PROLOGO
Nuvens negras avançaram como uma sentença silenciosa. Através da vidraça, os olhos azuis de Sue refletiram uma inquietude crescente. Frustrada, a menina desferiu um leve soco contra o vidro, bufando de aborrecimento.
— Ah não! Uma tempestade?! Queria tanto ir ao circo com o papai.
Ela permaneceu ali, observando o entardecer que se dividira em dois extremos. De um lado, o sol se punha em tons de fogo, do outro, uma escuridão voraz engolia a cidade além do lago Khellos, onde um grande redemoinho interminável disparava seu feixe de luz contínuo para os céus, alimentando estruturas chamadas de Halos Lunares, que flutuavam sobre as águas, pura magia em movimento. Subitamente a luz branca do feixe escureceu. As luzes da cidade lá embaixo se apagaram, e clarões alaranjados surgiram no centro.
— O circo! — Sue sorriu. O espetáculo parece ter começado mais cedo.
Rakei Dell Sue, a princesa de Lunara, afastou-se da janela e foi até o centro do quarto. Sobre um suporte delicado, repousava uma jóia de Cristal Lunar. Ao toque de sua pele alva, a pedra brilhou em resposta. Ela uniu as mãos e sussurrou:
— Lhillinara, a minha Deusa do Luar, aceite minhas graças. Sabe que eu gosto muito de você, né? Mas podia deixar o luar brilhar em Lunara só hoje. Não é sempre que o papai me leva para a cidade, faz essa força para mim?! Eu te amo, minha Deusa. Tchau!
O que deveria ter sido uma prece sagrada fora apenas o pedido egoísta de uma alma inocente. Lá fora, a música começou a tocar bem mais alto que o costume. Sue imaginou os músicos na passarela real. Sons de percussão pesada fizeram as paredes vibrarem, acompanhados pelo chiado forte do que parecia ser a chuva. A tempestade chegará.
Enquanto experimentava perfumes e se arrumava, já imaginando o divertido passeio com seu pai, o tremor atingiu o quarto balançando alguns frascos na penteadeira. — “Uma tempestade realmente forte”, pensou ela, sorrindo para o espelho.
— Querida!
A porta se abriu num estrondo. Era sua mãe, Rakei Dell Ria. Para Sue, Ria era a personificação do glamour, sua deusa particular cujo sorriso tinha o poder de dissipar qualquer medo.
— Está toda suja e molhada, mamãe! — Sue exclamou alto.
— Você está bem! — a rainha respondeu, com a voz carregada de um alívio que a filha não compreendeu.
Ria estava pálida e seus olhos pareciam exaustos, mas o sorriso permaneceu firme, como uma máscara de coragem.
— Vamos dar uma rápida saída, tudo bem? — disse a mãe, erguendo a menina no colo. Os olhos azuis, idênticos, se encontraram.
— Eu não quero!
— Mas nós vamos.
— Por quê?
— Porque sim! — concluiu Ria, com a autoridade lúdica de todos os dias. — Vamos usar aquela sua saída secreta, lembra?
Sue soltou uma gargalhada.
— O que a senhorita está aprontando? Está cansada e molhada… — ela se inclinou e sussurrou no ouvido da mãe — Você estava seguindo o papai e fugiu escondida pelo lago, não foi? Sabe que não pode sair nadando em Khellos!
A mãe pareceu surpresa, mas logo suavizou a expressão.
— Minha filha, de onde você tira essas ideias?
— Acertei, não foi?
— Sua espertinha! Mas quase isso. — Ria sorriu com esforço. — Eu só estava nadando no lago. Nada de seguir o papai!
Enquanto elas conversavam abobrinhas, Sue mal percebeu a rapidez com que atravessavam os corredores úmidos e escuros, mesmo em ritmo lento, mas constante de sua mãe. Ela iluminava o caminho com chamas que dançavam em sua mão, o peso parecia ser tão pesado quanto o de Sue em seu colo. O som da música lá fora diminuiu, substituído por um silêncio opressor e tremores que fizeram as fagulhas caírem do teto. O que era para ser um “divertido passeio proibido”, acaba virando uma caminhada tensa e angustiante.
— Estou com medo mamãe.
— Vai dar tudo certo minha querida…
O pingente no pescoço de Ria brilhou, e uma porta se abriu para um cenário de sonho: a Floresta de Cristal Lunar. Cristais brotavam de um abismo interminável, e a água fluía magicamente para cima, desafiando a gravidade entre flores e frutos coloridos.
— Uau. — Um ‘uau’ seco, sem surpresas. Sue ironizou a própria reação, como sempre fazia diante daquela vista que não foi a primeira vez e talvez seja a última. — Estou pesada mamãe? Me coloca no chão, eu quero andar!
