Capítulo 6 - Brasas de Um Antigo Reino
Um dragão espectral foi jogado em direção aos dois que ainda estavam de pé, fazendo-os colidir no beco junto ao primeiro bandido que havia sido atingido. A porta do estabelecimento ao lado se abriu e um baixo senhor calvo disse a ela, em um tom de curiosidade.
— Senhorita, você tem uma técnica peculiar… qual seu nome?
— Porque eu te diria isso?
— Sou o único ferreiro desta cidade e vejo que algo precisa muito de mim.
— O senhor se chama Alfred?
E o homem a encarou, perguntando em um tom mais sério. — Como você me conhece?
— O senhor Hunter pediu para encontrar um ferreiro na cidade de Anvrós, ele disse que era o único, ele se chama Alfred Smith.
Alice e Yunna finalmente chegaram, perguntando desesperadas. — Karin! Nossa… Você derrotou todos sozinha?
A sacerdotisa encarou o senhorzinho e pensou. Ele me parece alguém que não queria conhecer…
— Podem entrar, senhoritas.
Abrindo a porta de seu comércio,uma enorme loja entra na visão delas, cheia de armamentos de diferentes tamanhos e formatos. De lanças e armas de fogo, alguns reforços de armadura e mais.
Caminhando pelo chão amadeirado, Yunna sentiu o cheiro familiar de sua terra natal, então perguntou. — Senhor Alfred, você por acaso conhece Tsugaki?
Alfred observou atento a sacerdotisa com olhos afiados. Enquanto continuava a levar a bancada, ele disse. — Nunca ouvi falar deste lugar… Poderiam me falar qual seria o intuito de vocês?
Karin deu passos à frente, o encarando. A bancada entre eles era a única coisa que os separavam. Ela perguntou. — Minha mãe disse que precisava de uma espada feita por um ferreiro Tsugakiano para dominar meu espírito…
— Quem você acha que é mocinha? Qual evidência você tem de eu ser um ferreiro de lá?
Karin congelou. Então fechou os olhos, suspirou, abriu-os e olhou para baixo. O ar ao redor dela ficava pesado a cada segundo que passava. Todos os itens dos mostruários, Alice e Yunna, fraquejaram com a pressão, caindo de joelhos atrás dela.
— Karin! O que está acontecendo?! — gritou Alice.
— Filha, não! Não pode ser! Impossível ser verdade!
Karin encarou o senhor Alfred, seus olhos de uma cor púrpura em formato de réptil, seu sorriso era maléfico, com dentes afiados à mostra. Alfred Smith, ao mesmo tempo em que estava com medo, sorria com alegria ao ver alguém conhecido.
— Senhor… Sakugetsu Ryukuro? — Mudando a sua postura, rapidamente foi até a frente da garota e ajoelhou-se, clamando. — Perdoe minhas ações! Mestre Ryu.
Com um breve sorriso, ela, agora possuída por Ryukuro, riu e em seguida disse. — Está perdoado, Ferreiro Tatsuo. Meu melhor subordinado, foi você! Quem criou minha arma lendária, Kuro Tamashi!
— Qual seria o seu pedido, meu senhor?
— Faça uma espada para minha herdeira, faça uma espada que possa iniciar a jornada dela e minha! Irei ensinar a ela, o verdadeiro valor das artes da lua…
— Como é?! Vai ensinar o que a ela? — exclamou Alice, chocada.
— Eu vou fortalecer ela muito mais do que aquela sacerdotisa inútil ali!
A senhora se levantou com esforço, rangendo os dentes, e gritou com tudo. — Seu deus desgraçado! Porque escolheu minha filha para amaldiçoar!? Você tem ideia do que eu e meu marido passamos por causa da sua existência?!
— Shingetsu Saito? Hmmm… Eu acho que a senhora está se exaltando demais para algo relativamente inventado…
— Como é?
— Eu! e Whashiroi, fomos marido e mulher! Só para avisar, a destruição de nós dois, não foi causada por minha ambição pela formação do eclipse…
— O que quer insinuar com isso?
