O longo jantar foi agradável e leve, já iam dormir logo em seguida. Enquanto mãe e filha  se moviam em direção ao dormitório do setor leste, a princesa cutucou Karin e perguntou.

    — Karin, gostaria de dormir comigo?

    — Porque essa pergunta de forma tão repentina? — disse a garota, já começando a se avermelhar.

    — Fortalecer os laços de amizade, oras… 

    — Não preciso tomar banho com você, né?

    — Não… mas você vai adorar a cama, amanhã terá um belo treinamento te esperando. — disse Alice, com uma risadinha no final.

    — Se isso for ajudar… que assim seja, só não faça nada de estranho!

    Sorriu com os olhos fechados, a seguindo em direção a seu quarto, se despedindo rapidamente da mãe.

    Essa vai ser minha maior vigarice… pensou ela.

    O tempo passou. Pelo vasto corredor, a jovem andava de pantufa e roupão de banho. Ela procurava o tal quarto rosa que Innova teria trazido, caminhando pelo tapete vermelho bem extenso do local, até que viu sua amiga acenando com a porta aberta.

    — Alice, que roupinha… ein… — se apressou em direção à garota e disse.

    — Não gostou? São belas camisolas, não tem nada de mais.

    — Você parecia tão inocente antes… agora está desse jeito…

    A princesa pôs a mão em seu ombro, e a abaixando em sua direção, sussurrou. — Eu não vou fazer isso que pensa não, quero conversar um pouco e conhecer um pouco de você.

    — Pode entrar, tenho uma camisola para você também.

    Entrando pela grande porta dupla de madeira envernizada, viu-se novamente aquele quarto: um grande tapete rosa cobria o chão, papel de parede de listras brancas e rosas, penteadeira, uma escrivaninha, um enorme guarda roupas amadeirado e sua enorme cama de seda.

    — Que quarto… — disse Karin de boca aberta.

    — Acredita que esse é meu quarto menos luxuoso?

    — Como é? Você não mora aqui?!

    — Esse quarto é para isso quando viajo para Ruthera, para atividades que minha mãe e meu pai dão. — disse a princesa casualmente, mas com um certo orgulho em seu tom.

    Dando um tapa nas costas da amiga, Alice continuou. — Chega de conversa fiada e bora dormir!

    Depois de Karin vestir a camisola de seda lilás, ela se sentou no meio da cama enquanto Alice desligava as luzes.

    — Caramba! É realmente confortável, que roupa… cheiro de lavanda e macia… — murmurou ela, afundando nos lençois.

    Com as luzes apagadas, a princesa caminhou com passos leves até a cama, e pôs um dos joelhos sobre o lençol engatinhando nele. Encarando sua amiga disse.

    — Se cobre ai, quero fazer umas perguntinhas a você.

    Após entrar e se cobrir, Alice começou.

    — Quero que seja sincera nas respostas, eu sei quando estará mentindo e a punição minha não é agradável, certo?

    Seu tom de voz era baixo, predatório e bastante analítico. Qualquer coisa que a jovem pudesse dizer poderia provocar algo cuja natureza ela não saberia.

    — Ok, pode começar.

    — Qual sua condição mental nesse exato momento?

    — Que? Que raios de pergunta é essa?

    — Responda! Qualquer conversa paralela será passível de punição.

    — Estou bem no…

    Sua fala foi interrompida, sendo imobilizada com um rápido movimento. Suas mãos foram postas atrás da cabeça, Alice posicionou-se sobre sua barriga, com a mesma repetindo a pergunta.

    — Eu avisei que sei quando está mentindo, responda certo se não quiser que piore a situação.

    — O que você está…

    Levou um tapa com a mão dela, e novamente foi questionada. — Cala sua boca, recomendo que não fale nada até eu falar, se não quiser morrer.

    — Perguntarei mais uma vez, pense muito bem antes de falar, você tem duas horas para essa pergunta.

    Como… Se a resposta correta é “não estou bem”, porque essa pergunta de repente, será que é sobre o treinamento? Pensou Karin.

    Seu peito apertou levemente. Havia algo na expressão de Alice naquele quarto escuro — não ameaça, mas atenção genuína. O tipo que dói mais do que qualquer punição porque não tem como ser esquivado.

    — Não estou bem.

    Alice soltou os pulsos dela devagar, recuou e se deitou ao lado, olhando para o teto.

    — Sabia. — disse ela simplesmente. — Fale o que quiser. Ou não fale nada. Estou aqui de qualquer jeito.

    Karin ficou olhando para o dossel da cama por um longo tempo. O cheiro de lavanda, a maciez absurda dos lençóis caros, o escuro confortável iluminado apenas levemente pelo luar — tudo tinha a qualidade de lugar onde era difícil mentir.

    Acabou dormindo antes de decidir o que dizer. E Alice não se importou.

