandescente à sua volta. O ar subiu junto, todo distorcido, liberando a primeira língua de fogo, que girou ao redor do corpo dele até tomar forma.
As labaredas não se espalharam pelo ambiente. Ficaram presas a ele, a esse eixo imaginário que era o próprio corpo de Lewis, numa rotação irregular, ora subindo, ora descendo, em resposta a algo que não passava pela cabeça, senão pelo impulso. Com cada oscilação do ombro, ou ajuste de postura, o fogo era puxado junto, e aquilo se moldava num contorno vivo.
A sala de treinamento ficou pequena demais para mim. Foi tarde demais a reação do sistema de ventilação quando ficou um ar seco e pesado, a ponto de eu sentir a respiração obstruída, que mais parecia alguém ter reduzido a quantidade de oxigênio.
Então ele veio. E não foi só rápido. Veio direto. Avançou sem hesitar, nem ajustar no meio do caminho. Seu corpo avançou alinhado à intenção, e o fogo o acompanhou, alongando-se numa trilha estreita e densa, cuja dissipação era lenta. A imagem dele se tremeluzia pela velocidade combinada à distorção do calor, tal qual a própria luz tivesse dificuldade em atravessar aquilo.
No intervalo entre um batimento e outro, tudo se fechou nele. O resto da sala simplesmente desapareceu. Todos os outros detalhes, as paredes, os equipamentos e até o chão sob meus pés deixaram de importar. A única coisa que eu conseguia enxergar era aquela linha de fogo que avançava na minha direção, ocupando cada centímetro do meu campo de visão.
E foi aí que eu percebi que não se tratava apenas de medo, mas sim de algo mais poderoso. Eu tinha certeza de que, daquela vez, não reagiria a tempo.
Não houve espaço para nenhum tipo de pensamento. De orgulho, nem se falava, assim como de qualquer tentativa tardia de provar algo. Apenas um impulso simples me dominou assim que fechei os olhos.
Todo o meu corpo ficou tenso na expectativa do impacto. Esperei pelo choque que viria no peito, que me tiraria o ar de novo da mesma forma que a dor, esperando que ela fosse forte o bastante para apagar o resto.
Mas o que veio não foi isso.
Um estalo pesado acompanhou um baque que não atingiu meu corpo. Foi diferente dos outros, como se toda aquela força tivesse sido interrompida no meio do caminho.
Abri os olhos devagar, ainda esperando que o atraso fosse só um atraso.
“O quê…?”
Mikael estava à minha frente. O corpo dele suportava o golpe de Lewis, com o braço erguido no ângulo exato para interceptar o chute.
O fogo de Lewis avançava até encontrar resistência e, quando a encontrava, dobrava-se, circundando o braço de Mikael sem conseguir ultrapassá-lo. Com a sola do pé pressionada contra a defesa, os músculos tensionados e a força impelindo-o, Lewis não desistia de vencer.
A onda de choque chegou com um atraso mínimo, porém com uma brutalidade que comprimiu o ar em um surto de energia. A expansão abrupta gerada pela compressão térmica resultou em um pulso violento ao qual fez a sala vibrar.
Nenhum som, exceto a batida do meu coração, que eu conseguia ouvir claramente.
A investida inexorável de Lewis foi neutralizada por um lampejo de percepção, e fomos conduzidos a uma breve, mas notável, pausa no conflito.
O silêncio resultante foi intenso, pulsando com a antecipação de um cessar-fogo iminente.
— Foi mal.
Lewis sofreu uma mudança durante esse raro momento de discernimento. Seu olhar mudou de uma intensa atitude de obstinação para uma profunda contemplação. Era como se um vórtice interno de turbulência tivesse se evaporado, permitindo uma pequena pausa.
— Deixei a raiva subir à cabeça.
— Deixou mesmo.
Uma marca de queimadura, como uma cicatriz temporária, se revelou quando Lewis desceu sua perna, destacada na pele de seu antebraço. A área danificada estava vermelha e um pouco inchada. Mesmo assim, Mikael parecia não sofrer com os danos.
Ele reparou no piso marcado pelas lascas de fogo, depois olhou de novo ao ruivo cujo semblante exprimia um descrédito e escárnio difíceis de dissimular.
— Você tava passando do ponto. Não adianta nada ter esse tipo de força se você não consegue segurar quando precisa.
