O dirigível sobrevoava as casas, ainda distante da praça central. Rolly observava, pensando em como derrubar “aquela coisa”. Olhou para as torres de vigilância, algumas tombadas, outras vazias. Olhou em direção à sua casa, mas as cortinas de fumaça no meio do caminho tampavam-lhe a visão.

    — “Raios! Estão em todas as partes! Minha família ou as crianças, por onde devo ir?!”

    Em meio à indecisão, um cavalgar chamou sua atenção. Um trote lento surgiu em meio à penumbra, um rapaz sozinho, ninguém menos que Rakei Lall Joff. Ele observou seus soldados derrotados e Rolly, ainda com fôlego e sem grandes machucados.

    — “Um inimigo? Muito jovem para estar nesse caminho, mas se não é um dos nossos…” — Rolly pensou ao se aproximar. Chegando perto, perguntou em voz alta. — Você é o líder deles?

    Joff riu, como se estivesse impressionado por Rolly ter acertado.

    — Qual o seu nome, velho Cavaleiro? — Joff perguntou calmamente, mas, antes de Rolly responder, emendou outra pergunta. — É você que me guiará até a minha coroa?

    — Hum? — Rolly ficou completamente confuso. — Do que está falando, rapaz?

    Joff desceu do cavalo e deu um tapa na garupa, um sinal para o animal se afastar. Pelo menos com os animais ele tinha compaixão.

    — Eu perguntei… Onde está a minha coroa?!

    Elevando a voz, raios surgiram de seu corpo, criando uma onda de choque de poucos metros. Foi o suficiente para Rolly entender.

    — És um inimigo — concluiu o experiente guardião. — Eu não sei de destino ou coroa nenhuma. Mas, se está com eles, é meu inimigo!

    Como se a água fosse viva, ela rastejou em direção a Joff, cortando o chão em seu caminho. O jovem elétrico chutou, rebatendo o ataque.

    — “Como pensei. Seu Encantamento é alto o suficiente para proteger de ataques como esse” — Rolly analisou o oponente no primeiro ataque, preparando o segundo passo.

    Naquele momento, não só por terra, mas como flechas flutuantes, a água atacou Joff. Ele se defendeu com os braços e pernas, rebatendo tudo, mas não saiu ileso, marcas de pancadas começaram a aparecer, deixando Joff levemente irritado.

    — Por que estou sendo pressionado?! 

    Joff incomodou-se com sua posição na luta e, em uma explosão de fúria, arremessou raios pelas mãos em direção a Rolly, obrigando-o a erguer uma parede de água. Os raios persistiram a ponto de quase furarem a defesa de Rolly.

    — “Já vi que é um desses jovens talentosos. Talvez seja um bastardo de sangue real.”

    Para sua surpresa, Joff surgiu pessoalmente, rasgando a barreira de água com as mãos encantadas de eletricidade, sorrindo como um louco e gritando. 

    — Te peguei!

    — Raios!

    Joff conseguiu pisar no chão e se posicionar para socar Rolly, que não conseguiu se afastar o suficiente. O soco mostrou-se iminente, mas, a centímetros de acertá-lo, o corpo de Joff foi parado.

    — O QUÊ?! — Ele olhou para as pernas, grudadas no chão como se a água fosse cola.

    — Água Grudenta! — anunciou Rolly. Emendando outro golpe, ele movimentou as mãos e a água quebrou o chão, erguendo Joff como uma espada gigante. — “Esse rosto não é estranho… eu o conheço de algum lugar?” — pensou Rolly, analisando o oponente.

    Após a água cair e a visão do campo de batalha retornar, um brilho amarelo surgiu à frente de Rolly. Joff estava envolto em um círculo amarelo, uma proteção o deixou firme na terra, sem se ferir.

    — É claro que não seria fácil — Rolly murmurou.

    — Você é bem melhor que meus soldados. Ajoelhe-se para mim e seja um dos meus súditos! — Joff, agora sério, apontou o dedo para Rolly.

    — Eu já tenho um rei a quem servir!

    — Então morra servindo-o!

