Índice de Capítulo

    Harrisburg, cidade na Pensilvânia, 01h15 am.

    O som da sirene não deixava claro se ainda se tratava de um aviso ou se já fazia par de um cenário, um som contínuo que já tinha perdido a sua função ao ponto de se ter tornado apenas mais um dos sons que preenchiam o espaço entre um desastre e outro. Naquela noite, Harrisburg tinha uma atmosfera estranha que fazia com que parecesse um organismo à beira da asfixia, com o ar pesado e quente em alguns locais e frio noutros, uma sensação desconfortável que fazia sentir uma força invisível à espreita, sem limites aparentes.

    Dentro de uma casa, a luz piscava em intervalos intermitentes, resultante de uma falha elétrica generalizada que já ninguém tentava consertar, visto todos terem percebido que não se tratava de um problema de fiação. As janelas estavam cobertas com panos provisórios, dos quais alguns ainda estavam úmidos e outros estavam manchados por mãos que tentaram limpar um sujidade que não saía. O odor penetrante da vela queimada, mesclado ao suor antiquado e ao temor recente, engendrara uma envolvência que não carecia de justificação.

    Uma família estava reunida na sala, ajoelhada diante de um pequeno altar improvisado sobre a mesa de centro, enquanto ouvia atentamente a missa. Uma imagem de Nossa Senhora, ligeiramente trincada, ocupava o lugar principal, ladeada por um crucifixo torto e duas velas que teimavam em permanecer acesas, apesar do ar instável que se fazia sentir em rajadas.

    Com as mãos juntas, uma mulher pressionava-as tão forte que lhes faltava a cor, os lábios tremiam à medida que repetia as palavras, já sem ritmo, meramente com urgência.

    — Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte…

    A voz falhou no final por uma questão de consciência. Aquela frase deixara de ser simbólica há muito tempo.

    O homem ao seu lado tentava manter a postura, com os ombros tensos e a cabeça baixa, mas os olhos não paravam quietos. Olhava para a porta, janela e teto, na esperança de encontrar uma explicação em algum ponto da casa que ainda obedecesse às regras antigas.

    — Continua — disse, sem encarar ninguém. — Não para.

    A menina mais nova chorava escondida atrás do braço da mãe, enquanto o irmão mais velho tentava acompanhar a oração, mas distraía-se com os sons que vinham de fora e tropeçava nas palavras. Algo arrastava-se pela rua, de forma pesada e irregular, parando de repente por vezes, seguido por um estalo nunca antes ouvido.

    — Pai… — O menino murmurou, amedrontado.

    — A gente vai ficar bem, Deus tá…

    O impacto do outro lado da rua foi tão forte quanto para fazer a casa inteira vibrar. Um quadro caiu da parede e partiu-se no chão. A menina chorou mais alto desta vez.

    A mãe apertou os olhos com força.

    — Ele vai proteger a gente — disse. — Ele vai proteger…

    A luz apagou e não voltou.

    A escuridão abateu-se sobre o amplo espaço, densa e espessa, encheram os vãos entre os móveis desagradavelmente, como se não fosse apenas a ausência de luz, mas a presença de algo que não precisava dela.

    O homem ergueu a cabeça devagar.

    — Ninguém se mexe.

    O som do lado de fora parou, e isso era pior porque agora dava para ouvir outra coisa.

    Dentro de casa escutou-se um estalo leve, vindo do corredor.

    O garoto virou o rosto antes de conseguir evitar.

    — Pai…

    — Eu disse pra não se mexer.

    Mais um estalo se ouviu ainda mais próximo. Aquilo não era madeira flexionando, uma vez que o som era mais orgânico, algo semelhante a articulações submetidas a testes que não seguiam um padrão humano.

    A mulher voltou a rezar, mas as palavras saíam embaralhadas e atropeladas umas às outras.

    — Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte, agora e na hora da nossa morte, agora…

    O som parou na entrada da sala, mas ninguém viu entrar.

