Capítulo 7 — O desafiante
Em outra vila pacata, não muito diferente de Rhasta, os habitantes testemunhavam o horror em plena luz do dia. As plantações devastadas, casas inteiras ardendo em chamas e as ruas ficaram abertas por cicatrizes de batalha.
Corpos jaziam no chão, com a vida esvaindo-se, enquanto crianças choravam em desespero e animais corriam sem rumo.
Mães e crianças foram rodeadas e acuadas por um grupo de saqueadores.
Entre os vilões estava Lucy, uma mulher adulta de cabelos castanhos, com uma marca no rosto, ela emanava pura raiva.
— Ei, você, venha cá! — ela rosnou, apontando para uma jovem morena quase na fase adulta.
A garota foi puxada por Cairo, um homem brusco, robusto e careca.
— Ajoelhe-se perante o mestre! — Cairo a jogou com força, obrigando-a a se ajoelhar.
O mestre, líder do bando, era um jovem loiro de cabelos lisos e finos que ultrapassavam os ombros. Sua silhueta era tão perfeita que alguns poderiam confundi-lo com uma mulher, um erro que podia custar caro. Seus olhos verde-claros faziam sintonia com a pele branca parda, já desgastada pelo sol indicando o quanto ele andou por esses anos. Tinha a aparência de um anjo, mas sua personalidade mostrou-se sombria e distante como um demônio.
— O que é isso, Lucy?! — Em um tempo áspero, ele questionou sua capanga enquanto analisava o rosto da jovem em lágrimas. — Olhos pretos e pele morena. Isso é uma Rakei para você?!
Ele a empurrou com um gesto de desdém, indicando que a “mercadoria” não era o que procurava. O jovem voltou a sentar-se em um entulho qualquer, mergulhando em seus próprios pensamentos.
— Mestre Joff, já procuramos em todo lugar e não há nada parecido com o que procura.
Disse Francis, um homem alto e esguio de cabelos compridos, cujo olhar fundo transmitia exaustão.
— Ela deve estar morta. Isso deve ser coisa da sua cabeça, chefe! Você fica pensando muito…
Cairo arriscou o comentário, exibindo sua arcada dentária com alguns dentes faltando.
Lucy e Francis deram um passo para trás, seus olhos fixaram-se no mestre, pois sabiam o que podia vir após as palavras ousadas de Cairo.
Joff fechou o punho com força, levantou-se bruscamente e desferiu um soco devastador na boca de Cairo, arrancando outro dente com o impacto.
— Você está questionando o meu destino?!
Cairo caiu no chão e tateou a boca em busca do dente perdido, sem sequer ousar olhar para o mestre.
— Eu a vi com ela. A filha de Ell corria para mim, segurando-a, desesperada e chorando. Querendo se livrar de um fardo que não é capaz de aguentar. Ela está viva, esperando pelo verdadeiro pretendente da Lamúria.
Lucy abriu um mapa e apontou para a Vila Rhasta, marcada com um círculo vermelho.
— Alguns dias cavalgando se formos pela estrada principal.
— Eu não recomendo irmos por ela — Francis interveio, apontando um caminho alternativo.
— As outras cidades já devem estar cientes de nós. Com certeza teremos problemas se formos pela estrada principal.
— Eu estou com pressa! — A voz autoritária do jovem mestre reverberou. — Peguem o que puderem e ergam o planador!
Seus capangas começaram a dar ordens, mas Lucy e Francis se entreolharam com estranhamento.
— Com todo respeito senhor, se formos com o planador nestas condições, chegaremos cansados e qualquer batalha será difícil — disse Francis preocupado em não ofender.
Joff riu, um som seco e frio. Ele se levantou, sem agredir ninguém.
— Não há elementar algum nesta região capaz de me derrotar. Façam o que eu mando e pronto!
Francis pensou em seu bem-estar e propôs outra ideia, mas cuidando bem das palavras.
