Seus olhos, que estavam pesados, a faziam lembrar dos músculos doloridos em seu corpo, com seus braços sendo erguidos por longas e densas correntes. Os longos fios de cabelo estavam sujos e emaranhados. Ela estava ali, ajoelhada e com dificuldade de erguer a cabeça. O som estridente da porta de ferro sendo aberta a seu lado foi ouvido Dois indivíduos entraram, e ela perguntou a eles: 

    — Onde estou? Que dia é hoje?

    — Não se lembra, gracinha?! — o guarda caminhou à sua frente, rindo de sua cara. — Fazem apenas dois anos que você veio até essa masmorra e já se esqueceu?

    — Emmanuel! Pegue-a, ela será nossa próxima cobaia! — gritou o jovem cientista de jaleco branco.

    — Tá bem, Klaus. Você se lembra da aposta que tenho feito com você?

    Klaus ajeitou os óculos e respondeu com uma certa irritação: — Sim… eu me lembro. Mas você deveria se concentrar no trabalho. Se não, o senhor Smoke pode querer nos matar.

    — Como assim?! Cobaia? — a jovem perguntou, assustada.

    O soldado socou a mandíbula dela, deixando-a desacordada: — Ninguém te deu permissão para falar aqui!

    — Se apresse, Emmanuel, e não tente matá-la; se não quiser morrer.

    — Vou pega ela, abre a cela!

    O enorme e musculoso soldado removeu as amarras dela, colocando algemas em suas pernas e pulsos. Colocou-a em seu ombro como um saco de batatas. Enquanto andavam naquele corredor pequeno e mofado, ela lentamente acordava, fazia leves grunhidos de dor. Sua visão estava bem turva; a luz que refletia pelas frestas da masmorra causava um sofrimento em sua mente.

    — É aqui. Pegue o braço mecânico. — ordenou o cientista ao restante da equipe.

    Vários cientistas e soldados colocaram-na em frente ao tanque, puseram vários aparelhos de respiração e medidores médicos em seu corpo; acoplaram novas amarras em seus membros, e a ergueram, jogando dentro do tanque e deixando-a afundar. Em segundos ela começou a adormecer novamente.

    — Fica chocada, vai! — gritou Emmanuel.

    Ele bateu com força no botão, desencadeando uma poderosa descarga elétrica, que a fez se contorcer até revirar os olhos; Klaus retirou o braço dele do botão e gritou. — Ficou maluco, é?! Se ela morrer por nossa culpa sem motivo, o senhor Smoke pode nos matar!

    — É… vish… 300 ruthz, não vai pagar a vida dela… fudeu.

    — É melhor você rezar pra ela estar viva, se não tua cabeça vai estar em jogo!

    Conferindo a cobaia, o cientista viu que os batimentos cardíacos dela haviam parado. Ficou nervoso e tentou resolver a cagada de Emanuel. — Fica bem ciente que irá perder a patente se ela sobreviver, tá ouvindo?

    Ele ficou totalmente bobo com sua cara de paisagem, que deixava o clima mais tenso.

    — Karin!

    — Nova herdeira do trono de Tsugaki!

    — Shingetsu Karin, a quinta de minha linhagem… se não responder, não poderá vingar seu pai!

    No profundo vazio de sua mente, a grossa voz ecoava. Ela estava no meio de um oceano calmo, sereno e bem ensolarado. Karin respondeu com a voz fraquejada. — Quem… é…?… O que quer de mim?

    Uma pequena chama roxa acendeu em sua frente, respondendo ainda calmo. — Você é tão fraca assim? Nem mesmo tentou fugir.

    — Eu tentei! Eu não pude fazer nada! Eu fiquei dois anos naquela cela, fui torturada, apenas para morrer no final! Eu nem sei o que aconteceu com minha mãe ou os outros! — ela gritou, choramingando.

    A chama resplandeceu tomando a forma de um grande dragão de fogo. No campo de sua alma, o oceano começou a agitar, deixando o sol e se formando uma pequena nuvem escura. — Basta! Você realmente tem certeza que tentou de tudo?! Nem ao menos pensou em seu poder. Mesmo que não o tenha despertado, mostrou total falta de dedicação em querer tentar algo diferente! Repetir no mesmo erro foi o que a fez ficar neste estado deplorável!

    Karin fechou os olhos e gritou frustrada. — Quem é você para ficar dando sermão?! Nem meu pai fazia isso!

     A maré começou a se agitar, criando ondas gigantes. As rajadas de vento ficaram mais fortes, criando trombas d’água; A chuva e os relâmpagos rasgavam o céu naquele lugar. O ambiente escurecia cada vez mais.

    Das chamas, se materializou um grande dragão em forma de serpente, suas escamas negras pareciam mais um vulto obscuro. Seus olhos roxos ferventes deixam ainda mais evidente que não era uma criatura comum.

    — Foi por isso que ele morreu! — A voz grave tremeu o ar e criou enormes ondas envolta do dragão. — Se você quiser morrer assim, eu irei possuí-la!rei matar tudo e todos com seu corpo! Inclusive quem você ama!

