Um lugar onde cada passo fazia a grama quebrar como se fosse cinza. O ar cortava os pulmões, ardendo como se chamas incendiassem o peito. Ruínas se esfarelavam, e a água de um vermelho venenoso exalava uma maldição que já durava onze anos.

    Duas espadas estavam cruzadas no chão em um terreno parcialmente destruído. Rolly, descansando sobre uma rocha, contava a história para sua filha sobre como foi a última visita a Lunara pós-guerra.

    — Foi o que vi quando voltei naquela expedição a Lunara. Demos sorte de voltarmos com vida, outros nem tanto… — ele lamentou. — Quem diria que monstros surgiram no meio daquele caos.

    — Bestas?! — Sue se surpreendeu com a situação de sua cidade natal. — Como é possível?

    — Você que deveria saber, não eu! — ele riu rapidamente, logo voltando a sinalizar uma gota de tristeza. — Eu esperava encontrar alguma pista ou alguém. Uma esperança tola da minha parte.

    Sue entendeu os sentimentos de Rolly, afinal, ele tinha filhos e família na cidade e teve que deixar tudo para trás, sem saber se estavam vivos ou mortos.

    — Às vezes eu penso que foi mais difícil para vocês do que para mim. Eu era uma criança, minhas memórias daquela época são poucas. Já você e a mãe se lembram de tudo e de todos…

    — Foi duro para todos, minha filha. Tanto para uma criança que vivia no castelo quanto para um plebeu que morava na cidade. Todos perdemos algo naquele dia.

    As palavras sentimentais do pai, contra as quais Sue estava acostumada a se blindar, a fizeram entender a realidade. Agora com dezoito anos e um corpo adulto formado, ela encarava o assunto com maturidade.

    — Mas isso não quer dizer que você precisa levá-la para onde for! — Rolly referiu-se à Lamúria, que estava enrolada e escorada nas rochas, em tom ameno.

    — Talvez me vendo com “outra”, ela fique com ciúmes! — Sue ironizou, já sem paciência para a espada. — Eu irei levá-la para onde for de agora em diante! Talvez acelere a transição.

    — Esses assuntos complicados de Rakeis… Fazer xixi na cama faz parte da transição? — ele cutucou a filha, deixando-a constrangida.

    — E-eu não fiz isso não! Fui beber água deitada e derramei! Foi só isso! Velho idiota…

    Suas bochechas ficaram levemente rosadas. Ela disfarçou olhando para os lados e logo se recompôs. O momento de descontração logo se esvaiu, voltando para o relato de Sue.

    — Há vezes sonho com o passado. Sonhos estranhos, alguns são tão abstratos que é difícil decifrar. Acho que nenhum deles é realmente meu. É como se fossem memórias de outros Rakeis.

    — Sempre me perguntei como deveria ser. Será que os outros Rakeis deixam mensagens para os futuros portadores na espada? Instruções de como fazer, algo assim…

    — Ah, seria ótimo se sim! — Sue imaginando como seria ótimo — Talvez Ell tenha deixado algo para mim, mas essa “coisa” não me diz nada! Mas adora ficar me atiçando com sentimentos alheios que eu não faço ideia do que significam! Sério, essa espada é um saco.

    Rolly riu com as questões da filha. Criar uma Rakei é mais engraçado do que ele imaginaria. Os Rakeis eram famosos pelos altos e baixos de suas emoções, ainda mais se tratando de uma candidata a portar a Lamúria.

    — Pai, quero que me diga algo, mas tem que falar a verdade! — Sue disse em um tom sério, que fez Rolly mudar de postura, curioso.

    — O que foi?

    — Você acha que é possível voltarmos a Lunara?

    Os olhos azuis-marinhos da filha se fixaram nos olhos castanhos de Rolly, sem deixar nada escapar. Um deslize e ela saberia que ele estava mentindo. Rolly respirou fundo, entendendo a seriedade da pergunta. Ela nunca a havia feito com tanta profundidade.