— Se me permite, senhor. Espere o entardecer, não irá demorar!
Francis tinha um motivo para voar à noite, era mais seguro e, principalmente, discreto. Joff pensou, analisou, resmungou e concordou.
— Em uma hora, quero ele no céu!
O planador fora uma maravilha de engenharia entrelaçada à magia. Tratava-se de uma espécie de balão que se assemelhava a um dirigível, impulsionado por poderes elementais. Os elementares de ar o enchiam até certo ponto, então, os elementares de fogo entravam em ação, aquecendo o ar para erguê-lo. A cabine era grande o suficiente para abrigar animais, pessoas, armamentos e mantimentos.
O planador deles era particularmente grande e sofisticado, algo daquele nível já recebia outro nome, aeromóvel, aeroplano, dirigível dependendo da região. Foi uma prova das incríveis possibilidades da engenharia humana combinada com as magias do ambiente.
RAKEI LALL JOFF
Aos onze anos treinava seus poderes que haviam despertado havia pouco tempo. Ele estava na segunda ilha do lago Khellos, em um lugar chamado Labirinto da Ilha, onde muros de pedras formavam caminhos intrincados. Enquanto repousava, uma mulher de cabelos compridos e olhos verdes, vestindo uma armadura metálica, jovem de vinte e tantos anos, aproximou-se acompanhada por Lucy.
— Ei pivete, vamos embora!
— Eu não quero — discordou Joff.
— Eu estou mandando seu fedelho!
Joff mostrou o dedo para a mulher. Ela contorceu os olhos, sua paciência estava no limite. Ao se aproximar e ficar ao lado dele, os dois se encararam.
— Você é bem pequeno para ter essa marra toda!
— Eu sou Rakei Lall Joff, o próximo rei de Lunara!
— Seu pai ficou enfiando coisas na sua cabeça e te deixou doido. Você precisa de terapia! — A mulher riu, debochando.
Joff, não suportando ofensas, fechou os punhos envoltos em eletricidade e desferiu um soco nela, mas diferente de Cairo no futuro, ela apenas segurou o punho dele, olhando-o de cima para baixo.
— O que eu faço com você?
Apertou o punho de Joff e o puxou, arrastando-o em direção ao balão que os esperava.
— Senhora… — Lucy, ainda sem a cicatriz, ficou incrédula ao ver tamanho desrespeito com Joff.
— Me solta, sua vagabunda! Sua biscate! Eu vou te matar! Ahhhhh! Me solta!
Em menos de um minuto, Joff desferiu mais xingamentos do que eu poderia pensar em escrever neste parágrafo. A mulher que o arrastava era de sua família: Rakei Lall Lifia, uma condecorada Cavaleira do Reino de Lunara.
Os três subiram no balão. Joff sentou-se segurando o punho ainda dolorido, enquanto Lifia aquecia o ar com chamas que saíam de sua mão, fazendo o veículo subir. Eles passaram pelo lago e sobrevoaram a cidade, onde nuvens negras começavam a aparecer no horizonte, ainda distantes.
— Por que estou indo? — resmungou Joff.
— Porque sim! — respondeu Lifia.
— Cadê o meu pai?
— Está por aí.
— Para onde está me levando?!
— Para algum lugar.
As respostas curtas fizeram Joff estourar. Ele se levantou e gritou.
— Eu exijo que me obedeça! — Ele segurou uma das cordas que pendurava o cesto ao balão e ameaçou cortá-la. — Ajoelhe-se para mim agora e faça seus votos!
— Oh não! Ele irá cortar a corda! — ela seguiu com risos. — Senta aí moleque. Se cortar essa corda, você se garante na queda? Porque eu, sim!
Joff olhou para baixo e temeu a altura, mas não recuou.
— Eu… Você é minha vassala e eu exijo que me obedeça!!
