11. NEGATIVO
Luna volta para sua mesa, sentindo o peso do olhar de Gabriel ainda queimando. A cabeça está uma bagunça de pensamentos desconexos, mas ela decide, por pura autopreservação, não mexer nisso agora. Algumas coisas precisam de tempo para assentar, como o grão de uma película antiga.
Daniel se aproxima, quebrando o silêncio com o som suave de uma flanela deslizando sobre metal. Ele está limpando uma máquina fotográfica analógica — a mais antiga de sua coleção particular. É uma relíquia de couro e cromo que recebe mais cuidado do que qualquer computador de última geração no estúdio.
— Don’t shiver, Luna? — Daniel pergunta, cantarolando o refrão com uma voz bem-humorada.
— Sempre, Chefe… I’ll always be waiting for you — ela responde, fechando os olhos por um segundo para acompanhar a melodia de Shiver.
Daniel sorri, um brilho nostálgico atravessando seus olhos expressivos.
— Essa música marcou o início do meu namoro com a minha amada. Toda vez que ouço, sinto como se o tempo retrocedesse.
— Ai, que lindo! — Luna abre um sorriso genuíno, erguendo uma das sobrancelhas em tom de brincadeira. — Espero que você cuide tão bem dela quanto cuida dessa câmera, Daniel.
— Mais ou menos, Luna. Essa máquina aqui… — ele faz uma pausa, admirando o objeto. — Ela já fotografou pessoas que nem existem mais, capturou luzes de cidades que mudaram completamente. É literalmente um pedaço da história que ainda funciona.
Gabriel observa a interação de soslaio. O coração, embora ele tente domá-lo com lógica, ainda está descompassado pelo flagra recente. Ele tateia respostas rápidas em sua mente, preparando-se para um provável interrogatório. Há dias Luna e ele não trocam mais do que amenidades profissionais, mas ela já se mostrou curiosa e teimosa o suficiente para não ignorar o que viu. Ele deveria torcer para que ela deixasse o assunto morrer. Seria mais simples. Mais seguro para as paredes que ele ergueu. Mas existe uma parte dele, pequena, inconveniente e assustadoramente viva, que espera que ela não deixe.
O resto da manhã transcorre em uma calmaria produtiva. Luna sai para o ensaio agendado e volta perto do horário do almoço. O frio de Curitiba parece ter grudado nas paredes do estúdio. Ela desliga a música, fecha a janela para barrar o vento cortante e, ainda com a câmera pendurada no pescoço como uma extensão do corpo, pega a bolsa.
— Hora do almoço, Gabriel — ela avisa. O tom é decidido, casual, como se estivesse tentando, por força de vontade, tornar a convivência natural. Ela sente algo denso pairando entre as mesas, mas recusa-se a ser sufocada por isso.
Gabriel se assusta com a interrupção. O “sim” sai acompanhado de um pigarro. Ele sai para almoçar e retorna antes de todo mundo. No estúdio vazio aproveita a solidão para perambular pelo espaço, observando a fotografias que cobrem as paredes. Passa pela mesa de Luna, demorando-se um pouco, absorvendo aquele caos estranhamente confortável.
As pedras do caminho que leva a porta, anunciam a chegada de alguém. Gabriel se adianta e senta-se rapidamente se escondendo atrás do monitor. Luna entra com Marina ao lado, conversando eufóricas sobre algo que viram no shopping. A fotografa atravessa o portal sorrindo, olha para Gabriel vidrado no computador e decide não interromper. O inverno ainda não começou oficialmente, mas as tardes já exigem o isolamento das janelas fechadas.
Nos últimos dias, o fluxo de ensaios foi tão intenso que ele mal dava conta da edição. A pasta de compartilhamentos no Drive está um caos; editar por data já não funciona, pois Daniel marcou vários arquivos como urgentes. Gabriel começa a abrir pasta por pasta, buscando um grupo de atores que posaram com figurinos de um musical.
Por erro ou curiosidade inconsciente, ele clica em uma pasta intitulada apenas como “Coisas”. No instante seguinte, a tela é inundada pela alma de Luna.
As fotografias se espalham em miniaturas: uma caneca fumegante sobre uma mesa de madeira; gotas de chuva presas em uma teia de aranha perfeita; a sombra longa de uma árvore projetada em um muro descascado. Em outra imagem, um pássaro solitário bebe água em uma poça que reflete o céu cinza. Há fotos de rachaduras que parecem mapas, janelas de todas as cores e formatos.
E árvores. Muitas árvores.
São incontáveis arquivos, a barra de rolagem parece infinita. Uma imagem específica faz Gabriel parar. Luna está abraçando uma senhora sorridente; o sorriso da fotógrafa é tão largo que parece transbordar da moldura. Ele nota a semelhança imediata: o mesmo formato dos olhos, a mesma vivacidade. A mãe dela? Na foto, Luna usa um rabo de cavalo alto e uma camiseta preta, três vezes maior que seu corpo, com a estampa de um garoto loiro de bandana envolto por uma raposa de nove caudas.
