12. FOCO SUAVE
Os preparativos para o tradicional almoço que marca o último sábado do mês no Estúdio Âmbar estão com força total. Estava difícil acender a churrasqueira, já que o vento forte de fim de outono não deu trégua, chicoteando as brasas antes mesmo que elas pudessem vingar.
Daniel, como sempre, cuida da carne assada com uma paciência ritualística, enquanto Bianca prepara os aperitivos na cozinha e Luna cuida das bebidas, misturando gelo e cores. Marina foi poupada dos afazeres, já que domingo é seu aniversário de vinte anos. Gabriel, depois de muita insistência e promessas de que o almoço era uma tradição inviolável do estúdio, foi convencido a participar, embora sua postura ainda sugerisse que ele preferiria estar em qualquer outro lugar.
O cheiro de fumaça preenche a pequena varanda atrás do casarão. Taças de vinho tinto são servidas em um esforço para aplacar o gelo daquela manhã. Gabriel, impelido a ajudar Daniel a vencer a batalha contra o vento e a umidade que subia do gramado, busca nos mais remotos cantos da mente os macetes ensinados por seu avô.
Ele foi criado pelos avós depois que os pais se divorciaram em uma guerra de silêncios. O pai nunca voltou; mudou de país e, há alguns anos, Gabriel soube que ele falecera devido a complicações em uma cirurgia. Gabriel não conseguiu sentir nada na época, apenas um vácuo. Já a mãe se casou novamente e raramente entra em contato, imersa em sua nova família. Assim, sua base foi o velho. Ele cresceu vendo o avô acender a churrasqueira, não importava se o clima era de sol ou tempestade. Se fechar os olhos agora, o cheiro da fumaça o transporta para o quintal da infância, trazendo o gosto do tempero da avó e a lembrança da primeira cerveja que dividiu com o velho.
Luna cuida da playlist. Quando a música Cotidiano começa a ecoar, as lembranças de Gabriel ganham uma tonalidade mais suave. Tomada pelo vinho e pela melodia de Chico Buarque, Luna balança o corpo no ritmo da canção enquanto conversa, sorridente, com Bianca e Marina. Gabriel, usado como um escudo humano contra as rajadas de vento que ameaçavam apagar o fogo, beberica o vinho em silêncio, observando a forma como a luz do outono parece se enroscar nos cabelos dela.
— Acho que agora vai! — Daniel exclama, vitorioso, seguindo para lavar o carvão que tinge seus dedos e braços.
— Pensei que você fosse expert, Chefe — Bianca zomba, ajeitando os óculos escuros.
— E eu sou! Mas até mesmo um mestre churrasqueiro sofre para manter a brasa acesa enquanto um vendaval curitibano passa por ela.
Bianca revira os olhos, rindo. — Não sei, não… esse é o quê? Nosso centésimo churrasco?
— Deixa ele, Bi, a idade chega para todos — Luna brinca, piscando para o mestre.
— Ah, Dona Luna! Deixe eu ver uma foto tremida hoje para você ver.… não vou perdoar.
— Hahaha. Justo.
— E você, aniversariante? — Daniel dirige-se a Marina. — Como é estar prestes a ter vinte anos?
— Ainda não sei, Chefe, mas deve ser bem legal — a garota responde com um brilho de expectativa.
— É.… eu nem lembro mais como era — Daniel suspira de forma dramática.
Gabriel observa de longe, ainda estático atrás da churrasqueira, a visão parcialmente descortinada pela fumaça quente que subia. Sem perceber, ele se pega olhando para Luna por mais tempo do que o estritamente profissional. Desvia o olhar rapidamente. Não sinto nada, repete para si mesmo, como um mantra de proteção. Mas o borbulhar estranho no topo do estômago ignora suas ordens. Ele se afasta e senta-se em uma cadeira próxima a Daniel.
— Tive uma super ideia! — Luna surge na frente deles, os olhos brilhando. — E se no próximo almoço a gente fizesse um karaokê?!
— É mesmo! — Bianca concorda, debruçada sobre a mesa do outro lado da varanda. — Seria divertido, mesmo que eu desconfie que ninguém aqui cante bem o suficiente.
— Ah, irmãzinha, sabe que eu sou um perfeito canarinho.
Antes que Bianca responda, Luna intervém: — Jura? Quero ouvir!
— Um canarinho atropelado, só se for — Bianca rebate, fazendo todos rirem.
— E você, Gabriel? Canta? — Luna pergunta, fixando os olhos castanhos nele.
— Não — a resposta é suave, mas definitiva. Gabriel não se imagina expondo sua voz dessa maneira.
O grupo já parece acostumado com a dinâmica monossilábica de Gabriel. Ninguém parece afetado, nem mesmo Luna, que apenas sorri e volta para a música. Lady Gaga irrompe pelos alto-falantes e, instantaneamente, Luna puxa Bianca e Marina para mais perto da caixa de som que ficava no cômodo interno. Ela aumenta o volume e as três começam a dançar e cantar a plenos pulmões a canção Vanish Into You.
— Completamente doida — Daniel comenta com um sorriso de pai orgulhoso, levantando para checar a carne.
— Completamente — Gabriel concorda num sussurro, mas seus olhos não conseguem sair da figura saltitante de Luna.
Três músicas mais tarde, o grupo volta para a varanda, ofegante.
— Agora eu sei por que você não sente frio, Luna — Daniel provoca.
