Capítulo 10 — O ar da protagonista
No silêncio das águas escuras da gruta, Sue boiava com os ouvidos mergulhados e a mente distante. Seu rosto expressava-se de diferentes formas, experimentando emoções distintas, viajando entre sonhos distantes.
Ela sorriu ao se ver carregada no colo por seu pai biológico, Ell. O cabelo dele era castanho-claro, liso e curto. Os olhos eram azuis brilhantes, símbolos da família Dell. A pele parda clara, já marcada pelo sol, evidenciava uma vida de aventuras e batalhas.
Ell andava por uma escada transparente, cada degrau de vidro era vívido e brilhava a cada passo dado. A paisagem à frente era a Floresta de Cristal Lunar. A filha encantava-se com o brilho do lugar e sua imensidão profunda. O ar frio das profundezas trazia o cheiro perfumado das plantas, misturado à umidade local. Rakei Dell Sue sentia cada sentido em sua pele, aquele momento foi real.
— É tão lindo! — exclamou a criança, encantada, com os olhos brilhando.
— Este é o nosso tesouro, minha filha — respondeu ele. — É o nosso dever preservar este lugar.
Ela olhou para baixo, mirando o escuro e imaginando a profundidade.
— Até onde vai?! Podemos ir lá?
— Tão profundo quanto o mistério dos cristais. Quando você crescer, poderemos explorar juntos.
A curiosidade palpitou na criança, que insistiu.
— Mas por quê?!
Ela se livrou do colo e correu pelos degraus, pulando em terra firme, onde vários cristais cresciam como árvores. Eles refletiam a imagem da garota, que se divertia com os reflexos tortos, alguns a aumentavam, outros a faziam ficar fina como uma vareta. Ela correu, escondendo-se do pai.
— Bu! Te achei.
O reflexo dos dois a levou para outro tempo, mais acima, no castelo. A Lamúria flutuava em um feixe de luz, sob um altar de Cristal Lunar. Vários anciões observavam o combate de dois jovens: Ell contra Kall. A luta mostrou-se feroz, com magias e movimentos fluidos, os dois dançaram até um cair. Ell saiu vencedor.
— “O que está acontecendo? Por que estou vendo essas coisas?”
Ell aproximou-se do altar, onde os anciões o esperavam.
— Pela tradição e ensinamentos da Deusa do Luar, Lhillinara, você foi o escolhido para ser o Rei de Lunara. O Rei do Luar tem que ser forte para aguentar os pesares do reino. O Rei do Luar tem que ser digno para honrar o sangue de sua espécie. O Rei do Luar tem que ser esperto para alimentar o seu povo. O Rei do Luar tem que ser forte para proteger nossa terra. Rakei Dell Ell, você aceita ter seu corpo imortalizado em nossas florestas?
— Sim!
— Você aceita entregar suas lembranças para seu povo?
— Sim!
— Você aceita ter sua alma eternizada na coroa?!
— Aceito!
— Amor e ódio. Alegria e tristeza. Inveja e admiração. Bem e mal. Passado, presente e futuro. O Rei do Luar é guiado pela razão, lembranças e sentimentos. Não é só uma simples espada. A Lamúria é o peso de um reino. A Lamúria é o peso das almas de seus antepassados. A Lamúria é a emoção de suas conquistas. A Lamúria é o sentimento de suas perdas. A Lamúria é o flagelo de suas escolhas. Você deixará de ser só um para ser todos. Rakei Dell Ell, você aceita a Lamúria de Lunara?
Ell retirou a espada do altar sem que ela o recusasse.
— Para ser concebido pelo poder, o sangue do vitorioso será selado na Lamúria.
Ell raspou a mão na lâmina e ela respondeu brilhando. O azul refletiu-se em seus olhos.
— Lhillinara, ilumine o novo Rei de Lunara: Rakei…
— PAI! — Sue abriu os olhos, ela estava chorando, encantada, em um misto de emoções.
Conseguiu ver o rosto do pai biológico depois de anos.
— Ell… eu consegui ver você…
Ainda em sua embriaguez emocional, ela ficou pensativa, sem palavras, apenas olhando para cima, para as rochas escuras do teto, com a água pingando em sua testa. Pensou no que acabava de vivenciar.
— “É isso que é a transição?”
Tratava-se do fenômeno em que a espada conversava com seu portador. Ela já vivenciou aquilo algumas vezes, mas de forma leve. Mas agora foi diferente, como um golpe em sua testa, deixando-a atordoada. Caminhou por lembranças e experimentou sentimentos que não eram seus. Imaginou que esse era um dos fardos de carregar a Lamúria.
Ela respirou fundo e notou algo, tremores faziam as gotas caírem com mais frequência, e barulhos estonteantes vinham de fora. A água vibrou de forma incomum.
— O festival! — falou em voz alta, imaginando há quanto tempo estava ali.
Saiu da água nua, enrolando-se em uma toalha, e olhou para a Lamúria.
— É melhor eu não andar com você no meio deles…
Ela parou a frase após outro tremor, estranhou o impacto, que pareceu exagerado para um simples festival.
