Cap 19 - O passado, o presente e o futuro
Sangue pingou. O carmesim deslizou pela pele de Tai e caiu sobre a pedra abaixo. Uma gota. Depois outra. O chão pareceu florescer em vermelho, como um jardim de pétalas esmagadas. O silêncio tomou conta do salão. O frio desapareceu. No lugar dele veio algo pior. Uma pressão sufocante que tornava cada respiração mais difícil que a anterior.
Os lábios de Tai se curvaram em um sorriso, seu rosto não demonstrava nada além de surpresa. Sorlot, porém,l percebeu algo; os lábios do homem estavam tremendo. Então Tai falou.
— Vejo que ainda consegue me morder… Mesmo depois desse tempo — sua voz era triste e melancólica.
— Eu consigo te matar, não subestime os mais velhos.
Sorlot atacou, tão rápido quanto antes. Ele parecia uma serpente prateada voando pelo salão. Pessoas normais talvez nem mesmo o conseguissem ver.
Tai rolou pelo chão após desacelerar tudo, desviando do golpe por menos de 1 centímetro, ele estava perdendo. Sorlot não era idiota no entanto, ele conhecia o homem há muito tempo para entender que só havia começado.
Ele já estava sentindo, estava cada vez mais lento. Mais pesado.
Seu An estava lentamente se dissipando pelo ar. Alguém ficaria triste, com raiva, desesperado talvez.
Mas não Sorlot, ele sabia… Era apenas mais uma luta afinal.
— Moleque! Vai fugir por quanto tempo? — sua voz era calma e zombeteira, ele soltou um riso assassino.
Tai não caiu em sua graça, então o tempo desacelerou mais uma vez. Seu dedo estava apontado na direção da espada. Só então ele falou.
— Me matar? Não seja presunçoso.
Uma luz azulada surgiu na ponta de seu indicador, se transformando em uma pequena chama. Ela dançava com alegria, havia uma pitada de tristeza nela… E também de fome. Era intensamente lindo, até demais.
Sorlot sabia o que era aquilo. Sabia que aquela chama havia nascido do amor… e terminado em ruínas.
“Chama do Arauto? Tentador”
O brilho azul refletiu na lâmina de Sorlot, fazia séculos desde a última vez que ele vira aquela chama. Séculos… e ainda assim a lembrança continuava viva.
Aquela era a Chama do Arauto, havia uma fábula interessante sobre ela. Os pais costumavam contar para seus filhos, assim passando por gerações.
Uma mortal tão linda que poderia ser confundida com uma deusa, um príncipe se apaixou por ela. Eles se conheceram, namoraram, festaram, casaram até mesmo tiveram filhos.
Era a família perfeita, porém em uma noite chuvosa, a pobre garota adoeceu. Não era uma doença tratável no entanto… Ela havia sido pega pela peste Matiga.
O príncipe agora era um rei, ele estava desolado com a situação, ele não queria ver sua amada morrer. Ele faria de tudo para salvá-la, esse no entanto foi sua maldição.
Ele procurou ajuda proibida, e foi para um lugar que até mesmo os Deuses temiam. Lá um ser profano lhe estendeu a mão. Ele o fez uma proposta.
— Salvarei sua amada, em troca me entregue seu reino!
O rei não pigarreou, ele mesmo atracaria o reino em ruínas sombrias sem sua amada. Então, decidiu deixar para o ser comandar.
No mesmo dia, uma notícia percorreu as ruas.
“A rainha está viva!“
“saúdem os deuses!“
Nem mesmo um segundo se passou, o chão se quebrou em chamas azuis, as quais nem mesmo água poderia apagar. Idosos, homens, mulheres, crianças… Todos foram consumidos, se tornando cinzas.
Após descobrir isso, o rei não aguentou tal situação. Ele matou sua amada e seus filhos, antes de se suicidar, ele se ajoelhou no carmesim e disse encarando o chão.
— Maldito! Por que você matou tanta gente?
Não houve uma resposta no entanto, o ser lhe deu uma escolha, ele escolheu.
Ninguém ousava duvidar dessa lenda antiga, afinal, os destroços do antigo reino ainda queimavam, em algum lugar do deserto sombrio. O tempo não apagou a chama, os ossos do rei e da rainha ainda estavam no castelo, o fogo nunca os alcançou.