    O ar ficou mais difícil de puxar para dentro dos pulmões. O homem finalmente levantou o olhar, e se arrependeu no mesmo instante.

    A primeira pista de que aquilo não era apenas mais um Mephisto surgiu antes mesmo do monstro transpor por completo os limites da sala. A estrutura à sua volta reagiu em conformidade, sem se romper imediatamente, mas sim recuando instintivamente por uma espécie de reconhecimento, por parte da própria matéria, de que aquilo não deveria ocupar o mesmo lugar que ela.

    O seu corpo estava apoiado sobre membros longos angulosos, nos quais se viam ossos sob uma camada desigual de carne escurecida, aparentemente queimada e reconstruída várias vezes no meio do processo.

    As pernas curvavam-se em direções estranhas, impedindo qualquer elevação da criatura, ficando esta próxima do chão, enquanto as extremidades afiadas marcavam o piso por onde se movia. O tronco era um monte de placas de matéria viva dura, com fendas finas por onde alguma coisa pulsava descontroladamente, quente e exuberante, deslocada de qualquer ritmo natural.

    Sem rosto, a cabeça era apenas um aglomerado de pontos vermelhos que não piscavam em conjunto, nem se desviavam ao mesmo tempo; cada um estava atento a um fragmento diferente do que existia na sala. Eram tantos que era necessário esforço para os observar, precisamente porque o seu cérebro se recusava a organizá-los em algo compreensível. Abaixo, uma abertura deformada dilatava e contraía, de onde escapavam fios finos ondulantes, tremendo nervosamente, como nervos expostos sensíveis ao ambiente, sem necessidade de fazer contato.

    A estrutura arqueada, no topo do corpo, estendia-se e curvava-se para trás, acompanhando cada pequeno movimento com um atraso estranho, por parecer reagir a uma decisão tomada um instante antes. Nada ali parecia sincronizado e, no entanto, tudo funcionava em conjunto, sustentando a presença daquilo no meio da sala.

    Quando os pontos vermelhos intensificaram o brilho, o Mephisto disse:

    — S̷̰̯̠̼̠̋̈́̇a̴̧̙̰̟̘̯̞̭͚͂͑ċ̷̱̩͈̒r̴̙̼̰̪̘̖͗̈́̅͆̒̚͜ĭ̷̢̱͍̦̌̾̅͌̊̍̈́ͅf̸̨͉̻̣͑ị̴͕̫͍͕̞̙̭̝́́̿̈́͒̅ć̷̠̼̟͉̙̦͙̈́̈́̋̈̍͝á̷̛͇̜̏r̷̞̤̣̙͈͚̽̌̓̈́̈̋͂

    Não se tratou de um som que pudesse ser reconhecido como palavra, mas foi emitido como um sussurro disforme, uma vibração deslocada que entrou pelo ouvido de todos.

    O homem foi o primeiro a senti-lo.

    O seu corpo ficou rígido, menos por medo e mais por um tipo de tensão diferente, interna, que não obedecia à sua vontade. As mãos, ainda juntas, apertaram-se com mais força, os dedos começaram a tremer ligeiramente antes de se estabilizarem de forma estranha.

    Sua esposa percebeu na hora.

    — Amor…?

    Ele não respondeu. Os seus olhos já não estavam focados nela, nem nos filhos, ou sequer na criatura. Olhavam para além, presos a algo que mais ninguém conseguia ver.

    — Pai? — A menina chamou.

    A boca dele se abriu e a oração continuou.

    Mas não era a mesma.

    — Pai nosso… que estais… acima de tudo…

    A esposa deu um passo à frente.

    — Para com isso… 

    Não lhe olhou.

    — Venha a nós o vosso reino, mas não o que nos foi prometido…

    A tonalidade alterou-se de repente, assumindo uma solidez desagradável que fazia pensar ser mais simples apoiar a versão mais recente do que a precedente.

    O Mephisto avançou um pouco mais. Os fios finos que saíam da sua abertura inferior vibraram com mais intensidade, respondendo à mudança e captando cada detalhe daquele momento.