— Isso foi um canhão?!
Ela apressou-se. O vento a secou imediatamente. A roupa do festival estava pronta, mas ela escolheu o traje dos Cavaleiros Cinzentos. Entre sua espada de metal e a Lamúria, não pensou duas vezes, agarrou a bainha herdada pelo pai e a enrolou no lençol de costume. Ao sair de casa, surpreendeu-se com a fumaça e o fogo que começavam a tomar conta da Vila Rhasta.
— Céus! O que está acontecendo?!
A algumas ruas de distância, sua mãe aflita, corria apressadamente, pensando no bem-estar de Sue. Ela parou em uma bifurcação, um caminho levava para as plantações e o outro para a floresta, onde ficava sua casa.
— Eu sei que estão me seguindo! — Hilla gritou, percebendo a perseguição.
Entre as sombras, surgiram duas pessoas, Lucy, a loira com a cicatriz no rosto, portando uma espada de duas mãos, e ao seu lado, Francis, o homem de cabelos longos, alto e esguio.
— Essa é a mãe da Rakei?! — Lucy perguntou ao parceiro.
— Segundo o mercador, é. — afirmou ele, com a voz sem vida.
— Eu já disse que é tudo um engano! — Hilla insistiu, tentando esconder a verdade.
— Éhh… Sempre dizem isso — Lucy ironizou. Sendo ou não verdade, já não havia como voltar atrás.
Ela posicionou-se à frente de Francis. Sua espada de duas mãos passou a emanar uma aura esverdeada, que escorria por sua armadura de couro, ombreiras e tornozeleiras.
— “Encantamento e Fortificação…” — Hilla sussurrou sobre as habilidades da inimiga.
Lucy sorriu ao ver Hilla aceitando o duelo, ela gostava daquele estilo de vida. Não perguntou mais sobre a filha, pois a resposta já não servia para nada. Ela balançou a espada e disparou um Corte de Vento, Hilla bloqueou com os braços, devidamente protegidos por mana, mas, mesmo assim, sentiu o golpe, um fino corte avermelhou suas mangas. Lucy não cessou, continuou com os mesmos golpes, um atrás do outro, aproximando-se até ficar ao alcance da lâmina. Não havia como se afastar, as duas estavam próximas. Lucy sorriu ao se imaginar cortando Hilla ao meio, porém já se encontrava dentro do Campo de mana da elementar.
— Que a bênção do ar me toque… Círculo Lunar! — Cochichando para si mesma como uma prece, Hilla assoprou a mão, abrindo um círculo invisível que envolveu as duas.
— O que está falando?!
Lucy, sem entender, abaixou a espada bruscamente, mas Hilla mostrou-se mais rápida. Com gestos das mãos, o ar respondeu e subiu rigorosamente, como se a gravidade se invertesse. Lucy foi para os ares, com os pés balançando, tentando alcançar o chão sem largar a arma.
— O que é isso?!
— Impacto! — Hilla balançou o braço para baixo.
Desta vez, Lucy desceu violentamente chocando-se contra o solo. Ela gemeu e o sangue saiu de seu nariz. Tentou levantar, mas a pressão do ar sobre ela mostrou-se tão absurda que nem mesmo aquela mulher forte conseguiu vencer.
— Desgraçada… — Lucy continuou resmungando, até ouvir o grito de seu parceiro.
— Saia daí! É um campo elementar! — gritou Francis, criando chamas nas mãos e as lançou. O fogo desacelerou ao entrar no campo e Hilla o encobriu com ar, isolando as chamas em uma pequena esfera. Nesses segundos de distração, Lucy conseguiu se levantar e, prestes a desferir um golpe, foi surpreendida, Hilla girou e redirecionou o ataque de fogo contra o peitoral da loira, lançando-a para o lado de Francis.
— Você está bem? — O elementar de fogo ajudou a parceira a levantar, mas ela não deu ouvidos.
Lucy, ainda segurando a espada, levantou-se com fúria no olhar.
— Me fortifique agora! — gritou ela no ouvido de Francis.
Ele negou, mas ela o agarrou pelo colarinho e ordenou.
— Faça agora ou eu te mato aqui mesmo!
Francis respirou fundo e cedeu. Ele encobriu Lucy em chamas que, em vez de queimar, adentraram a pele e a curaram. Porém, houve uma consequência, Lucy entrou em estado de frenesi. A adrenalina correu por seu corpo e sua mana agitou-se, expandindo o ar e derrubando o próprio parceiro. Ela espumou de raiva e rugiu como um animal.
— Aaarrrrrgg!
Hilla questionou aquela atitude e entendeu que Francis tinha a habilidade de fortalecer e curar outros. A cura era aceitável, mas a fortificação em outras pessoas mostrava-se rara, o que explicava as consequências.
— EU VOU MATAR ESSA COROA!
