Capítulo 26 - Eu não sou um assassino
A realidade voltou em uma velocidade vertiginosa, os contornos nítidos do meu quarto substituindo o pesadelo grotesco. Foi como uma ressurreição, uma fuga desesperada de uma profundidade desconhecida e sufocante.
— Ah, puta merda…
A miséria que atormentava cada área da minha mente era óbvia na forma de suor frio que escorria.
Minha respiração estava rápida e acelerada, como se escapar da prisão de seus sonhos fosse uma corrida contra o tempo.
— Por que isso…?
A luz tênue da lua se infiltrava sorrateiramente pelas cortinas, expondo as silhuetas dos móveis.
O conforto do ambiente, no entanto, não aliviou o peso que continuava a pressionar meu peito.
O brilho fraco do relógio na mesa de cabeceira indicava que eram 3h23 da manhã.
Levantei-me, com o pé sentindo o piso frio, direcionando-me ao banheiro que existia dentro do quarto.
O mais cruel dos confidentes, o espelho, refletia olhos perturbados que não se reconheciam.
Uma tristeza invisível criava cicatrizes em meu rosto.
O som de vozes condenatórias ecoava em minha cabeça como fantasmas que se recusavam a deixar o palco.
— Cala… — Bati a mão na cabeça. — Cala boca, droga.
Curvando-me sobre a pia, derramei água fria sobre minhas mãos trêmulas. As salpiquei em meu rosto, tentando dissipar a névoa que obscurecia minha visão.
Ao levantar-me, o reflexo no espelho revelou uma figura que não era eu.
Haviam olhos vermelhos, contornos de uma face que, sob o manto da ilusão, não se assemelhavam à minha própria imagem.
— Caralho!
Com o susto, afastei-me.
— Tô sonhando ainda?!
O momento de potencial escapismo foi efêmero, despedaçado pela chegada inesperada.
— E não está? — disse a coisa.
Era uma voz carregada de exaustão e profundidade, reverberando pelo espaço com uma melancolia quase tangível.
Em um arrepio involuntário, o ambiente pareceu enregelar, enquanto meu corpo se enchia de uma sensação estranha, como se estivesse sendo corroído por um ácido invisível.
— Isso só pode ser brincadeira…
Tapando os ouvidos e fechando os olhos, minha primeira reação foi silenciar a voz intrusiva, uma presença inoportuna que eu preferiria ignorar.
Mas, como se o universo conspirasse contra mim, as palavras continuaram a ecoar.
— Não finja que não ouviu, tô falando contigo.
A relutância em responder aquilo não a silenciaria, eu bem sabia. Um jogo interno forçado pela circunstância.
— Ah… vai ficar nisso?
— Só desaparece.
No entanto, a paz estava destinada a ser uma miragem.
— Não tem mais chances.
Eu desejava que ele pudesse se calar por um breve instante.
Apesar de ter escapado das paredes tangíveis de uma prisão, descobri que estava confinado em uma prisão mais insidiosa: a minha própria mente.
Um labirinto de tormentos pessoais, um inferno autoinfligido que parecia eternamente perpetuar-se.
Era como pedalar numa roda-gigante doentia: um momento eu estava no topo, no próximo, mergulhava nos abismos mais profundos da minha própria desesperança.
O monstro sinistro residia dentro da jaula, e eu era forçado a lidar com as consequências das chaves que, ocasionalmente, outras pessoas imprudentemente usavam para libertá-lo.
— É uma situação lamentável. Você não se sente culpado pelas mortes que causou? — perguntou ele em tom cínico.
Abrindo os olhos, o olhei com uma raiva evidente.
— Eu? Eu fiz isso?! Ah, vai se foder, seu merda. Não ignore que você me colocou nessa vida de bosta. Sem você, a vida seria mais fácil.
— Eu acho que não.
Uma risada amarga escapou dele, reverberando como um eco sombrio no corredor labiríntico dos meus pensamentos.
Era uma figura que desafiava meu controle, um ser cuja influência parecia se entrelaçar inextricavelmente com a minha própria identidade.
— Só fala logo que o que cê quer, cacete. Não tô com saco pra ficar aturando suas charadas miseráveis.
— Depois de tanto tempo é que finalmente consegui provar meu domínio sobre você. Quero isso de novo e entre outras coisas que ainda não posso alcançar. Mas até esse dia chegar, ainda seremos eu e você em um só para sempre.
Estranheza permeiam nossas interações. Ainda mais estranho era o fato de que eu não estava completamente sozinho, mas compartilhava espaço com essa coisa atormentadora. Tinha quase morrido por causa dela, e mesmo assim, essa figura obscura não parecia disposta a desistir do seu terrível domínio.
— Olha, esse papinho é estranho. Mas, sinceramente, você não vai conseguir isso nem se eu deixasse.
— A razão para isso acontecer é um conceito relativo. Querendo ou não, você não tem controle sobre nada disso. Não importa o quanto acreditemos que estamos no comando, somos apenas peças em um tabuleiro muito maior.
Em meu rosto, com o franzir das sobrancelhas, havia somente desagrado.
— Você fala tanta merda. Enfia um poste no cu e tenta pular.
O desespero, puro e absoluto, fez-se presente, lembrando-me de tempos passados quando a dor era uma novidade avassaladora.
— Esse é o seu destino e será isso que seguirá como parte de um selamento idiota.
— Tá, tô nem aí, só me responde uma coisa, cretino.
Aproximando-me da pia, segurei as bordas e me inclinei para o espelho, rente à ele.
— O que enlouqueceu você pra matar aquela gente?
Cutuquei com o dedo indicador a minha têmpora.
