Hilton Groeman Rhasta mantinha-se imponente no centro do descampado, guardando uma pesada urna de bronze posicionada exatamente no interior de um círculo perfeito riscado na terra. Encontravam-se no fim da madrugada, a poucas horas de o sol raiar sobre o horizonte. Mesmo sob a escuridão daquele horário, mitigada apenas pelas fogueiras que estalavam ao redor e pela penumbra pálida do céu, era possível observar uma grande massa de terra flutuando estática a poucos metros acima da cabeça do comandante.

    Colunas maciças de concreto erguiam-se ao redor da arena improvisada, cercadas por muretas e valetas por onde corria água fresca. Camuflado atrás de uma dessas colunas de sustentação, encontrava-se Khalos, com dezoito anos de idade. Seu uniforme de cadete era simples, desprovido de qualquer adorno, e ele não portava espada.

    “Como ele consegue sustentar uma imensidão daquelas levitando por tanto tempo?” — o pensamento escapuliu em um sussurro involuntário por seus lábios.

    — Nós temos que atacar agora mesmo! — a voz áspera e impaciente soprou diretamente contra o seu cangote. Não havia necessidade de identificação, apenas Asper conseguia proferir palavras que soavam como navalhas cortantes. — Já estou farto de ficar aqui esperando feito um covarde!

    — Então vá em frente e morra sozinho, seu idiota! — rebateu Laz logo em seguida, a voz abafada pela proximidade do pilar. — Não ouse arruinar o nosso planejamento!

    — Psiu! Silêncio vocês dois! — alertou Khalos, esforçando-se para manter a neutralidade e não perder o foco. — Nossa prioridade é capturar aquela urna de bronze e levá-la para além da marcação limite. Ou, no pior dos cenários, desestabilizar a concentração do comandante e forçar aquela massa de terra a despencar.

    Khalos repetiu os objetivos mentais para alinhar a estratégia do trio. A função parecia relativamente simples na teoria, não fosse o fato de que Hilton Groeman atuava como o guardião implacável da relíquia que eles tanto almejavam. Aquele era o exame definitivo de promoção para se tornarem Cavaleiros Cinzentos — a patente conferida aos cadetes que atingiam o último estágio de treinamento na guilda.

    — O vaso de bronze está completamente cheio de terra compacta — continuou Khalos, semicerrando os olhos. — É muito pesada. Nenhum de nós conseguirá carregá-lo sozinho correndo pela arena.

    — Você conseguiu sentir a terra a essa distância? — reparou Laz, impressionada com a sensibilidade elementar do companheiro.

    — Grandes merda — resmungou Asper, dispensando qualquer traço de admiração.

    — Vamos coordenar o avanço da seguinte maneira… — Khalos iniciou a revisão final do plano. Sendo um jovem abençoado com o dom da paciência, ele possuía o autocontrole necessário para ignorar as provocações de Asper, embora mantivesse total atenção nos movimentos de Laz.

    — O plano original é derrubar aquela estrutura na sua cabeça! — disparou ela, interrompendo a explicação com um empurrão abrupto que jogou Asper para fora da proteção da coluna.

    Hilton percebeu o movimento no mesmo milissegundo. Sem demonstrar qualquer piedade, apesar da distância de vinte metros que os separava, o comandante agarrou um bloco de rocha que repousava junto aos seus pés e o arremessou na direção do sobrinho com a potência brutal de um disparo de canhão.

    O impacto contra a estrutura foi violento, fazendo o vermelho espalhar-se e manchar o pilar de concreto e a terra ao redor. Aquela coluna em particular não era a única marcada, todas as outras muretas da arena traziam vestígios de poeira e impactos anteriores, evidenciando que a batalha já se estendia por longas horas.

    Felizmente, não fora o sangue de Asper que jorrou contra o concreto. O tom avermelhado que se espalhara pertencia à terra densa de uma barreira defensiva que Khalos ergueu às pressas para proteger o aliado.

    — SUA IMBECIL ACÉFALA! — urrou Asper, voltando-se contra a garota. Ele não possuía o hábito de agradecer por salvamentos, mas guardava uma facilidade impressionante para formular insultos.

    — PAREM COM ISSO AGORA MESMO! — bradou Khalos, a testa franzida de irritação. — Eu passei meses treinando para este exame e não vou perder a minha chance de promoção por causa das idiotices de vocês dois!

    Asper sobressaltou-se com a raridade do grito do amigo, recolhendo-se em silêncio. Laz, contudo, que compartilhava da mesma terra natal e mantinha uma amizade de anos com o rapaz, sentiu-se genuinamente ofendida pelo tom da cobrança.

    — Eu estou atrapalhando? — perguntou ela, o tom de voz subitamente melancólico fazendo a expressão do jovem migrar da irritação para a culpa em segundos.

    — Laz, não foi isso o que eu quis diz…!

    No entanto, como o próprio Comandante Hilton costumava pregar em seus rigorosos treinamentos, o campo de batalha nunca fora um parque de diversões, uma única distração infantil era o suficiente para cavar a própria sepultura. Antes que Khalos completasse a frase, a coluna que os protegia colapsou sob a pressão mística de Hilton. Um estrondo de terra ecoou pela arena, gerando um tremor localizado que fez as pernas dos três cadetes vacilarem.

    — Eu perdi o controle do terreno! — exclamou Khalos, agachando-se imediatamente para aproximar as palmas das mãos do solo, buscando uma conexão direta com o seu elemento. Ele lutou para estabilizar o terreno ao mesmo tempo em que disparava ondas sucessivas de tremores na direção do comandante. — Vão agora! É a nossa chance!

    Asper e Laz mostraram-se velozes. Partiram em direções opostas, correndo em círculos concêntricos e utilizando as muretas remanescentes como escudos temporários. Aquela distração coordenada garantiu o tempo de que Khalos necessitava para restabelecer sua mana, em um esforço supremo, o jovem conseguiu erguer o bloco do pilar destruído acima de sua própria cabeça, sustentando uma tonelada de concreto puro.

    — Khalos? — Hilton deixou escapar, genuinamente surpreendido com a demonstração de força do cadete.

    Quase simultaneamente, agindo como uma lufada de vento cortante por um flanco e um vulto elétrico pelo outro, Laz e Asper convergiram em um ataque direto contra o examinador. Esqueceram temporariamente as regras sobre a urna, a lógica que adotaram no calor do momento dizia que, se conseguissem subjugar o próprio Comandante Hilton, a vitória estaria garantida. Fora o atalho que julgaram mais simples.

    Hilton, contudo, limitou-se a abrir um sorriso sóbrio antes de bater o pé direito contra o chão. Duas paredes rígidas de pedra ergueram-se instantaneamente diante dos atacantes, obrigando Asper e Laz a colidirem as feições contra a rocha firme, frenados pela própria inércia dos movimentos.

    Khalos não desperdiçou o segundo de vantagem. Correu o trajeto que restava mantendo o pilar suspenso e, ao atingir a distância ideal, arremessou a estrutura de concreto diretamente contra o peito de Hilton. Uma barreira de terra comum dificilmente anularia um impacto daquela magnitude sem transferir uma força de choque avassaladora para o defensor.

    Mas o esforço não pertenceu apenas a Khalos. Recuperando-se da colisão, Asper utilizou suas adagas esverdeadas de ar materializado para rasgar a parede de pedra ao meio. Laz mostrou-se ainda mais astuta, utilizou suas faíscas elétricas tanto para acelerar o passo quanto para executar uma frenagem brusca. Simulando uma queda para enganar a percepção do comandante, ela escalou a parede de pedra vertical com agilidade, mantendo as solas das botas presas à rocha através da estática da eletricidade até alcançar o topo, projetando-se na direção da urna de bronze junto com Asper.

    Confrontado pelo pilar de sete metros que vinha em sua direção e pela investida aérea dos outros dois cadetes, Hilton Groeman viu-se em uma rara situação de dúvida.

    — EU VOU ME TORNAR UM CAVALEIRO! — urrou Khalos, aplicando o restante de sua mana no arremesso.

    O impacto foi monumental, pulverizando o concreto e espalhando fragmentos de rocha e poeira por todos os quadrantes da arena. A cortina de terra subiu violentamente, dissipando-se na mesma velocidade em que fora gerada para revelar o desfecho do teste. A cena parecia uma derrota absoluta.

    A imensa massa de terra que Hilton invocara no início da madrugada continuava flutuando intacta no céu. Logo abaixo dela, o comandante sustentava uma postura firme, sua mão direita mantinha Laz erguida pelo colarinho, enquanto a esquerda continha os movimentos de Asper, que se batia em vão contra o aperto do oficial.

    — Vocês coordenaram uma excelente sequência… — elogiou Hilton, fitando com indisfarçável orgulho o semblante exausto e derrotado dos jovens. — Mas digam-me, onde está o terceiro elemento do esquadrão?

    O comandante perdeu Khalos de vista por um instante. Ao desviar os olhos para o pilar que fora arremessado, notou que a estrutura havia se partido ao meio durante o trajeto, uma metade colidira contra o solo, mas a outra encontrava-se em uma trajetória vertical descendente. Instintivamente, Hilton ergueu os olhos para o alto e deparou-se com Khalos pegando carona sobre a massa de terra flutuante.

    — Agora a urna é nossa! — gritou o cadete.

    O contato direto com a estrutura rochosa concedeu a Khalos a vantagem mística na disputa pelo controle do elemento. Embora ele não possuísse mana suficiente para manter o bloco voando, o peso combinado despencou diretamente em direção à silhueta do comandante. 

    Encurralado pela gravidade, Hilton foi obrigado a soltar Laz e Asper, erguendo ambos os braços para retomar a sustentação da massa flutuante antes que fosse esmagado.

    — Segurem a relíquia! — ordenou Khalos, agarrando as alças da urna de bronze e despencando com ela para longe do círculo central. Seus parceiros de esquadrão utilizaram o restante de suas forças para amortecer a queda do objeto, consolidando a captura.

    O plano mostrara-se perfeito desde o milissegundo em que Laz empurrou Asper no início do teste, forçando a reação inicial de Hilton e utilizando a destruição da primeira coluna de concreto como camuflagem para a verdadeira estratégia. 

    O ataque coordenado serviu apenas para obrigar o examinador a priorizar a defesa física, permitindo que a urna fosse subtraída por uma rota aérea imprevista.

    Os primeiros raios de sol finalmente banharam os rostos dos jovens vitoriosos, que se encontravam exaustos, sujos de poeira e no limite de suas resistências físicas. Hilton Groeman recolheu sua mana, fazendo a terra flutuante retornar ao solo com suavidade, e abriu um sorriso largo.

    — Muito bem! — exclamou o oficial, o tom alegre ecoando pela arena. — O desempenho de vocês foi impecável. Desde a paciência para aguardar o momento exato de agir até a execução do plano de contingência. A partir de hoje, vocês deixam de ser cadetes. Sejam bem-vindos à patente de Cavaleiros Cinzentos de Rusfield! Vamos direto para a guilda, a primeira rodada de bebidas corre por minha conta!

    Por trás da rigidez e da disciplina que exigia durante o período de instrução, Hilton mostrava-se um homem de excelente convívio, que apreciava celebrar as conquistas junto aos seus subordinados e alunos. Ele teria ficado genuinamente desapontado caso o trio fracassasse no exame.

    A guilda funcionava como o quartel militar e o centro administrativo de cada província do reino. A Vila Rhasta configurava-se como uma das poucas localidades daquela região periférica que dispunha de uma instalação daquela magnitude. No interior daquele complexo, os jovens recebiam o treinamento necessário para ingressarem nas forças armadas do reino ou, se preferissem a autonomia, estabelecerem-se como aventureiros registrados. 

    O fato fundamental era que as guildas instruíam os usuários de mana para que compreendessem e respeitassem as leis de Rusfield. O espaço não atendia apenas os Cavaleiros do Reino, servia também como ponto de apoio para viajantes e mercenários que buscavam contratos, missões de escolta e trabalhos temporários, desde que comprovassem a idoneidade de suas forças.

    A guilda de Vila Rhasta não possuía autoridade legal para condecorar Cavaleiros de nível Bronze ou patentes superiores, mas detinha o poder de instruir e nomear os Cavaleiros Cinzentos (aprendizes). De posse daquele certificado oficial, os jovens que almejavam cargos de maior prestígio na hierarquia militar podiam se dirigir às capitais das províncias maiores e pleitear exames de promoção avançados.

    — Um brinde aos nossos novos cavaleiros! — exclamou Hilton, erguendo sua caneca e preenchendo os copos de todos os presentes na mesa da taverna da guilda, que já contava com outros oficiais da guarnição. — E um copo duplo de suco de maçã para a Laz, porque ela ainda é de menor! — alertou o comandante, lançando um olhar de advertência para os veteranos mais engraçadinhos.

    — Finalmente conseguimos! — comemoraram Asper e Khalos, virando as canecas para aliviar a secura da garganta após o teste.

    — Eu não fazia ideia de que você tinha tanta pressa para beber, Khalos — comentou Laz, surpresa com a sofreguidão do amigo.

    — Mas eu normalmente não bebo nada! Hahaha! — respondeu o rapaz, o efeito do álcool manifestando-se quase instantaneamente em seu rosto avermelhado. — Mas o dia de hoje exige uma rodada!

    — E pensar que você quase colocou tudo a perder com aquele seu susto no pilar — disparou Asper, retornando à sua postura ácida de costume enquanto apontava o dedo na direção de Laz.

    — Aquilo foi uma improvisação estratégica! — defendeu-se a garota, esquivando-se do assunto antes de lançar uma provocação deliberada. — E pensar que a Suzi conseguiu passar por esse mesmo exame… completamente sozinha…

    — Tsc! — Asper cerrou os dentes, preferindo recolher-se ao silêncio e focar sua atenção na bebida para não prolongar a menção à forasteira.

    O clima de festividade e descontração permaneceu elevado na mesa até o milissegundo em que as portas pesadas da guilda foram escancaradas com violência. O estrondo atraiu a atenção imediata e apreensiva de todos os presentes. Um mensageiro rompeu o salão, trazendo as vestes rasgadas, o corpo coberto por marcas de fuligem e o semblante tomado pelo desespero.

    — Preciso falar com o Comandante Hilton imediatamente! — anunciou o homem, a voz seca e falhando pelo esforço da fuga. — Fomos atacados por saqueadores! 

    O anúncio ecoou pelo salão da guilda, instaurando o pânico imediato e assinalando o fim definitivo da paz na Vila Rhasta. Saqueadores não são coisas raras, mas para um mensageiro chegar em pânico, tinha algo a mais neste aviso. 

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