A lua branca encobria o céu. Seu brilho refletia nos olhos marinhos de Sue. Ela estava deitada, flutuando nas nuvens, admirando o luar. Foi um instante interminável, sua consciência parecia distante, mas a realidade logo a tocou.

    — Onde estou? O que está acontecendo?

    A lua trincou, rachando e desmoronando em vários pedaços. Cada um deles carregava um fragmento de memória de Sue. Ela se viu como um bebê, embalada no colo do pai, cujo rosto era apenas um borrão. Sentia o aroma das flores coloridas do jardim e ouvia a voz suave do pai cantarolando.

    “De um suspiro de solidão, a Deusa do Luar chorou. Inconsequente ela desceu, um toque quis dar, tão leve a um sopro de mãos. Dois mundos, o mortal e o imortal se entrelaçaram e desse amor você nasceu. Ela sorriu e chorou, antes de partir, lamentou e orou: Os sentimentos humanos são como minha luz, algo transcendental. Minha Lamúria vos deixo, um dom a guiar. O coração que a merecer, saberá seu valor. Ela o acompanhará, para sempre ajudar, a entender a si mesmo e sua terra irá amar”

    A Lamúria a atingiu com tudo. Eram palavras, visões, sensações e, o mais importante, sentimentos dos portadores anteriores. Houve uma confusão de passado e presente, de real e irreal. Foi mais do que uma lição sobre paciência, era a amargura e a fúria de uma linhagem, misturadas à pureza da canção de seu pai. O destino da espada mostrou-se claro, a Lamúria pertencia a quem a merecesse, não a quem a exigisse.

    — Não era para ter mostrado! Ela é uma criança. Você sabe que pode ter colocado a vida de todos em risco!

    Sue escutou algo distante, sentindo-se zonza e atordoada. Seus olhos ainda não se abriam, e o som machucava sua cabeça.

    — Mexer com a Lamúria é perigoso! Você deveria saber mais que todos! O que vamos fazer se alguém descobrir? Se ela contar para os amigos? Se as pessoas souberem quem ela é?!

    Os “se” de preocupação eram muitos, a mulher que falava não cessava o sermão. O falatório chegou turvando os ouvidos de Sue, até que ela finalmente abriu os olhos. Estava em seu quarto, com a mão enfaixada.

    — Mamãe…? — A voz frágil de Sue encerrou abruptamente a discussão de Rolly com sua esposa. 

    Ali estava Hilla Tharius, uma mulher da mesma idade de seu marido. Hilla não era brincalhona como Rolly, ela era mais séria e preocupada. Não por menos, já começavam a se desenhar linhas tênues ao redor de seus olhos, mas isso não diminuía a beleza de seus longos cabelos negros e ondulados, que caiam com um peso saudável passando dos ombros. Seus olhos cor de mel quente refletiam uma mistura de cansaço maternal e firmeza. Hilla estava vestida com a simplicidade de uma camponesa do interior, uma túnica amarrada na cintura. Ela se aproximou da filha, deixando o marido de lado. A preocupação estava escancarada em seu rosto.

    — Sue, minha querida. Como você está?

    — Eu… Sra. Hilla?

    — O baque foi grande, mulher — Rolly murmurou ao fundo.

    — Psss! Quieto você! — Hilla ainda parecia zangada com o marido, mas, ao olhar para Sue, sua expressão se tornou como a cor de seus olhos, doce como mel. — Você vai ficar bem. Só precisa descansar.

    — A Lamúria! Onde está? 

    A garota mal deu ouvidos aos cuidadores. Obcecada pelo seu tesouro particular, ela tentou sair da cama, mas tropeçou nos lençois, cambaleando com a fraqueza de suas conturbadas visões. Recusou a ajuda de Hilla e Rolly, e com um pequeno esforço, levantou-se sozinha, abriu a porta do porão e desceu as escadas. Hilla tentou impedi-la, mas Rolly a segurou.

    — Deixe-a. Vamos ver.

    — Ela vai se machucar de novo… — Hilla sussurrou para o marido.

    — Ela tem que aprender sozinha. É algo em que não podemos interferir.

    De frente para a espada, que agora repousava cravada na beira da lagoa, muito bem guardada na bainha, Sue se ajoelhou e a encarou, pensativa.

    — Eu… — Sue começou a chorar e soluçar, lutando para falar. — Eu sinto tanto sua falta mãe!

    O choro se abriu em um lamento. Abraçando a espada, Sue a apertou como se fosse uma pessoa, afogando ali suas mágoas e despejando toda a saudade.

    — Eu não vou mais fazer isso! Eu só queria meus pais de volta. Eu achei que vocês voltariam. Eu quero que tudo volte a ser como antes!

    As emoções de Sue transbordaram. Os cristais explodiram em diferentes tons, representando a torrente de sentimentos da garota. Os dois adultos se aproximaram, quase chorando também. A forte comoção de Sue tocou a todos, preenchendo o local.