    Ela olhou atônita; os olhos se arregalaram e, com suas últimas forças, gritou: — Não! Por favor! Não faça isso! Eu imploro!

    — Silêncio! Se quiser que eu não faça isso, terá que me provar que merece! Não é implorando perdão que você ganhará a minha confiança! — rugiu bem forte em sua alma. — Me desafie! Tente Lutar com sua vontade!

    A jovem olhou o grande animal à sua frente, nervosa. Franziu a testa e rangeu os dentes, firmando bem as mãos trêmulas.

    — Eu… eu não me dou por vencida! Você é um dos únicos que pode me ajudar na minha jornada agora… Não deixarei essa chance escapar! — disse Karin, convicta.

    Esse é o espírito, garota… — pensou o dragão.

    A enorme criatura se desenrolou e subiu acima das nuvens em uma única investida. Ela o seguiu e rapidamente se jogou para a direita, golpeando em sua cauda. Ele a chicoteou de volta e a jogou para longe; fazendo-a perder o dragão de vista.

    Onde ele foi? Pensa Karin… Pense em algo bem forte para enfrentá-lo… — Em sua alma então materializou-se um grande arco e flecha vermelho e preto. As nuvens atrás dela se dissiparam e logo vinha a temida criatura. Ela pegou uma flecha e tensionou a corda. 

    Aquele dia que presenciou com o seu tio veio à mente, foi uma lembrança de confiança; ela disparou, e o dragão refletiu com um golpe de sua cauda, jogando-a ainda mais longe.

    — Como?! — disse a garota, surpresa. — Espera… Força de vontade? Ele falou para lutar com minha vontade?

    — Um disparo igual a esse, nem faz cócegas em minha vontade de lutar! Acredite, ou então vai morrer! —  ele balançou a extremidade cortando o ar à frente.

    Em um rápido desvio de um golpe, acabou sendo atingida de raspão, rasgando metade da parte de cima de seu kimono, com um pequeno corte em seu ombro. O dragão a alertou. — Tome cuidado. Se atingir você, irá perder a vida, entendeu?

    Ainda confiante, Karin pegou mais uma flecha rapidamente; fechou os olhos, ergueu o arco e puxou a corda. Seu corpo começou a aquecer, gotas de suor escorriam de sua testa; era sua essência de vida sendo emanada.

    O dragão rugiu e avançou em sua direção. Enquanto ela permanecia firme com a flecha concentrada em seu alvo, o dragão se aproximava rapidamente!

    — Vai! Byakko no Chōdan! — A flecha foi então disparada com um rastro branco tempestuoso. O dragão desviou, mas o disparo mudou seu curso; atingindo-o e  fazendo-a ricochetear várias vezes contra ele.

    Dessa vez não foi um ataque sem vontade, foi seu espírito de vida em chamas.
    — Shingetsu Karin, estou impressionado com sua vontade; não apenas me arranhou, mas me feriu… Está aprovada!

    Todo local agitado se acalmou, o céu estava limpo, o mar se acalmou e o lindo sol voltou a aparecer, trazendo um calor suave. Ela olhou novamente o dragão e disse: — Ryukuro, você irá firmar um pacto comigo?

    — Considere feito. Irei possuí-la para executar o trabalho, descanse…

    — Obrigada…

    — O coração dela parou… Emmanuel! Você tem ideia do que acabou de fazer?! — Exclamou Klaus, furioso.

    — Espero que o Senhor me dê uma chance… 

    — Não, Emmanuel! Considere-se um homem morto! Olha a cobaia que acabou de matar por burrice!

    As válvulas a vapor começaram a apitar e luzes vermelhas foram acionadas; não era o que esperavam. — Que?! Alto perigo iminente?

    — Como? Como assim alto perigo iminente, Klaus?!

    — Se tivéssemos matado ela seria apenas luz azul, mas a luz vermelha é…

    Trincos no tanque são ouvidos e a água começa a jorrar do compartimento. — Emmanuel! Corre! 

    Tudo foi pelos ares, espalhando vidro e água, criando nuvens de vapor condensado. No meio da confusão, a jovem que estava agachada levantou-se, com uma aura roxa brilhante a encobrindo.

    Enquanto caminhava para perto deles, em seu braço esquerdo, crescia rapidamente uma grande tatuagem em forma de dragão que se estendia até seu peito. Abrindo os olhos, ela os encarou com a testa franzida e surgiu um sorriso maléfico.

    Em seus olhos, suas finas pupilas de réptil púrpura se fixaram nos dois. — Sakugetsu ryu… ogi…

    — Para! Não se aproxime, eu imploro! — gritaram os dois em sintonia, assustados.

    — Reiken! Shorai no Kuro Tamashi! — Ela impôs a mão à frente, surgindo um portal, puxando de dentro uma katana em forma espectral.

    Ela rosnou e respondeu: — Não é pedindo meu perdão que vocês sairão vivos… Me provem que são fortes primeiro! Ai eu penso.

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