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    Prédio da U.E.C., às 2h20 am.

    — Você está me dizendo que aquilo coordenava comportamento humano ou que alguém estava coordenando através dele?

    A mulher permanecia atrás da mesa tão imóvel quanto a própria estrutura da sala. O seu rosto era destacado pela luz fria do monitor sem qualquer possibilidade de disfarce, realçando a sua pele pálida em contraste com o cabelo escuro, perfeitamente penteado, sem qualquer fio desalinhado. 

    A agente não se deu ao trabalho de se sentar. Ficou de pé junto à mesa, com o relatório ainda fechado na mão da analista de inteligência, e os nós dos dedos marcados pelo nervosismo, que não tinha nada a ver com o combate em si. 

    — Não parecia só influência bruta, senhorita Raven. — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado, embora soubesse que cuidado ali raramente fazia diferença. — O homem não entrou em colapso, aquilo… guiou ele.

    Raven apoiou o cotovelo na mesa e levou os dedos à têmpora despaciosamente, procurando reorganizar números numa planilha mental. Os seus olhos escuros não se fixaram imediatamente nela; ficaram no vazio por um instante que não era distração, senão antes uma forma de estabelecer prioridades.

    — Guiou… — repetiu, em tom baixo. — Isso implica controle mental.

    — Foi o que eu pensei.

    Raven finalmente levantou o olhar, e não se notava qualquer choque ou interesse. 

    — Quantos agentes você perdeu, Laura?

    — Hã… Quatro confirmados. Um em estado crítico.

    — Civis?

    — Três… mortos. 

    Raven fez um gesto com a mão para afastar algo irrelevante da mesa.

    — Os civis não estavam na equação de risco controlado, mas os agentes estavam.

    Aquilo ficou no ar entre ambas, consistente o suficiente para perturbar, mas banal demais para espantar. Laura abriu o relatório e colocou-o sobre a mesa, deslizando-o na direção dela.

    — A área estava comprometida antes da nossa chegada. Se a gente tivesse esperado contenção total, o número de civis teria sido maior.

    Raven não olhou para o documento ainda. 

    — E mesmo assim você perdeu dois.

    Laura apertou o maxilar, porque não se tratava de uma acusação que tivesse sido proferida em voz alta.

    — A criatura reagia mais rápido do que qualquer registro anterior, senhorita. — Respirou fundo pelo nariz, controlando a resposta antes que ela saísse no impulso errado. — Eu trabalhei com o que tinha e finalizei o alvo.

    Raven baixou finalmente os olhos para o relatório, folheando as primeiras páginas devagar. O som do papel soava estridente demais naquela sala.

    — Finalizar o alvo é o mínimo esperado, o que diferencia uma operação eficiente de uma falha controlada é o custo.

    Virou mais uma página.

    — E essa teve um custo alto.

    A agente não respondeu, visto que não havia muito a dizer que não soasse como uma justificativa, e uma justificativa era, nesse contexto, o mesmo que fraqueza.

    — Se isso que você descreveu estiver correto, nós não estamos lidando só com manifestação. Estamos lidando com algo que pode mudar o cenário inteiro.

    Raven fechou o relatório de uma vez e manteve a mão apoiada sobre ele.

    — Você viu algum sinal de comunicação externa? Algum padrão que não partisse da criatura em si?

    — Não, mas… o comportamento do hospedeiro não era caótico. Ele estava executando o que o Mephisto ordenava.

    — Certo, então vamos organizar isso de um jeito menos otimista.

    Ela afastou-se meio passo da mesa, cruzou os braços e começou a andar devagar pelo espaço. A inquietação nem se insinuava, mas ela sabia que pensar parada era insuficiente naquele momento.

    — A gente sempre tratou Mephistos como manifestações isoladas de energia negativa. Um corpo, uma presença, um padrão de comportamento que se estabiliza em torno de um núcleo… mais ou menos como um parasita que aprende a sobreviver dentro de um sistema hospedeiro.

    Parou por um instante, olhando de lado para Laura.

    — Mas isso aqui quebra essa lógica básica. Um hospedeiro não entra em estado funcional avançado só com influência instintiva. Pra sustentar coerência de ação, você precisa de direção contínua. 