— É que eu gosto tanto de apertar meu Cristalzinho fofo…
— Mããee! Já estou grandinha! Para com isso…
Sue desceu e caminhou pelo solo esbranquiçado, tocando nos grandes cristais, que respondiam com luz ao seu toque. De repente, um vulto desceu do alto. Um homem imenso em armadura metálica, portando asas mecânicas. Pousou ao lado delas, fazendo Sue cair de susto.
— QUE SUSTO, HILLARIM! ME CAGUEI DE MEDO!
A pequena deu uma bronca indelicada. O guerreiro ajoelhou-se imediatamente, pedindo perdão.
— Desculpe, minha princesa.
— Hill…
A voz de Ria chamou, fraca como a chama em sua mão, a luz diminuindo a cada instante, se esforçando para brilhar, respirando fundo, procurando combustível para se manter viva.
O soldado olhou para a rainha e seu rosto empalideceu sob o elmo. Erguendo a voz num instante como um grito como o de Sue agora pouco. Hillarim gaguejou.
— Se-se-nhora R-Ria!
Só então a realidade começou a vazar pelas frestas da inocência de Sue. Rakei Dell Ria estava sangrando. O que Sue pensava ser água da chuva era um rastro escarlate que formava poças por onde ela passava.
— Onde está o Ell? — perguntou Ria, apoiada nas paredes, já não tinha forças para se manter em pé sozinha.
— É, cadê meu pai? — Sue insistiu, e seus olhos começaram a lacrimejar. A alegria já não estava em seu rosto, e sim uma preocupação profunda.
— Ele vai trabalhar um pouco mais, minha princesa — respondeu Hillarim para Sue. Mas, para a rainha, ele negou silenciosamente com a cabeça.
— Então terei que voltar — disse Ria.
— Não! — o soldado e a menina gritaram em uníssono.
Ria se abaixou, ficando na altura da filha. Ao ver as mãos da mãe, o choro de Sue rompeu. A desolação no rosto da mãe desfez o feitiço imaginário em Sue. A realidade estava à sua frente, e era nua e crua, difícil de digerir. Sua mãe estava em farrapos. O que era para ser água em sua roupa molhada, era vermelho e quente. O perfume de flores fora substituído pelo cheiro metálico de ferro e sangue. O cabelo, antes impecável, estava em farrapos. O encanto desmoronou.
— O que está acontecendo, mamãe?! — Sue gritou, sendo esmagada em um abraço desesperado.
— Você vai ficar com o Hill por um tempo, tudo bem, minha flor? Eu preciso voltar para consertar as luzes com o seu pai. Ele tem uma chave, eu tenho a outra. Lembra?
— Dá a chave para o tio! Vai você, tio! — Sue implorou, mas o soldado permaneceu estático, o rosto banhado em lágrimas por trás do elmo.
— Ele não pode, meu amor. Somente nós, os Rakeis, podemos. Eu preciso salvar Lunara… E principalmente você!
O último abraço abafou os protestos da menina. Ria a ergueu uma última vez, entregando-a aos braços rudes do soldado.
— Eu te amo, meu pedaço de lua. Você é o futuro de Lunara. Você é Rakei Dell Sue, nunca se esqueça! Eu te amo e amarei eternamente, minha princesa!
— Eu não vou! — Sue esperneou, lutando contra o aperto de Hillarim.
A rainha, já sem lágrimas, mas com um sorriso quebrado, deu a ordem final.
— Leve-a, por favor!
Hillarim saltou para o abismo com o choro de Sue ecoando pelas jazidas. As asas metálicas abriram cortando a escuridão, enquanto os cristais começaram a ser apagados, um por um.
Sozinha, Ria chorou. Os gritos de Sue cortavam seu peito como navalhas. Uma despedida triste e cruel. O destino reservou um fim triste.
No fundo do abismo onde a luz não chegava, ela encontrou forças em sua fé. Olhou para um dos últimos cristais que lutava para brilhar. Fechou as mãos e orou.
— Minha Deusa do Luar, eu não fugirei da luta. Honrarei nossas tradições. Me juntarei à eternidade de nossos ancestrais. Meu corpo e minha alma pertencem a ti. Mas…
O choro rompeu as palavras que considerava mágicas. A doce lembrança da filha que não veria mais.
— Por favor, proteja Sue! Ilumine e a guie. Seja a luz de minha garotinha! Rakei Dell Sue é a nossa última esperança!
O pouco brilho dos cristais se apagou completamente. O mar de escuridão engoliu Ria, e o que parecia ser um fim, algo brilhou, o pingente em seu pescoço. A luz da esperança, a resposta da deusa, sua oração foi ouvida e aceita. Sue viverá, mas Lunara perecerá.

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