    — Nós estamos aqui para te ajudar, minha querida — Hilla se sentou ao lado, apoiando a mão no ombro da garota. — Não somos seus pais e nunca vamos substituí-los… Mas vamos tentar fazer o melhor. Tentar chegar perto do amor que eles tiveram. Nós estamos aqui para te servir e te amar, minha princesa.

    Comovida, Sue abraçou Hilla sem desgrudar da espada. Chorando, ela lambuzou a roupa da cuidadora com lágrimas e catarros.

    — Me desculpe, Sra. Hilla… Me desculpa, tio, eu não queria empurrar você, eu…

    — Não precisa nos pedir desculpas, pequena — Rolly se juntou ao consolo. Com um gesto mais mágico, ele usou um punhado de água para limpar o rosto de Sue. — Você é tudo o que temos. Não vamos te abandonar e nunca vamos te deixar. Você é Lunara. Você é a Lamúria e, principalmente, você é Rakei Dell Sue. A nossa… filha.

    Hilla franziu a testa para Rolly, questionando com os olhos se chamá-la de “filha” não era cedo demais. Mas ela conhecia Rolly, ele já estava apegado como um pai.

    — Eu sou sua filha? — Sue questionou, confusa com uma palavra tão forte dita com tamanha emoção.

    Rolly, percebendo que se excedera, perdeu o equilíbrio e ficou sem graça. — Uma filha de coração! — ele finalizou com uma risada forçada, que foi abafada por Sue, que o abraçou.

    — Obrigada… Tio!

    O primeiro golpe da Lamúria a fizera despertar, relembrando sentimentos perdidos de seu trauma. O contato com a lâmina a fez amadurecer de uma forma extraordinária, mudando de uma garota mimada, egoísta e irritante para uma pessoa amorosa e educada. Ela aceitou seus novos pais e sua nova vida. A partir dali, a garota ria e brincava sem machucar os amigos, abraçava os pais e dizia com toda sinceridade que os amava.

    Três anos se passaram desde a mudança. Sue estava crescida, com dez anos. Tornara-se uma garota alegre e sorridente. No quintal de sua casa, a grama era verde com folhas caídas, as árvores sombreavam vários pontos e o poço artesanal dava o capricho final. 

    O vento fluiu magicamente, levantando as folhas secas em volta de Sue. O sorriso da criança encantou a mãe, que estava sentada no banco de madeira, observando a filha brincar com a própria magia.

    — Estou conseguindo, mamãe!

    Hilla Tharius se emocionou ao ouvir Sue chamá-la de mãe. Não só a vida de Sue mudou, mas a de seus pais adotivos também. Hilla olhou para a menina, lembrando da sensação de ser mãe, revivida ali.

    — O papai disse que nunca tinha visto alguém como eu!

    A empolgação a fez querer se exibir ainda mais. Ela esticou os braços em direção às folhas caídas e se concentrou. O ar se acumulou nas palmas de suas mãos. Hilla a alertou sobre o perigo, mas uma criança não se importava com avisos quando o assunto era magia.

    — Eu consigo!

    E conseguiu. Ao disparar a energia acumulada, uma rajada de ar levantou tudo à sua frente. Contudo, o coice a jogou para trás, fazendo-a cair de bunda no chão, o que fez sua mãe se levantar de preocupação.

    — CÉUS! VOCÊ VIU, MAMÃE?! — Sue ergueu-se gritando de felicidade, tranquilizando a mãe, que acabou rindo junto.

    — É… eu vi — Hilla suspirou, aliviada.

    Ao tentar se levantar, Sue perdeu a força nas pernas e voltou a cair. Sua visão entortou e as mãos tremeram. “O quê?!” — a indagação surgiu em sua mente. — “Será que estou doente? Estou tão cansada.”

    Hilla se sentou ao seu lado na grama, já entendendo a situação.

    — Você gastou muita mana de uma vez. Descanse um pouco.

    — Mas… eu… — ela tentava pegar ar a cada palavra. — … mal comecei a brincar.

    Então Hilla explicou alguns conceitos básicos da mana.

    — Usar toda a mana a fará ficar sem forças e pode até ser fatal.

    — Fatal? — a pequenina ainda não entendia bem todas as palavras, arrancando uma risada doce da mãe.

    — Se você ficar sem mana e continuar a forçando, pode desmaiar e… morrer.

    A menina se assustou pensando no pior, mas as palavras seguintes da mãe a confortaram.

    — Mas não se apavore. Você irá crescer e terá muito mais mana para gastar.

    Ela continuou a explicação, mostrando que, quanto mais treino, maior seria o controle, entre outros conceitos básicos. Apesar de ainda haver muitos mistérios, a quantidade de mana variava muito conforme a pessoa. Havia muito a ser descoberto.

    — Raios! O que aconteceu por aqui?! — Rolly apareceu no quintal, carregando lenha. Ele se deparou com as duas no chão e notou o rastro de destruição mágica.