A loucura de Joff foi maior que seu medo. Sua mão eletrocutada fez a corda pegar fogo e romper. Os olhos de Lifia se arregalaram. Lucy segurou-se firme rezando. Joff sentiu medo, mas não se entregou, agarrou-se ao cesto e riu para Lifia durante a turbulência.
— Você é mais doido do que eu pensei!
Lifia até pensou em bater nele, mas naquele momento não resolveria nada. O cesto inclinou e Lifia parou de alimentar o ar, fazendo o balão cair na diagonal, totalmente desgovernado.
— Isso é para você obedecer ao seu mestre, o futuro portador da Lamúria, RAKEI LALL JO…!
O cesto se rompeu e os três caíram enquanto os gritos de Joff se espalhavam pelo ar.
Ele acordou com a cabeça enfaixada, não sabia onde estava e o que aconteceu. Ao abrir os olhos, uma única palavra veio-lhe à mente e foi dita em voz alta.
— Lamúria!
Foi a primeira coisa que saiu de sua boca. O garoto criado pelas ambições do pai, já era uma criança corrompida pela ganância. Ele se levantou da maca, olhou para as paredes de tecido e, pela abertura, viu grama e árvores.
— Onde estou?
— Ei, ei, ei! Continue deitado, jovem mestre!
Lucy estava com vinte e um anos, seus cabelos estavam curtos e a cicatriz era recente em sua bochecha.
— Onde está meu pai?! — Joff retrucou, olhando-a com desdém, nem perguntando sobre o machucado ou como sobreviveram ao cair do balão.
Lucy respirou fundo, tentando se acalmar.
— “Ele não mudou nada”, pensou ela, e com um sorriso forçado, disse. — Seu pai está a caminho. Agora descanse, príncipe Joff.
— Príncipe?! Eu deveria ser mais que isso! — Seu grito fez a terra balançar com a força de sua mana. — Em que buraco estamos?!
— Em um ponto seguro, longe da…. Veja por você mesmo.
Joff saiu da barraca e olhou para o horizonte onde a fumaça subia e o brilho vermelho tomava conta do céu atrás das árvores. Ele se aproximou de uma clareira, assistindo aos últimos minutos de Lunara. Caiu de joelhos e as lágrimas escorreram, finalmente ele se comportou como uma criança de onze anos que perderia o lar.
— Como…? Como aconteceu?! … Você me prometeu! Eu fiz tudo o que você pediu. Seu covarde! Fracassado! Desgraçado!
As lágrimas se misturaram com a raiva. Ele socou a grama, inconformado. A fúria contra o próprio pai foi clara.
— Era para você ser minha! Onde você está?! Eu quero! Eu quero! Eu preciso de você!
Ele ergueu o rosto em seu último olhar para a cidade prometida. O fogo consumia tudo. Os dirigíveis caíam, barcos afundavam e a destruição estava por toda parte. Essa foi Lunara aos olhos de Rakei Lall Joff, uma promessa vazia.
Os mesmos olhos verdes, que outrora carregavam o vazio da desesperança, agora miravam o horizonte com a crueza de quem perseguia o destino. Abaixo, o brilho das fogueiras e o estalo dos fogos de artifício animavam a noite na Vila Rhasta, pintando luzes vibrantes que se refletiam no olhar gélido de Joff. Ele sobrevoou a região, ainda distante, observando o vilarejo onde sua jornada pela coroa se iniciaria.
— Eu te vejo. Eu te sinto. Eu sei que você está por perto. Você será minha! Aguarde o futuro rei de Lunara: Rakei Lall Joff!
Rakei Lall Joff era, talvez, o desafiante que a Lamúria esperava. Um vilão encarnado, ambicioso e louco. Não havia misericórdia nele. Cresceu afogado em deveres e promessas, e essas memórias não saíam de sua cabeça, sempre relembrando o passado para guiar o seu presente.
