Ele bufou e gritou olhando para o céu escuro.

    — Eu vou voltar, se alguém tentar me impedir, vai ter que alcançar na corrida!

    Uma risada abafada percorreu pelos ares, ele não esperava respostas. Nunca recebeu afinal, porém, logo agora, uma voz reverberou nos seus ouvidos!

    — Garoto… Eu não tenho mais idade para correr, minhas costas doem! — era uma voz alegre, a de sempre.

    Ele conhecia a voz do bêbado, era Astrador. Ele estava mais uma vez com o ferreiro gigante.

    Ele desviou seu olhar para trás, lá estava, um gigante com uma garrafa de vinho na mão. Ele já não segurava a espada, nem o martelo.

    Seus olhos estavam pacíficos, como se não se importasse.

    Então Miguel entendeu a situação, ele estava jogado no chão, sujo, chorando e falando sozinho.

    “Meu Deus, que vergonha eu passei aqui”

    Ele se levantou rapidamente, enxugando o rosto.

    — Astrador!! Velho amigo! Por que caralhos você só falou agora?

    Astrador soltou uma gargalhada, então ele falou zombando.

    — Não queria estragar seu desabafo, garoto… Me agradeça!

    Ele deu um gole na bebida e continuou.

    — Vejo que mudou suas roupas, ficou legal!

    Miguel olhou para baixo, lembrando do que tinha acontecido. Então perguntou.

    — Aliás, preciso arrancar esse olho desgraçado! Só tá me trazendo problema! — sua voz carregava desdém.

    Astrador balançou a cabeça.

    — Não resolveria, garoto… Ele está alojado na sua alma, seu olho é só pra representá-lo — Astrador pensou por um segundo.

    — Mas… Talvez tenha uma solução!

    Miguel suspirou, se já não bastasse o olho, agora ele sabia que Dália estava em sua mente.

    “Parasita desgraçada!”

    — Como? — Miguel perguntou esperançoso.

    — Bem… É só você achar alguém mais forte pra colocar em seu corpo! Simples, não é?

    Miguel balançou a cabeça em descrença. Lançando um olhar de desdém, ele disse.

    — Só né… Simples, vou achar alguém mais forte que um Anjo caído que vai entrar em mim por pura empatia! — ele soltou uma risada abafada.

    — Sim… Eu já vi isso acontecer algumas vezes…

    Miguel lançou-lhe um olhar desconfiado.

    Percebendo o olhar do garoto, o gigante acrescentou.

    — Bem… Alguns continentes afundaram, algumas estrelas caíram no processo! Coisa básica! — Astrador deu mais um gole na bebida.

    Miguel balançou a cabeça e disse com dó.

    — Você deveria parar de beber velho… Isso já está afetando sua cabeça — ele se sentou no chão molhado.

    Miguel nem se surpreenderia se fosse verdade… Ele mesmo já tinha visto muitas loucuras aqui.

    Astrador balançou a cabeça lentamente. Com uma das mãos, ergueu um tronco colossal, grande o bastante para ser confundido com a coluna de um castelo. A madeira rangia sob o próprio peso.

    Então ele a lançou na fornalha.

    O impacto fez o chão tremer. Uma explosão de fagulhas douradas disparou para o alto como um enxame de estrelas. As chamas rugiram famintas, envolvendo a madeira em um brilho alaranjado.

    Ondas de calor atravessaram o ambiente. As brasas saltavam e dançavam pelos ares, iluminando o rosto do gigante com reflexos vermelhos e dourados.

    Astrador apenas observou o fogo crescer, como se tivesse acabado de jogar um graveto em uma fogueira comum.

    — Já que você está com preguiça de fazer o simples… Vou te ajudar, só dessa vez, no entanto!

    Os olhos de Miguel brilharam, finalmente o ser antigo estava fazendo algo útil.

    — O que exatamente? — ele perguntou esperançoso, nem se importando com a mudança de temperatura.

    — Eu vou entrar na sua mente, e segurar esse Anjo aí.

    Ele falou com tanta normalidade, que Miguel cedeu momentaneamente.

    — Então faça! Por favor!

    Astrador deu-lhe um olhar pretensioso, então caiu em gargalhadas mais uma vez.

    — Você ainda é fraco, nasceu de seis meses garoto? — ele franziu a testa, acrescentado — Se eu fizer isso agora… Você provavelmente morreria!

    Miguel se jogou no chão, era óbvio… Quando a esmola é demais o santo desconfia. Mas agora, ele tinha uma opção pelomenos. Pro futuro, no entanto.

    — Maldição… Então faça o mínimo… Me ajude a lutar com alguma coisa!

    Ele bufou frustrado.

    — Meu poder é uma roleta russa ambulante!

    Astrador pareceu pensativo por um segundo.

    — O que você quer especificamente?

    Miguel pensou então disse sem preocupação.

    — Não sei… Nunca fui de lutar! — sua voz era orgulhosa

    O gigante balançou a cabeça, então colocou o mão no bolso, e pegando com a ponta dos dedos uma espada. Era minúscula perto dele.

    Ele a jogou no ar, caindo ao lado de Miguel. Dava metade de seu corpo. Era uma chokutō, sua lâmina era prateada, seu cabo era negra, ornamentando com algo que parecia ouro puro.

    — O que é isso? — Miguel perguntou atônito.

    — Uma espada garoto, nunca viu uma? — Astrador respondeu sem pirraça.

    — Eu não sei usar isso!

    Astrador riu

    — Pois aprenda! — Ele ficou em silêncio por alguns segundos, antes de continuar.

    — O nome dela é Sol — ele parecia sentimental — cuide bem dela, se não talvez eu precise te transformar em uma espada também!

    Ele riu, Miguel estava com uma expressão esquisita.

    Astrador não esperou uma resposta, ele balançou os dedos, Miguel caiu de costas, seus olhos se fecharam lentamente.

    *****

    Um bar fervilhava em vida desordenada, como se o próprio caos tivesse escolhido aquele lugar para descansar.

    Cerveja espirrava pelos copos levantados em brindes altos demais, derramando-se sobre mesas riscadas por anos de histórias mal contadas. Risadas ecoavam em ondas tortas, misturadas a gritos de aposta e discussões que nunca chegariam a um fim real.

    O cheiro de fumo barato pairava no ar como uma névoa espessa — pesado, agridoce, grudando na garganta e nas roupas de quem ousasse permanecer por tempo demais. Misturava-se ao odor de madeira envelhecida, suor e álcool derramado, criando uma atmosfera quase sufocante, mas estranhamente viva.

    As luzes amareladas tremiam de vez em quando, refletindo nos olhos cansados e nas mesas lotadas, onde vidas inteiras pareciam se resumir a uma noite de bebida e esquecimento.

    Ali dentro, ninguém era só um cliente. Todos eram parte do ruído.

    Uma bela garota estava sentada, não era seu lugar, suas roupas eram limpas, ela não bebia e nem fumava. Apenas conversavam com um velho.

    — Onde está Miguel? Já faz três dias que esse moleque sumiu! — sua voz era preocupada e raivosa.

    Bernabei tragou a fumaça e soltou lentamente antes de respondê-la.

    — Como eu saberia? Talvez ele só tenha encontrado uma bela moça e esteja curtindo! — ele soltou uma risada.

    Aisha corou, batendo a mão na mesa.

    — Ele não faria isso! Ainda mais com meu dinheiro!

    Ela bufou, jogando sua cabeça na mesa.

    — Eu vou atrás dele! Ele não pode estar tão longe.

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