Capítulo 1 — Rakei Dell Sue
— A escuridão me cegava. Eu gritava com os pulmões ardendo: “Eu vou ficar! Me solte!”. Mas ele me apertava contra sua armadura fria. Meu fiel protetor. Lembro das lágrimas escorrendo por dentro daquele elmo assustador, mas não lembro do seu rosto, nem do seu nome. Eu tinha apenas sete anos quando assisti à minha raça ser varrida da existência.
Os dias em Lunara se tornaram um borrão cinza na mente de Sue. Ela foi entregue a estranhos, jogada em uma caravana de refugiados e enviada para um vilarejo onde estariam seguros.
Naquela época, diziam que a pequena Rakei Dell Sue não era feita de carne, mas de Cristal Lunar. Ela era perfeita demais. Tinha a pele alva como neve recém-caída e cabelos escuros que dançavam na altura dos ombros. Seus olhos, porém, eram o que impressionava, esferas de um azul-marinho tão profundo que pareciam gerar a própria luz sempre que a raiva ou a curiosidade a dominavam. Mas a aparência de porcelana era uma mentira.
Menos de um ano após a mudança, a risada da menina ecoava pelas ruelas da vila. Ela corria entre os blocos maciços e as sombras dos grandes ipês floridos do vilarejo, mastigando um espeto de carne enquanto gritos furiosos a perseguiam.
— Peguem ela!
— Vocês são fracos! — Sue zombou, divertindo-se com a irritação dos garotos.
Encurralada em um beco pelos adolescentes, ela não se intimidou com o líder do grupo. O rapaz ostentava um belo olho roxo e sede de vingança.
— Sua maldita. Olha o que você fez! — ele avançou com cautela.
— Você que não quis me dar o seu espetinho! — Sue retrucou, sem um pingo de remorso.
— Mas fui eu que comprei! — o garoto tinha razão, Sue o roubou.
Em um movimento rápido, Sue enfiou o restante da carne na boca, mastigou e engoliu às pressas, quase engasgando com o próprio deboche. Ela jogou o palito parcialmente vazio aos pés do garoto e provocou entre tosses.
— Pronto. Agora é todo… cof-cof… seu! — Sue manteve a ironia.
— Você vai me pagar. Vamos pegar ela!
Em vez de se assustar, Sue limpou a boca com a manga de seus trapos e gargalhou, transbordando confiança. O ar ao redor começou a circular violentamente, acumulando-se na palma de sua pequena mão. Os olhos dos rapazes se arregalaram.
— E-ela… ela já consegue usar mana?!
A surpresa não foi em vão. Tão jovem e ela já acessava o recurso básico daquela sociedade mágica. Diante da manifestação elementar, os meninos recuaram, abandonando a vingança. A reação, contudo, deixou a garota furiosa.
— Ah, droga! Eu queria mesmo ter usado isso neles.
Decepcionada, ela desfez a concentração. O redemoinho minguou até virar uma brisa comum. Enquanto ficava cabisbaixa, uma voz familiar e carregada de autoridade surgiu atrás dela, arrancando-lhe um sobressalto.
— Que raios! O que pensa que está fazendo? Queria machucar seus amigos?
Era Rolly Manfroi, seu pai adotivo. Um homem adulto que não havia chegado aos quarenta anos, de estatura mediana e corpo magro. Seu rosto carregava mais o cansaço de quem lidava com uma capetinha dentro de casa do que com os problemas dos adultos da época. Ele vestia uma túnica de linho sob peças simples de uma armadura de couro escurecido.
— Eles não são meus amigos!
Sue virou-se bruscamente para ele com o rosto contorcido em fúria e o empurrou, mas sem toque físico, um impulso de ar, o vento atingiu o peito de Rolly, jogando-o sentado no chão.
— Você não é meu pai para me dizer o que posso fazer!
Gritou ela, correndo na direção oposta com os olhos marejados. Rolly permaneceu no chão, sem reação imediata. Apenas coçou a barba e soltou um suspiro longo, profundo.
— Rakeis… — murmurou ele, com a voz grave carregada de uma exaustão antiga.
Rakei Dell Sue era insuportável. Mimada, amarga e perdida. De princesa a camponesa em um estalar de dedos. Como uma criança que tinha o céu nas mãos agiria após perder tudo? Não era uma simples criança. Era uma menina de uma raça especial de humanos, que até então não existia mais. Ela machucava quem se aproximava. A dor era seu jeito de chamar atenção.