A chama voou do dedo de Tai, Sorlot conseguiu desviar a tempo.
Então ele sentiu uma dor aguda, a chama atingiu a ponta de sua lâmina. No mesmo instante que o ataque chegou à parede, sem nenhum som, tudo esquentou. O frio se tornou um calor escaldante.
As paredes e o sangue se tornaram azulados pela luz da chama.
Tai vacilou lambendo a ponta do indicador, Sorlot sabia o motivo. Nada vem de graça afinal, era um ataque poderoso… E imprudente. Tai havia caído na tentação das brincadeiras da espada. Ele havia cedido, e aquilo seria sua ruína.
Ele cometeu o mesmo erro do rei.
Sorlot ignorou a dor e avançou em uma velocidade arrasadora, dessa vez ele não foi em direção de Tai, girando em volta do homem.
Era necessário mudar de estratégia, ele já tinha uma ideia. Girando como um furacão, pedras se levantavam com o vento, o resto da porta se juntou a elas.
Mesmo em torno disso, a chama não se moveu ou se espalhou, ela dançava como uma garota em um festival.
A lâmina de Sorlot brilhou fracamente, runas foram reveladas na prata polida. A escritura era simples, não era formal. Como uma carta para um querido distante.
‘Meu bem, Querido bem.’
‘Se eu pudesse, te transformaria em mil, apenas para ter seu amor multiplicado.’
O brilho se intensificou, fazendo o redemoinho prata se tornar branco.
Tai tremeu, ele tentou fugir, porém não havia como. Ele estava enjaulado, o fato de o tempo estar desacelerado não fazia efeito no redemoinho. Talvez se não estivesse, ele já estaria morto.
— Maldição!
Sorlot não respondeu, então tudo parou. Sorlot, o vento até mesmo a chama intocável. O furacão havia se tornado mil Sorlots.
Mil espadas estavam apontadas para Tai.
Então uma voz ecoou o salão.
— Fala agora garoto!
Outra voz riu em desdém.
— Você achou que conseguiria?
Uma voz soou calma e paternal.
— Preciso voltar para meus filhos, não tome meu tempo.
Outra soou fina e alegre.
— Preciso comer o bolo que a mamãe fez! Depois a gente brinca mais!
A outra soou antiga e cansada.
— Oh, eu não tenho a mesma energia de antes… Pare de me atrasar.
Todas avançaram, em uma sincronia cruel. Tai não era lento, ele desviou da primeira.
Então da segunda.
A terceira precisou de um esforço cruel.
Na quarta, um corte apareceu em suas costas, mais sangue jorrou. Uma espada alcançou seus ouvidos, falando.
— Nana neném, que a noite vai chegar.
Ele desviou de mais uma dúzia delas, então outra sussurrou à sua direita.
— Fecha os olhinhos, que a lua surgirá.
Ignorando a canção, com uma mão ele pegou uma espada pela lâmina, a lâmina se quebrou em um estrondo ensurdecedor, sua mão sangrava.
Um gemido abafado foi soltado pelas outras espadas. No mesmo instante, um corte surgiu em sua perna.
Ele cedeu, ficando de joelhos. As espadas pararam.
Ele estava lastimável, cortado em todos os lugares, coberto por sangue, um tufo de cabelo estava faltando.
Um de seus olhos estava meio fechado.
— Então garotinho? Aprendeu a lição? — a voz de Sorlot era puro desdém.
— Eu tive meus motivos — sua voz era calma, ele soltou um suspiro cansado.
Uma espada perguntou.
— Quais?
Outra.
— Ego?
Outra.
— Fama?
Então outra.
— Vingança?
Ele não respondeu no entanto.
— Sabe de uma coisa Sorlot?
Todas as espadas gritaram em uníssono.
— O que?
Um sorriso se curvou em seu rosto.
— Você não terá outra chance de me matar.
Então, o mundo parou. Não desacelerou, parou.
E quando voltou ao normal, a chama havia desaparecido. Tai também.
Ele não deixou nem um rastro, Sorlot suspirou.
— Filha da puta!
No mesmo instante, todas as espadas se tornaram uma lentamente.

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