Capítulo 9 — Cavaleiros cinzas em ação
Algumas dezenas de crianças, muitas delas órfãs, e adultos que não tinham como se proteger foram guiados por Laz, Khalos e Asper. Andando com cuidado, longe das batalhas e espreitando-se pelas paredes, eles avistaram a Guilda, passando por uma torre de vigilância vazia.
— Oh, minha Gaia! — uma criança exclamou alto ao ver o corpo caído com ferimentos de corte. Era um dos soldados de Rhasta.
— Krofter! — Khalos aproximou-se. — Está morto. Eles estão por perto.
— Pense nisso depois. Primeiro, vamos levar as crianças para a Guilda!
Laz comandou a frente e seguiu, enquanto Khalos e Asper analisavam o corpo.
— Ele foi apunhalado — disse Asper após verificar. — Deve ser algum assassino. Fiquem atentos.
— Eu estou! — Khalos encostou as mãos no chão, concentrando-se. A detecção era uma habilidade comum entre elementares de terra, mas Khalos tinha o “faro” um pouco mais apurado que os outros, capaz de contar os passos das crianças e de seus amigos, e entre essas vibrações ele sentiu algo, estava próximo. — Achei você!
Khalos imediatamente olhou em direção a Asper, precisamente atrás dele. Visualmente não havia nada, porém ele confiou em seus instintos e lançou um golpe, uma “Coluna de Terra”, acertando algo e o arremessando contra as paredes. Asper impressionou-se, não sentiu nada se aproximando, mas já entrou em posição de batalha. O alvo era um homem de pequena estatura, usando roupas fechadas com capuz e máscara, trajes dignos de um assassino.
— …Assim que toquei no chão. Você é bom, garoto — o inimigo elogiou, sem surpresas.
Khalos ficou em silêncio, mas Asper não esperou. Ele se impulsionou e correu pelas paredes, atacando de um ângulo que pudesse surpreender o oponente. Asper era um digno materializador, espadas curtas feitas de ar surgiram em suas mãos. Um ataque de cima para baixo foi interrompido pelo katar do mercenário. Os dois trocaram golpes, eram rápidos e ágeis. O jovem conseguiu manter o equilíbrio contra o mercenário, até que este apresentou sua verdadeira habilidade: invisibilidade.
Os dois jovens soltaram um “Hein?!”. A invisibilidade não era algo comum, é até irônico dizer isso, mas eles nunca haviam “visto” alguém invisível antes!
— Onde ele está?! — Asper concentrado, perguntou em voz alta para Khalos, que se mantinha na linha de trás.
— Como ele faz isso?
— Pergunte depois!
Asper, sem tempo para pensar, começou a atacar aleatoriamente em volta, arremessando “Cortes de Ar” para os lados, destruindo cercas, caixotes e arranhando paredes. Khalos concentrou-se em procurar o alvo pelas vibrações no chão.
— Ele deve estar no ar! — gritou o elementar de terra.
— Ele voa?! — Asper olhou para cima, não vendo nada além da escuridão da noite.
— Eu não sei… droga!
O desespero e a falta de experiência foram cruciais. Algo surpreendeu Khalos, uma corda também invisível enrolou-se em seu pescoço e o puxou para cima, mas Khalos foi esperto e criou um degrau de terra, acompanhando o movimento para não ser enforcado. A corda foi arrebentada pelo corte de ar de Asper, mas aquilo não passou de uma mera distração.
Khalos soltou-se e tentou gritar para Asper, mas já era tarde demais. O mercenário estava atrás de seu amigo, nocauteando-o na nuca com um golpe seco e forte. O ar circulou em volta do mercenário, revelando-o. Era um elementar de ar que sumia no vento, essa era a habilidade dele, e Khalos a compreendeu após vê-la pela segunda vez.
— O vento o torna invisível. — Khalos concluiu, encarando o inimigo.
— Os habitantes de vocês são um pouco melhores que os outros. — o inimigo ficou em pé sobre Asper. O gesto pareceu um deboche, mas era precaução para que Khalos não o atacasse por baixo. — Renda-se e eu posso poupar a vida de todos. Você já cumpriu seu objetivo. Por que arriscar a vida?