Sue estava encolhida em um canto da gruta, com os joelhos colados ao peito. Seus olhos azul-marinhos, turvos pelas lágrimas, pareciam captar a pouca luz do ambiente e devolvê-la com uma intensidade mística.
— Ela está lá embaixo. Deixe-a sozinha um pouco.
Vozes distantes, carregadas de preocupação, ecoaram do topo da escada.
— Ninguém fica bem sozinho! — rebateu Rolly, com um entusiasmo que contrastava com o silêncio do lugar.
Ele desceu os degraus de pedra lentamente e sentou-se ao lado da menina. Sue não se moveu, manteve o rosto escondido, ignorando a presença do homem que ela acabara de derrubar. Rolly, porém, não pareceu ofendido. Ele observou o porão com uma admiração genuína. Aquele espaço fora transformado em uma gruta surpreendente, uma lembrança pálida, mas sincera dos locais sagrados de Lunara.
O chão de terra deu lugar a um deck de madeira trabalhada, que serpenteava sobre o som suave de água corrente. As paredes de rocha bruta escorriam uma umidade fria, convergindo para uma pequena lagoa artificial. O que tornava o refúgio mágico, no entanto, era a iluminação. Cristais lunares, cuidadosamente entalhados na pedra, irradiavam feixes que alternavam entre um azul místico e um amarelo aconchegante, pintando o ambiente com reflexos cintilantes.
— Foi difícil construir este lugar — começou Rolly, com a voz calma como o lago. — Os cristais não brilhavam no início. Então, lembrei-me de algo que Ell me disse uma vez: “Os Rakeis brilham através das emoções”. Foi estranho, eu era apenas um jovem recém-chegado a Lunara na época.
— Você conheceu meu pai? — a voz de Sue surgiu trêmula, pequena.
— Conheci sim! Mesmo sendo mais jovem que eu, ele me ajudou a controlar minha mana. Qual outro rei ajudaria um simples morador com seus poderes? Somente Ell tinha essa humildade.
Rolly sorriu, perdido na memória, continuando com os olhos distantes.
— Eu não acreditei quando ele me disse quem era. Um rei bondoso? Para alguém que vinha das terras secas de Rangrar, isso era lenda.
— Eca. Você era de Rangrar?!
Sue levantou a cabeça, o nojo infantil sobrepondo-se à tristeza por um instante.
Rolly soltou uma risada curta.
— Sim. Mas só lembro da fome e da poeira. Tivemos sorte em chegar a Lunara. Gaia nos abençoou.
O brilho nos olhos de Sue sumiu instantaneamente. Ela abaixou a cabeça de novo e murmurou.
— Ela me abandonou.
— Sue… — Como devoto, Rolly sentiu um aperto no peito. Escolheu bem as palavras e continuou. — Realmente o destino não foi bondoso com Lunara e muito menos com você. Mas, antes disso, lembre das bênçãos de Gaia. A vida que ela proporcionou, as lembranças, seu sorriso e principalmente seus pais. O amor deles transcende a vida e a morte. Eles ainda estão aqui. Um dia você perceberá que é tão abençoada quanto qualquer um.
— Se Gaia é tão boa, por que não salvou Lunara?!
A pergunta da menina chicoteou o ar. Rolly olhou para o reflexo na água, buscando uma resposta que talvez não existisse.
— Talvez ela não pudesse, ou talvez as consequências fossem piores. Não podemos compreender os deuses. Se eles guiassem cada passo nosso, a vida não seria nossa, seríamos apenas marionetes. Eu agradeço pela vida que recebi. Por isso oro a Gaia todos os dias.
— Eu nunca vou agradecer a nenhum deus — sentenciou ela.
As palavras duras feriram o coração do homem, mas ele era forjado pela compreensão.
— Você não precisa agradecer a eles. Precisa apenas olhar para quem está ao seu lado. Os fortes podem interferir na vida dos fracos. Você pode crescer e ser forte para salvar uma vida, ou uma cidade inteira. Pode ser a deusa salvadora ou o demônio que irá destruir a vida em sua volta.
— Demônio? — Sue estranhou o termo, ausente na religião de Lunara.
— Seres opostos aos deuses. Aqueles que se alimentam da desgraça alheia. São seres malignos.
— Foram eles que destruíram Lunara?
Rolly sorriu da inocência dela.
— De certa forma, sim. Humanos que se comportam como demônios estão em toda parte. Por isso precisamos de pessoas fortes que se comportam como deuses, capazes de impedir tragédias. Ell e Ria eram assim. Eles lutaram até o último suspiro pelo seu povo. A luta deles está viva até hoje! As palavras de Ell foram cravadas na história para te guiar nos dias de hoje.