    — Você sabe por que as terras em Lunara eram tão abençoadas.

    Sue confirmou com a cabeça. A fama de Lunara não vinha apenas da sua linhagem humana, mas da fertilidade de seus solos e da presença do Cristal Lunar, a pedra mágica exclusiva da cidade. Havia uma ligação direta. O lago Khellos, onde ficavam as jazidas do cristal, despejava as águas nas correntes do rio Rhael, essa fluidez de magia encantava o território, favorecendo a fertilidade por quilômetros.

    — Temos que purificar Lunara — Sue respondeu.

    Seu pai confirmou.

    — Não entendo por que envenenaram Lunara. Essa maldição não beneficiou a ninguém.

    — Até acharmos o antídoto, estamos de mãos atadas?

    — É mais ou menos isso — ele disse. — Sem contar o fato de termos que conseguir entrar em um lugar tão hostil. O veneno está tão tóxico que eu tive sorte de voltar sem sequelas.

    Ela desenrolou a Lamúria, segurando-a sempre pela bainha, e disse, sorrindo.

    — Para isso, temos isso aqui.

    Rolly riu da confiança da filha.

    — Tudo bem, super guerreira Rakei. Você vai chegar lá, fincar sua espada, recitar as palavras mágicas e curar Lunara?

    Ela olhou para ele, mantendo o sorriso confiante e determinado.

    — Sim. Eu vou fazer exatamente isso!

    A confiança de Sue preencheu o coração de Rolly com esperança. Com um brilho no olhar, ele a viu não só como uma filha, mas como uma salvadora, e pensou. — “Ela será uma lenda.” —  Sue sorriu, percebendo a intensidade das emoções de Rolly, e deu-lhe um soco leve, acordando-o.

    — Não chore velhote! A mamãe vai achar que eu maltratei você hoje!

    — Não fique se achando sua pirralha… Se eu lutasse a sério, não iria existir tal Rakei para contar história.

    — Ah é?! — Ela se levantou, pegando a outra espada e apontando em sua direção. — Então me mostre essa força oculta, “Protetor das águas de Rhasta” — disse, rindo do pseudônimo que deram a ele no vilarejo.

    Na gruta secreta em sua casa, Sue boiava nas águas escuras e geladas. Os ferimentos do treino de pouco antes iam se curando lentamente nessas águas mágicas.

    — Estou tocando as paredes, um concreto azul-claro… Minhas mãos eram pequenas e deslizavam facilmente. Sinto o cheiro do mar e os grãos de sujeira na ponta dos dedos. Eu sorria enquanto os cristais iam se acendendo a cada passo meu. Pelas janelas, o céu estava limpo. O lago, cristalino como sempre. E no fim do corredor, me esperando, estava ele. Lembro de seu sorriso, mas nunca de seu rosto.

    Lunara, a lendária cidade natal de Sue, ainda pulsava vívida em suas lembranças.

    — É sempre assim — desabafou Sue, olhando para o teto escuro, onde gotas escorriam pelas rochas. — Por que não consigo lembrar do rosto do meu pai?

    — São as lembranças que ela faz você vivenciar — disse Hilla, com a voz suave, referindo-se à espada com a naturalidade de quem falava de um ser vivo. — Você não pode esquecer das suas origens.

    A impaciência borbulhava em Sue. — Mas por que ela faz isso e não me aceita?!

    Hilla soltou um suspiro divertido. — Se tem algo em que eu tenho que concordar com o Rolly, é que vocês, Rakeis, são complicados!

    — Ah, você também não! — Sue riu, com um brilho familiar nos olhos ao ouvir o bordão de seu pai ecoar na boca de sua mãe.

    Ela se aproximou, saindo da lagoa em direção à bainha azulada. Sua mão envolveu o artefato de forma hesitante, mas sempre evitando o cabo.