— Perdeu algum parafuso?!
— Enlouqueceu? Você usa essa palavra como se fosse uma chave que resolve tudo, como se bastasse apontar para o absurdo e dizer que ele não faz sentido para que ele deixe de existir.
— Eu perguntei o motivo, não vem filosofar em cima disso, caralho.
A minha cabeça foi invadida por uma risada que se prolongou, espalhando-se de forma descontrolada por todo o meu ser.
— É interessante como vocês se agarram a essa ideia de unidade, como se fosse algo sagrado por si só, como se cada vida carregasse um peso absoluto e inquestionável.
Apertei as bordas da pia com mais força, a tensão acumulava-se nos meus braços, enquanto tentava encontrar algo em que me pudesse ancorar, à medida que aquela presença se expandia.
— Você não vai relativizar o que aconteceu.
— Eu não preciso relativizar nada, vocês fazem isso o tempo todo. Eu só não finjo que é diferente quando muda de escala.
O meu reflexo inclinou a cabeça ligeiramente, sem acompanhar o meu movimento, provando aquela sensação desconfortável de estar à mercê de algo que não dependia de mim para existir.
— Você me pergunta o que me levou a matar aquelas pessoas, como se estivesse falando de um erro que precisa de causa específica, e ao mesmo tempo vive dentro de uma espécie que construiu sistemas inteiros baseados em destruição organizada repetida ao longo de gerações, com justificativas cada vez mais sofisticadas para tornar tudo aceitável.
Respirei fundo, porque já sentia uma onda de irritação que me invadia.
— Não vem com esse papo de a humanidade faz coisa pior, isso não responde nada.
— Responde mais do que você gostaria, porque o que você chama de loucura, eu chamo de coerência dentro de um fluxo maior. Vocês nomeiam guerras, limpam a linguagem, transformam extermínio em estratégia, sofrimento em dano colateral, e depois se perguntam por que algo que se alimenta disso age de forma direta.
Aquilo ficou suspenso por um segundo na minha cabeça, por uma questão de lógica inquietante que eu não queria aceitar.
— Eu não sou você, cacete.
— Você tem certeza de que entende o que te moveu naquele momento, ou só está tentando reduzir tudo a algo que caiba na sua moral atual?
Não respondi à primeira, o que foi resposta suficiente para ele continuar.
— Você insiste em me chamar de louco porque isso te permite manter uma distância segura. Isso tem um alinhamento.
— Alinhamento com o quê?
— Com aquilo que vocês produzem o tempo inteiro sem perceber.
— Isso não faz sentido.
— Faz mais sentido do que você está disposto a aceitar agora. Eu não enlouqueci. Eu respondi a um ambiente saturado, a uma estrutura emocional e energética que vocês mesmos alimentam. Raiva acumulada, medo constante, ressentimento não resolvido, tudo isso cria um campo. Você vive dentro dele. Eu existo por causa dele.
Fechei os olhos e pressionei os dedos contra a têmpora, para conter a sensação de que aquilo se estava a infiltrar mais do que devia.
— Então você tá dizendo que aquilo foi… normal?
— Estou dizendo que, dentro da lógica que você se recusa a enxergar por completo, aquilo foi mínimo.
Meu estômago revirou.
— Eu não queria aquilo.
— Eu sei, e isso é o que torna você útil.
Minha mão apertou a borda da pia com mais força.
— Isso tá errado…
— Você me rejeita para manter a sua identidade intacta, mas foi exatamente essa identidade fragmentada que me permitiu existir. — A sua presença tornou-se mais próxima através da forma como cada palavra encontrava um lugar dentro de mim. — Se você me elimina completamente, você elimina também a parte de si que me sustenta. Se você me aceita, você deixa de ser quem acredita ser.
A pressão no meu peito aumentou até se tornar incontrolável. Não existia mais espaço para um raciocínio, nem para a derradeira e lamentável tentativa de organizar aquilo em algo inteligível. Restava apenas o incômodo bruto, uma amálgama de fúria, remorsos e uma sensação corrosiva de usurpação por ocupar cada centímetro do meu corpo. A minha mão deixou a borda da pia sem que eu tivesse percebido o momento exato da decisão e, quando dei por mim, já estava aos murros contra o espelho.
Os cacos partiram-se em sequência, alguns maiores, outros reduzidos a partículas cortantes como navalhas, que rasparam contra os nós dos meus dedos e a lateral da palma da mão. Um pedaço mais longo entrou em ângulo, atravessando a carne entre o polegar e o indicador, antes de sair com o movimento seguinte. O sangue jorrou em seguida, preenchendo as linhas da minha mão até escorrer pelo pulso com uma velocidade desproporcionada em relação ao tamanho do ferimento.
A minha imagem no espelho deixou de ser única. Os fragmentos ainda presos à moldura refletiam versões fragmentadas de mim, cada uma desalinhada e ligeiramente diferente.
— Eu não sou um assassino…
Os meus dedos fecharam-se involuntariamente, apertando os cacos que continuavam presos à pele, exacerbando as feridas que já eram suficientemente graves. O sangue escorreu mais depressa, com gotas que caíram na pia e no chão numa sequência caótica estranhamente ordenada.
Tentei inspirar fundo, organizar os pensamentos, qualquer coisa que me mantivesse ancorado, mas a sensação daquela presença aumentou dentro de mim, e foi precisamente nesse momento que a coleira reagiu, libertando um choque que desceu do meu pescoço até à coluna.
Os músculos contraíram-se em simultâneo, a minha visão ficou branca e o som à minha volta distorceu-se até se transformar num ruído abafado.
E depois tudo escureceu.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.