    A mulher tentou puxar o braço do marido.

    — Olha pra mim! Você tá me ouvindo?

    Ele virou o corpo na sua direção sob um movimento súbito, desprovido de hesitação ou do atraso natural de alguém que precisasse decidir antes de agir. Soltou as mãos da posição de oração e agarrou o braço dela tão forte quanto bastasse para a fazer perder o equilíbrio.

    — Seja feita… a vontade dele…

    — Para! Para com isso! — gritou, tentando se soltar.

    Os filhos recuaram, sem entender, apenas sentindo que algo estava errado de um jeito que não tinha explicação simples.

    O homem puxou a esposa.

    — Assim na terra, como já é feito onde ele caminha…

    Ela tentou afastar-se, mas os seus pés escorregaram no chão enquanto resistia. A força dele não correspondia à mesma intensidade de antes. O que se passava estava além do esforço físico, emanava de uma certeza que não era dele.

    — Me solta! Me solta, pelo amor de Deus!

    O Mephisto se aproximava.

    O calor no ambiente aumentou de forma irregular, pressionando a pele, tornando o ar mais difícil de puxar para dentro do corpo.

    — E perdoai nossas ofensas…

    O homem deu mais um passo em frente, e arrastou a esposa consigo. Algo estava profundamente errado na forma como os seus dedos apertavam o braço dela; o aperto transmitia uma sensação de obediência a uma vontade que já não parecia ser dele.

    — Assim como… aprendemos a servir…

    — Você não tá bem! Você não tá… Para! 

    E tentou tracionar o braço, deslocando o tronco para trás, contudo, este não se rendeu e aquele pormenor ínfimo, insípido, tornou a situação mais penosa do que a mera presença da criatura.

    Os pontos carmesim no que deveria ser o semblante do Mephisto pulsaram ligeiramente, em desacordo, se bem que em compasso desalinhado que, não obstante, aparentava ser propositado. Os fios finos que escapavam da abertura abaixo deles estenderam-se no ar, em vibração por uma tensão indefinível, e depois voltaram-se na direção da mulher, porventura por nela terem reconhecido algo mais interessante do que o resto do ambiente.

    — E não nos deixeis cair em tentação… 

    A mulher começou a chorar de forma contida, compreendendo que não havia mais negociação possível.

    — Amor… por favor… olha pra mim…

    Ele não olhou.

    O Mephisto avançou um pouco mais, e o chão reagiu sob o peso distribuído de forma errada, as patas finas foram ajustadas com pequenos estalos, em busca de apoio para sustentar algo daquele tamanho, em pontos que não pareciam suficientes. 

    Os fios tocaram o rosto da mulher, deixando-a travada.

    — Amém.

    A cabeça do Mephisto desceu, aquela massa de pontos vermelhos aproximou-se do pescoço da mulher e, naquele instante, ainda foi tentada uma resistência por algo dentro de si, uma reação tardia, unicamente para se mover o ombro, sem qualquer efeito.

    De repente, a porta explodiu em luz.

    Um clarão branco absoluto inundou todo o recinto e transformou todas em negativo por uma fração de segundo. A granada de luz explodiu com um estrondo ensurdecedor, que se fez ouvir algum tempo depois do impacto visual, dilacerando o ar com uma onda cuja força fez com que o homem soltasse a mulher por instinto.

    O grito do Mephisto não foi emitido como um som comum, tendo-se manifestado através de uma distorção no ambiente, uma espécie de tremor audível que se instalou atrás dos olhos.

    — No chão!

    Os três agentes entraram em sequência enquanto brandiam os rifles, que já tinham sido apontados para a porta, antes mesmo desta ser completamente cruzada. Não hesitaram nos primeiros disparos, descargas curtas e controladas de HK416 modificados, calibrados com munições perfurantes de núcleo endurecido, destinados a romper estruturas densas.

