Capítulo 8 — Início do ataque
A noite iniciou-se na Vila Rhasta. A comemoração e música alta davam o ritmo da praça central. Alguns mercadores usavam instrumentos musicais à base de mana, metais com pedras mágicas, outros que se assemelhavam a harpas e saxofones.
Crianças se divertiam em rodas de água manipuladas por Rolly, que já estava ofegante, pensando em quando aqueles pirralhos iriam se cansar.
Mercadorias e novas tecnologias eram apresentadas aos moradores, invenções que usavam mana para funcionar, desde os instrumentos até armamentos. Havia inúmeras coisas para moradores e visitantes apreciarem.
Os jovens cadetes desfilavam uniformizados com roupas de combate e espadas na cintura, alguns se exibiam enquanto aproveitavam o bom momento.
— Tanta gente estranha aqui para tão poucos soldados — Khalos sentiu um pequeno desconforto com os visitantes.
— É desagradável ter sua terra invadida por gente estranha! — reclamou Asper Groeman Rhsata, o rapaz baixo e forte que não gostava de “Suzi” e os outros próximos a ela.
— Como você é chaaaaato! — Laz irritou-se com ele, como sempre. — Sempre implicando com a gente. Já faz mais de dez anos que estamos aqui! Somos moradores de Rhasta tanto quanto você!
— Só ignore ele — Khalos tentou amenizar.
— Me ignorar?! — Asper desafiou Khalos com um olhar intimidador. — Eu deveria ser o supervisor de vocês! Eu estar na mesma posição que vocês é um insulto!
Laz e Khalos riram da perturbação de Asper, que ainda não aceitou suas posições, e ele continuou.
— Vocês só estão aqui por causa da amiga de vocês!
Os dois continuaram andando, deixando-o para trás, sendo ignorado.
— Falando na Suzi, cadê ela? — perguntou Khalos para Laz, que o olhou com uma cumplicidade que só os dois sabiam decifrar, como se dissesse: “Ela deve estar naquela gruta fazendo coisas de Rakeis.”
As árvores na praça central estavam enfeitadas com símbolos da religião Gaia, apetrechos de madeira e velas acesas para os fiéis fazerem suas preces. Entre eles, Hilla e Mall.
— Fiquei tranquila quando vi você aqui — disse Hilla, conseguindo conversar com a amiga pela primeira vez desde o seu retorno.
— Ainda sou humana, sinto saudades das minhas meninas — Mall respondeu, referindo-se tanto à filha Laz, quanto às amizades. — Rolly contou sobre os problemas que Su… Suzi está enfrentando.
Hilla percebeu a quase gafe da amiga e soltou um leve sorriso, concordando.
— Ela ainda está tentando. Acredito que em breve “ela” a aceitará.
— Estamos curiosos para saber como será.
— Não foi uma vinda à toa então. — disse Hilla em bom tom.
— Ah, é um dos motivos também! Sabe que ele fica preocupado. Se não fosse eu, seria ele a estar aqui. Seria um pouco… chamativo.
— Prefiro você!
Hilla riu, em uma piada interna sobre quem quer que estivessem falando.
Conversaram sobre outras coisas, entre risadas e surpresas a conversa foi interrompida por Menk, o mercador.
— Ei, Sra. Hilla! — Ele trouxe consigo um frasco e um sorriso no rosto. — E Sra…?
— Mall, prazer.
Menk apresentou-se com educação e logo puxou outro assunto.
— Está bem cheio. Espero que os saqueadores não apareçam agora, seria ruim para os negócios.
— Estamos seguros aqui — Hilla tentou tranquilizá-lo.
— E por onde anda sua filha? Achei que todos os moradores gostariam de vir aqui.
Hilla sentiu-se desconfortável com a pergunta do homem, pensando se ele teria intenções com alguém tão nova quanto Sue.
— Desculpe, mas é algo que não preciso te responder — Hilla respondeu com a voz firme.
— Ah, que infortúnio! — ele continuou com uma cara de pau surpreendendo elas. — Seria desconfortável interromper esta linda festa. Tirar os sorrisos das crianças e os bons negócios que estamos fazendo. Vasculhar casa por casa atrás dela. Isso enche o saco. Achei que topariam fazer um acordo.
As palavras de Menk foram diretas, estranhas e perturbadoras, demonstrando a outra face do mercador. As duas já o olharam com seriedade e o interromperam.
— O que está dizendo?!
A expressão de bom amigo no rosto de Menk transformou-se em um semblante sádico. A tensão começou a ficar evidente.
— Serei direta com vocês. Me entreguem a Rakei e pouparemos esta cidade!
O rosto das duas se fechou, amedrontando qualquer um que as olhasse. Hilla, como mãe, sentiu o corpo esquentar. Ficou furiosa ao perceber que sua filha estava em perigo. O vento circulou em volta dos três, afastando as pessoas ao redor, que já percebiam o iminente embate. Hilla deu um passo à frente e o confrontou.
— Rakei?! … Não sei o que está dizendo, mas se quer algo com minha filha, eu juro que você não sairá daqui com vida!
Não foi apenas o ar que ficou denso, embaixo, a disputa já começou. Os blocos de concreto começaram a se rachar, fazendo Menk pensar antes de agir.
— “A Sra. Hilla é uma elementar de ar, então quem está competindo o terreno comigo é ela!” — Menk pensativo, olhou para Mall, que fazia um esforço quase tão grande quanto o dele.
— Esta é sua última chance. Quem é você?!
Os olhos de Hilla ficaram agressivos. Um campo de ar invisível circulou entre os três.