    — Lamúria… — O nome místico escapou de seus lábios em um sussurro quase inaudível. — Por que complicar tanto? Vamos ser amigas!

    Hilla soltou um leve riso, observando a filha se envolver com a espada, agora sem a preocupação de quando ela era uma criança.

    — Eu não sei mais o que fazer! Já tentamos de tudo, mas ela simplesmente não me quer!

    — Então não é a hora. Respeite o tempo dela. É a primeira vez que ela fica tanto tempo longe de Lunara. Talvez tenha seus motivos.

    — Até parece que é humana! — Sue retrucou, com a voz embargada pela frustração. — Rakeis são complicados ou você que é? — Ela encarou a Lamúria, com os olhos faiscando em desafio. — Você se acha teimosa? Eu vou te mostrar o que é teimosia de verdade!

    Em um arroubo de ousadia, Sue avançou, segurou a espada firmemente pelo cabo e tentou arrancá-la da bainha. Como resposta, uma onda de calor excruciante subiu por sua mão, forçando-a a largar a arma. Dessa vez, Sue não gritou nem gemeu pela dor, pois já havia se acostumado. Ela olhou para a pele marcada, mais uma de tantas queimaduras de suas inúmeras tentativas frustradas.

    — Aiii! Tá ardendo! 

    Sue reclamou da sua nova queimadura, sentada no deck de madeira com as pernas submersas na água. Ela estendeu a mão para Rolly, que estava totalmente dentro da lagoa. A mana dele fluía para a água, conferindo-lhe propriedades curativas. Ambos ainda apresentavam machucados do treinamento, após ouvirem um grande sermão de Hilla, mas ali Rolly curava a mão de Sue. Um pouco de água escorreu de sua mão calejada, o líquido brilhou e a queimadura na palma delicada de Sue curou-se lentamente.

    — Até quando você vai ficar se machucando à toa? — perguntou Rolly, com o tom carregado de carinho e uma pitada de exasperação. — É difícil curar a queimadura da Lamúria.

    — Mas você consegue, sempre conseguiu — ela disse, com um riso leve ecoando na voz, como se o ferimento fosse uma insignificância. — Você conhecia Ell melhor do que a mamãe. Deve saber como ele fez para dominar a Lamúria.

    — É, eu lembro um pouco dele… — Rolly soltou um bufo irônico, zombando da fama do pai biológico de Sue. — Quando o conheci, ele já dominava a Lamúria. Tinha um pouco menos que a sua idade… Ou era mais velho?

    — É bom ele ser mais velho! — Sue retrucou, com um quê de rivalidade velada.

    Rolly riu da preocupação da filha.

    — Você está preocupada! “Ela” pode sentir isso.

    — Está me dizendo que ela está me recusando por pirraça?!

    — Não, não — ele a acalmou, balançando a cabeça. — Mas talvez ela sente que isso pudesse te atrapalhar. Quando se trata de vocês, Rakeis…

    — É tudo tãããao complicado! — ela terminou o refrão que já ouviu diversas vezes naquele dia.

    Sue retirou a mão da água, observando a pele agora perfeitamente curada. Seus olhos se cravaram na espada, com uma determinação feroz acendendo neles.

    — Pelas bênçãos de Gaia, sob o olhar de Lillhinara, a Deusa do Luar, e de qualquer outro deus que puder me ajudar! Eu, Rakei Dell Sue, irei te empunhar custe o que custar! — declarou ela, apontando para a Lamúria.

    Seu pai a observou com um orgulho silencioso. O olhar brilhando ao testemunhar no que a pequena menina havia se tornado. Mas uma dúvida veio à tona e Sue perguntou, cortando o clima da própria bravura.

    — E se ela estiver esperando um desafio de outro Rakei?!

    Sem pretensões, imaginou estar pensando demais e inventando perguntas sem respostas. Mas Rolly a indagou e, em vez de tranquilizar a filha, deixou-a ainda mais preocupada.

    — É, talvez possa ser isso!

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