Virando-se em frente a ela, respondeu em um tom sério. — A história de que houve de eu ser causador de desgraças que quase destruiu Tsugaki, foi inventada pela Shogun do país do sol, Tsunihina!
— Como… Tsunihina… — disse a sacerdotisa, perplexa.
— Depois eu conto sobre isso, falarei com Tetsuo, aguardem.
Yunna ficou cabisbaixa, refletindo, sentindo-se traída. As histórias e boatos que ouviu, aquilo que todos a contavam…. Alice pôs a mão em suas costas e a puxou para um abraço.
— Yunna, deixa que dou uma refrescada em sua mente.
— Desta vez… Concordo… pode me abraçar, mas só desta vez!
Enquanto as duas estavam ali confortando-se e tentando não surtar, Ryukuro se dirigiu a seu ferreiro.
— Preciso que crie uma espada que chegue pelo menos a um terço de Kuro Tamashi, consegue?
— Com quanto tempo precisa?
— Até amanhã…
— Amanhã! Certo meu senhor, irei providenciar! — disse o ferreiro, agora conhecido como Tetsuo, surpreso. Mas sem discutir, se apressou e correu para dentro de sua forja para atender o pedido.
Karin, ainda possuída por Ryukuro, caminhou até elas e tocou em ambos os ombros, dizendo. — Yunna, você pode me odiar, mas você é uma das poucas mães que eu conheço que se dedicou a um desejo dessa magnitude a sua filha.
Sem saber como reagir, ela olhou para o canto oposto da sala, sem resposta.
— Alice… Você é uma das poucas que conheci, que não abandona ninguém e se dedica ao máximo pela sua amiga…
— Fico agradecida. — disse ela sorrindo, enquanto avermelhava com o elogio repentino.
— Certo, vou dar o controle do corpo dela e a treinem e fiquem tranquilas! Robert James, também é meu objetivo!
Karin então caiu para frente, adormecida, sua mãe acariciou com seu indicador sua bochecha e então a levantou, segurando-a em seus braços.
O cheiro de metal quente chegou primeiro. Depois o aroma do chão amadeirado sob os pés, vindo em seguida a luz alaranjada da forja. Alice, de joelhos atrás dela, mostrava uma expressão que oscilava entre alívio e pânico total.
— Ela voltou! — exclamou a princesa, levantando-se abruptamente. — Karin! Você está bem?! Você sabe quem é você?!
— Eu…? — Karin olhou para as próprias mãos. — O que aconteceu?
— O que aconteceu? — Alice repetiu mais alto, quase gritando. — Você ficou com os olhos roxos de réptil, jogou todo mundo de joelhos só de existir e um deus maluco usou seu corpo para dar sermão à sua mãe!
Yunna estava parada, encostada no balcão, com a expressão de quem havia recebido informações demais em pouco tempo e precisava processar aos poucos. Não estava chorando, apenas perplexa. Ela olhava fixamente para um ponto no nada, calada, perdida em pensamentos.
— Mãe. — Karin caminhou até ela. — Mãe, você está bem?
— Estou calculando. — Yunna disse, por fim. — Me dê um momento.
Alice se aproximou de Karin e sussurrou em seu ouvido. — Ela está assim desde que o tal “Ryukuro” falou que a história que ela conhecia foi inventada. Acho que está repensando sua vida.
— Mãe…
— Me dê um momento, Karin. — disse Yunna, inquieta.
Karin ficou calada por um segundo. Depois lembrou-se da pergunta que havia ficado presa em sua língua, antes de tudo desmoronar.
— Mãe, o que é sangue amaldiçoado?
Fechando os olhos, Yunna respirou profundamente.
— Tsugaki não teve apenas um fundador. — Começou ela, devagar, como quem recita algo de um livro memorizado há muitos anos.
— A deusa Whashiroi é a que todos veneram, como a única fundadora existente, a que está nos templos e nos livros. Mas ela não foi a única a criar o país. — Pausou, dando-se um tempo para organizar sua mente, então continuou.
— Havia outro. Alguém que todos temem e cujo nome foi banido dos registros políticos.
O silêncio que se seguiu era pesado.
— Ryukuro. — Karin disse baixo.