    A manhã chegou com o sol ainda baixo, com aquela brisa passando pela janela do quarto. Uma voz familiar gritou sobre ela.

    — Acorda! Disse que teria treinamento!

    Karin abriu um olho. A sua mãe estava a encarando, com Alice ao lado totalmente vestida. Yunna estava apoiando uma espada no ombro como se fosse extensão natural do corpo. Espada essa que a sacerdotisa sempre carrega por aí.

    — Que horas são?

    — Horas de treinar. Levanta!

    Não havia negociação. Karin apenas se levantou.

    O pátio externo do salão oeste da mansão era vasto, bem arborizado. O chão de grama e pedra eram contrastados pelo domo de vidro acima que refletia os belos raios solares do nascer do sol. 

    Yunna já esperava junto da princesa ao fundo do salão. 

    — Lembra desta espada, Karin?. — disse Yunna.

    — Tsuken? A espada que a shogun anterior a deu?

    — Sim, preciso que aprenda o estilo mais básico dos Samurais da Lua, Tsushin ryu!

    Colocando a bainha na cintura, ela se concentrou e embainhou a espada. Com a mão perto do punho, sem tocá-lo, ela permaneceu parada. Com uma leve ondulação, o ar sacou em corte. — Tsushin ryu, Kage-giri!

    O golpe da espada cruzou o pátio, cortando facilmente um alvo camuflado à frente.

    — Sabe como fiz isso? — Disse Yunna enquanto embainhou novamente a espada, continuando a explicação. — Nós seres humanos nascemos com espíritos, desde a nascença Sacerdotisas como eu são usadas para o despertar perfeito deles sobre o receptáculo. E assim podemos concentrar a alma em nosso peito para desferir a influência do poder ao mundo.

    — Mãe, eu nunca segurei uma espada… — resmungou Karin.

    — Exatamente por isso que está aqui, hoje!

    — O Kage-giri, o corte que imbuí sombras, é a técnica mais básica do Tsushin-ryu, vamos ver um teste para você ver que sem o despertar, não conseguirá nada.

    A mãe passou a espada para a filha. Karin encarou a espada na palma da mão, então com um movimento intuitivo que parecia fluir a alma de alguém do passado, ela se posicionou.

    A bainha estava relaxada, a mão firme mas sem tocar o cabo, deixando mãe e princesa perplexas com a atitude que teve.

    Em vez de apenas atacar, a energia da bainha foi acumulada, deixando sair faíscas e pequenas fagulhas de plasma em tom violeta. E assim, como uma leve brisa, ela agarrou a espada e cortou o ar a frente em instantes, formou um dragão que saiu do corte.

    — Tsushin ryu! Tenryu-zan!

    O Dragão em rápido rasante desintegrou o alvo e ascendeu aos céus, destruindo o domo de vidro. Colocando a espada dentro da bainha, Karin caiu exausta. As duas correram rapidamente, assustadas e preocupadas, em direção à garota. A mãe a pegou em seus braços enquanto dizia.

    — Eu nunca vi essa técnica, só existem dois dragões de espíritos mitológicos… Minha mãe foi a última usuária e não pode ser ela, teria no mínimo 100 anos da morte dela para o nascimento da minha filha… Impossível…

    Após o treinamento falho de sua mãe, Alice acompanhou Karin até a enfermaria, cuidando da garota desmaiada para que tivesse uma ótima recuperação. A pequena sala verde menta, servia como sala de recuperação para quem havia perdido ou esgotado a energia espiritual. Naquele cômodo estava uma enfermeira, a princesa e Karin.

    — Onde estou? — disse a jovem enquanto seus olhos se abriam, pesados e embaçados.

    — Karin! Você está bem! — gritou Alice em ânimo eufórico.

    A enfermeira interviu. — Sem gritar princesa, quando a energia espiritual se esgota a pessoa fica totalmente atônita e exausta, barulho a extingue mais.

    — Ok…

    … 

    O trem saiu da estação central às duas da tarde. Alice e Yunna tinham pego dois bilhetes do senhor Hunter. Era uma estação extremamente luxuosa, paredes de mármore, pilares enormes com vários letreiros coloridos de néon.

    — Yunna, vamos para a cidade Brigton, Hunter me deu dois bilhetes vip para essa viagem só nós duas… O que gostaria de comprar na cidade do artesanato?

    Com os olhos demonstrando preocupação, a sacerdotisa foi pega de surpresa pela pergunta dela. — Gostaria de comprar um presente para minha filha… Um que nunca dei quando era menor…

    — Não se preocupe, ela vai melhorar!

    — Eu sei… só acho que… esse não é o maior dos problemas…

    Olhando confusa para a senhora, a princesa perguntou. — O que seria o problema? Senhora…

    — O dragão que habita minha filha… Infelizmente é o que mais temia…

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