O som do carro ligou junto com o motor, transformando o silêncio constrangedor em uma sinfonia mista. O volume, inicialmente alto, ocupou todo o pequeno espaço da lataria com as vozes dos Detonautas cantando Só Nós Dois. Gabriel arregalou os olhos, percebendo a ironia cortante do momento. Luna baixou o volume rapidamente enquanto abotoava o cinto de segurança, um sorriso sem graça escapando-lhe dos lábios.

      A paisagem lá fora muda a cada segundo como o movimento ritmado de um mutoscópio. Ela se recosta no banco do carona, tentando se concentrar na estrada, mas seus olhos, possuídos de vida própria, pousam de soslaio em Gabriel. As mãos largas segurando o volante parecem não encontrar a rigidez que Luna sentia vindo da direção manual. Os braços longos e curvados, a respiração um pouco mais acentuada que o normal… o perfume amadeirado misturado ao sachê de canela fundia-se em um aroma deveras convidativo. Luna se imaginou inclinando-se apenas um pouco, o nariz encontrando aquele pequeno espaço entre a orelha e o pescoço de Gabriel. Ela se assusta com a própria imaginação e esconde o rosto corado atrás do cabelo.

      Gabriel dirige atento, mas perdido em seu próprio devaneio. O calor dela está perto demais naquele carro pequeno. O banco parece muito próximo do volante, e sua mão na marcha ameaça roçar o joelho de Luna a cada movimento. A esta altura, a costumeira agitação no estômago parecia-lhe o novo normal. Ele queria perguntar como ela estava, mas as palavras não se formavam; a garganta bloqueava. Ah, se os dois soubessem que seus pensamentos dançam coladinhos, em uma coreografia perfeita, enquanto evitam sequer trocar um olhar.

     O hospital não é longe, mas o trânsito se arrasta no fluxo lento da manhã curitibana. Luna, agora com a cólica cedendo, sente a dor latejar do tornozelo até o joelho, deseja com todas as forças que seja apenas uma torção simples.

    No estúdio, Marina e Bianca parecem baratas tontas. Bianca decide ligar para Daniel, que, preocupado, instruiu que remarcassem os ensaios do dia. Marina prepara o café pescando na memória as dicas de Luna. Preciso ajudá-la e mostrar o que aprendi, pensou a aprendiz.

    — Pronto. Já desmarquei tudo. Daniel disse que, se precisar, ele mesmo fotografa amanhã — Bianca anuncia, entrando na cozinha. Suas botas de couro marrom despertam o assoalho.


    — Eu posso ajudar também, venho acompanhando a Luna há meses — Marina oferece, enchendo duas xícaras de café fresco, entregando uma para a ruiva.


    — Sim, daremos um jeito. Quem sabe não é nada grave. Vamos esperar, não tem muito que possamos fazer agora.

      Acomodadas no hall, Bianca não resistiu à tentação de fofocar:
    — Tá, mas agora… quem diria que o Gabriel seria um perfeito cavalheiro? Logo ele, feito de meias palavras e carrancas.


    — Pois é! Também fiquei surpresa, mas… — Marina se interrompe em dúvida se deveria mesmo dizer o que estava pensando.


    — Mas o quê, Marina? Fala logo! — Bianca instigou, os olhos brilhando.


    — É que, desde que ele chegou, parece que tem alguma coisa pairando entre eles. Eu não sei explicar direito. — Marina continua insegura.


    — Eu sinto a mesma coisa! Até a Luna, que é tão aberta, parece se retrair perto dele. — Bianca diz cruzando as pernas, o vestido de crochê com mangas longas desenhando a silhueta esguia.


    — Eu acho que eles fariam um casal muito bonito — a estagiária refletiu olhando a velha araucária pela janela.


    — Bem, a Luna se veste como uma adolescente de quase 30 anos, mas é linda. E o Gabriel, por trás daquela cara feia, é um homão. E forte, pelo que vimos — Bianca sorri travessa. O celular vibra na mesinha de centro. — Oi, amor! Claro que quero almoçar com você. Pode vir me buscar às 11:30. Te amo, linda. — Ela responde o áudio, o rosto iluminado.

      No hospital, o cheiro de cloro atinge Gabriel como um gatilho. Ele sente um frio que somente as emergências proporcionam. O coração dispara. O choro de crianças, pessoas com dor. Sangue. O movimento frenético reconecta memórias que ele luta para manter enterradas. Ele não quer estar ali, mas precisa ficar.

      Luna observa suas costas enquanto ele gesticula no guichê. Ele a carregou, dirigiu e agora cuidava de tudo sem que ela pedisse. Fecha os olhos e as imagens se sobrepõem: a cortina, o sorriso, o abraço, a marca da aliança…

    — Luna — ele chama, agachando-se à frente dela. — Logo te chamarão. Não deve demorar.


    — Ah, ok. Muito obrigada, Gabriel — o nome dele soava viciante em sua voz.


    — Está doendo muito? — Ele pergunta olhando para o pé esquerdo dela, cada vez mais inchado.


    — Agora só dói se eu mover a perna.

      Enquanto esperavam, o silêncio mudou de cor: não era mais indiferença, era uma quietude compartilhada.