    — Transmissão… de outro Mephisto?

    — Possivelmente, e não no sentido físico. Estou falando de ressonância de energia negativa. Se dois ou mais desses… organismos compartilham uma frequência compatível, eles podem formar uma rede rudimentar. Nada consciente no sentido humano, mas funcional o suficiente pra trocar estímulo, padrão, até intenção básica.

    Ela voltou para a mesa, apoiando as mãos na superfície.

    — Pensa na energia negativa não só como combustível, mas como meio de comunicação. Ela carrega estado emocional, impulso, memória fragmentada. Se um Mephisto mais estável aprende a organizar isso, ele pode projetar esse padrão pra outro e o outro replica. Só que sem filtro, ética e limitação cognitiva. — O tom de Raven tornou-se um pouco mais ríspido. — E agora entra a pior parte.

    Levantou um dedo para pontuar.

    — Humanos com baixa resistência mental… gente emocionalmente instável, sob estresse extremo, trauma recente… eles já são suscetíveis à influência direta. Se essa tal rede existe, eles deixam de ser só vítimas. Viram pontos de entrada.

    Laura franziu o sobrolho, tentando compreender aquilo demoradamente. Havia lógica na construção de Raven, e era exatamente isso que tornava mais difícil de engolir, pois, embora a sua lógica fosse evidente, a sua natureza estava em conflito com a sua própria essência.

    — Você tá dizendo que eles podem usar pessoas como extensão?

    — Estou dizendo que talvez já estejam usando. O que você viu pode ter sido um Mephisto operando através de outro, usando o hospedeiro como intermediário.

    Laura desviou o olhar por instantes, compilando o que necessitava de expressar antes de simplesmente concordar com aquilo como verdade.

    — Ou… — começou, voltando a encará-la — a gente está tentando encaixar um padrão complexo em cima de um evento extremo.

    Raven não interrompeu, limitou-se a mantê-la nos olhos, na esperança de que ela continuasse a falar.

    — Porque se isso for uma rede estruturada como você tá sugerindo, então a gente deveria ver consistência no comportamento replicável em outras ocorrências, sinais claros de sincronização entre manifestações. E até agora… não vimos isso.

    A analista arqueou levemente uma sobrancelha, sem discordar ainda.

    — O que vimos foi um hospedeiro sob influência direta reagindo de forma organizada, sim, mas dentro de um contexto específico. Ambiente fechado, estímulo contínuo, pressão emocional absurda… Isso pode gerar um comportamento coerente sem precisar de um sistema maior por trás.

    Ela deu um pequeno passo em frente, com a mão encostada na mesa, sem reparar que estava precisamente repetindo o que Raven fizera anteriormente.

    — Você mesma disse que energia negativa carrega estado emocional. E se for só isso sendo amplificado? Um Mephisto empurrando impulsos com intensidade suficiente pra dar a impressão de estratégia? Porque tem uma diferença grande entre aprendizado e projeção. Aprendizado implica adaptação ao longo do tempo. O que eu vi foi… imediatismo. Resposta agressiva, direcionada, mas ainda instintiva em vários momentos. Se tivesse uma rede por trás, eu esperaria algo mais refinado.

    Seguiu-se uma pausa breve, durante a qual Laura respirou fundo antes de continuar.

    — E mais uma coisa… Se eles realmente estivessem se conectando nesse nível, a gente já teria perdido muito mais gente. Não só em Harrisburg. Em outros pontos também.

    Raven ponderou por momentos com sua cabeça inclinada à direita.

    — Você está tentando reduzir o escopo do problema.

    — Eu tô tentando manter ele mensurável, senhorita. — A resposta veio rápida, mas controlada. — Porque se a gente assumir que isso já é um sistema evolutivo conectado, então qualquer operação daqui pra frente vira contenção de algo que a gente nem consegue mapear ainda.

    O momento calmo depois disso não era o mesmo de antes. A tensão entre ambas estava patente, com argumento contra argumento.

