Luna desperta com os primeiros raios da manhã de domingo, sentindo a carícia morna do sol sobre o rosto. Ela tem o hábito de abrir as cortinas da grande porta de vidro que dá para o quintal antes de dormir, permitindo que o despertador seja a própria luz natural, um rito de passagem suave entre o mundo dos sonhos e a realidade. Ao se espreguiçar sob os lençóis de algodão, suas mãos tateiam a superfície macia até encontrar três bolas de pelo ronronando em sincronia: Miau Miau, o gato preto de olhar atento; Tigre, o laranja idoso que é puro dengo; e Brisa, a gata mais peluda e aristocrática do mundo.

      Ela levanta devagar, buscando disposição nas pequenas coisas. No banho, o vapor preenche o banheiro enquanto ela passa a esponja com cuidado sobre a marca antiga nas costas. A borda protuberante da cicatriz ainda causa um desconforto físico e uma pontada de lembrança que ela prefere não nomear. Ao sair, veste um roupão felpudo, sentindo-se protegida. Quarenta e cinco minutos depois, o cheiro de café fresco invade sua pequena casa de cinco cômodos — um espaço que é, ao mesmo tempo, seu santuário e seu museu pessoal. Ela prepara ovos cozidos e uma tigela de mingau com banana, acomodando-se na mesa de jardim rodeada por plantas que parecem agradecer a sua companhia silenciosa.

      Sua mãe mora longe, no interior do estado, e a saudade às vezes aperta como um sapato novo que ainda não laceou. Nessas horas, Luna adoraria tê-la ali para papear sobre trivialidades, dividindo um chimarrão quentinho enquanto ‘lagarteiam’ ao sol, como se diz no Sul. Nem sempre a relação foi fácil; durante a adolescência, a rigidez da mãe era a muralha contra a qual a intensidade de Luna colidia diariamente. Para aquela mulher de modos comedidos, o riso alto da filha era barulho e suas lágrimas súbitas eram drama. ‘Menos, Luna. Seja menos’, era o mantra que tentava moldar o espírito indomável da menina em uma moldura pequena demais para ela.

      Luna passou anos tentando se encaixar nesse molde, acreditando que seu transbordamento era um defeito. Hoje, porém, ao observar o jardim e sentir o sol no rosto, ela sorri com uma ternura que só o tempo cura. Já não se importa com os antigos silenciamentos; compreende que a rigidez da mãe era apenas o medo de quem não sabia como proteger algo tão vibrante. A mágoa deu lugar a uma admiração profunda pela força daquela mulher que, à sua maneira, lhe ensinou a ser resiliente. Luna a ama mais que tudo, justamente por ter descoberto que pode ser inteira e solar mesmo vindo de raízes tão severas. Antes de mergulhar em sua programação sagrada de domingo — maratona de animes e comida afetiva —, ela envia uma mensagem carinhosa para a mãe, seguida de um emoji de coração, e outra para Marina, imaginando que a aprendiz deve estar lidando com uma ressaca épica pós-aniversário.

      Do outro lado da cidade, Gabriel prepara-se para dormir às 22:30, mas nota uma excitação atípica. Pela primeira vez em anos, ele sente satisfação por saber que faltam poucas horas para retornar ao trabalho. Sua vida solitária tem sido um deserto de monotonia, e embora ele nunca tenha deixado de ser produtivo, percebe que a atmosfera do Estúdio Âmbar está alterando sua química interna. Ele sente uma agitação no estômago, um acelerar das batidas que dão o sinal claro de que o isolamento que ele tanto defendeu está começando a ruir.

      Na segunda-feira, o estúdio desperta com o som característico da rotina.

    — Bom dia, Gabriel — Bianca chega cedo, com uma maleta de couro nos braços e o perfume marcante que sempre a precede. — Ué, a Luna não chegou ainda?

    — Bom dia — Gabriel responde, ocupado em tirar o saco de lixo do cesto. Ele faz o nó com agilidade e passa por Bianca sem oferecer mais do que o necessário. Ele sabe que a ruiva é esperta demais para não notar que ele também reparou na ausência de Luna.

      Pouco depois, Luna entra. A sala de edição está vazia, mas o cheiro de café recém-passado indica que Marina já está na cozinha. No corredor, como um déjà vu coreografado, ela tromba com Gabriel. Luna abre a boca para o cumprimentá-lo, mas ele é mais rápido. Há uma naturalidade nova em sua voz, algo que quebra a barreira de gelo dos últimos meses.

    — Bom dia, Luna.

      O nome dela. Ele o diz pela primeira vez, e fala olhando diretamente em seus olhos. Luna vacila, o fôlego travado por um segundo.