Em alta velocidade, Lucy aproximou-se, mas a saqueadora deu um passo em falso e recuou, balançando a espada e arremessando um Corte de Vento a curta distância. Com o suporte de Francis, o golpe de Lucy ficou mais forte e rápido, causando ferimentos em ambos os braços de Hilla, o ataque ignorou a pressão do campo elementar. Lucy continuou sem cessar, correndo em círculos e arremessando cortes incessantes. Aos poucos, Hilla foi cedendo. Então, Lucy pulou com tanta intensidade que o chão rachou, apontando a espada para baixo com o ar circulando visivelmente pela lâmina.
— Você é minha!
Pelos pés, ela pegou impulso no ar e, como uma flecha, foi em direção a Hilla, de cima para baixo. O ataque perfurante estourou a “bolha” e chocou-se contra o chão. A onda de choque foi tão grande que Francis encobriu os olhos, protegendo-se dos estilhaços lançados para todos os lados.
Sue corria desesperada, pulando cercas e obstáculos. Seu coração estava apertado por um mau pressentimento. Ao chegar às ruas e virar a esquina, interrompeu bruscamente. O coração, que já estava acelerado, explodiu. Seus olhos brilharam em chamas, os dentes rangeram e o ar começou a se acumular em sua mão. Imperdoável, impensável e inadmissível!
A espiral de ar em sua palma era tão densa que fragmentos de poeira e areia orbitavam o centro. Ela impulsionou-se com as pernas, carregou a habilidade até o limite e a lançou como um jogador de beisebol. O canhão de ar percorreu dez metros sem desacelerar, carregando um som desesperador, o grito de uma filha.
— SAIA DE PERTO DA MINHA MÃE!!!
Lucy estava babando, com os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas. Drogada e anestesiada pela fortificação de Francis, mas aquilo não a deixou burra. Ela reparou que Hilla a ignorava, olhando para trás de si. Francis também estático ao ver que algo estava atrás dela.
— “O que as bestas estão olhando?” — Lucy pensou e virou o rosto.
Uma esfera de ar voou em sua direção e, logo atrás, duas esferas azuis brilharam. Lucy sentiu algo naquele olhar, ele transmitiu uma sensação tão forte que ela pensou na morte. Não teve tempo para se defender, gritar ou questionar. Foi engolida pela espiral, girando e capotando, passando como uma bala de canhão ao lado de Francis. Lucy só parou ao se chocar contra uma parede dura, largando a espada no meio do caminho.
Francis continuou olhando fixamente para Sue, reparando nos detalhes, na idade e no que ela acabou de fazer. Definitivamente era quem procuravam.
— Sua… vaga… — nem as palavras sujas de Lucy conseguiram sair. O sangue engasgou-a, fazendo-a cuspir.
— Mãe! — Entre a raiva e o amor, Sue instintivamente preocupou-se com Hilla. Ela ficou apreensiva ao ver o sangue no corpo da mãe.
— Eu estou bem — Hilla sorriu naquele momento difícil. O rosto de Sue acalmou toda a catástrofe em volta. Ela estava bem!
— O QUE ESSES MALDITOS FIZERAM?! — Os segundos de paz foram rompidos pelo grito de Sue. — EU VOU MATAR VOCÊS!
Em um balançar do braço o vento chicoteou os dois. Não foi um golpe planejado, era apenas a mana escapando de seu corpo por falta de controle, suficiente para demonstrar o poder da jovem. Francis ficou paralisado e ignorou a parceira, que se levantava com dificuldade, apoiando-se na espada.
— É… ela — ele murmurou.
Lucy finalmente conseguiu ficar de pé ao lado do parceiro. Os dois pararam, olhando para Sue ao mesmo tempo. Ela parecia uma fera protegendo sua linhagem, mas, daquela vez, era a filha protegendo a mãe.
— Se é ela, vamos pegá-la! — Lucy disse com esforço.
— Não temos a menor chance disso! — Francis retrucou imediatamente. — Vamos fugir e avisar o mestre!
— Quem são vocês… — a voz de Sue saiu engasgada, ela não sabia se chorava ou gritava.
Escolheu avançar, mas com cautela. Sue pensou em chegar perto e descarregar o ar com toda a força que tinha, carregou a mana em ambas as mãos e deu um passo à frente. Os dois recuaram um passo, mas Hilla a conteve, segurando os braços da filha e suplicando para que não fosse.
Ao olhar para a mãe, Sue percebeu que ela não sorria mais, naquele momento encontrava-se preocupada. O sangue em suas roupas despertou sua ira novamente.
— Não!!
As emoções superaram a lógica e ela avançou. Francis engoliu em seco, com as pernas tremendo, enquanto Lucy a obrigava a usar a cura. Sue ergueu os braços, prestes a soltar um “duplo canhão de ar”, mas um estrondo no céu a interrompeu. O dirigível apareceu sob o som de canhões e chamas. Um dos disparos acertou o local onde estavam, levantando uma cortina de poeira. Sue imediatamente dissipou-a com o poder do vento, mas já era tarde, Francis e Lucy aproveitaram a brecha para fugir.
Sue, com as emoções à flor da pele, gritou para o alto. O poder em suas mãos dissipou-se pelo ar, carregando o seu som. Para ela, um desabafo, para seus inimigos, uma promessa.

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