    Ao pé de Joff havia uma espada caída de um dos saqueadores, ele a pegou com estilo, jogando-a com os pés para a mão. A lâmina começou a brilhar em amarelo, um encantamento. Com as pernas energizadas, ele conseguiu passar pelas armadilhas de Rolly, chegando perto para desferir os golpes. Com a espada, ele conseguiu cortar as barreiras de água, obrigando Rolly a desviar até levar alguns cortes de raspão.

    Mas Rolly sentiu algo submerso na água. Lançando-a em sua mão, uma espada igualou o combate. A trocação continuou franca, lâmina versus lâmina, magia contra magia. Rolly usava a água para a mobilidade, enquanto Joff usava os raios ofensivamente. Alguns ricochetearam na própria água, atingindo Rolly sem o derrubar.

    — Ricocheteou?! Nunca vi isso na vida! — exclamou Rolly, mas não houve tempo para pensar. Joff pulou em sua direção, sedento por batalha.

    As lâminas se cruzaram, ambas encantadas. Rolly, pressionado por estar por baixo, pensou rápido e largou a própria espada, fazendo Joff passar por ele, então o desarmou e o prendeu em um globo de água.

    — Prisão de Água!

    Porém, diferente de outros oponentes, Joff era um Elementar de Eletricidade. Seu elemento surgia do próprio corpo, ele expandiu a mana em forma de eletricidade, rasgando a Prisão de Água, arremessando Rolly ao chão.

    — Estou gostando de dançar com você, velho! Quem é você?!

    Rolly levantou-se e fez uma cara emburrada, algo raro para ele.

    — Chega! — Joff o ouve com atenção. — Já estou farto de me chamarem de velho! Eu mal tenho cinquenta anos e posso chegar tranquilamente até os cem!

    Um silêncio constrangedor pairou sobre os dois. Simplesmente do nada, Rolly se estressou com o insulto, ele não se sentia velho, e suas palavras tinham razão. Ele estava inteiro e tinha uma vida longa pela frente. Suas palavras surtiram efeito, fazendo Joff rir, um riso sincero acompanhado de palmas.

    — Hahaha! Bravo! Está bem! Experiente guardião das águas. Como devo chamá-lo?

    Joff familiarizou-se com as reações aleatórias de Rolly, talvez por ser alguém que não seguia a normalidade, ele se sentiu familiarizado.

    — Eu me chamo Rolly Manfroi. E você, guri?!

    — Para ter o privilégio de meu nome, se ajoelhe para mim! 

    — Nunca! — Rolly retrucou. — Eu já disse que tenho um rei a quem servir!

    — Rei de Rusfield? Você não parece ser daqui… Tanto faz! 

    Joff ergueu seus lábios, mostrando os dentes em um sorriso confiante.

    — Eu sou o rei prometido e terei minha coroa. Ela está neste lugar. Agora, Rolly Manfroi, onde está a minha coroa? Onde está a minha Lamúria?!

    — Lamúria… — Rolly cochichou baixo. Ele abalou-se com aquela palavra. Imediatamente pensou em sua filha. — “Estão atrás dela… A coroa dele? Será o rapaz um Rakei?”

    Rolly não teve tempo para pensar e negou as palavras de Joff. — Você se enganou. Aqui não é Lunara!

    Rolly colocou-se à frente da situação. Independente de quem o rapaz fosse, Rolly tinha uma obrigação, proteger sua família! Ele começou a concentrar uma técnica poderosa que não utilizava há muito tempo. A água começou a se acumular em sua volta, ganhando forma. Garras, dentes e um corpo alongado, logo, Rolly estava imerso dentro da criatura.

    — Meu golpe mais poderoso, criado para proteger quem eu amo! Forma de Água: Tigre!

    Rolly transformou-se em um robusto felino de mana e água. Joff exclamou, elogiando a performance, uma técnica daquele nível não era para qualquer um.

    — Oh… — Joff surpreendeu-se, mas manteve-se sem medo. — Isso é mais que um encantamento ou fortificação… Isso é imersão?! 