Sue agora o encarava com uma curiosidade devoradora.
— O que ele disse?
Rolly ficou pensativo. Soltava pistas de um segredo que não era para ser revelado, pelo menos não naquela época. Mas aquilo o estava torturando, não achava certo esconder algo tão importante para Sue. Ele decidiu fazer o impensável. Esperou por esse momento e definiu que seria ali, agora. Pigarreou, corrigiu a postura e recitou de forma quase poética:
— “Lhilinara a Deusa do Luar, abençoe aqueles que sobreviverem, guie aqueles cujo coração necessite de sua luz. Eu entrego a ti a minha alma e meu corpo… E para você, minha querida filha, o nosso amor e nossas orações estarão guardados aqui dentro. Essa lâmina guiará seu caminho para nosso lar. Eu, Rakei Dell Ell, deixo para ti a nossa esperança, a nossa coroa, a Lamúria de Lunara.”
Os olhos de Sue se encheram de algo indescritível. Encantada e vidrada em cada palavra, elas despertaram um gatilho, uma lembrança esquecida em meio ao caos da fuga. Como pôde ter esquecido de algo tão importante para os Rakeis? As lágrimas desapareceram e a curiosidade bateu desesperadamente.
— Lamúria! Por que eu não lembrava dela?!
A espada ergueu-se das águas frias da gruta, enchendo os olhos de Sue de esperança e alegria, a Lamúria sorriu para ela. O reflexo da garotinha foi transmitido na bainha azulada que emergiu magicamente das águas. — Rolly, um manipulador de água, fez a “mágica”.
O cabo, enfeitado com vários cristais, refletiu a pouca luz. Os olhos de Sue brilharam e os dentes brancos mostraram sua surpresa.
— Ela estava aqui?! — Sue gritou, os olhos brilhando de alegria.
— Fale baixo! Hilla me mata se descobrir — sussurrou Rolly.
Movida por um instinto ancestral, Sue entrou na água com os braços estendidos. Ela ignorou os avisos de cautela, estava encantada. Ao segurar a bainha, sentiu como se tivesse recuperado um pedaço da própria alma.
— Ela é linda! Eu já posso usar?
No momento em que Sue levou a mão ao cabo para desembainhá-la, Rolly agiu rápido, puxando o artefato para o alto.
— Vá com calma! Isso é perigoso.
— O quê?! — a fúria voltou instantaneamente. — Isso é meu! Me devolva!
Rolly ergueu a espada, longe do alcance das mãos pequenas. “Por que eu mostrei isso agora? É muito cedo”, pensou ele, aflito.
— Pode ser sua, mas não agora!
— ME DÊ ELA AGORA!
O grito de Sue ricocheteou nas paredes. O vento na gruta tornou-se um turbilhão violento e os cristais entalhados nas rochas brilharam em um vermelho sangrento, refletindo a raiva da garota. O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Rolly, vendo o estrago emocional, suspirou e baixou a guarda. Ele precisava da confiança dela. Abaixou-se, aproximando a espada.
— Cuidado. Não toque no cabo, senão…
Sue não ouviu. O entusiasmo era um veneno. No instante em que seus dedos se fecharam em volta do punho da Lamúria, ela a negou. Uma repulsa de energia devastadora explodiu. O choque a arremessou contra as águas. A visão de Sue escureceu. Os gritos de Rolly tornaram-se abafados, como se ele estivesse a quilômetros de distância, até desaparecerem por completo no breu de suas próprias lembranças.
A Lamúria é o maior símbolo de Lunara, berço da raça dos Rakeis. O item místico mais cobiçado por reis, a coroa em forma de lâmina. Apenas os monarcas de Lunara a empunhavam. Diziam ser uma espada com vontade própria, carregada de sentimentos: ambição, humildade, tristeza, alegria, amor e ódio. Sua lâmina, feita de Cristal Lunar, carregava o poder de gerações, herdado pelos antigos reis de Lunara. Para obtê-la, o candidato precisava superar seu desafio: o famoso “desafio da espada”, um combate entre os concorrentes ao reinado. O vencedor? A coroa.
Muitos perderam a sanidade por sua glória, muitos reis se transformaram pelo seu poder e muitos cresceram com sua força. Por isso ela carregava esse nome pesado, Lamúria. Um fardo ou uma dádiva, uma responsabilidade que somente os mais fortes conseguiam suportar. Agora, seria a vez de Rakei Dell Sue de conquistá-la.

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