    — Bom dia… Gabriel — ela sorri, e o ambiente parece ficar instantaneamente mais claro, como se ela tivesse aberto todas as venezianas da casa de uma só vez.

      Gabriel enrijece, assustado com o próprio impulso de gentileza. Ele tenta avançar para o lado, mas Luna tem a mesma ideia. Repetem esse vai e vem desajeitado mais duas vezes, uma dança de espelhos, até que Luna, rindo do absurdo da situação, segura levemente os braços dele para estabilizá-los e se coloca no lado contrário.

    — Segundas-feiras… — ela disfarça, percebendo que o toque fez os ombros dele ficarem tensos como cordas de piano.

      Ela segue para a cozinha para reabastecer a energia. Gabriel busca seu assento, o coração martelando. Luna reaparece com duas canecas, colocando uma na frente dele sem cerimônia. Ele agradece com um aceno, mas evita o contato visual.

      Enquanto descarrega as fotos do almoço de sábado, Luna se perde nas imagens. Daniel lutando contra a fumaça da churrasqueira; Marina dando um beijo estalado em Bianca; as três fazendo caretas para a lente. Mas, entre centenas de arquivos, ela estaca diante de uma foto que não lembra de ter tirado. Gabriel está de costas, o cabelo escuro bagunçado pelo vento de Curitiba; o rosto está de perfil e os olhos miram um horizonte que parece carregar o peso de séculos. Como tirei isso sem perceber? ela se pergunta. Com o coração acelerado, ela move a imagem para a pasta renomeada com o ponto de interrogação. Já é a segunda “captura secreta” que ela faz dele.

    — Luna.

      Ela quase salta da cadeira. O tom de voz dele está diferente, menos áspero.

    — Oi?

    — Você poderia me ajudar aqui? — O pedido é histórico. Gabriel nunca pede ajuda.

    — Daniel me avisou que não viria hoje, nem amanhã. Ele me pediu para enviar as fotos do ensaio dos atores para a gráfica, mas o e-mail está voltando com erro.

    — Ah, sim — Luna responde, aproximando-se. Ela dá a volta na mesa e, ao parar atrás do monitor dele, sente como se fios invisíveis estivessem puxando seu corpo para mais perto do dele. — Ele te passou o e-mail antigo, mudaram o domínio na semana passada.

      Ela pede licença com o olhar e se inclina sobre a mesa para digitar o endereço correto. Gabriel permanece imóvel, mas seus sentidos estão em alerta máximo. A perna dela encosta de leve na dele, uma pressão suave que queima através do tecido. O cheiro de Luna — aquele aroma de café, canela e sol — o envolve por completo. Ele fecha os olhos por um segundo, inebriado. Nunca em sua vida um perfume o desarmou de forma tão violenta.

      A percepção desse desejo o faz recuar bruscamente. Ele empurra a cadeira com força, fazendo as rodinhas protestarem contra o assoalho antigo. Ao se levantar com pressa, sua carteira, que estava no limite do bolso da calça, cai com um baque surdo.

      O som do couro batendo na madeira é seguido por um tilintar metálico. Um pequeno círculo dourado desliza velozmente pelo chão, girando até parar aos pés de Luna.

      Uma aliança.

      O silêncio que se segue é absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada de Gabriel. Ele se abaixa com uma agilidade brusca, quase desesperada, recolhe o anel e o enterra novamente nas profundezas da carteira. Sem olhar para ela, sem dizer uma única palavra, ele vira as costas e sai da sala, deixando para trás um rastro de tensão e perguntas não respondidas.

      Luna permanece em torpor, encarando o vazio. Ela vislumbrou a dor crua no rosto dele, o pânico de ser exposto. A ferida que ela sentia nele agora tinha uma origem física, um objeto de ouro que pesava mais que a própria casa.

      Quinze minutos se passam antes que ele retorne. Ele volta como uma sombra, evitando qualquer tipo de contato. Luna toma uma decisão silenciosa: ela não viu nada. Respeitaria o segredo dele até que ele estivesse pronto para falar, ou até que a vida decidisse por eles.

    — Gabriel — ela chama, a voz suave como um veludo.

      Ele congela no lugar. A garganta parece fechar sob o peso do julgamento que ele imagina que virá.

    — Enviei o e-mail para você. Está tudo certo agora.

      Pelo espaço entre o monitor e a mesa, ela vê os dedos dele relaxarem aos poucos. Ele solta o ar contido nos pulmões em um suspiro longo. Luna dá o play na música para preencher o vácuo. Legião Urbana assume o controle do ambiente, e os acordes de Giz começam a soar. Ele agradece.

    — Obrigado — Gabriel murmura. A voz falha na última sílaba, revelando uma rachadura que nenhum silêncio seria capaz de consertar.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota