Capítulo 6 — Um amanhã de alegria ou tragédia
O sol raiava sob um céu de brigadeiro na Vila Rhasta. O vento fresco e agradável soprava lentamente. A temperatura estava amena, nem calor nem frio, era um belo dia para se viver. As caravanas chegavam, deixando as pessoas curiosas, pois sempre havia algo novo, uma tecnologia da cidade grande, armamento, remédios ou qualquer apetrecho inédito naquela era de descobertas. Os estudiosos ainda convergiam entre si, alguns chamavam o período de Era Mágica e outros de Era Humana.
Os mercadores foram se organizando no pátio central da vila. As sombras das grandes árvores davam um ar de sossego. O canto dos passarinhos tranquilizava e a fonte de água refrescava as pessoas. Crianças brincavam no parque. Os lojistas locais acomodavam os viajantes. Tudo era bem supervisionado por Hilla e outros, que olhavam cada um que passava por ali.
— Minha velha amiga! — Um mercador aproximou-se. Era de estatura mediana, dono de um rosto conhecido, que já passava por aquela rota havia algum tempo. — Faz anos que não venho para o norte de Rusfield.
— Você… — ela pausou, tentando lembrar o nome dele.
— Menk! — ele sorriu, lembrando-a.
— Ah, claro, Menk! O vendedor de tecidos e perfumes.
— Tenho algumas novidades que você vai adorar, direto dos campos de Pririth.
Hilla cheirou as amostras, um aroma exótico preencheu o ar. Enquanto isso, o homem franziu o cenho.
— Pelo que vejo, os boatos eram verdadeiros. A cidade está bem pacata em relação às minhas vindas passadas.
— Quais boatos, Sr. Menk? — Hilla perguntou de um jeito duro, mas sem ser indelicada.
— Dos saqueadores e da situação do norte de Rusfield! Alguns mercadores ficaram em Bacia da Prata com medo de virem para cá.
— Então já estão espalhando as fofocas? Estamos bem protegidos aqui em Rhasta. Temos nossos Cavaleiros, não precisam se preocupar — disse ela, tentando amenizar os rumores.
— Foi o que eu disse para os outros mercadores! Lá em Rhasta tem um pessoal bem “embaçado”.
— Embaçado…?
— Mãe? — A voz familiar soou por trás de Hilla, que se virou, sendo surpreendida por Sue.
— É sua filha? Que garota linda! — exclamou o mercador, encantado, ficando hipnotizado por ela.
Sue ficou sem graça por não lembrar dele e se perguntou: “Eu o conheço?”. O rapaz astuto, percebendo o clima embaraçoso por suas palavras, pegou um frasco de perfume.
— Esse vai combinar perfeitamente com você.
— Deixa eu cheirar… Uau! É bom mesmo. Quanto custa?
— Para você, minha princesa, uma moeda de ouro! — o mercador respondeu, um tanto sem graça. — Mas posso fazer um desconto…
— O quê?! — Sue guardou o frasco imediatamente, com um cuidado quase reverente após o preço espantoso. — A verdade é que não estou precisando de nada. Obrigada! — ela sorriu, constrangida.
Hilla puxou Sue para o lado, afastando-as um pouco do mercador, que observava com curiosidade o artefato enrolado que Sue carregava.
— O que está fazendo com “ela” aqui?! — Hilla sussurrou, com a voz baixa, mas em tom de repreensão.
— Para onde eu for, “ela” vai junto! — Sue retrucou, com a teimosia no olhar.
— Pode ser perigoso, e se acontecer algo?
— Se algo perigoso acontecer, é melhor eu estar com uma espada, não acha?!
Sue riu, apontando para si mesma com um brilho desafiador.
— E está tudo bem. Ela está mais segura comigo e talvez… só talvez, assim, ela se apegue a mim e me dê uma chance.
Hilla sorriu, acariciando a filha, não havia o que fazer.
— Só tome cuidado. As pessoas vão… — Hilla pensou em alertar que aquilo podia atrair olhares curiosos, ainda mais naquele dia, quando vários estrangeiros passavam por ali, mas, conhecendo a filha, sabia que era como bater em pedra. — …Você já sabe.
Sue revirou os olhos, ironizando, já imaginando que seria repreendida e logo mudou de assunto.
— Eu preciso achar o papai. Ele não estava em casa nem nas plantações. Achei que estaria por aqui com você.
— Hmm… Eu achei que estava com você… e sua mão?!
Sue mostrou a mão perfeitamente curada.
— Está pronta para a outra!
Rolly Manfroi estava enfiado em um cômodo bem iluminado, repleto de frascos e vidrarias que denunciavam a existência de um laboratório. Ele fazia anotações apressadas, com os olhos fixos em um líquido vermelho misterioso.
— Não vou conseguir trazer mais. Tire o máximo proveito que puder — disse uma voz feminina, vinda das sombras, era uma mulher adulta, loira, com cabelos curtos e práticos. Era Mall. — Não foi fácil — ela acrescentou.
— Esse eu guardarei para quando Sue despertar… — Rolly refletiu, com o olhar perdido no líquido enigmático. — Como algo assim pôde destruir Lunara? … O que mais você conseguiu?
— Consegui algumas anotações dos laboratórios de Pririth. Mas não acho que você vá muito além do que tem aqui — Mall entregou-lhe alguns papéis.
— Eles também não descobriram nada?
— Nenhum antídoto. Nem mesmo a Dissipação dos Orions surtiu efeito.
Rolly tentou montar as peças desse quebra-cabeça que foi a guerra de Lunara.
— Sue é nossa única esperança. A resposta tem que estar dentro da Lamúria.
— Isso se ela aceitar a Sue — Mall questionou, com a descrença velada na voz. — A espada ficou tanto tempo longe de Lunara. Talvez a magia tenha ido junto com o reino.
Rolly sempre simpático e com seu tom inabalável, retrucou.
— Você lembra de como era a relação de Ell com a Lamúria. Então, por que não me diz o que está acontecendo?
Mall suspirou, cansada. Seus olhos não brilhavam como antigamente. Ela se sentou e desabafou.
— Dez anos se passaram desde a queda. Já me conformei que nossa vida não voltará. Talvez você deva pensar dessa maneira — Mall demonstrou uma pequena rejeição, com a realidade pesando sobre ela.
— Não a culpo por pensar assim — Rolly disse, com compreensão nos olhos. — Mesmo que eu não consiga ver aquela Lunara de antigamente, farei de tudo para que a Sue a veja com os próprios olhos! Aceitei essa missão com orgulho e a cumprirei até meus últimos suspiros. Serei fiel a Lunara e principalmente à Sue.
Mall não se surpreendeu com as palavras emocionadas do velho amigo. Ela o conhecia bem o suficiente para saber que a resposta seria aquela.
— É claro que vai… — Mall riu discretamente, em um tom resignado. — Já estou ficando velha para tantas aventuras. Estou cansada de me arriscar. Acho que levarei a Laz comigo, ela merece viver.
— Oh! O que pretende fazer?
— Sempre há bons empregos para elementares de eletricidade. Ela vai se dar bem na
cidade grande.
— Mall, eu te conheço bem. Fale a verdade! — Rolly olhou-a desconfiado.
— Não me olhe assim! Jamais a colocaria em perigo, mas… ela tem que aprender a se defender.
— Não me diga que vai colocá-la no seu “grupinho”. Ela ainda é uma garota.
— Nunca imaginei isso! Mas quero que ela viva. Ela será uma boa cavaleira ou até uma aventureira, o que preferir. Só não quero que fique presa ao passado. A vida está passando diante dos nossos olhos, temos que aproveitar o presente… Sue pode querer o mesmo. Os privilégios de uma vida normal.
— Uma Rakei em meio aos Orions, tem certeza disso?
Rolly pensou alto, com o peso das implicações evidentes.
— Ela seria uma celebridade em Pririth.
— Ou um alvo — Rolly corrigiu, com a voz grave. — Há um porquê de estarmos escondendo ela.
— Não se esqueça de que temos aliados nesse reino. Nem todos são maus — Mall entendeu a desconfiança do amigo e, em tom sutil, prosseguiu. — Estamos aqui para uma reconstrução, mas e se tudo isso for em vão? Sue é uma garota, é humana e merece viver. Tenha um plano B, pense nisso, Rolly.
Mall atentou-se a um movimento na porta.
— Falando nela…
— Oi, pai… e, Mall?! Não sabia que havia retornado — Sue chegou abrindo a porta.
— Filha! Ei, irá carregar “ela” até pela cidade?! — Rolly exclamou com os olhos fixos na Lamúria.
— Sim! — Com um sorriso imenso e uma confirmação firme, ela arrancou risadas de Mall.
— Eu não sei mais o que fazer! — Sue continuou, com um misto de frustração e carinho na voz. — Essa coisa é pior que criança!
Rolly soltou uma gargalhada, balançando a cabeça.
— Rakeis são complicados.
— Estou começando a achar que sim — Sue murmurou, com um leve sorriso se formando ao pensar em quantas vezes já ouviu aquela frase. Seus olhos curiosos recaíram sobre o frasco que o pai manuseava. — E o que é isso?
— É uma amostra da água de Lunara… ou do que ela se tornou — Rolly respondeu, com a voz grave.
Sem cerimônia, Sue pegou o pequeno frasco das mãos dele, aproximando-o dos olhos com uma audácia que fez Rolly prender a respiração. O líquido lá dentro era de um vermelho opaco, quase pulsante.
— Ei, cuidado garota! — Rolly exclamou, preocupado. — Você não faz ideia de como é difícil conseguir isso.
— Eu sei — Sue chacoalhou o frasco levemente, observando o líquido balançar enquanto o coração de Rolly disparava. — E o que descobriu?
Rolly tomou o frasco de volta com um suspiro de alívio.
— Ainda nem comecei os testes… — Ele desviou o olhar para a Lamúria. — Quero testar em algo mais específico.
Ela percebeu o olhar do pai e, com um floreio dramático, colocou a espada na mesa, desenrolando o pano que a protegia. A bainha azulada e o cabo primorosamente feito brilharam sob a luz.
— É toda sua.
— Ah, claro. Retire-a, por favor — Rolly provocou, com um sorriso maroto.
Sue encarou-o com uma seriedade fingida, devolvendo o deboche.
— Faça o senhor.
— Vocês dois nunca mudam.
Mall observando a convivência dos dois, entendeu ainda mais as palavras honrosas de Rolly. Se o mal desuniu Sue de seus pais biológicos, os deuses uniram esses dois. Sue olhou para ela, notou o corte de cabelo novo e como Mall estava bela aos trinta e tantos anos.
— Gostei do seu cabelo. É a moda em Pririth?
— Quanto mais prático, melhor — respondeu ela, sorrindo.
— Quanto menor, mais fácil fugir dos soldados, não é?
Sue provocou em bom tom, e Mall manteve o mesmo humor.
— Não só fugir, como roubar e conspirar contra o reino. É um alívio quando não conseguem agarrar seu cabelo!
Sue riu e abraçou-a. Sentiu saudades do jeito descontraído de Mall.
— E como você está se saindo por aqui?… Su… Suzi!
Sue percebeu a quase gafe da amiga, que não estava acostumada a chamá-la pelo nome fictício.
— A camponesa Suzi tem sua rotina estabelecida. Ordenha vacas, ventila os moinhos e ajuda esse senhor enquanto mantém sua identidade secreta.
— Ah, claro, tudo normal por aqui também — Mall concordou, com ironia, mas rapidamente percebeu que alguém se aproximava do lado de fora. — Cubra isso. — disse referindo-se à Lamúria.
— Rolly! — A porta se abriu, revelando um soldado. — Ah, você também está aqui Mall! E, Suzi… — ele reparou nela, que, sem graça, cobriu a Lamúria com o corpo.
— Hilton está chamando a todos no quartel.
O soldado olhou para Sue com dúvida e ela deu de ombros, sem ter ideia do que se tratava.
— Será que devo ir? — Mall perguntou, em tom sério.
— Acho que seria bom. Hilton irá gostar de te ver — o soldado respondeu, como se toda ajuda fosse necessária.
No quartel da Guilda, vários cavaleiros estavam presentes, entre eles Rolly, Hilla e Mall.
— Recebemos esta carta do vilarejo de Laguna — Hilton mostrou a carta para todos.
— Foram atacados por saqueadores e, pelo visto, foi a segunda cidade atacada nestes meses.
— Laguna?! Isso fica a dois dias daqui! — Rolly mostrou preocupação.
— Tudo indica que seremos o próximo alvo — Hilton complementou e se dirigiu a um quadro onde havia um mapa grande o suficiente para todos verem. — Eu levarei alguns homens comigo até Laguna. Iremos fazer uma varredura e tentaremos interceptar o ataque.
— Por que não lutar aqui? — Rolly questionou o plano de Hilton.
— Há dois motivos, primeiro: não quero colocar em risco os moradores e os visitantes, além disso, temos nossas plantações que estão prestes a serem colhidas. Uma batalha aqui seria um desastre para nossa cidade. E o segundo motivo: um ataque surpresa contra eles pode ser um fator decisivo.
— Se vocês forem a vila ficará desprotegida — Rolly insistiu, ainda questionando.
— Não levarei todos. Deixo a liderança com você Rolly, e sabendo que a Mall está por aqui, fico mais tranquilo. Com vocês, temos três prateados de alto nível para proteger nossa vila.
— Mas não temos certeza se eles virão para cá. Há outras vilas por perto — Rolly olhou para o mapa. — Elas já foram avisadas?
O mensageiro disse que outras pessoas foram enviadas para as demais cidades.
— Mesmo com pouco poder defensivo, ainda somos os melhores da região. Agora, se eles atacarem qualquer uma dessas duas, seria um extermínio… — Hilton explicou mais um motivo para estar avançando. — Temos que defender esta região! Partiremos agora ao meio-dia. Posso contar com vocês três?
Ele olhou para Hilla, Rolly e Mall, que confirmaram com confiança.
— Está certo. Planejo voltar imediatamente. Fiquem atentos, deixem vigias vinte e quatro horas e, se algo acontecer, sigam o plano de fuga.
Os soldados confirmaram com um grito de “Sim, senhor!”. Mas os três se olharam preocupados, pensando na situação. Era impossível não lembrar que passaram por aquilo em Lunara. O pensamento foi unânime: Não deixaremos isso acontecer novamente!

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