14. CONTATO DIRETO
O estúdio está mergulhado em um silêncio profundo quando Luna chega. Ela saiu de casa mais cedo do que o habitual, impulsionada por uma necessidade urgente de passar na farmácia. Na noite anterior, tomada por uma cólica dilacerante que parecia retorcer seus órgãos internos, constatara com pesar que restava apenas um último comprimido na cartela. Hoje, acordou inundada pela dor pulsante que esmagava seu útero, uma lembrança agressiva de sua própria biologia.
Graças à confiança de Daniel, cada membro da equipe possui uma cópia da chave, o que se revela uma benção no momento, já que o chefe está viajando. Luna entra, e o cheiro reconfortante de madeira velha e cera a atinge como um abraço de vó no meio da tempestade de dor. Faltam quarenta minutos para que os outros cheguem. Exausta, ela se permite deitar em um sofá de veludo que, até então, servira apenas de depósito para caixas de equipamentos. Fecha os olhos, apertando o ventre, e tenta com todas as forças acelerar mentalmente o efeito do medicamento.
Um som estridente, vindo do jardim, rompe seu transe. Luna se coloca em pé num movimento rápido — rápido demais para quem está em crise — e tenta localizar a origem do “grito”. No canto da propriedade, atrás da silhueta imponente da grande araucária, um pequeno gato amarelo olha para ela com olhos arregalados de puro espanto.
— O que está fazendo aí, pequeno? — ela murmura, a voz rouca.
Ela percebe a tragédia: o laranjinha provavelmente subiu pelo muro e pulou no telhado baixo, mas agora, lá do alto, a coragem lhe faltava para a descida. Ele não vai conseguir sozinho, Luna pensa com aquele pesar característico de quem não suporta ver um ser vivo em apuros. A urgência de salvar o animal abafa a dor aguda.
Busca uma cadeira na cozinha, mas a altura é insuficiente. Uma ideia atravessa sua mente, ignorando o bom senso. Ela entra correndo, fazendo o assoalho cansado estalar sob seus passos apressados, e arrasta sua cadeira de escritório para fora. O metal range contra a grama. Luna aciona o pistão, fazendo o assento subir até o limite máximo. Posiciona-a perto do muro, certifica-se de que as rodinhas parecem firmes no solo irregular e sobe.
O mundo oscila. Ela está trêmula, mas focada. O gatinho espera, imóvel. Luna se estica, a ponta dos dedos quase alcançando o muro. O encosto da cadeira está apoiado na parede, o que lhe dá uma falsa sensação de segurança. Ela fica na ponta dos pés e toca a patinha do gato. O animal recua com o contato inesperado e, com o balanço do breve susto, o centro de gravidade da cadeira giratória se perde. A base gira violentamente para o lado, enquanto Luna perde o chão.
— LUNA!
Um grito forte rasga o ar. Passos pesados correm em sua direção, mas chegam segundos tarde demais. Luna cai pesadamente, o impacto sendo apenas parcialmente amortecido pela grama úmida. Infelizmente, seu pé esquerdo, enroscado no braço da cadeira durante a queda, torce com um estalo seco e doloroso. Gabriel se aproxima, o rosto pálido e o choque transbordando nos olhos.
— Luna! Você está bem? — A voz dele vibra com uma preocupação que ele nunca se permitiu demonstrar antes.
— Meu pé… — ela consegue dizer, as lágrimas acumulando-se instantaneamente, não apenas pela torção, mas pelo acúmulo de dores daquela manhã.
Sem hesitar por um milésimo de segundo, Gabriel se agacha. Ele passa um braço por baixo dos joelhos dela e o outro apoia suas costas com uma firmeza inabalável. O contato físico repentino faz o coração de Luna dar um salto que quase compete com a dor no tornozelo. Gabriel se levanta com uma facilidade desconcertante. Luna sente o chão desaparecer e, num reflexo de proteção, passa as mãos receosas em volta do pescoço dele para se segurar.
Ele é forte, ela analisa em meio ao torpor. A dor percorre toda a sua perna, fazendo-a gemer baixinho contra o ombro dele, mas ela não consegue ficar alheia ao fato de que Gabriel a carrega como se ela fosse algo precioso e frágil. A sensação do corpo dela sobre os braços dele, a respiração dela tão perto de seu ouvido, são estímulos íntimos demais. Gabriel se permite experimentar a sensação por um breve instante, inalando o cheiro de canela e vida que emana dela, antes de empurrar o sentimento para o fundo da mente.
Ele a leva para dentro e a acomoda com cuidado extremo em uma poltrona no hall.