— Eu vim para evitar uma guerra, mas, já que não irão cooperar…
Menk abriu o frasco que estava na mão, liberando um gás verde: veneno. Mas nada adiantou diante de uma elementar de ar como Hilla. Ela fez um sinal com a mão e o ar dentro do campo subiu violentamente, até mesmo Mall se agachou no chão para não sucumbir à técnica da amiga. O veneno se dissipou e Menk fincou pés e mãos no chão para não voar.
— Campo de mana, Círculo Lunar — Hilla sussurrou o nome de sua técnica enquanto se mantinha concentrada.
— “Droga” — Menk pensou. — “Me segurar enquanto disputo terreno com esta outra… Não imaginei que seriam desse nível.”
Menk manteve-se na mesma posição ao ver que Mall também não podia fazer muita coisa. Então, ele usou sua técnica, começou a “sugar” a terra do chão, preenchendo o corpo como uma camada protetora, deixando somente os olhos à mostra.
— Deixe ele comigo! — Mall disse em tom alto. — Vá proteger a Suzi!
— Suzi é o nome dela?! — Menk gritou, soltando as mãos e ficando em pé com os pés fincados, mantendo-se firme. — Já estou me acostumando com seu campo de mana.
— Eu vou abrir um espaço para você — Hilla comentou com Mall.
A turbulência de ar cessou, Menk imediatamente criou uma lâmina no pulso a partir de sua camada de terra e partiu para cima de Hilla. Ela calmamente desviou, como se já estivesse habituada a esses momentos, colocou a palma da mão no peitoral dele e o empurrou para longe, fazendo-o capotar e bater contra uma árvore.
Menk levantou-se, mas longe de estar derrotado. — “Com um leve toque ela me jogou tão longe?”, ele pensou. — “Lutar dentro desse Campo de mana será complicado.”
Sem muito tempo para refletir, ele já estava na mira de Mall. Um rastro de terra foi em sua direção e surgiu uma “serpente de terra”, que abocanhou seu braço, iniciando o embate direto entre ele e Mall, enquanto Hilla correu pelas vielas em direção a Sue.
As pessoas começaram a se afastar do entorno da praça. Mercadores fecharam tendas e se afastaram. Soldados guiaram as crianças e indefesos, o clima mudou.
— Levem as crianças! — Rolly já enfileirava os pequenos para que Laz e os outros jovens os levassem para o abrigo. — Por que Menk está atacando? — Rolly perguntou de longe.
— Seria um espião este tempo todo?
Ele analisou a situação e viu que alguns espectadores portavam espadas e armas, deduzindo que Rhasta já estava na armadilha do inimigo. Ele concluiu com uma expressão que ouvira em sua vida
— Já estamos nas garras da besta…
O bonito e caloroso vilarejo entrou em um declínio amargo, uma guerra de pequeno porte. Os confrontos se espalharam por diversas regiões e as construções começaram a ruir. Pontes desabaram e ruas foram destruídas. Vidas gritavam por socorro.
Ao centro, algumas árvores ainda estavam em pé, outras, caídas ou pegando fogo. A praça central se tornou uma arena sangrenta, onde Rolly acabava de derrotar alguns figurantes do grupo de saqueadores, nada que pouca água não resolvesse. Um dos saqueadores ergueu-se para um segundo round, era Cairo, o careca alto e robusto que parecia colecionar dentes arrancados por ter a boca grande demais. Ele estava ferido, mas ainda tinha vigor para enfrentar Rolly em uma última batalha.
— Um velho desse me derrubando? — Ele cuspiu sangue e outro dente. — Droga. Você vai me pagar, seu aquático de merda!
Cairo era um elementar de terra do tipo que conseguia fazer uma marreta com os materiais do chão, moldando-os com sua mana. Esse tipo de habilidade chamava-se Materialização.
— “Um materializador?” — pensou Rolly, preparando-se.
— Batida de terra! — Cairo bateu a marreta no chão e um rastro seguiu em direção a Rolly, fazendo surgir vários espetos pontiagudos.
— “Além de materializar, consegue manipular, mas em um nível bem medíocre” — analisou Rolly.
Ele não se assustou com as habilidades mistas do oponente, algo comum naquela região. Rolly reconheceu a diferença de nível nos primeiros segundos de luta e concentrou-se enquanto desviava com facilidade.
A construção da parte central da vila, assim como em várias cidades do reino, foi estrategicamente planejada, havia água corrente por baixo da terra para facilitar o manuseio dos elementares de água. Pequenos buracos e frestas no chão permitiam que a água saísse, servindo como fonte potável ou como chafariz em dias quentes. Em casos extremos como aquele, Rolly forçou a água a sair violentamente, quebrando a estrutura asfáltica e jorrando o líquido como gêiseres.
Cairo forçou o combate corporal, balançando a marreta para tentar acertar o adversário, mas porções de água dançavam ao redor de Rolly, protegendo-o com finas barreiras flutuantes.Em movimentos rápidos, Rolly envolveu Cairo em um globo de água e o suspendeu do chão, mantendo-o aprisionado.
— Prisão de Água!
— Glub glub glub! — Cairo tentou falar algo, sem sucesso.
— Não consigo te ouvir… e nem faço questão… Pressão!
Rolly encostou a mão no globo e aumentou a pressão interna até Cairo desmaiar, expondo a enorme diferença de poder entre eles.
— “A primeira onda de ataque, soldados divididos, enfraquecendo as primeiras defesas e verificando os níveis de poder. A partir de agora, o nível aumentará…”
Rolly deu um rápido vislumbre ao redor. O cenário estava caótico. Havia corpos no chão, tanto de inimigos quanto de amigos. A festa tornou-se um evento macabro a se desfrutar.

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