A voz do mercenário era a de um adulto jovem, provavelmente um prodígio que seguiu um caminho sombrio. Seus olhos, a única parte visível, carregavam um olhar frio que fez Khalos pensar na proposta.
— O que está querendo dizer, seu assassino desgraçado?!
— Se você vier comigo, eu prometo que deixarei as crianças. Levarei vocês dois.
Khalos engoliu em seco, pensando na proposta. Mas como confiar em alguém que matou um soldado apunhalado e pisava sobre um oponente rendido? Ele contornou o medo e respondeu com bravura.
— Eu… eu nunca farei isso!
Pequenos fragmentos do asfalto flutuaram em volta de Khalos. Ele planejou um ataque nas alturas para não ferir Asper, mas o inimigo mostrou-se um vilão sujo, ergueu o corpo de Asper como escudo e avançou, jogando o amigo sobre Khalos.
— Droga!
Ao se levantar, Khalos percebeu que o mercenário já estava invisível novamente. Ele colocou Asper no chão com cuidado e, ao tentar rastrear o inimigo, sentiu uma pontada no peito.
— O quê?! — Um dardo apareceu, surgindo da invisibilidade.
— Ficou preocupado com a nuca e esqueceu de prestar atenção à sua frente — disse o mercenário, revelando-se em cima de um caixote. — Usuários de mana como vocês valem uma boa grana.
Khalos xingou-o e tentou alguns golpes, mas estava enfraquecido por um sonífero potente. Sua visão começou a falhar e seus sentidos diminuíram. Khalos caiu de bruços e, em seus últimos instantes antes de desmaiar por completo, seus olhos se fecharam lentamente enquanto o inimigo se aproximava e Laz, ao fundo, corria em sua direção.
No embate entre Mall e Menk, afastados da praça central, a batalha estendeu-se pelas ruas estreitas. As construções eram grandes, havia concreto por todo lado e a terra era dura, mas suficiente para que conseguissem manipulá-la. O local ficou marcado por rastros de destruição e todo tipo de consequência de um duelo entre dois elementares de terra.
A nuvem de poeira dissipou-se lentamente, devolvendo a visão de ambos. Mall estava a pouca distância, enquanto Menk encontrava-se encoberto por inúmeras serpentes de terra que tentavam imobilizá-lo, contudo, o falso mercador criou espinhos através de sua armadura de terra, fazendo-as cair uma por uma.
— Você me subestima com essas minhocas. Posso te mostrar algo maior que elas!
— Você fala demais.
Mall, friamente, falou apenas o necessário, devolvendo o deboche. Em um rápido movimento com as mãos para ativar sua habilidade, uma serpente abaixo da superfície correu na direção de Menk. Ele percebeu e esperou que ela emergisse do chão, como previsto, ele aguardou o bote e a agarrou com as mãos.
— Estou fazendo isso pelo dinheiro, mas gosto de uma boa luta. Então, vamos parar de fingir e lutar a sério?!
Após esmagar a serpente, ele mostrou sua verdadeira força. Tentáculos de terra surgiram de suas costas a partir da armadura, uma extensão de sua habilidade primária. Os tentáculos o ergueram, quatro deles tinham mais de cinco metros e eram todos pontiagudos.
— A “minha” é maior que a sua! — disse ele, ainda em tom de zombaria.
As investidas dos tentáculos foram rápidas e fatais, destruindo e perfurando tudo o que acertavam. Mall mostrou-se ágil e conseguiu desviar, seja rolando para o lado ou criando paredes para bloquear os ataques. A luta entrou em uma fase de ataque contra defesa, deixando Mall encurralada contra a parede.
— O que foi?! Não consegue usar nenhuma outra técnica?!
Menk atacou-a novamente e, para sua surpresa, Mall não desviou, ela segurou a ponta de um dos tentáculos, o que lhe custou um grande corte nas mãos. A atitude dela levantou questões, mas ele não se atentou a um ponto fraco de sua própria técnica, ficar no alto, longe do chão abria uma desvantagem. Quanto mais distante de seu elemento, mais fraco era o controle.
Ele sentiu uma vibração, algo estava por vir. Tentou recuar, mas Mall, segurando o tentáculo, o impediu. De repente, surgiu uma serpente gigantesca, capaz de alcançar os cinco metros de altura onde ele estava.