      De volta ao estúdio, Sara, a namorada de Bianca, chegou para o almoço. Ela é alta e curvilínea, o long bob preto emoldurando o rosto. De moletom vermelho, ela é o oposto da perfeição milimétrica de Bianca, que não parece se importar nem um pouco com o despojamento da parceira.

    — Oi gata! — Bianca a cumprimenta com um breve beijo nos lábios. — Chegou mais cedo.

    — Eu terminei tudo o que precisava. Cadê o resto do pessoal? — Sara pergunta procurando o movimento que sempre existe ali.

      Bianca narra os últimos acontecimentos conduzindo a Sara para o pequeno sofá ao lado das poltronas de couro.

    — Só a Luna para ter essas ideias. Lembra aquela vez que ela subiu numa mesa para fotografar uma teia de aranha com filhotes e a mesa virou. — Sara lembra do episódio.

    — Sim, foi no meu segundo dia de trabalho aqui, lembro de ficar apavorada enquanto ela não parava de rir. — Marina comenta indignada. — Mas desta vez ela se machucou mesmo, ainda bem que o Gabriel estava aqui.

    — Ah! Foi dele que você me falou Bi, o cara sério que odeia todo mundo?

    — Não odeia exatamente, só não fala muito. Mas aparentemente a Luna tem algum poder sobre ela. — Bianca comenta com Sara, trocando um olhar cúmplice com Marina.

      Gabriel e Luna saem do hospital às 12:30. A entorse de segundo grau exigia imobilização e repouso absoluto por 48 horas. Luna estava chateada; pensava na ração dos gatos, na farmácia e na sua solitude agora limitada pela bota ortopédica.

    — Qual é o seu endereço? — Gabriel perguntou.


    — Eu moro longe, Gabriel. Como você vai voltar depois?


    — Não se preocupe comigo. Quer passar em algum lugar antes?

      Passaram no mercado e na farmácia. Quando finalmente pararam diante de uma pequena casa alaranjada, coberta por uma trepadeira exuberante e um jardim impecável, Gabriel sentiu algo diferente.

      Gabriel desceu e deu a volta no carro com uma agilidade que Luna ainda estava tentando processar. Ele abriu a porta dela e, antes que ela pudesse alcançar as muletas no banco traseiro, ele já estava oferecendo o braço como apoio.

    — Consegue apoiar o peso em mim? — ele perguntou, a voz mais baixa do que o habitual.

      Luna assentiu, sentindo o perfume dele se misturar ao ar fresco do jardim. Caminharam lentamente pelo caminho de pavers até a porta de madeira clara. Quando Luna girou a chave e o interior da casa se revelou, Gabriel paralisou por um instante no umbral.

      O interior era uma explosão de vida e cores suaves, mas o que o atingiu em cheio foi o cheiro: canela, exatamente como no carro dela, mas aqui o aroma era mais profundo, misturado a chá e lar. Era uma casa que abraçava.

    — Pode me deixar no sofá — Luna pediu, apontando para um estofado repleto de almofadas coloridas onde dois gatos já se espreguiçavam, curiosos com o intruso.

      Gabriel a acomodou com uma delicadeza quase reverencial. Ele pegou os sacos de compras e a ração, levando-os para a cozinha compacta que brilhava de limpeza. Voltou para a sala e parou no centro do tapete, as mãos nos bolsos, o olhar vagando pelas prateleiras cheias de livros e porta-retratos que ele morria de vontade de analisar de perto.

    — Pronto. Tudo guardado — ele anunciou, mas não se moveu em direção à saída.

      O olhar dele caiu sobre o tornozelo imobilizado de Luna e depois para o rosto dela, que parecia pálido sob a luz quente da sala. Um conflito nítido cruzou as feições dele. A sombra dura parecia estar perdendo a batalha para uma preocupação genuína.

    — Você… vai ficar bem sozinha? — A pergunta saiu hesitante. — Precisa que eu chame alguém? A Marina? A Bianca?

      Luna olhou para ele, surpresa pela hesitação. O Gabriel “móvel silencioso” teria ido embora no instante em que ela encostasse no sofá. O Gabriel que estava ali agora parecia relutante em deixá-la naquele silêncio alaranjado.

    — Eu me viro, Gabriel. Meus enfermeiros peludos cuidam de mim — ela brincou, tentando suavizar o clima, embora o coração estivesse batendo forte.

      Ele assentiu, mas não pareceu convencido. Deu um passo em direção à porta e parou novamente.

    — Se precisar de qualquer coisa… — ele hesitou, buscando as palavras. — Eu deixei meu número no post-it em cima da mesa. Daniel tem meu contato, mas… enfim. Repouse, Luna.

    — Pode ir com meu carro, depois vemos o que fazer.

      Ele assentiu. Saiu, fechando a porta com um clique suave. Luna ficou ali, envolta no cheiro de canela e no silêncio que, pela primeira vez em anos, parecia um pouco vazio demais sem a presença de outra pessoa.

      Lá fora, Gabriel entrou no carro e não deu a partida imediatamente. Apoiou o braço no volante e encostou a testa respirando fundo o aroma da blusa: cheirava a ela e canela. Ele estava em sérios apuros.

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