    Sem tempo para teorias, o jovem Rakei não ficou parado e, após vislumbrar a técnica de Rolly, conjurou algo perigoso. Com as mãos vazias, longe da espada metálica que ficou no caminho, ele criou uma com seu próprio elemento, uma espada de eletricidade que brilhava, emitindo raios e faíscas.

    — “Não pretendo revelar minha identidade. Meu segredo será meu triunfo.” — pensou Joff ao concentrar sua mana.

    O felino ruge e avançou em alta velocidade. Os passos mostraram-se pesados o suficiente para rachar o chão. Joff segurou a espada brilhante, gritou avançando. Os dois se trombaram. A espada rasgou a camada de água, mas a “patada” do Tigre foi tão forte que derrubou Joff, quebrando o solo e erguendo um turbilhão de água e terra.

    Um ataque ou poucos segundos, era tudo que Rolly conseguia fazer naquela forma.

    A água caía em gotas enquanto a poeira se dissipava. Em pé, Rolly encontrava-se em sua forma natural. A água escorria pelo corpo, levando um pouco de sangue do seu peitoral cortado. Sua forma de Água era ofensiva e defensiva, o que diminuía danos que poderiam ser fatais. Ele olhou para o corpo de Joff, caído de olhos fechados.

    — Acabou — proferiu o vitorioso que não comemorava. Ele juntou as mãos e rezou — Que Gaia te recolha e purifique sua alma. Vá em paz, garoto.

    Mesmo sendo um inimigo, Rolly era um defensor da vida, ficou triste por um jovem talentoso ter escolhido tal caminho. Ele se virou e saiu da cratera. De longe, avistou Sue e Hilla apressadas. Elas estavam distantes, aproximando-se da praça central. As duas gritavam algo, mas o som chegou turvo aos seus ouvidos, talvez pelo cansaço misturado aos sons alheios.

    — Minha princesa! — ele soltou em tom baixo, contente pela segurança delas.

    — Pai! Pai! Atrás de você! — o grito de Sue apontavam uma preocupação que Rolly não enxergou.

    — Ham? 

    Ele não entendeu. Deu mais um passo e, ao ver Sue apontando, sentiu algo, uma espetada nas costas. A espada incandescente de Joff atravessava seu peito, e o sorriso maléfico do inimigo intensificou-se.

    — Muahahaha! Seu idiota! Nunca dê as costas para seu inimigo!

    — Como?!

    Rolly caiu de joelhos, pensando no que errou. Ele o acertou em cheio, seria uma técnica defensiva? Joff esquivou? O que raios aconteceu?! Ao olhar o reflexo da água, Rolly entendeu tudo, o jovem loiro estava “descascando”, farelos de areia escorriam pelo corpo dele. Era uma armadura do elemento terra recobrindo seu corpo.

    — Forçou-me a revelar a minha identidade! — gritou Joff. — Sinta-se honrado em morrer pelas mãos de Rakei Lall Joff!

    — Um… Rakei? — Rolly exclamou. Naquele momento entendeu os delírios do rapaz, seu rosto familiar e, principalmente, o controle de mais um elemento natural, só Rakeis conseguem tal proeza.

    Estirado no chão, o sangue escorria pela terra. A visão começou a girar e, ao ver Joff erguendo os braços para o golpe final, um tremor atingiu o local. “Mãos de terra” surgiram, acertando o jovem e lançando-o para longe. Hilton e seus cavaleiros haviam retornado.

    — Rolly! Rolly! Não desista! — Hilton ajoelhou-se ao lado dele. — Vamos, amigo, não feche os olhos!

    — PAI!! — Sue deslizou em lágrimas.

    — Minha… princesa — ele tentou dizer algo, mas as palavras saíram fracas. — Você está… com ela… — Ele olhou para a Lamúria, que caiu no chão, desenrolando-se.

    — Não diga mais nada! Guarde suas forças…

    — ROLLY! — Agora foi a vez de Hilla cair chorando, ajoelhando-se e acariciando seu amor.

    Mãe e filha choraram incansavelmente, ignorando a bagunça em volta. Rolly tentou enxugar as lágrimas de Sue.

    — Minhas queridas, vocês foram uma bênção de Gaia na minha vida… eu pude ver o rei de Lunara… novamente.

    — Por favor, pai, não se vá! — Sue apertou a mão dele enquanto Hilla tentava, inutilmente, estancar o sangramento.

    — Ainda tenho que brigar com você, seu teimoso! Como pode deixar essa bagunça?! 

    Hilla tentou mantê-lo acordado, mas Rolly sabia que o fim estava chegando.

    — … Eu sempre… faço bagunça… — ele sorriu, forçando um riso. Ao olhar para Hilla, lembrou-se de quando a conheceu, em um festival na praia. Lembrou-se das roupas, do colar de flores que deu a ela. — … Sempre foi para chamar sua atenção. — Sua voz saiu fraca. — Você era brava e eu… o tonto.

    — Você ainda é! — Hilla tentou rir, mas o riso foi encoberto pelas lágrimas.

    Ele olhou para Sue, vendo-a como uma rainha de Lunara. Talvez já estivesse delirando. Ele apertou a mão dela, olhou nos seus olhos e, lembrando-se das palavras de Ell, cantarolou.

    — Oh, Lhillinara, Deusa do Luar… abençoe aqueles que sobreviverem… guie aqueles cujo coração necessite de sua luz…

    — Não!! Pare, por favor!

    Sue lembrou das palavras, foram as mesmas que Rolly cantou sobre os últimos momentos de Ell. Ele não parou, com a voz fraca e falhando, esforçou-se:

    — Para você, minha querida filha, o meu amor e minha oração… Deixo para ti… a minha esperança… o meu amor… e a minha… vida.

    Os olhos de Rolly fecharam-se enquanto ele olhava para suas amadas uma última vez. Uma morte ao lado delas. ele não poderia desejar algo melhor. Seus olhos não se abriram e seu sorriso ficou eternizado em seu rosto.

    — Paaaaaiii!!!

    Não só Sue como Hilla gritaram uma última vez. Uma despedida dura e traumática. Um filme passou pela cabeça de Sue, desde quando encontrou Rolly na caravana fugindo de Lunara até quando ele apresentou a Lamúria para ela. Rolly representou a mudança de vida da jovem, o aprendizado e o amadurecimento, o símbolo que Sue guardaria para sempre em sua vida. 

    Rolly Manfroi foi um verdadeiro pai para Sue. Um outro pai que desapareceu, que foi embora, morto pelas mesmas causas.

    — Não aceitarei!

    Sue ergueu-se no exato momento em que uma voz indigesta se levantou.

    — Minha Lamúria! 

    Gritou Joff, aproximando-se lentamente, machucado, mas não derrotado. Seus olhos brilharam ao ver a Lamúria desenrolada, apenas um pedaço azul da bainha à mostra foi o suficiente para ele ter certeza. — Finalmente te encontrei!

    O som daquela voz, a ambição e a maldade daquele ser calaram o choro de Sue. Ela levantou-se com as mãos ensanguentadas pelo sangue de seu pai, esfregando-as na terra antes de empunhar a Lamúria.

    — Seu desgraçado… Eu vou te matar!

    O eco de seu grito chamou a atenção de todos, ofuscando o som das batalhas pela cidade, como se o mundo parasse para olhá-la naquele momento. Joff sentiu algo, nunca viu ninguém olhá-lo como uma presa. O jovem acostumado a ser o caçador encontrava-se do outro lado agora.

    Sue retirou a Lamúria da bainha, ignorando o ardor. A lâmina azulada brilhou sem riscos ou defeitos, uma peça perfeita de cristal lunar. Ela raspou a mão no fio e sangrou. Seu sangue misturou-se à Lamúria.

    — É sangue que você quer?! Então tome-o e agora me conceda a droga do poder!!

    Ela lembrou-se das palavras da própria Lamúria em seus sonhos. A espada brilhou e Sue ergueu-a em direção ao céu. O vento circulou por ela e um acúmulo de mana se iniciou, algo grande estava por vir.

    — Ei! Você não pode fazer isso! Ela é minha! — exclamou Joff. — Eu te desafio!

    As palavras de Joff pareceram em vão perante o momento. Os olhos azuis de Sue brilharam no mesmo tom da Lamúria e algo extraordinário aconteceu, chamas se juntaram ao ar rodeando a espada. Aqueles que não sabiam da identidade real de Sue surpreenderam-se.

    Ar e fogo circularam a lâmina, fundindo-se em um elemento só. Seu olhar, cheio de vingança, mirou o rapaz loiro. Sua mente encontrava-se ofuscada por uma névoa negra chamada ódio. Uma palavra veio à tona e ela gritou ao brandir a arma.

    — DE… DE-DESASTRE!!

    Um golpe devastador foi lançado, uma rajada de ar e fogo que rastejou pelo chão até chegar a Joff. Ele ergueu uma parede de proteção de terra, mas o Desastre, um golpe original dos Rakeis, mostrou-se tão rápido e forte que engoliu a barreira, explodindo em um redemoinho de fogo.

    Todos olharam abismados com o poder. O clarão foi tão forte que alguns precisaram fechar os olhos para não se machucarem. Hilton ergueu uma proteção de terra para proteger a si mesmo e a Hilla dos destroços que voaram com o impacto.

    Sue, com a espada tocando o chão, observou o rastro causado pelo golpe, uma fenda enorme no meio da cidade e uma nuvem de fumaça que encobria a visão ao fundo. Ela ajoelhou-se, olhou para o lado e viu sua mãe e o corpo de seu pai. A tristeza permaneceu em seus olhos azuis.

    Os cochichos foram surgindo enquanto a fumaça dissipava aos poucos, perguntando o que aconteceu, como ela fez e se realmente aquela era Suzi ou outra pessoa. Mas um som em particular chamou a atenção. Surgindo da névoa empoeirada, ele apareceu.

    — Sua… sua… usurpadora…

    Joff ainda estava vivo. Usou o restante de suas forças naquele golpe defensivo, mas ainda assim foi atingido pelo impacto. Metade de seu cabelo estava queimado, sua pele borbulhava e a roupa encontrava-se grudada ao corpo. Ainda assim, tinha forças para ficar em pé. A força de sua ambição o movia, despertada pela insanidade.

    — Ele ainda está vivo… Impossível — comentou Hilton.

    Sue levantou-se e apontou a espada para ele. Os olhos voltaram a se preencher com o desgosto da raiva, ela deu alguns passos, mas as pernas fraquejaram, igualmente quando criança, o Desastre e o abalo emocional influenciou seu estado físico. Mesmo assim, ela continuou. Ignorou os gritos da mãe, ergueu a espada novamente e começou a conjurar o golpe.

    O vento acelerou e a rodeou. Ao dizer as primeiras sílabas, algo a interrompeu como uma buzina no céu, o dirigível apareceu destelhando casas. O veículo encontrava-se em chamas, planando baixo com cordas jogadas. Pendurada em uma delas estava Lucy, gritando e agarrando seu mestre.

    — Mestre Joff!

    Sue ainda tentou correr, mas não alcançou. Sentiu-se culpada e incapaz. As lágrimas caíram e a única coisa a se fazer foi gritar enquanto Joff ria e jurava vingança.

    — Eu voltarei! Essa espada é minha!

    Sue, enfraquecida, viu-o ir embora. Suas palavras saíram sem força.

    — Desgraçado! Volte aqui!… Volte…

    Sua vontade era correr e impedir a fuga, mas já não restava nada a fazer a não ser ver o assassino de seu pai partir com o mesmo sorriso que usou para matá-lo.

    Sue usou suas últimas forças para gritar, um desabafo sincero, sem medo de mostrar sua fraqueza. O grito foi tão intenso que tocou a todos que assistiam, compartilhando sua sensação de impotência. A dor de Sue contagiou a todos.

    O dirigível foi-se, deixando um rastro de destruição. Os saqueadores perderam a batalha e retiraram-se. A maior parte morreu nos combates e, com a volta de Hilton e seus cavaleiros, a Vila Rhasta saiu triunfante. Uma vitória amarga, com sabor de derrota, onde a nuvem encobria a carnificina daquela noite. 

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