    — Ou você tá certa, ou você teve sorte. — Os olhos dela se fixaram em Laura rigidamente. — E eu não gosto de basear operação em sorte. Da próxima vez, você assume que eles aprendem no meio do combate.

    Não era uma sugestão.

    — E você não perde mais ninguém.

    Laura manteve o contato visual brevemente além do que era razoável.

    Raven fez um movimento de mão para a dispensar sem formalidade.

    — Pode ir.

    — Entendido.

    A palavra que saiu da sua boca não deixou de pesar por causa disso e Raven também não demonstrou qualquer interesse em aliviar o ambiente. Os olhos negros mantiveram-se presos nela, inabaláveis para alguém que há pouco tinha prescindido de alguém. Sentia-se mais sentença do que raiva, e isso soava sempre pior. Raven mantinha-se ereta atrás da mesa, com os cabelos escuros presos sem um fio fora do lugar, a pele pálida marcada pela luz branca do escritório, o rosto sem concessões, nem qualquer gentileza suscetível de ser confundida com humanidade naquele momento.

    Laura ajustou o relatório contra o corpo, pronta para sair, mas a voz de Raven a deteve antes que a mão alcançasse a maçaneta.

    — Espere.

    Ela parou sem se virar.

    — Você quer acreditar que essa missão ainda foi um acerto porque matou o alvo e trouxe informação útil. Eu entendo. É mais confortável do que encarar o resto.

    Laura fechou a mandíbula, já sentindo a armadilha na escolha das palavras.

    — Mas eu conheço o tipo de gente que continua apertando o gatilho para compensar um erro anterior. Gente que confunde firmeza com culpa, disciplina com teimosia, e trabalho com autopunição. Você tem talento, mas também tem o hábito estúpido de achar que sangue derramado resolve dúvida de comando. Não resolve. Só compra tempo. 

    Esta virou finalmente o rosto, com o semblante austero.

    — Da próxima vez que algo sair do controle na sua frente, eu quero menos orgulho e mais sobrevivência. Se você continuar escolhendo o meio mais brutal só porque ele faz você se sentir no comando, vai acabar enterrando a própria carreira antes de alguém precisar fazer isso por você.

    Não se vislumbrava uma ameaça explícita, apenas a certeza implacável de quem identificara a fragilidade e não nutria qualquer intenção de lhe conceder misericórdia.

    A gente respirou fundo, engolindo a vontade de retrucar.

    — Entendido.

    Raven inclinou o queixo uma fração, o bastante para dispensá-la de vez.

    Laura saiu sem dizer mais nada. A porta fechou-se atrás dela com um baque controlado.

    A analista permaneceu onde estava, de corpo alinhado ao olhar fixo no ponto onde Laura estivera segundos antes, fosse para observar algo que ali estivesse ou para se certificar de que não restava nada. Não se tratava de apego nem de arrependimento, era um processo de raciocínio que ainda não tinha terminado.

    Aos poucos, afastou as mãos da mesa e deixou o ar sair pelo nariz, devagar, sem que fosse por cansaço, simplesmente porque os pensamentos competiam entre si pelo mesmo espaço. O problema não era o relatório entregue, nem os números que já eram conhecidos. O problema era a possibilidade que aparecia por trás deles. Essa possibilidade não podia ser ignorada, mas também não podia ser aceite sem hesitações.

    Raven andou sem destino aparente pela sala, com os olhos à procura de qualquer desvio mínimo que denunciasse desorganização, erro humano ou descuido, coisas que, naquele ambiente, costumavam disfarçar-se de pormenor irrelevante até se tornarem um problema real.

    Passou pela lateral da mesa principal, contornando-a, até chegar a uma estante metálica embutida na parede oposta. A estante estava dividida em compartimentos numerados, cada um com pastas físicas e módulos digitais de armazenamento, organizados por ordem de prioridade operacional e nível de classificação de risco. Nada ali estava fora do lugar, o que, para a Raven, não significava que estivesse tudo bem.

    Ela deteve-se diante da terceira fileira, ao nível dos olhos, e estendeu a mão diretamente a um dos compartimentos. Os dedos deslizaram pelas lombadas das pastas, onde sentiram a ligeira diferença de textura entre as capas mais antigas e as mais recentes, até encontrarem uma específica, marcada por um código alfanumérico discreto no canto superior.