Naruto. Quem diria? Ele pensa, um esboço de sorriso morrendo antes de nascer. Agora a piada da Marina sobre chamá-la de “sensei” fazia todo o sentido.
Gabriel fecha a imagem, mas, ao rolar para cima, nota uma pasta que passara despercebida. O nome é apenas um ponto de interrogação: “?”.
Ele clica. O fôlego escapa.
É ele. Gabriel. A foto da caminhada. Ele está de perfil, olhando para o gato preto entre as raízes da árvore, e há um sorriso — real, leve, desarmado — em seus lábios. Ele observa a própria imagem como se olhasse para um estranho. Quem era aquele homem na tela?
— Gabriel… — a voz de Luna surge nas margens do torpor.
Ele não responde, hipnotizado pela prova de que ainda era capaz de parecer feliz.
— Gabriel! — Ela repete, agora olhando por cima do monitor.
A voz dela parece vir de outro continente. Ele desperta, sentindo o sangue subir para o rosto. — Hã? — fala, confuso, fechando a aba do navegador com um clique brusco.
— Vou compartilhar agora a pasta com o ensaio dos atores. Estava apenas selecionando as melhores — ela explica, observando a reação dele com curiosidade.
— Tá bom — ele responde, a voz suavizada por um sentimento que não sabe nomear. Uma interrogação… ela me salvou com uma interrogação.
Luna sai da sala para buscar café. Gabriel, agora ciente de si e do silêncio que o rodeia, observa mais uma vez todas aquelas imagens. Há tanta sensibilidade naquelas fotos de “coisas” inúteis. Ele entende cada clique. Entende o que ela está tentando fazer: registrar o que ninguém vê, o que está prestes a desaparecer. Incluindo ele mesmo.
Ele escuta os passos dela no assoalho e assume uma postura rígida. Luna reaparece com duas canecas fumegantes e coloca uma na frente dele. Não diz nada. Ele também permanece em silêncio. Mas, desta vez, a quietude não é pesada; parece certa, como o intervalo entre duas notas musicais. Ele queria agradecer, mas as palavras parecem insuficientes diante da imagem que ela guardou.
O cheiro do café é forte e reconfortante. Ao tomar o primeiro gole, Gabriel sente o calor se espalhar, como se cada célula de seu corpo estivesse, finalmente, começando a descongelar.
— Abra a pasta que compartilhei agora. Preciso te mostrar alguns detalhes da iluminação — ela diz, aproximando-se.
Ele obedece. Luna chega perto — não o suficiente para tocá-lo, mas o suficiente para que o rastro de calor dela o envolva. Enquanto ela explica os ajustes, de forma totalmente casual, Gabriel se pega observando-a pelo reflexo do monitor. Ele vê o movimento dos lábios, o brilho dos dentes, o cabelo escuro que cai como uma cortina protegendo o espaço entre eles.
Eles estão sozinhos. Perto. Mas ela respeita o seu muro. Não toca no assunto da marca, não faz perguntas difíceis. Ela termina a explicação e olha para ele, sorrindo com os olhos. O momento parece desacelerar, como se a luz do estúdio tivesse se tornado líquida.
Ele retribui o olhar. É rápido, um microssegundo de conexão nua.
Luna se vira e volta para sua mesa. Gabriel fica para trás, mas a imagem dela já está gravada em seu ‘negativo’ interno: os grandes olhos castanhos, o sorriso fácil, o cheiro familiar de canela e vida. Daquela vida que ele, secretamente, começava a desejar de novo.
Gabriel fechou os olhos por um instante, tentando dissipar a névoa de sensações que o envolvia. O silêncio da sala, antes um escudo, agora parecia preenchido pelo eco da risada dela. Ele sentiu o peso da carteira no bolso, um lembrete físico de que o passado ainda ditava as regras de sua existência, mas, pela primeira vez, esse peso pareceu estranhamente deslocado. Era como se a marca esbranquiçada em seu dedo estivesse começando a arder, não de dor, mas de uma impaciência que ele não sabia como silenciar.
Ele olhou para as mãos — as mesmas mãos que agora sabiam o segredo de uma interrogação guardada em uma pasta — e sentiu um calafrio. Luna não era apenas uma fotógrafa instintiva ou uma colega de trabalho barulhenta; ela era uma força da natureza que ignorava suas placas de ‘não ultrapasse’.
Quanto mais ele tentava se manter na penumbra, mais ela parecia encontrar os ângulos certos para iluminar suas rachaduras. Gabriel sabia que estava entrando em um território perigoso. Aceitar aquele café, retribuir aquele olhar e, principalmente, desejar aquele sorriso era o mesmo que admitir que sua armadura estava falhando. Ele respirou fundo, o ar do estúdio saturado pelo perfume doce dela, e percebeu, com um pavor que beirava a esperança, que talvez o isolamento de Curitiba não fosse mais o suficiente para protegê-lo do que Luna estava prestes a despertar.

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