Em uma sala de hospital comum, iluminada apenas por luzes brancas e enjoativas, quase tudo parecia branco… Até as roupas do paciente.

    Ao lado da cama, uma família permanecia em silêncio.

    Um homem forte, com cachos volumosos que caíam sobre sua pele negra. Seu olhar era afiado como se pudesse ver através das pessoas.

    Uma bela mulher, com seus longos cabelos que caíam pelas costas como uma cascata escura, alcançando seus quadris.

    A pele clara contrastava com a do pai. Seu olhar era calmo e gentil; suas pupilas brilhavam como âmbar. Seu rosto revelava uma vida longa e experiente.

    Sua mão repousava sobre o peito do jovem desacordado. Havia uma garota entre o casal.

    Seus cabelos castanhos estavam presos em uma longa trança que descia por suas costas, e sua pele parecia uma mistura da de seu pai e de sua mãe.

    Nada quebrava o silêncio, apenas soluços e alguns lamentos.

    De repente, a bela mulher falou com uma voz pesada. Sua maquiagem, antes discreta, estava borrada pelas lágrimas.

    — Filho, por favor… acorda… — olhando para cima com lágrimas descendo seu rosto — Deus, ajude meu filho… pelo amor, eu nunca te pedi nada.

    Ao seu lado, um homem de postura firme mantinha a mão em seu ombro. Apesar da voz calma, seus dedos tremiam levemente.

    — Querida, Miguel é forte… Ele vai acordar.

    Sua voz soava controlada, mas seus olhos denunciavam o desespero que tentava esconder. A garota continuou em silêncio, observando o jovem desacordado.

    Ele não era a maior beldade do mundo, mas também não se considerava feio. Seus cabelos lisos e escuros como a noite pareciam se afundar em sua pele clara.

    Seu corte curto revelava uma cicatriz na sobrancelha direita.

    As pálpebras ocultavam os olhos que um dia exibiram um tom castanho.

    Ao lado da porta da sala, um jovem observava a família desolada com uma expressão triste. Afinal, aquele corpo na maca era dele, ou pelo menos foi um dia.

    Ele ainda tentava contatar a família, mas sem resultado.

    Sentindo-se invisível, ele fez uma última tentativa desesperada.

    “Maldição”

    Levantando a mão para um tapa, ele se aproximou de seu pai.

    Sua mão o atravessou, e com uma sensação ruim, uma lágrima desceu por seu rosto… Seus olhos vazios.

    — Mãe? Pai? Brenda? Isso não é só uma brincadeira, não é?

    Caindo de joelhos, ele gritou olhando para cima, ainda acreditando em um milagre.

    — Maldição, poderia ter pelo menos me deixado despedir.

    Um corpo exatamente igual ao dele estava deitado na cama. Respirava fracamente, sobrevivendo apenas por aparelhos.

    Seu corpo, que um dia foi cheio de vida, hoje perdia o brilho a cada segundo.

    “Certo… ontem eu só fui dormir, por que isso tá acontecendo?”

    A única coisa que ele havia feito de diferente na noite passada era se esquecer de escovar os dentes. Seria aquilo uma punição?

    Lembrando das histórias que ouvia quando criança, o sentimento era agridoce.

    Ele queria acreditar que aquilo era apenas um pesadelo, mas parecia real demais para isso.

    Ninguém o ouvia.

    Ninguém o via.

    Muito menos poderiam sentir seu toque.

    “Eu pareço um fantasma…” Um suspiro pesado saiu de seus lábios.

    O céu de Curitiba estava como sempre, nublado. O sol já tinha saído… Mas o frio continuava, como se entendesse os sentimentos de Miguel

    O clima gélido o fazia estremecer, mas ele já estava acostumado… Era mais um dia comum, afinal.

    — O que eu faço agora? Eu morri? E aquela história de céu e inferno?

    Sua testa se franziu com a ideia de estar preso em algum tipo de purgatório, um arrepio percorreu sua espinha.

    Por quais pecados ele deveria pagar? Ele estava começando a acreditar seriamente que não escovar os dentes era um pecado.

    Ele foi tirado de seu devaneio pela conversa de seus pais.

    A mulher tentava acalmar a garotinha.

    — Filha, vai ficar tudo bem… Apenas tenha fé, Deus resolverá as coisas.

    No entanto, a criança não deu muita atenção para a mulher.

    Ela estava desolada, afinal, seu irmão que sempre esteve junto dela.

    Servindo como uma âncora, como uma inspiração.

    As lembranças de seu irmão levando-a para a escola a fizeram soltar um gemido baixo.

    Ela se lembrava das tardes em que ele a buscava depois das aulas.

    Das discussões bobas sobre desenhos, filmes e jogos.

    Miguel sempre encontrava uma forma de fazê-la rir, mesmo quando estava irritada.

    A ideia de nunca mais ouvir sua voz fazia seu peito doer.

    Ela apertou a barra da própria roupa e abaixou a cabeça para esconder as lágrimas.

    Se aproximando da garota e tentando fazer carinho em seu cabelo, foi só uma tentativa, no entanto.

    Sua mão atravessou a garota, que estremeceu momentaneamente.

    Fechando a mão em um punho, ele estreitou os olhos e tentou reconfortar a irmã.

    — Vai ficar tudo bem, eu vou acordar… — Enquanto olhava para cima e erguia o tom de voz, ele amaldiçoou. — Seja vontade divina ou não! Sou eu quem vai decidir!

    Ninguém respondeu a seu chamado, Deus o ignorou mais uma vez… Não que ele acreditasse nesses contos de fadas.

    Desde criança, ele sempre teve dúvida se acreditava em um ser cujo poder criou tudo, ou na ciência que o fazia acreditar ter um descendente em comum dos macacos.

    Bip – Bip – Bip

    O som da máquina que mostrava seus batimentos era tanto reconfortante quanto esquisito.

    Aquilo o mantinha sabendo que seu corpo ainda respirava, porém era assustador.

    Ignorando o som desolador enquanto se levantava para olhar pela janela.

    A cidade era a mesma… Pessoas caminhavam, carros passavam com pressa. Caminhões carregavam cargas, os donos de loja logo estariam abrindo as portas.

    Havia algo diferente, no entanto. Era impossível descrever em palavras.

    O ar parecia diferente do normal, e a atmosfera carregada. Miguel sentiu um calafrio ao notar um homem de meia-idade atravessando um carro, seus olhos vazios… Como se não tivesse alguém lá.

    Miguel desviou o olhar, um arrepio percorreu sua nuca.

    A situação o deixava confuso, afinal ele não entendia direito como aquilo funcionava. Ele conseguia atravessar pessoas e alguns objetos.

    No entanto, ele ainda não tinha caído para baixo do concreto que fazia de chão.

    Seu olhar distraído se desfez.

    Porque naquele momento, algo o tirou de seu devaneio.

    Piiiiiiip

    O apito do relógio estava avisando que era hora de acordar, eram 8 da manhã. Outra coisa chamou sua atenção, no entanto.

    Era dia 30 de maio de 2026.

    E seguido do apito do relógio, quase em sincronia…

    Knock! Knock!

    Alguém bateu na porta.

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