Lewis abriu a boca para responder, mas não conseguiu dizer nada na altura. O calor à sua volta ainda vibrava, aquele resíduo inquieto de energia que parecia não conseguir encerrar-se por completo. Mikael deu mais um passo em direção a ele e, sem formalidades, deu-lhe um peteleco na testa.
— É exatamente esse o problema de gente do Clã Agni. — continuou, esboçando ao canto da boca um sorriso ligeiramente irônico. — Vocês tratam qualquer situação como se fosse uma fogueira pra provar alguma coisa.
Ele me deu uma olhada de lado, verificando discretamente minha condição.
— Caramba, olha o seu estado.
O suor caía em gotas sobre minha testa, com os fios de cabelos grudados sobre a pele. Meus músculos, rígidos e dispostos para a luta, começaram a relaxar. A respiração era difícil e pesada, pois meus pulmões precisavam de oxigênio após o que ocorreu. Havia hematomas e arranhões por todos os meus braços.
— Deve ter sido pegado, né? Eu peço uma coisa simples e vocês só faltam se matar, haha! — Riu-se. — Bem, deu para testar o combate físico.
Enquanto isso, limpei o sangue que ainda escorria do meu nariz.
— Se eu não interviesse, acho que vocês estariam em problemas. — Ponderou por um breve momento a respeito do que disse. — Até eu também.
Lewis deu um suspiro profundo.
— É difícil manter o controle. — Bateu a palma da mão na cabeça. — Foi um vacilo meu.
— Não, na verdade, foi idiotice minha ter dito aquilo. — confessei. — Vou me certificar de nunca mais abrir a boca, porque, né…
Estendi minha mão, com a palma para fora. Este era um gesto que, de maneira clara, transmitia a mensagem de “vai me fazer mal de novo”.
— Mesmo que tenha apanhado, você foi bem. — Esfregou a mão sobre minha cabeça. — Só tem que melhorar bastante.
— Pff. — Lewis prendeu a risada.
Minhas pupilas se contraíram, meus lábios se curvaram em uma linha reta e meu olhar se aguçou, revelando um descontentamento.
Foi uma reação visceral, uma expressão imediata de profundo ressentimento.
— Mas, é, realmente. — Lewis concordou. — Pensei que o Krynt não soubesse lutar, mas ele manja pra caramba.
Mikael estava procurando um objeto específico nos bolsos da calça.
— Tenho uma coisa pra te mostrar.
Ele exibiu com orgulho o distintivo da força-tarefa para mim.
A luz refletiu no objeto, revelando o símbolo que denotava a minha posição como Agente de Campo Classe Regular.
A insígnia, com seu brilho metálico, simbolizava autoridade e responsabilidade.
— Ah, não acredito… — disse, incrédulo.
— Agora você oficialmente faz parte da gente. Incrível, não é?
Nada pude dizer, visto que estava em um estado de total admiração.
Meu silêncio foi uma reação à grandiosidade da surpresa que me pegou de surpresa, como se as palavras tivessem desaparecido.
Minha expressão fixa e atônita mostrava toda a extensão do choque com a notícia.
— Isso não vai ser perigoso? — Lewis perguntou.
— Se fosse eu jamais cogitaria chamá-lo para trabalhar com a gente. O Krynt será de grande suporte, principalmente na missão de amanhã.
Lewis considerou a ideia de Mikael, mas um lampejo de percepção iluminou sua mente com a revelação de suas verdadeiras intenções.
— Não sou tão burro, mas acho que saquei. — disse, sorrindo. — Genial, Kael!
Fiquei surpreso com a elegância do distintivo quando ele me foi entregue.
Eu o segurei cuidadosamente em minhas mãos, admirando cada detalhe.
O centro do distintivo era ornamentado com uma bela águia em voo, com as asas estendidas, emoldurada por uma folha de carvalho e uma guirlanda de louros.
O nome da força-tarefa foi escrito em uma caligrafia delicada e elaborada com a sigla: U.E.C.
— O nosso papel é separar o mal das pessoas para que essa espécie desapareça. Você, como um novo funcionário, tem esse dever agora. Você acha que consegue?
Agarrei-me ao meu distintivo com uma firme resolução.
Apesar das lembranças angustiantes da catástrofe que eu havia criado involuntariamente, decidi, de agora em diante, curar o dano.
O fato de agarrar-me firmemente ao distintivo simbolizava meu desejo incondicional de enfrentar meus pecados e seguir o caminho da expiação, transformando um erro cometido em algo que pudesse produzir o bem.
— Vou fazer o meu melhor.
Mikael sorriu com um toque de orgulho.

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