— Como não percebi algo tão grande?!
Nos milissegundos durante o bote, ele agiu rápido e desfez o tentáculo preso à mão de Mall, mas não conseguiu desviar. A serpente abocanhou-o e o levou até o telhado, onde ele deslizou entre as telhas até bater em um beiral. Os estilhaços voaram junto com boa parte de sua armadura de terra. Os tentáculos restantes foram gastos para desmanchar a grande serpente. Ele se pôs em pé, um pouco atordoado, e chacoalhou a cabeça para recuperar o rumo.
— Onde ela está?! — ele procurou por Mall até que uma pequena pedra atingiu sua cabeça.
— Estou aqui, bobão.
Mall estava no chão, segurando outra pedra e ameaçando arremessá-la novamente.
— O que quer fazer?! Jogar pedrinhas? — ele devolveu a provocação com um gesto infantil, mas isso lhe deu tempo para analisar sua posição. — “Preciso de mais terra para recriar os tentáculos, mas se eu descer…” — ele reparou no chão se movimentando, cheio de serpentes camufladas à sua espera. — “É uma armadilha!”
— Não sou idiota de pular nesse ninho de cobras! — disse ele após refrescar a mente.
— Percebeu? Eu achei que você pularia.
— Acha que sou idiota?!
— Sim!
Mall tentou provocar, mas Menk, por mais irritadiço que fosse, ainda tinha alguma experiência.
— Não preciso perder tempo com você. Olhe para sua cidade, ela já está condenada! Você tem preocupações maiores — ele apontou para o dirigível que entrava na vila. — Minha missão está completa. Adeus, caipira!
Ao se virar para fugir entre os telhados, ele caiu, uma serpente estava enrolada em sua perna.
— Quando?!
Ele a retirou e a esmagou, mas outra apareceu, vindo de suas costas para os braços, e mais outras foram surgindo de sua própria armadura de terra.
— Estão surgindo da minha armadura?! Como é possível?!
Em poucos segundos, Menk já estava contornado por inúmeras serpentes que nasciam de seu corpo. Ele matava uma, mas apareciam duas, e elas se regeneravam, voltando a se enrolar nele.
— QUE SACO! COMO VOCÊ FEZ ISSO?!
As serpentes no chão começaram a formar uma escada para que Mall subisse até o telhado. Menk ficou imobilizado e caiu de joelhos sobre um monte de terra que, antes, era sua armadura.
— Você embutiu mana na minha armadura de terra… como?
Seu rosto era a única coisa que ele conseguia mover, estava rendido. Mall abaixou-se e pegou a pedra que jogou nele, havia sangue nela.
— O nosso sangue está cheio de mana. Eu só precisava entrar em contato com você.
— Mentirosa! Isso só seria possível se…
— Se tivéssemos níveis totalmente diferentes — Mall completa, assustando-o. — E é exatamente isso que temos aqui. Um mercenário que viveu a vida toda por dinheiro contra uma elementar que treinou a vida inteira para proteger aqueles a quem serve. Sua ganância é menor que minha determinação.
— Quem é você?!
— Alguém que tem a sua vida nas mãos.
Menk engoliu em seco e seu coração acelerou, a morte aproximava-se com passos lentos.
— Diga-me quem são vocês e, talvez, pouparei sua vida — Mall, com um olhar aterrorizador, tentou extrair informações.
— Como você disse… sou apenas um mercenário em busca de dinheiro!
Esse pouco tempo foi o suficiente para ele acumular forças. Ele abriu os braços, criando espaço para socar o telhado, sua mana fluiu através da vibração e chegou ao chão.
— Grande Tremor!
Mall menosprezou o adversário e isso custou caro. O edifício começou a balançar e, em poucos segundos, o teto desabou. Ambos foram engolidos pelos destroços.
A poeira esvaiu-se e ela ficou de pé, protegida por serpentes. Menk aproveitou a brecha e sumiu, fugindo da luta para se recuperar.
— Ele ainda tinha mana… tsc.
Ela olhou para cima e viu que o dirigível não estava a passeio. Ele voava baixo, disparando canhões e causando o máximo de destruição possível.
— Preciso resolver isso.

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