— Qual é a teoria da vez, Chefe?
— Porque você é doida. O movimento constante mantém o sangue quente.
— Sério? Achei que você ia vir com uma filosofia profunda, Daniel — Bianca ri. — Que resposta sem graça.
— Ué? Os loucos como ela não têm razão de ser; eles apenas são.
— Ah, Chefe, eu gostei disso! — Luna responde, sorrindo. Faça chuva ou faça sol, Luna estava sempre de bermuda, alegando que facilitava o movimento da fotografia.
— A carne está no ponto!
Sentam-se à mesa de seis lugares. Marina e Bianca dividem um lado; na ponta, senta Daniel. Luna entra para baixar um pouco o volume da música e, quando volta, o único lugar disponível é ao lado de Gabriel. Uma agitação imediata cresce no estômago dela. Ela se senta e, de repente, o ar que era leve fica denso, carregado de uma eletricidade estática.
Gabriel aperta a lateral da cadeira com tanta força que os nós dos dedos empalidecem. O calor daquela aproximação física, pele quase tocando pele através das camadas de roupa, é ensurdecedor. O cheiro dela — aquele doce intenso que ele já reconheceria em qualquer lugar do mundo — desperta memórias que ele luta diariamente para enterrar.
— Gabriel — ela fala com ele, a voz baixa. Ele não escuta de primeira, perdido no labirinto sensorial. Luna toca seu braço brevemente. Mesmo por cima da blusa grossa, o toque percorre toda a extensão do corpo dele como um choque.
Ouvir seu próprio nome saindo dos lábios dela o reconecta brutalmente com a realidade. Ela está tão perto que ele consegue ver as pequenas variações de cor na íris dela.
— Essa faca é minha — ela diz, apontando para os utensílios que ele segurava sem perceber. — Você tem duas. — ela sorri.
— Ah… sim. — ele responde, entregando o objeto com as mãos trêmulas.
O resto do grupo parece alheio à tensão que vibra entre os dois, mas Daniel exibe um leve sorriso de canto, baixando os olhos e balançando a cabeça discretamente. Ele vê o que eles tentam esconder.
Luna faz questão de servir a sobremesa. Ela passou horas pesquisando receitas e até errou duas vezes antes de acertar um mousse de chocolate que não ficasse amargo demais. Quando se tratava de doces, ela sempre se dizia uma negação, mas esforçou-se tanto que todos pediram repetição. Gabriel, que não era fã de açúcar, cedeu ao ver a expectativa no rosto dela. O sorriso satisfeito de Luna ao vê-lo comer foi o prêmio da tarde. Fazia anos que ninguém conseguia convencê-lo a quebrar suas próprias regras com tanta facilidade.
— Bem, como todos sabem, sorteamos duas pessoas para a louça. Marina e eu fomos os últimos, então estamos fora — Daniel anuncia, checando o celular. — Luna e Gabriel! Aplausos, gente.
— Pode deixar que eu lavo — Gabriel oferece.
— Não! Pior do que lavar é secar. Eu lavo, você seca — Luna insiste, já se levantando.
A tarefa é iniciada em um silêncio quase absoluto. Vez ou outra, Luna cantarola um trecho de alguma música que ficou gravada na mente, mas não há diálogo. A água da torneira está gelada. Gabriel observa os dedos de Luna ficando vermelhos pelo frio e percebe quando ela os abre e fecha rapidamente sob o jato, buscando alívio.
— Podia pôr uma torneira elétrica aqui, né, Chefe? Chega a ser uma tortura — ela grita para a varanda.
— Vou providenciar! Mas é muito estranho, já que você se gaba tanto de gostar do frio — Daniel devolve lá de fora.
— Ah, mas frio na cara é uma coisa, frio na mão é outra bem diferente!
— Sei…
— Eu posso terminar — Gabriel tenta outra vez, pegando o pano de prato. — Suas mãos estão congelando.
— Não precisa, a pobre já está mortinha mesmo — ela brinca, esticando os dedos gelados cobertos de espuma branca.
Uma coceira repentina na nuca faz Luna quase pedir que ele a ajudasse, mas ela desiste, achando que o contato direto poderia assustá-lo. O pensamento a faz sorrir sozinha enquanto ela mesma tenta se coçar com as costas da mão limpa, deixando, sem perceber, um tufo de espuma branca preso nos fios escuros perto da orelha.
Lentamente, como se estivesse tentando desarmar uma bomba relógio, Gabriel estende a mão. Ele passa os dedos pelos cabelos dela, removendo a espuma com um toque tão leve que beirava o imperceptível. A respiração dele falha por um segundo com a sensação da textura dos fios grossos tocando a ponta de seus dedos.
A simples presença de Luna era capaz de tirá-lo do seu centro de gravidade. Vê-la sorrir, cantar, interagir com ele de forma tão despreocupada — como se a descoberta da marca em seu dedo não fosse um abismo entre eles — o deixava profundamente confuso.
Mas, além de tudo isso, Gabriel ainda não entendia aquela conexão magnética. Ele já havia interagido com centenas de pessoas antes e interagia com outras agora, mas por que apenas Luna tinha aquele efeito devastador sobre seu controle?
Ele sentiu que precisava segurar as rachaduras que começavam a aparecer em sua superfície. Ou então, teria que erguer paredes novas, muito mais altas e espessas do que as anteriores.

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