— Ryukuro. — confirmou Yunna. — O sangue amaldiçoado é a linhagem que tem parentesco com ele. Quem carrega é considerado… — Ela parou, escolhendo as palavras certas.
— Perigoso. Impuro. Uma ameaça ao equilíbrio que Whashiroi construiu.
Alice estava ouvindo atentamente, com a boca levemente aberta.
— Então Karin é…
— Minha filha. — Yunna disse, com uma firmeza que não admitia contestação. — Antes de qualquer outra coisa.
Karin ficou com isso na mente.
Não disse nada. Mas havia algo diferente agora. Quando você aprende o nome de algo que sempre existiu, mas nunca teve palavras para descrever.
— Ryukuro? — Karin perguntou para o ar, sem saber muito bem se funcionava assim.
— O que deseja? — A voz ressoou de dentro, familiar de uma forma estranha, como lembrar de uma música que você nunca ouviu conscientemente.
— Você conversou comigo. Na UMBRAS. No tanque de modificação.
— Sim
— Por quê? — A pergunta saiu mais direta do que pretendia. — Você podia ter ficado em silêncio. Podia não ter dito nada. Por que me motivou a viver?
— Porque… Se você morresse eu também iria.
— Compreensível…
Yunna havia se aproximado sem que Karin percebesse. Estava ouvindo, com a expressão de alguém que ainda estava em conflito, mas havia decidido processar em movimento em vez de parada.
— Ele não te machucou. — Não era uma pergunta, mas precisava ser dita.
— Não, ele me disse que eu estava perto do fim e que havia razão para não estar.
Tetsuo voltou da forja, com a expressão de quem havia presenciado mais do que esperava para uma tarde de trabalho.
— Eu… fiz a espada. — Disse ele, num tom satisfeito.
Estendeu na mesa uma caixa comprida de madeira escura.
Karin se aproximou e abriu a caixa devagar.
A espada era mais leve do que parecia. A lâmina tinha uma qualidade específica de luz — não brilhava, mas segurava a luminosidade ao redor de formas que luminosidade comum não segurava.
— Shingetsu Karin — Tetsuo disse, com a formalidade de quem entrega algo que tem peso e valores muito além do objeto em si.
— É o nome que darei a ela. Tsuikiba (presa da Lua).
Karin ficou olhando para a espada por um momento.
— Por que esse nome?
— Porque a lua prende a maré. — Disse ele simplesmente. — E você prendeu o que não deveria poder ser preso.
Alice olhou para a espada, então olhou para Karin, em seguida para Tetsuo.
— Há uma armadura também, certo? — disse Alice, com o tom de quem está tentando ser útil e prática porque o emocional já estava cheio.
— Uma armadura leve, sim. — Tetsuo. — Ryukuro me disse que precisaria ser testada.
— Está na base UMBRAS aqui perto.
O silêncio que se seguiu era esperado, com o grupo chegando simultaneamente à mesma conclusão sobre o que estava por vir.
Yunna olhou para a espada na mão de sua filha por um longo momento.
Depois, dirigindo o olhar para Tetsuo, ela agradeceu.
— Obrigada. — foi direta, com o peso da palavra.
— Foi Ryukuro quem pediu, é um prazer trabalhar com ele de novo — disse o ferreiro, animado.
— Ele sempre escolheu bem os que importavam para ele. — Continuou, e olhou para Karin. — Desta vez não foi diferente.
Karin não sabia o que fazer com aquilo.
Então Alice colocou o braço ao redor dela e disse:
— Bora treinar antes de ir então!
— Isso não é motivação normal. — respondeu Karin, sarcástica.
— Funciona de qualquer jeito.
Abruptamente, entrando pela porta da ferraria, quatro homens apareceram Todos estavam utilizando armaduras de placas, coisa que não se via desde a Era Casteriana. Um dos homens caminhou com uma postura meio desajeitada, removeu então uma espada, à mostrando para a senhorita Karin. Disse o cavaleiro parecendo tentar intimidá-la:
— O que acha de ser o novo rei deste país?! Venha! Remova a espada na pedra, Excalibur!

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