— No que você estava pensando? Como pode ser tão imprudente de subir em uma cadeira dessas? — ele pergunta, a voz exasperada, quase gritando pelo susto que levou, enquanto busca um puff para elevar o pé dela.
Luna permanece em silêncio. Os processos químicos de seu período estão a todo vapor, seu tornozelo pulsa em agonia e ela falhou em salvar o gato. O rosto queima de vergonha e frustração. Lágrimas quentes escorrem por suas bochechas vermelhas. Ela tenta interromper o fluxo com as mãos; não queria chorar na frente dele, não queria parecer a “garota intensa” que todos criticavam. Ela o encara, sem saber o que dizer.
Gabriel se contém ao vê-la desabar. A raiva pelo susto se dissolve em compaixão. Ele se abaixa até ficar exatamente na altura dos olhos dela. O ar entre eles parece faltar. Aqueles olhos castanhos, mergulhados em um mar de lágrimas, o encaram com uma vulnerabilidade que o desarma por completo. Ele quer tocar seu rosto, quer dizer que está tudo bem, mas suas mãos apenas tremem ao lado do corpo.
— Vai ficar tudo bem, Luna. Mas precisamos ir à emergência agora.
— O gato… eu não consegui, Gabriel — ela soluça, a frustração transbordando.
— Vamos cuidar de você primeiro. Depois eu prometo que dou um jeito de tirar aquele teimoso de lá — ele diz, mantendo o olhar fixo no dela, selando uma promessa silenciosa.
Sem que ele pudesse prever ou recuar, Luna joga os braços em torno de seu pescoço e o puxa para um abraço apertado. Gabriel congela. O impacto do corpo dela contra o seu é como um choque elétrico. O cheiro do cabelo dela invade seus sentidos; o calor da pele dela contra a dele parece queimar através do tecido da camisa. Ele sente o nariz dela roçar seu pescoço e a umidade das lágrimas dela marcando sua pele.
O instinto manda retribuir, envolver aquela cintura e nunca mais soltar, mas a sombra de seu passado grita mais alto. Ele hesita, a mão pairando no ar antes de descer e dar apenas leves batidinhas nas costas dela. Não posso, ele repete para si mesmo como um mantra, embora cada fibra de seu ser queira o oposto.
— Me desculpe — Luna murmura, afastando-se com o rosto corado. O ar parece mais pesado agora, carregado com uma energia que nenhum dos dois sabe como rotular.
— Vamos — ele diz, ajudando-a a se levantar. Ele passa o braço pelo tronco dela, encontrando a linha da cintura tão facilmente como se, se enroscar ali fosse um costume.
O peso de Luna contra seu lado desperta sensações que Gabriel acreditava estarem mortas e enterradas. Ele pigarreia, tentando manter a máscara de neutralidade. Mancando e apoiando-se nele, Luna toma o cuidado de não deixar que o braço dele pressione o ponto sensível em suas costas, enquanto sente a firmeza do abdômen dele sob a roupa. Um pensamento surge e ela segura o fôlego. Até agora, não parou para observar o corpo dele. Tudo o que sabe é que ele é bastante alto, o cabelo é bonito e tem olhos profundos. Agora, a curiosidade de observar o resto quase abafa as dores pelo corpo.
Ao chegarem na escada do jardim, a preocupação volta: como descer com um pé só? Sem dizer uma palavra, Gabriel a ergue novamente nos braços. Luna desvia os olhos, sentindo o calor subir pelas bochechas.
— Eu já fiz isso antes — ele sussurra, uma nota de tristeza profunda atingindo sua voz.
— Eu sei — ela responde em um suspiro, sentindo que havia uma história inteira escondida naquela frase.
Estão cruzando o jardim em direção ao carro quando Bianca e Marina surgem correndo da esquina, alertadas pela imagem de Luna nos braços de Gabriel.
— Ei! O que aconteceu? — Bianca pergunta, ofegante.
Gabriel à solta com um cuidado reverencial próximo à porta do carona.
— Aparentemente, eu não deveria ter tentado voar em uma cadeira giratória — Luna tenta brincar, embora a dor escape em cada palavra.
— Como assim? — Marina pergunta olhando Luna como se procurasse uma fratura exposta.
Explicado o ocorrido sob os olhares estupefatos das colegas — que nunca imaginaram ver Gabriel tão solícito —, ele ajuda Luna a se acomodar no banco. Gabriel dá a volta, entra no veículo pequeno e impecável que cheira levemente a canela.
— Você tem carteira, né? — Luna pergunta, um gemido de dor escapando no final da frase.
— Sim, Luna. Você está segura comigo — ele responde, girando a chave. O motor liga em um estrondo, dando início a uma jornada que, ambos sabiam, mudaria o foco de tudo o que haviam construído até ali.

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