    — Céus! — Sue reinventou o bordão do pai. — Você perdeu, papai! — a garota recuperou-se magicamente e as palavras surgiram naturalmente ao ver o querido pai.

    — Estou vendo!

    Rolly, sempre carinhoso, largou a lenha e pegou a filha no colo, levando-a até o poço artesanal.

    — Hmm… você está fedida! Quanto tempo não toma um banho?! Sabe o que você precisa?

    — Vamos pular na água! — Sue gritou de alegria.

    Hilla arregalou os olhos e antes que pudesse gritar para terem cuidado, já era tarde demais. Rolly, como uma criança, se jogou no poço junto com a filha. Segundos depois, uma “torre” de água surgiu, trazendo os dois à tona, acompanhada por mais risos da garota.

    — Ei, papai, faz aquilo de me secar!

    Rolly colocou o dedo indicador na roupa de Sue e começou a “sugar” a água, secando-a. Em um movimento rápido dos braços, fez o mesmo com sua roupa, acumulando a água em uma esfera na palma da mão. Ser um elementar de água tinha suas vantagens, ele nunca ficava molhado.

    — Quer tentar? — Rolly perguntou.

    A garota imediatamente afirmou, segurando a bola de água nas mãos.

    — É tão pequena e pesada. Você está gastando mana para deixá-la assim?

    — É, estou sim… — Rolly estalou os dedos, quebrando sua manipulação. A água estourou no rosto de Sue, encharcando-a novamente.

    — Ahh, papai! Por quê?! — ela exclamou, mas com um sorriso no rosto.

    — Eu estava pensando em pegar alguns peixes. Quer ir pescar comigo?

    — Vamos!

    A casa do casal ficava a alguns metros afastada do centro da vila. Mesmo estando acima do nível das outras moradias, era camuflada pelas grandes árvores em volta. Atrás dela, a floresta se iniciava com trilhas e um lago formado pelo rio que alimentava o vilarejo. Os dois, armados com vara de pescar e chapéu para se protegerem do sol, logo se sentaram na beira da lagoa. Sue já estava impaciente.

    — Por que você não usa seus poderes? — ela perguntou, balançando a linha sem parar.

    — Não estamos morrendo de fome. Pescar à moda antiga é bom. Encare como um treinamento de paciência — Rolly respondeu com a voz calma.

    — Por que vou querer paciência para usar minha mana?

    — Paciência é fundamental! — Rolly exclamou e, enquanto falava, usou discretamente seus poderes. — Com a paciência, temos o controle. Usamos as medidas certas para as ocasiões certas. Exagerar em alguns feitiços pode custar a batalha.

    — Foi como o meu “Desastre” de hoje, não é?

    — “Desastre”… Quando foi que você aprendeu? O quanto você sabe sobre os golpes de sua família?

    — Claro que eu sei, né?! Eu sou Rakei Dell Sue! Eu sei tudo sobre os Rakeis!

    O modo convencido dela arrancou risadas de Rolly, que acabou se distraindo e deixando um peixe escapar do anzol. Mas, em um movimento rápido com os braços, ele fez a água “explodir”, arremessando o peixe para cima e capturando-o na mão.

    — Ei! Você disse que não podia usar!

    — Não conte para sua mãe! — Rolly fez um sinal de segredo, deixando-a sorrindo e concordando.

    — Deixa eu tentar também?!

    Agora era a vez de Sue querer pegar seu peixe à “moda moderna”, fazendo Rolly rir diante do desafio.

    — E como você pretende? Você é uma elementar de ar.

    — Eu dou meu jeito!

    — Ok. Mas não faça nenhum “Desastre”, por favor.

    — Nem se eu quisesse! Ainda estou um pouco cansada… Mas eu só tenho que usar na medida certa, não é?

    Sue foi até um ponto da margem onde a água era mais clara, jogou um pouco de isca e, com paciência, esperou os peixes se aproximarem. Ela esticou a mão para o alto. O ar tornou-se visível, escorrendo por sua mão como uma aura translúcida.

    — “Ela vai soltar um “Corte de Vento”? … Não. Isso está mais para um “Encantamento”. Mas é muito cedo para desenvolver essa habilidade” — Rolly pensou, observando a filha. 

    Mesmo em uma pescaria, ele notou a evolução dela, e a expectativa virou realidade. Sue moveu o braço com a aura, cortando a água junto ao peixe no meio, como se sua mão tivesse se transformado em uma navalha mágica, fatiando facilmente o animal.

    — Céus! Eu consegui!! — ela pulou de alegria, segurando as duas metades e mostrando ao pai.

    — Raios! Ela conseguiu! 

    Rolly aplaudiu a eficiência da criança e ficou em silêncio, pensativo. — “Aos dez anos conseguir usar mana e dominar golpes que muitos adultos demoram anos para aprender… Você realmente é filha de Ell e Ria… Você junto a Lamúria serão imbatíveis.” 

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