Alguns quilômetros dali, homens se dividiam em esquadrões de quatro membros espalhados pela floresta. Alguns seguiam a cavalo pela estrada principal, entre eles estava Hilton, cuja insígnia prateada refletia qualquer luz que rebatia naquele breu. Eles apertaram o passo e pararam em uma clareira ao avistarem uma vila. Algumas casas estavam destruídas e moradores tentavam reconstruir o que sobrou.
— O que aconteceu? — Hilton perguntou, com sua careca bronzeada sob a luz da lua.
Um dos moradores aproximou-se. O homem, velho e desolado, alegrou-se ao ver os soldados.
— Um Cavaleiro!
— Meu senhor… — Hilton ficou sem palavras para descrever a situação. Ele sabia que chegou tarde, mas questionou o morador. — Onde estão os soldados da vila?
— Saíram há alguns dias para uma investida, mas… — ele olhou para trás, vislumbrando a destruição. — Mas parece que os saqueadores os driblaram e chegaram até nós.
Hilton levantou a sobrancelha, pensativo. Havia algo errado. Os soldados dele também haviam saído e, no momento em que precisavam, não estavam na vila. Uma leve sensação de erro percorreu sua mente.
— Onde está o mensageiro?! — Hilton perguntou às pressas.
— Acho que está com a equipe de Joker, devem estar trilhando pela mata — disse um soldado mais jovem.
— Ei, senhor! — Hilton dirigiu-se ao idoso. — Recebemos a visita de um mensageiro de Laguna. Ele deve ter passado por aqui.
— Sim, ele passou, mas faz alguns dias. Depois disso… — o senhor olhou para o estrago — … aconteceu o ataque.
Hilton arregalou os olhos ao imaginar o que estava acontecendo. Tudo parecia ser um plano dos saqueadores, um mensageiro falso para distrair as defesas. No entanto, a carta tinha o carimbo oficial das forças de Laguna, o que indicava quão elaborado o plano foi.
— Voltaremos imediatamente para Rhasta! E procurem aquele mensageiro agora mesmo!
— Tem certeza, senhor? Os cavalos estão cansados, viajamos um dia inteiro…
— Deixem os cavalos e voltamos correndo se for preciso!
Com o peito apertado, ele sentiu algo terrível. Enganado, traído, caiu em um esquema covarde de pessoas desonestas. A vila que foi destinada a proteger estava em perigo por causa de sua ausência. Hilton deu meia-volta, exigindo o máximo dos animais.
— Gaia, nos empreste sua força. Eu tenho que chegar a tempo!
Pousando um pouco afastados da cidade, os saqueadores começaram a sair, carregando armamentos e canhões. Joff andou até um homem encapuzado que o esperava.
— Senhor Joff — o rapaz retirou o capuz, revelando ser Menk, o mercador. — Eu acho que encontrei o que você procura. Demorou alguns anos, mas finalmente encontrei algo.
Os olhos esverdeados de Joff brilharam e seu sorriso ambicioso estampou-se.
— Minha Lamúria! — disse ele em voz alta.
— Alguns de nós estão cansados — interveio Francis, o homem alto e esguio. — Os elementares de fogo e ar usaram boa parte de sua mana para dirigir.
— E continuem dirigindo! — A voz grave do mestre ecoou. — Começaremos por terra e, em meia hora, eu quero ele voando sobre a cidade!
— Vocês ouviram! Descansem nesse tempo! — Francis repassou a ordem para a tripulação.
Enquanto alguns se preparavam para ir por terra, outros se olharam, recuperando o fôlego para voltar a pilotar algo tão extenuante.
— “Se eu disser que podemos perder por exaustão, perco alguns dentes… Espero que não haja nenhum cavaleiro forte o suficiente nesta vila.”
Francis manteve seus pensamentos quietos, mas a preocupação com o plano era evidente. O jovem mestre, contudo, parecia não se importar.
— Hoje, eu me tornarei rei de Lunara!

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