    As balas atingiram o torso da criatura e abriram fissuras na superfície rugosa, mas o impacto não se comportou como carne ou osso; depararam-se com resistência e uma reação elástica estranha, praticamente como se o corpo do Mephisto tentasse redistribuir o dano.

    — Olhos! Foca nos olhos! — gritou um dos agentes, ajustando a mira.

    As balas começaram a concentrar-se nos pontos vermelhos e, finalmente, obtiveram resposta. Com cada colisão, a luz vacilava, como lâmpadas prestes a queimar, e os fios à volta começaram a abanar caoticamente, chicoteando o ar.

    O Mephisto recuou um passo, depois outro, mas não estava na defensiva, apenas estava a adaptar-se.

    O quarto agente atravessou a porta logo atrás dos outros, com o SCAR-H junto ao corpo e o cano já alinhado, mesmo antes de encontrar o ângulo ideal. Ela optou pelo lado esquerdo, encostando o ombro junto à parede, onde um quadro torto ainda se mantinha de pé, oferecendo-lhe uma visão desobstruída da cabeça da criatura e impedindo que o resto da sua equipa se tornasse alvo de tiro.

    — Afasta!

    A sua voz foi suficiente para que os três homens à frente entendessem sem necessidade de olharem. Eles abriram espaço, recuando meio passo, mas não pararam de disparar, mantendo a pressão constante sobre o corpo do Mephisto.

    A criatura virou o que restava da cabeça na direção dela; os pontos vermelhos tentavam reorganizar-se, piscando em padrões desalinhados, sem conseguir focar-se após um golpe que atravessara mais do que a simples materialidade.

    Ela puxou o gatilho.

    O disparo de 7.62 feriu mortalmente o alvo central e, desta vez, a reação foi mais violenta ao provocar um choque na estrutura superior do corpo que se propagou por todo o resto da criatura. 

    Preparou o segundo tiro assim que ajustou o alinhamento, e foi nesse breve momento que algo deslocado surgiu no seu campo de visão.

    O homem se aproximava. 

    — Ei, para!

    Um dos agentes tentou intervir, mas já era tarde demais para negociação.

    Ela não baixou o rifle de imediato, mas também não disparou. A distância entre eles encurtou rapidamente, com apenas dois ou três passos, e nesse tempo foi suficiente para perceber que o seus movimentos estavam desprovidos de incerteza.

    Ela retirou o SCAR do ombro sem o deixar cair, com a bandoleira agarrada ao corpo, e a mão direita desceu para a lateral da perna, onde puxou a pistola num gesto rápido adquirido através de treino.

    Não esperou muito e disparou.

    O disparo da Glock 17 foi certeiro, com o projétil rasgando o ar em direção à linha dos olhos, um alvo fundamental que não tolerava falhas nem possibilidades de recuo. O impacto fez com que a cabeça dele recuasse, no mesmo instante em que perdeu sustentação o corpo, os joelhos acabaram por cair antes que pudesse surgir qualquer outra reação, então, o pai caiu, inerte, a poucos passos dela.

    A sua esposa gritou descontroladamente, num misto de descrença e tentativa de compreender o que acabara de acontecer, antes que o cérebro aceitasse o desfecho. Ela deu um passo em frente, mas depois parou, com o olhar dividido entre o corpo no chão e a agente que ainda tinha a arma erguida.

    — Você… Você matou ele… Você matou ele!

    A agente não respondeu. Voltou a alinhar o braço com o rifle, retomando a atenção ao que realmente representava uma ameaça.

    O Mephisto mexeu-se novamente.

    Mesmo ferido e instável, aquele corpo encontrou uma forma de continuar enquanto as pernas se reajustavam, os fios se contraíam e os pontos vermelhos regressavam a brilhar com mais intensidade, menos numerosos mas mais concentrados.

    Deixou a coronha no ombro, ignorando o que ficara para trás, porque, naquele espaço, naquele momento, a escolha e a consequência eram uma coisa só.

    — Foco nele. Agora.

    E puxou o gatilho de novo.

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