    Puxou o relatório e abriu-o logo ali, apoiando parte do seu peso contra o antebraço, enquanto folheava as primeiras páginas com o polegar. Os seus olhos deslizaram pelas linhas rapidamente para captar padrões, mesmo antes de terminar as frases, e estabelecer conexões entre dados sem necessidade de uma revisão cuidadosa. As pequenas anotações laterais, feitas por outros analistas, foram ignoradas imediatamente, por não acrescentarem nada além de redundância.

    Os seus olhos clarearam ligeiramente à medida que avançava pelas páginas. A ideia de evolução aplicada aos Mephistos era profundamente irritante. A narrativa segundo a qual os Mephistos eram manifestações caóticas mostrou-se sempre eficaz na manutenção do domínio sobre o caos, dentro de um limite compreensível, algo que pudesse ser enfrentado com vigor, estratégia e uma dose medida de brutalidade. No entanto, isso estava a começar a falhar.

    A natureza humana sempre procurou a evolução através da pressão. Guerra, crise, escassez. Qualquer avanço relevante resultava de algum tipo de ruptura. Isso não era novidade. O que causava incomodidade não era ver este padrão se repetir nos Mephistos. O que causava incômodo era reconhecer que, talvez, o padrão nunca tenha sido exclusivamente humano.

    Raven passou o polegar pela margem da página. 

    Se a energia negativa era o ponto central, então tudo fazia mais sentido do que deveria. Aquilo não era apenas um combustível ou uma consequência emocional distorcida. Era um elemento fundamental. Em larga escala, diariamente, sem controle, direção ou consciência, foram produzidos por humanos. Medo, raiva, desespero, ressentimento. Tudo isso alimentava algo que ninguém realmente compreendia. E se os Mephistos não estavam evoluindo por conta própria, então alguém, ou alguma coisa, estava motivando esse processo.

    Raven fechou os olhos para organizar o seu pensamento, antes que este se fragmentasse em possibilidades inúteis. Se os Mephistos estavam a começar a demonstrar organização, então havia claramente uma vantagem nisso. 

    Ela abriu os olhos novamente. Guardou a pasta e tirou outra. 

    A ideia não era confortável, mas também não era descartável. Se a energia negativa funcionava como meio de transmissão, também funcionava como registro. Qualquer episódio violento, surto coletivo ou mente quebrada sob pressão deixava um vestígio que não desaparecia. Esse vestígio tinha de ir para algum lado. A agência tratava disso como resíduo. Raven começou a considerar outra possibilidade.

    Reparou que os dados, por si só, não revelavam nada de forma direta, mas sugeriam muito quando vistos em conjunto. A evolução dos Mephistos não precisava de seguir uma linha biológica. Não necessitavam de reprodução, seleção natural ou gerações sucessivas. Bastava uma adaptação contínua num ambiente saturado. E o ambiente, nesse caso, era a própria humanidade.

    Os humanos geravam a energia, os Mephistos a utilizavam. Com o tempo, aprenderiam a refiná-la.

    A ironia não passou despercebida. A espécie que sempre se colocou no topo da cadeia alimentar servia agora de base para algo que não precisava de competir, bastando-lhe absorver. Não era necessário conquistar territórios quando o próprio território se sustentava do que se era.

    Situações que ainda não tinham sido completamente incluídas nos procedimentos padrão, documentações que suscitavam mais questões do que soluções e que, consequentemente, permaneciam isoladas até que alguém decidisse o que fazer com elas.

    Os olhos dela pararam num nome. Uma coisa que não batia certo com o resto, uma coisa que não fazia sentido. Algo que não deveria ter sobrevivido ao tipo de contato descrito e, no entanto, estava ali, classificado e arquivado, à espera de uma decisão.

    — E se eles estão evoluindo, não é só porque podem… é porque precisam acompanhar alguma coisa que não deveria existir nesse nível.

    Os dedos pressionaram levemente a superfície da pasta, embora tal não fosse necessário para confirmar a conclusão a que já se tinha chegado.

    — Então é você…

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